terça-feira, 24 de abril de 2018

SENTENÇA






Sentença: a frase pronta
Acusação ou afronta
Condenação declarada
À porta de um castelo
Onde o reino edificado
É passagem temporária.

A foice sobre a cabeça
Desde o primeiro choro,
Do nascimento à morte
Do plantio à colheita
Quase sempre ignorada,
A espera do tal corte.

Sentença sub-entendida,
Insinuada, incompreendida,
Declarada na batida
Do derradeiro martelo.

Tanto medo ela desperta,
Dorme em uma tumba aberta,
Que há de guardar o que resta
À queda do cutelo.




Tristeza







TRISTEZA



Ah, que pena daquele pássaro engaiolado,

Sozinho, na casa escura e fechada!

Às vezes, se alguém se lembra,

Trocam a comida e a água; mais nada!

Ele pula entre dois poleiros,

Que resumem seu mundo inteiro,

Sem brilho de sol, sem vento,

Sem asas!

No seu mundo, não há céu, 

Não há outros passarinhos,

Nem sonhos de liberdade,

Pois há muito, ele se esqueceu

Desta palavra...



Ah, que pena daquele pássaro sozinho,

Vendo o mundo multipartido

Através das grades de alumínio

Que encerram-no em seu pobre domínio!

Será que ele se lembra

Do que significa

Ver o mundo amanhecer

Entre as rendas das plantas frondosas?

Será que ele se recorda da sensação

De pular entre os galhos das árvores limosas?



Ah, que pena do passarinho triste,

Naquele canto escurecido, entre as vassouras,

Alimentando-se de um alpiste seco, sem gosto,

Engolindo o pequeno desgosto

De poder morrer, a qualquer hora,

E como qualquer tipo de bicho,

Ser esquecido, jogado no lixo!



Se eu pudesse, passarinho,

Eu juro que te soltaria!

E ficaria olhando, enquanto você voaria, sozinho

Ao encontro da vida que mereces, e que é a tua verdadeira,

Uma vida cheia de vento, de árvores, flores, galhos,

E chuva, e sol, e cantos, e outros pássaros, e ninhos 

No alto das cumeeiras!



Queria teu canto livre,

Não um canto engaiolado, 

Por um pobre coitado

Que pensa que é de alegria

Aquele morrer aos poucos

Que escuta todos os dias!












quarta-feira, 18 de abril de 2018

INFIDELIDADE






Tenho lido muitos textos e artigos sobre infidelidade na internet; em especial um do New York Times no qual “A Outra” faz um relato sobre como ela começou a sair com homens casados (estava recém-divorciada e não queria compromissos, e então achou que seria melhor sair com homens casados que, segundo ela mesma, não ‘grudariam’ nela). Traição não é uma palavra bonita. Ninguém gosta dela: nem os traidores, nem os traídos. Dei minhas opiniões sobre o assunto, e li centenas de outras, contra ou a favor da infidelidade; ambos os lados apresentavam seus argumentos, e alguns dos que me marcaram mais foram:

-A Favor:
-Os tempos mudaram, e casamentos monogâmicos não perduram;
-O homem é um animal poligâmico, e toda tentativa de monogamia será uma farsa e uma frustração;
- Casos pontuais ajudam a manter o casamento (Nota minha: pelo menos, enquanto quem está sendo traído não ficar sabendo de nada);
-A poligamia é liberdade de escolha, ninguém é dono de ninguém (porém os que afirmam isso, os que traem, não gostariam de saber que estão sendo traídos).

Contra:
-As doenças sexualmente transmissíveis proliferam entre os poligâmicos;
-Todo tipo de relacionamento em que um dos cônjuges trai o outro – sendo que trair significa fazer sexo com outra pessoa sem o consentimento e o conhecimento do outro – torna-se doloroso demais para quem está sendo traído;
-Antes de trair, o cônjuge insatisfeito deveria conversar com o seu par, colocar os pingos nos ‘is’ e tentar salvar o relacionamento, ou então, separar-se.
-Ninguém é feliz mentindo e enganando. Assim como ninguém é feliz ao descobrir que está sendo enganado.
-Há que se pensar nos filhos e respeitar a família, honrando o compromisso assumido com o cônjuge.

