quinta-feira, 17 de agosto de 2017

REFLEXÃO








Já muito andei sem enxergar, sem ver,
O que me fez e me desfez, a fome...
"Ana" é o nome que alguém me deu,
Mas eu não sei meu verdadeiro nome.

Caí no mundo sem querer, talvez,
E abri os olhos numa noite insone...
-Fruto do sonho de alguém que me fez,
Ou “Pesadelo” é o meu codinome?

Ando na vida sem qualquer paixão,
Nada me prende, eu vejo a dor passar
Do mesmo jeito que passa a ilusão
Em direção ao inevitável mar.

Acolho as flores e também a lama,
Estendo as mãos ao céu e ao inferno
Ando entre o nada e o sempiterno
Sem pretensões de vislumbrar o Brama.

Passa minha vida, e passa o que eu sou
O que me trouxe é o que vai me matar
Tenho o  que amei e o que odiei também
Entrelaçados em meu DNA.





segunda-feira, 14 de agosto de 2017

COMO MANTER A CALMA???







Eu estou na santa paz do meu lar, tentando meditar a fim de tornar-me uma pessoa melhor, quando o telefone toca. É um daqueles números enormes de localidades que ficam do outro lado do país; já tentei ignorar, mas quando o faço, eles insistem até você ter um ataque de nervos. Tente dar aulas com o telefone berrando dentro de casa. Respiro fundo, e atendo. Dá-se o seguinte diálogo:

Eu, com voz de animal predador que ainda não almoçou:  - Alô.

Ela, com um sotaque característico de alguns operadores de telemarketing – aliás, acho que eles estão criando um novo dialeto que consiste na repetição compulsiva das palavras senhor / senhora e no uso exagerado do gerúndio (não estou dizendo que todos os operadores de telemarketing são assim, mas esta que me liga, é):  -Bom dia / boa tarde, senhora. Gostaria de estar falando com a senhora Alessandra?

Eu, tentando manter a calma: -  Não tem ninguém aqui com esse nome.

Ela, após alguns segundos de silêncio:-  Não, senhora?

Eu: - Não.

Ela: -  Mas ela deixou este número, senhora.

Eu, já começando a perder o controle: - Não tenho nada com isso. Aqui não mora nenhuma Alessandra.

Ela, insistindo veementemente: - Tem certeza, senhora?

Eu, já começando a ter as minhas dúvidas, afinal, quem sabe eu não esteja morando na casa errada, ou meu marido esteja escondendo uma amante no sótão? Tento não pensar nestas possibilidades, ou em Alzheimer precoce, e respondo: - Tenho. Esta casa é minha e aqui não mora nenhuma Alessandra.

Ela: - E a senhora não conhece nenhuma Alessandra?

Eu, admirada com a insistência dela, e já sentindo o rosto ficar vermelho:-  Não.

Ela, perdendo a noção do perigo: - Tem certeza, senhora?

Eu, já quase berrando: - Tenho, tenho certeza sim! A não ser que a Alessandra em questão seja um dos lados da minha personalidade psicótica multifacetada!
Silêncio do outro lado. Ela tapa o bocal, e ouço vozes como se ela conversasse com alguém, até que ela diz: - Não compreendi, senhora. Poderia repetir?

Eu, já começando a ficar trêmula e precisando de água com açúcar: - Não. Esquece. Também não vou soletrar, porque pelo jeito, não vai adiantar muito. 

Mas se quiser, deixe seu endereço e eu mando o desenho: “Aqui não tem nenhuma Alessandra!”

Ela ri, e responde: - Obrigada pela atenção, senhora, e tenha uma boa tarde, senhora. Vou estar ligando de novo amanhã.

Eu: - *&¨%$#@)(*&¨%$!!!!

Você pode estar pensando que eu sou mal-educada. Talvez eu seja. Agora, imagine receber telefonemas assim umas três, quatro vezes durante a semana.





sábado, 12 de agosto de 2017

Eu, Por Mim









Eu não minto a minha idade,
No entanto, pinto o cabelo.
Digo quase sempre a verdade,
E às vezes, me calo - por zelo.
Acho que a rima do poema
Pode ser pobre, porém
Que o poema seja rico
Pois só assim me convém.

Não finjo espiritualidade,
Nem sei no que acredito...
Mas sinto que existe um quesito
Que dá ordem ao universo;
Tento captá-lo em um verso,
Mas ele sempre me escapa!
Acredito, é a própria vida,
Mas a vida também mata.

Lá fora, sou muito calada,
Mas assaz espetaculosa
Se dentro da minha casa.
Aqui, eu rodo a baiana,
Lá fora, eu saio de cena
Se eu sinto que não vale a pena;
Economizo energias
Para gastar com alegria.

Não gosto de perfeição,
Abomino as linhas retas...
Talvez, por essa razão,
Eu tenha nascido poeta.
Minha casa é meio-Frida,
Calo as bocas, e derramo
As cores que eu mesma escolho
Por achar serem bonitas.

