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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

SEM PERDÃO

 





Já é tarde, muito tarde,
Para o cão e sua dor,
O desamor que ele sofreu
Por quem perdeu o coração.

No chão, o sangue espalhado,
A crueldade espelhada...
A injustica mostrada
Maldade compactuada.

Haverá algum motivo,
Alguma razão descabida,
Algum Deus que tenha um plano
Para a crueldade sofrida?

E entra ano, sai ano,
A humanidade desliza
Para a cova do desengano
E das almas ressentidas.

Mas que a dor daquela pobre
E inocente criatura
Traga a justiça mais nobre,
Traga um pouco de lisura.

Que os gritos e protestos
Por aquilo que foi sofrido
Desperte um deus adormecido
Que aqueça o fogo do inferno.

Pois o demônio tem fome,
E escreveu em sua lista
Mais um rosto, mais um nome,
E outra maldade prevista.

-Acorda, Deus, já é hora!
Pois quem pecou, é teu filho!
Chega desse livre arbítrio
Que não cura - é empecilho!

Justiça, a palavra certa,
O perdão saiu dos trilhos!
Já não há amor nos olhos
E nos corações vazios.

 

.

.

 

 

Já nem penso em justiça, só penso em vingança. Que ele seja vingado.
 

Ana Bailune

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ACHADOS PERDIDOS

 





 

As ironias finas feito lâminas de faca,

As falas arrastadas e (in)sinuosas,

O despetalar sem dó das rosas da alma alheia,

Não te caem bem.

 

Assim como essa mania desastrada

De acessar apenas para tentar saber

O que vai na alma de alguém que está distante,

As palavras que jogas sobre o muro que nos separa

As escaras escavadas com navalhas;

 

O convite para beber do teu vinho oxidado

Cujo fel cultivado em tonéis 

De  ressentimento

Por anos e anos e anos a fios emaranhados,

O tom mofado e amarelecido do passado;

 

Nada disso te cai bem.

Porque não cai, não desaparece jamais

Aos olhos que te olham – os meus? Não mais serão feridos!

Porque te coloquei na prateleira dos meus achados

Perdidos.

 .


.


.

 

 


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

PONTOS CARDEAIS

 


 

Passou a vida toda

Encarando o mesmo horizonte

A espera de um sol que nunca veio.

Dobrou as esperanças e os sonhos,

Tentando ser, para alguém

O sonho e a esperança,

Princípio, fim

E meio.

 

Fechou as janelas ao norte

E as janelas ao sul;

Viveu, por muitos anos,

De Lestes não amanhecidos

E Oestes jamais prometidos,

Mas escolheu acreditar neles.

 

Porém, o tempo é professor;

Compreendeu, assim,

Que tem gente que não amanhece nunca,

Gente que guarda um sol dentro de si

Que não emana luz, mas dor

Em qualquer direção.

Vive sempre os mesmos dias e as mesmas noites

Numa Roda da Fortuna sem fim

Que só conhece um movimento: rotação.

 

 

 

Ana Bailune

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

SEM

 




SEM

 

Eu vim 

E vou

Sem.

Nada trouxe, 

Nada levo,

Nada quero.

Meu momento

É já, 

Daqui a pouco,

Passou.

E nada fiz,

Nada sou.

Na verdade,

Sequer sei

De onde vim,

Para onde vou.

Eu só sei,

Eu só sinto

Que eu vim

E vou

Sem.

 

Às vezes, sol,

Às vezes chuva,

Às vezes monstro, 

Às vezes zen.

 

Às vezes olho

E compreendo

Que todo mundo

Veio sem

E vai Sem,

Só que não sabem,

Sequer notaram

E isso, é hilário.

 

O que se tem

É o que se deixa,

O que se encontra

É o que se perde,

O que se faz

Se desfaz,

É esquecido,

É apagado...

 

E isso é paz.

 

 

Ana Bailune


RASH




RASH

 

Café servido frio,

Sorvete derretido,

Refrigerante morno

Na hora do almoço.

 

As portas entreabertas,

Olhares enviesados,

Palavras recortadas

Que só trazem desgosto.

 

A chuva que não pára

Sobre a calçada lisa

Exatamente quando

A sola já está gasta!

 

Segundas de manhã

E domingos à noite,

Visita inesperada

Atravancando a sala.

 

Mensagens de “bom dia”

Enchendo a nossa caixa,

No meio do meu sonho

Um carro acelerando.