E eu concordo. Com todos os argumentos acima. Acho que a poligamia pode acontecer quando ambas as partes conversaram e concordaram com ela, não havendo, neste caso, traição. Porém, não acredito na longevidade e na profundeza de relacionamentos poligâmicos. Ninguém gosta de se sentir a bolacha quebrada do pacote, e entre três pessoas, uma delas sempre receberá menos. 
Eu sou monogâmica, e não me casaria com alguém que se proclamasse o contrário. Consideraria traição caso eu ficasse sabendo que meu cônjuge sai com outras mulheres. Com certeza, eu ficaria furiosa, indignada e com a cabeça e a vivência que eu tenho hoje, eu não levaria o relacionamento adiante. 

Nos comentários do artigo do New York Times, fiquei estupefata com o número de mulheres feministas que proclamavam que, quando uma traição acontece, a culpa é única e exclusivamente do homem, e que a ‘outra’ não tem culpa nenhuma e é tão ‘vítima’ quanto a esposa. Gente, onde isso é feminismo? Como alguém pode afirmar-se feminista, quando se mete em um relacionamento como o terceiro membro, disputando um homem com outra mulher e desrespeitando-a? Que caráter existe em uma pessoa, homem ou mulher, que mesmo sabendo que um casal está vivendo juntos, dormindo na mesma cama, e às vezes, com filhos pequenos, se mete no meio de um relacionamento?

“Ah, mas quando a traição acontece, é porque o relacionamento acabou!” Não posso concordar com isso. Conheci uma mulher cujo passatempo era insinuar-se sobre homens casados, e assim que ela conseguia separar o casal, dava o fora nele. O velho protótipo de destruidora de lares. Existem pessoas que gostam de testar as outras; elas querem provar a si mesmas que podem, que conseguem. Algumas até apostam com os amigos que vão conseguir ‘dormir’ com fulano (a) ou sicrano (a).  Tem gente de todo tipo nesse mundo...

Já vi acontecer casos nos quais a mulher, em busca de estabilidade financeira, investiu tanto em um homem casado, que ele acabou cedendo. É mais fácil começar um relacionamento onde o outro já tem uma vida financeira estabilizada – casa, carro, dinheiro no banco e um bom emprego – do que começar do zero. Mesmo que tenha que dividir com a ex. 

É claro que existem boas desculpas (eu disse desculpas, não motivos) para justificar uma traição: Ela não é mais a mesma, engordou, ‘embarangou.’ Ele (a) não me satisfaz na cama. Eu fui traído (a) e estou me vingando. Eu me apaixonei, não pude evitar. Foi só um caso sem importância, não significou nada. Eu não pretendia ferir você, jamais achei que fosse descobrir. Não aguentei mais a rotina. Eu estava em um momento difícil, passando por uma crise.

Mas não acho que nenhuma das explicações acima é verdadeira. O que acontece, é que tem gente que não nasceu para o casamento. Deveriam permanecer solteiros e transar à vontade por aí; seriam muito mais felizes, não estragariam suas vidas e nem a vida de mais ninguém. 

Há os que se dizem sexualmente compulsivos; antes de se comprometerem com alguém, deveriam procurar tratamento. E há – a grande maioria – os que não valem nada mesmo. Não prestam, são fracos e não merecem ter um relacionamento com alguém bacana. 




