Quando os Cães Envelhecem


Aleph (em primeiro plano) e Latifa, ainda jovens e vigorosos




Bem cedo na manhã de domingo, desperto com um uivo profundo e melancólico. 

Eu nunca tinha escutado a Latifa- minha cadela Rottweiler que completará 9 anos em abril - uivar daquele jeito. Desci as escadas correndo, e fui ver o que estava acontecendo com ela. Parecia calma e serena, arfando alegremente em seu colchãozinho, deitada à porta da sala, na varanda. Só queria atenção, e assim que me aproximei, ficou de barriga para cima, a fim de ganhar massagens. Ela agora não quer mais ficar no canil, e ultimamente, nem mesmo na adega, cuja porta deixamos sempre aberta para que ela entre e saia quando quiser. Deseja ficar onde se sente mais perto de nós.
Latifa hoje

Lembro-me da cadela hiper-ativa, cheia de marra e de vida, que me fez perder a cabeça várias vezes há alguns anos, quando arrancava e devorava, sem a menor cerimônia e sem importar-se com os espinhos, todas as minhas nove mudas de roseiras que eu plantara com as minhas próprias mãos. Cavava buracos imensos no jardim, arrancava a grama com o focinho, roía os pés dos móveis, vinha correndo e nos dava encontrões que quase nos derrubavam. Era energia demais!

Agora, está uma senhora quase idosa, lenta, e quando me olha, vejo dentro dos olhos dela uma paciência e sabedoria que eu não via antes; parece complacente. Quando tento brincar com ela usando os brinquedos, ela se agarra a eles, rosnando, mas logo os solta - ela, que nunca perdia uma 'boa briga' de cabo-de-guerra. Os passeios noturnos tem que ser curtos, pois se os prolongamos, ela acorda de manhã com dores nas juntas das patas. É a idade chegando.


Latifa há um ano



Às vezes, quando estou dando aulas, olho para fora e a vejo deitada sob a janela da sala de aula, e quando me vê, parece sorrir por alguns instantes. Quer ficar sempre o mais perto de mim que puder!  Alguns dias, quando é 'dia de princesa ' (véspera de faxina na casa) eu a deixo circular pela casa, indo aonde quiser. Ela geralmente escolhe um cantinho, deita-se e dorme a tarde toda.

Latifa só come se tiver alguém sentado ao lado dela; caso contrário, mesmo que haja na comida os seus petiscos preferidos - carne moída, salsicha picadinha, biscoitos de cachorro- ela não come. Se deixamos a comida quando vamos sair, ao voltarmos, o recipiente encontra-se intocado. Nos sentamos perto dela, e ela começa a comer com apetite, parando para nos olhar de vez em quando.

Anda chorosa e saudosa. Dia desses, coloquei-a na cozinha comigo e liguei o CD. Enquanto cozinhava e cantarolava, ela ficava no cantinho da porta me olhando. Distraí-me, e quando dei por mim... cadê a Latifa? Fui encontrá-la na área de serviço, cabeça apoiada na cerca de madeira, olhar distante e tristonho. Será que pensava no Aleph, nosso cão que morreu há dois anos? Será que os cães tem essa memória, essa saudade? Sentei-me perto dela: "O que foi, Titifa?" Ela me olhou, soltando alguns grunhidos. E por mais que eu insistisse para que ela voltasse para dentro comigo, ela ficou lá, na mesma posição e atitude.

Latifa há dois anos
Os cães, quando jovens, tem a energia de um furacão. Correm pela casa, destruindo tudo o que lhes cai entre as patas e a boca, latem, brincam, fazem a maior bagunça. Parecem máquinas de brincar! Os cães mais velhos são os companheiros ideais: calmos, doces, atenciosos, pacientes, compreensivos. E é justamente quando eles ficam mais velhos, que notamos o quanto eles foram criando, através dos anos, traços marcantes de personalidade. 

Pena que isto só acontece quando já está quase na hora de eles nos deixarem.


Comentários

  1. Ai que dó, quase chorei aqui viu?!

    Que fofa sua Latifa, sua amiga mais fiel, pode crer, Ana! Dê mesmo toda atenção e carinho porque um dia essas coisinhas queridas nos deixam...

    Lembrei-me da minha cachorrinha quando me casei. Ela ficou com meus pais e já tinha lá seus 13 14 anos. Mas a bichinha ficou numa tristeza que só. Não comia direito, não brincava mais... Só ficava feliz quando eu chegava lá e matávamos a saudade uma da outra.

    Depois que minha filhota nasceu, ela sentiu mais ainda e passaram-se dois anos, foi constatado um câncer nela... Ai que sofrimento o meu. Ela teve que ser sacrificada.
    Chorei duas senanas... Coisa triste, amiga!

    Depois eu disse a mim mesma que nunca mais teria animal de estimação. Mas em 2008 , minha filha me deu um acalopsita, o John Boy - meu xodó, meu companheiro, meu amorzinho... As vezes fico pensando quando ele se for...

    Adorei a blogada
    bacio bella

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  2. Olá Ana,

    Seu texto chegou a me comover. De certa forma, esta fase mais velha dos cães assemelha-se à nossa maturidade, né?
    Meu marido também tem cães em nosso chalé (novos e mais velhos). Eles sentem quando ele está chegando e começam a latir desesperadamente. Onde ele vai eles vão atrás e sentam-se ao seu lado. É incrível a amizade e lealdade dos cães.
    Fiquei com pesar pela Latifa, que já está perdendo sua agilidade e suas forças. Sei que você deve sentir muito por vê-la assim, mas é a lei da natureza.

    Beijo.

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  3. Nossa, que emoção... Ah Ana, estes seres são tão repletos de amor... Nossa, imagino a tua dor ao ve-la assim, pois tbm estou passando pelo mesmo com a minha pastora, dez anos e meio com a gente, ela foi adotada da rua, quase morta, e nos deu tanta vida nesse tempo todo... Hoje, ela só implica com a lagartixa da minha filha (uma lagartixa escolheu minha filha como dona, e é um amor, rs...) A LayKa resmunga mas logo aceita a presença desta nova amiga... rs... Me emocionei te lendo. Dias de muita tranquilidade pra Latifa... Um beijo em teu coração, fica com Deus... Lu

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  4. Os cachorros são assim mesmo, maravilhosa companhia e mantém conosco um incrível "vínculo emocional". Abs

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