 

Um rash que não pára,

Quando vem a lembrança

De tudo que está gasto,

De tudo que está morto.

 

As mesmas velhas cores

Há muito desbotadas

Sorrisos amarelos 

De puro desconforto.

 

Funk rolando solto

Rachando o nosso sono

Naquela ataxia

Que eles chamam de dança.

 

Os mesmos velhos fogos

Que explodem no ano-novo

E um povo que não muda,

Mas diz ter esperança.

 

 

Ana Bailune


 

PROJEÇÃO




PROJEÇÃO

 

Era só um rosto de pedra

Impassível

Sem pupilas.

 

Fitava o infinito

De um mundo longínquo

Que eu jamais alcançaria.

 

Foi um susto perceber

Que a tristeza que eu via

Naquele rosto de pedra,

Não era dele,

Era minha.

 

 

 

Ana Bailune

 

O QUE EU QUERO


 





O que eu quero – aprendi

É não querer demais.

É jamais trocar qualquer desejo

Pela minha autonomia,

Pela minha paz.

 

O que eu quero, é não morrer de sede

Enquanto eu me afogo,

É perceber que  a minha grama é verde

E o céu sobre a minha casa

É o mesmo que cobre o mundo inteiro.

 

O que eu quero, é ver que as flores mais bonitas

Podem ser cultivadas aqui, no meu canteiro,

O que eu quero é estar presente

No aqui e no agora,

É tornar-me resiliente

Sempre que a alma sorri,

Sempre que a alma chora.

 

 

 

Ana Bailune

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

SAUDOSISMO




SAUDOSISMO

 

Eu tenho uma saudade enorme

De não saber o que eu sei.

 

Não sei por onde anda

Aquele riso bobo, frouxo

Que eu trazia sempre no rosto

Sem perceber que o que eu pensava ser

Proteção,

Era manejo.

 

Tenho saudades de sentar-me à mesa

Sem notar os olhares devoradores que hoje vejo,

As palavras tortas e mordazes,

Os tremores de fome sobre os dentes.

 

Eu caminhava resoluta

À beira dos abismos que me indicavam,

Achando-me segura.

Dizia sempre “sim,” fluentemente,

E negava a mim mesma, veementemente,

Toda ranhura.

 

Tenho saudades absurdas

Dos tempos em que eu era cega,

Muda,

Surda.

 

 

 

Ana Bailune


 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

ÁGUA

 




 

Quando você sentir sede,

Procure por uma fonte,

Procure por um riacho

Ou erga o rosto para a chuva.

 

Não peça água às pedras,

Aos galhos secos, aos espinhos,

Por que eles nada têm

Para matar a sua sede.

 

Às pedras, peça um caminho,

Aos, galhos secos, fogueira,

E aos espinhos, peça cercas

Que te protejam do mal

Que a estrada e o fogo

Poderiam te causar.



.



.



.

 


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

DESVER

 






Ninguém poderá desver
O que foi visto,
Ou desescutar aquilo
Que lhe foi dito
Sem deixar cair do rosto
Os próprios olhos
Sem cobrir de lama e dor
Os seus ouvidos.

A verdade é como um fogo:
Esquenta e queima.
E na alma, existe um ogro
Adormecido.
-Não o queiras despertar - a inocência
É um menino abandonado,
Em um precipício.



.
.
.





sábado, 20 de setembro de 2025

O AMOR

 




O AMOR

 

O amor talvez esteja

Entre o que me prometeram

E o que me foi negado,

Entre aquilo que me deram

E o que me foi tomado,

Entre a noite desabrida

E o meu sono agitado,

Entre a paz da margarida

E o centro do tornado,

Nas alegrias da vida

E no Mistério selado,

Entre a palavra não dita

E o grito alucinado,

Entre a presença maldita

E o adeus inusitado,

Entre o olhar comovido

E o olhar dissimulado,

Entre uma língua fendida

E o sorrir falsificado,

Entre o que não entendi

E jamais foi explicado.

 

O amor é uma palavra

Que tilinta, frouxa e fraca

No meu coração fechado.

 

 

 

 

Ana Bailune


NEGLIGÊNCIA

 




Algo de mim se perde,
Escorrega devagar
Aos poucos
De dentro de mim
Deixando uma casca
Solta,
Totem que o vento desmancha.

Algo de mim
Escorrega, feito lava,
E esfriando, endurece
Num solo onde nada cresce
E então permanece
Fria,
E você nem nota.