Generosidade








Alguns pensam que ser generoso significa dedicar todo o seu tempo ou dinheiro às outras pessoas, ou à alguma causa. Tenho admiração pelas pessoas que, sinceramente, e sem interesses próprios, fazem isso, embora eu não seja uma delas e não tenha nenhuma inclinação para ser. Eu creio que a maior missão de cada um, é fazer o melhor por si mesmo e pelas pessoas próximas, e se todos fizessem isso, bastaria para que a vida de todos fosse bem melhor.

Mas existem sempre os pequenos gestos que denotam um grande coração. Este canteirinho da foto é um deles.

Há alguns dias, eu vinha notando que o mato em volta do riacho que passa na rua próxima à minha casa, estava aos poucos sendo substituído por algumas plantinhas. A cada dia, havia menos mato e mais plantinhas. Pensei em quem poderia estar dedicando tempo e carinho àquele pedacinho de rua abandonado. Um dia, enquanto esperava o ônibus, vi o portão de uma casa se abrir, e um jovem munido de uma plantinha e uma pazinha atravessou a rua e colocou-a lá, no canteirinho.

Compreendi que ele era jardineiro e trabalhava na casa em frente àquela calçada, e que possivelmente aquelas plantinhas deveriam ser sobras do jardim. Não falei com ele, pois sou meio-tímida nessas situações, mas um dia meu marido o viu, e elogiou o jardim e o trabalho dele. Ele sorriu e agradeceu, dizendo: "Que bom que você gostou!"




Acredito que tal rapaz não ganhe um tostão para fazer o que faz. Poderia ter menos trabalho se simplesmente jogasse as sobras de plantas no lixo, como fazem a maioria dos jardineiros que vejo por aqui. Às vezes, eu vou lá aonde eles jogam as plantas e  recolho algumas, plantando-as em meus canteiros. 

Acho que o conceito 'generosidade' passa por aí: fazer alguma coisa bonita ou útil sem ganhar nada por isso, e sem propaganda. Acho que quando alguém faz alguma coisa boa e alardeia sobre isso, não é generoso, e sim orgulhoso. Eu o vi por acaso; eu estava ali na hora que ele saiu da casa. Ele me cumprimentou com um aceno de cabeça, plantou a flor e voltou para dentro da casa, como se aquilo não fosse nada.

Sempre pensei que o caminho para o que todos chamam de 'mundo melhor' passa pelas nossas próprias calçadas. É preciso que as mantenhamos limpas e desobstruídas; é preciso que não joguemos lixo nas ruas, não arranquemos as plantas dos jardins públicos e nem emporcalhemos paredes e monumentos; é preciso que, ao ouvirmos música, respeitemos o direito do nosso vizinho de não partilhar o nosso gosto musical e não ser obrigado a ouvir também. Isso se chama respeito, e quando respeitamos as regras, já estamos fazendo alguma coisa em não perturbar.

Mas plantar um jardinzinho em via pública, alimentar um cão de rua, pagar um almoço para alguém que está com fome, doar roupas para quem está com frio, escutar alguém que precisa de um amigo, dar uma informação para quem está perdido, entre tantas outras coisas, são gestos de generosidade.

Palmas para ele.



sábado, 14 de abril de 2018

Com o Tempo









Com o tempo, a gente aprende
A regular a intensidade das passadas
Conforme a necessidade se apresente,
E a escolher as melhores calçadas.

A gente aprende a escutar nossos silêncios,
A abrandar ansiedades,
A definir prioridades,
E sublimar saudades.

Com o tempo, a gente vê que vale a pena
Parir a si, mesmo que sem anestesias,
Ou se a criança, cuja face iluminada,
Esteja marcada, ou seja temporã;

Mais do que tudo, com o tempo, 
A gente aprende a ver a make exagerada,
A intenção malsã, mal-disfarçada
Na cara fake de Peter Pan.





quinta-feira, 12 de abril de 2018

Conselho









Existem flores
Que não são para ti.
Seus perfumes envenenam,
E seus espinhos
São bem mais numerosos 
Que suas pétalas.