Eu sou fã de shopping center,
Adoro o conforto e a beleza.
Amo gastar o que eu ganho
E andar pela cidade...
Mas aqui, perto do mato,
De encontro à natureza
É que me bate a certeza
Que a paz é simplicidade.

Às vezes, penso demais
Não sou muito de falar...
Mas eu adoro escrever
Aquilo que a vida me dita.
Minha letra se transforma
Em tudo que eu quero dizer.
Nem todo mundo aprecia,
Mas não paro de escrever.

Não tenho medo da morte,
Mas não amo envelhecer...
Viver muito não é o mesmo
Que aprender a viver.
Se a minha hora chegar,
Quero ir sem qualquer culpa,
Sabendo que lutei minha luta,
Tentei sempre melhorar.






quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Eu Poderia Sim








Eu poderia sim, te amar,
Me aconchegar na curva calma do teu braço,
Deitar, feliz, minha cabeça em teu regaço,
Ficar aqui, deixar de lado um outro passo.

Eu poderia, sim, te amar,
E me entregar ao doce sopro de um momento,
Deixando ir todos os medos, com o vento,
Deixar fluir todo o encanto do momento.

Eu poderia sim, te amar,
E me esquecer, mais uma vez, das mil promessas
Que eu deixei no travesseiro, ao partir,
E não temer, se o chão ceder e se abrir
Mais uma vez, e como sempre, me tragar.






sexta-feira, 4 de agosto de 2017

MELODIA INTERROMPIDA









A música parou no ar
E o silêncio deu voz ao bater das asas dos pássaros
(Ou seriam as asas dos anjos?)

Uma melodia começou a tocar, bem baixinho,
E uma alma seguiu seu rastro:
“Pérola negra, te amo, te amo...”





Imagine...






Hoje o Spotify me veio com a sugestão de uma playlist: "As Músicas Mais Lindas do mundo." Entre elas - todas muito lindas - de repente começou a tocar "Imagine." Sempre amei esta canção, embora ela hoje ela tenha sido tocada tantas vezes, que alguns a considerem "batida demais."

E John Lennon nos pedia que imaginássemos um mundo ideal, sem religiões, sem fronteiras, com todos vivendo em paz. E ele mesmo morreu vítima da violência de alguém que o admirava (e talvez também o invejasse), talvez para lembrar ao mundo que a perfeição não é daqui. Somos seres tão imperfeitos, que caminhar sobre uma terra de perfeição seria, no mínimo, um absurdo. Ainda temos muito o que caminhar, tropeçar, cair de cara, e mesmo assim, talvez a humanidade nunca chegue lá.

Mesmo assim, eu tento colher no dia a dia tudo o que eu posso para tornar a vida mais bonita. E acho que todo mundo pode fazer isso. 

Mas de que adianta, reclamar dos políticos, do "golpe", da desigualdade social, da corrupção, e continuar agindo de maneira a alimentar tudo isso em volta de nós? O que eu vejo quando olho as postagens no Facebook e nas demais redes sociais, são pessoas que reclamam de tudo, mas não fazem um esforço, por menor que seja, a fim de melhorarem a si próprias. Assim, a canção de John Lennon - que também nunca foi perfeito, basta ler a biografia dele para saber - fica cada vez mais distante da realidade. Acho que foi uma canção marco. Porque ela foi gravada e lançada no exato momento em que as pessoas começaram a perder a humanidade de forma mais acelerada.

Os hippies dos anos 60 falavam de paz & amor, mas se drogavam e jogavam bombas em policiais, matando, sequestrando e roubando, e não professavam aquilo no qual diziam acreditar. Políticos que deveriam zelar pelo bem estar do povo, bem, melhor nem comentar... 

É muita falsidade. Talvez por isso o nome da canção seja "Imagine." Porque no reino da imaginação, tudo é possível, até mesmo a paz mundial e a justiça social entre povos belicosos, interesseiros, egoístas e falsos.




terça-feira, 1 de agosto de 2017

Folhas Secas







Existe uma palavra
Cuja pronúncia faz desabar pontes,
E um sopro de pensamento que a contenha
Fecha todas as janelas,
Tranca todas as portas.

Existe uma palavra morta,
As mãos cruzadas sobre um peito vazio,
Uma palavra que morreu de frio
E fica de cócoras, à beira do caminho,
A assombrar qualquer pessoa
Que tentar chegar.

Existe uma palavra azeda, maldita,
Que vem de um sentimento mortal
Para qualquer relação,
Uma palavra que faz brotar o mofo
Dentro de cada coração.

Não ouso dizê-la – sequer penso nela,
Que esta palavra fique trancada lá fora,
E que jamais chegue a mim
O bafo fétido do seu funesto fôlego,
O trôpego passo do seu andar travado,
Que deixa tudo tristemente abandonado,
E deixa entre os caminhos apenas folhas secas.





REFLEXÃO

Já muito andei sem enxergar, sem ver, O que me fez e me desfez, a fome... "Ana" é o nome que alguém me deu, M...