Você me perde
Todos os dias,
Um pouco de mim sai pela porta
Ah, mas isso não faz diferença...
Estou ao teu lado, aparentemente,
E é isso que te importa.










sexta-feira, 1 de agosto de 2025

À JANELA

 




Quem era aquela moça

Que ficou à janela?

Passei por ela, há alguns dias,

E quase a reconheci.

Seus olhos tinham um brilho estranho,

O sorriso discreto era feliz,

E a sua alma sozinha

Não pertencia a nenhum rebanho.


Nossos olhos se encontraram

Por um breve momento,

E pelo olhar, ela me disse

Aquilo que sobre mim mesma,

 Eu já não sabia há algum tempo.


Quem era aquela moça

Que ficou à janela, 

E me acenou, de repente,

Quando eu já estava longe?

Deixou cair um lenço verde

Que voou até as nuvens,

Mas secou meu desalento.


Quando eu olhei para trás

Querendo saber quem era,

Ela já tinha entrado.

E já nem sei se houvera moça

Ou se fora simplesmente

Uma miragem, criada

Por um coração quebrado.







terça-feira, 8 de julho de 2025

A ÁRVORE

 

 





Quando uma folha cai da árvore,

Ela não volta jamais.

Solta-se,

Desce sinuosamente, pousando no gramado,

Bem devagar.

 

E então, ela acaba de secar.

 

A árvore solta o que está seco,

O que morreu,

O que a intoxica.

Assim, gera  frutos plenos,

Repletos de açúcar

E sem cica.





sábado, 21 de junho de 2025

DESAPRENDA

 

 

 




Desaprenda

E se desprenda

Da rede invisível que sufoca.

 

Questione, e nunca, jamais,

Se abandone!

 

Não deixe que ninguém te ensine,

A auto indulgência, a pena,

-Nem mesmo este poema!

 

Olhe sempre com os olhos fechados,

Olhe para dentro, mesmo que os olhos ardam,

Ou caiam desse rosto escandalizado!

 

Desaprenda, e enfim,

Compreenda!

 

Escute além do que é dito,

Entenda o que está escondido

Além da explicação!

 

Aprenda a ser visionário,

Adivinha, médium, sensível,

Não tenha medo de ser risível

Muito menos, de ser julgado!

 

Nesse mundo de hoje em dia,

A coisa mais necessária

É não aceitar verdades impostas,

As bostas que nos empurram

Gargantas abaixo.

 

Não se ponha em qualquer lado,

Não tente escolher o certo

Ou apontar o errado,

Fique em silêncio,

Mas tenha sempre aceso

O discernimento!

 

Não tente impor coisa alguma,

Mas não aceite sem mastigar

E sentir o gosto daquilo

Que querem que você engula

E que pode até matar!

 

Aprenda a erguer limites

E acima disso tudo,

A aguentar a solidão 

Por mais que ela grite.

 

 

 

Ana Bailune

quinta-feira, 12 de junho de 2025

ESTRANHEZA

 





Eu sou de outro país,

De outra época, há muitos anos,

Milênios, talvez.

Não sei quem me fez,

Mas jamais me esqueci

De quem me desfez.

 

Eu venho de alguma galáxia

Muito distante,

Não tem alguém que a alcance,

Ou alguém que fale a minha língua

Ou cure a minha íngua.

 

Quem me olha, nem percebe

Que eu já não estou,

Que eu fui embora

Há muito tempo,

Sou uma folha verde que caiu mais cedo

Derrubada pelo vento.

 .



.



.



.

 

 

 

terça-feira, 3 de junho de 2025

ENCONTRO MARCADO

 

 

Às vezes, me vem em sonhos,

Cabelos em tons de sépia

Um tom de voz que nem me lembro

Um olhar sempre distante,

Perdido em lugares ermos.

 

Está diante de mim,

Ao mesmo tempo, distante,

E ao segurar minha mão,

Me conduz a um lugar

Que fica sempre adiante,

Mas que eu não posso entrar.

 

Se me fala, o faz sempre

Com os lábios bem cerrados.

A paisagem da distância

No olhar envidraçado.

 

E quando acordo, mal lembro

Daquele encontro marcado

Sem ter hora e sem saudade,

Entre o meu tempo e o outro tempo,

Um caminho enviesado,

Marcado na eternidade.

 

Ana Bailune

Parceiros

SEM PERDÃO

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