Existem jardins, cheios dessas flores
Venenosas,
Escondidas entre pretensas rosas,
São flores carnívoras, viscosas
Flores de linda aparência.

Existem canteiros atraentes,
Onde afoitas abelhas, num voo distraído,
Pousam, e para sempre, nesse voo incauto,
Se perdem e se prendem.

Mas tu não és flor, não estás plantada,
Podes bem caminhar assim, resoluta,
Para fora dessas pequenas desgraças,
Indo até o  portão, ganhando as  praças,
Encontrando mais luz em novas ruas.





terça-feira, 10 de abril de 2018

Sobre a Maldade Humana








As pessoas reclamam do clima pesado que exerce pressão sobre o país; falam mal de políticos corruptos, enquanto lamentam e se arrastam sobre o solo lamacento dessa Geena na qual vivem, apontando este ou aquele, criando bodes expiatórios para os pecados (seus) e do mundo, sem nem sequer atentarem ao que elas próprias andam fazendo.

As pessoas santificam a si próprias, ao ponto de chamarem a si mesmas de ‘espíritos iluminados’ ou ‘seres de luz’, enquanto criam grupos e compartilham nas redes sociais vídeos de crianças sendo maltratadas, animais sendo torturados e, pasmem, páginas de magia negra com ‘feitiços’ ensinando a separar casais, fazer amarrações e destruir a vida alheia. E elas nos adicionam a estas páginas sem a nossa permissão, e tais páginas têm muitos seguidores (a maioria, lamentavelmente, de mulheres).

Ao ver coisas assim, eu fico me perguntando o que essas pessoas acham de si mesmas. Será que elas não enxergam que estão contribuindo para que o mal se espalhe no mundo e triunfe entre as pessoas? Não entendem que estão sendo usadas como canalizadoras deste mal, contribuindo com a infelicidade não apenas do seu próximo, mas delas próprias?

Acho um absurdo essas pessoas que se prestam a esses papéis, enquanto reclamam que suas vidas estão indo mal. E a mais absurda de todas as coisas, é que elas pensam que tentando destruir a vida alheia, serão felizes e triunfarão. Passam horas preciosas de seus dias conjurando ‘feitiços’ para fazer pessoas perderem seus empregos, se separarem de seus cônjuges, adoecerem e até morrerem. Sequer conhecem o verdadeiro princípio da magia, que segundo Eliphas Levy afirmava, consiste neste pensamento: “Aquilo que você abraça no oculto o abraça de volta.”

AQUILO QUE VOCÊ ABRAÇA NO OCULTO O ABRAÇA DE VOLTA.

Eu sinto um enorme desprezo por essas pessoas. Apenas a passagem acidental delas pelas nossas vidas deixa um cheiro nauseabundo de maldade e sintomas físicos como cansaço e dores de cabeça. Mas suas ações deixam nelas mesmas um carma ruim que terão que pagar mais cedo ou mais tarde.

Se eu pudesse dar um conselho a tais pessoas, ele seria: aproveitem seu tempo para fazerem por si mesmas algo de bom e edificante; estudem, façam um curso profissionalizante, elevem sua auto estima, tentem se alegrar pela felicidade alheia desejando o bem ao seu próximo, ao invés de acharem que têm direito à felicidade roubando-a daqueles que são felizes. Descubram seus dons verdadeiros, seu caminho verdadeiro, e o amor as alcançará, um amor verdadeiro e duradouro que é seu por direito, e assim nunca mais precisarão sentir inveja de ninguém.

Se tais ‘feitiços’ realmente têm poder sobre quem vocês os jogam, eu não sei dizer, mas com certeza eles exercem um enorme poder sobre a infelicidade de vocês, contribuindo para que levem essa vida pequena, triste e cheia de frustrações.




SENTENÇA

Sentença: a frase pronta Acusação ou afronta Condenação declarada À porta de um castelo Onde o reino edificado É passag...