quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

FICA TUDO PELO CHÃO





As pedras que nos jogaram,
E aquelas que nos jogarão, 
Palavras vivas ou mortas,
Doces, vis, retas ou tortas,
Fica tudo pelo chão.

Todo amor que nós doamos,
E as pedras que atiramos,
As raízes retorcidas
Que se agarram ao que existe
Pensando agarrar-se à vida,
Fica tudo pelo chão.

Afetos e desafetos,
As verdades, as mentiras
Que caminham lado a lado
Fortemente entrelaçadas,
Tanto, que nem resta nada
Que as distingua, nesse fado,
Fica tudo pelo chão.

E um dia, brotam sementes,
Mesmo que estejamos longe,
Mesmo que nossos ouvidos
Deste mundo escondidos,
Já nem ouçam os alaridos,
E mesmo que as nossas bocas
Já preenchidas de terra
Contenham todos os gritos,

Daquilo que nós plantamos,
Daquilo que nos jogaram,
Nascem árvores frondosas
Brotando do esterco, as rosas;
Mas também estas, um dia,
Pelo chão hão de ficar
E tudo será esquecido,
E o dito pelo não dito
-Nem isto há de sobrar.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O ANDARILHO




O teu triste espectro bateu à minha porta,
Olhos marejados, barba por fazer.
Coberto de andrajos, perdido, sem rota,
Tão só, me pedia para eu não te esquecer.

A minha memória juntou teus pedaços,
Segui os teus passos, mas não te encontrei...
Tua andas tão longe desses meus abraços...
Mas sopras vestígios do amor que eu te dei

E que desprezaste, sem dó, sem piedade,
Deixando a saudade que eu tinha, morrer...
Algumas lembranças sublimam idades,
Mas outras matamos pra sobreviver...


domingo, 25 de janeiro de 2015

ORDEM DOS POETAS DO BRASIL




Fundada por Maurício de Azevedo, a OPB (Ordem dos Poetas do Brasil) tem como principal objetivo a divulgação da poesia. 

Abaixo, uma explicação sobre o que significa a OPB, por Maurício de Azevedo:


BREVE HISTÓRICO DA ORDEM      OPB-  CONTRIBUIÇÃO PARA  A CULTURA BRASILEIRA 
   

    A OPB – ORDEM DOS POETAS DO BRASIL, foi  fundada em 01 de  dezembro de 2013, no município de Guarujá-SP. Contou para isso com o incentivo de uma grande amiga e depois outras pessoas. No mesmo mês, a OPB chegou as redes sociais, ampliando o número de participantes dentro da adoção de um critério qualitativo, ou seja, crescimento aos poucos com a conscientização gradual de seus participantes. A poesia brasileira há muito tempo vinha merecendo ganhar uma Ordem que a homenageasse, que a iluminasse em  uma importância, que  lutasse por ela , senão na totalidade dos poetas aqui  existentes, pelo menos na representatividade daqueles que anseiam por melhores dias , não só para a poesia , mas por extensão para toda a educação, cultura e literatura brasileira. A idéia inicial de uma Ordem surgiu quando ao vencer um concurso de poesias, de um grande município  brasileiro, segundo lugar, em 2006, vi que nenhum dos prêmios oferecidos eram respeitados. Não é segredo para ninguém que  a cultura brasileira é desrespeitada pelo poder público quase sempre, seja  no tratamento de verbas destinadas  a ela , seja no emprego de pessoas que em grande parte, quase sempre, são  despreparadas para o exercício dela. A vontade concreta da criação de uma Ordem se fortaleceu mais ainda  quando deparei também com belos livros de poesias e literaturas jogados, desprezados, oferecidos pelo governo de um rico estado e,  ver que mesmo quando este,  o poder público,  manifesta a vontade de contribuir, o resultado é pouco, porque faltam as bases profundas para a retomada do apreço tanto pela literatura como pela poesia e a cultura geral. . Ao iniciar o movimento dos pássaros da poesia, aos poucos fui percebendo que  havia agora finalmente  o chão para que o projeto de uma ordem de poetas, fosse enfim implantada, e que essa ordem também tivesse como bandeiras,  a educação e a cultura. Falta as atuais gerações brasileiras,  uma política de valorização da cultura nacional em seus vários aspectos.  A sociedade brasileira precisa repensar profundamente   o que é cultura e como se processa  a importância  dela na formação do seu povo. É preciso  que governos, ministérios, prefeituras, universidades e órgãos públicos e privados em geral, voltem a repensar seriamente a cultura.  Já não  basta mais o velho discurso cultural sem ações e políticas concretas. É preciso que todos amadureçam a idéia de um país mais culto  e com  oportunidades  reais para construção de um sociedade mais digna e melhor educada.  Vemos que a arte brasileira em geral enfrenta, a exceção do cinema,  uma crise de qualidade e de identidade. Nunca a música popular brasileira viveu um período tão pobre, as artes plásticas desvalorizadas em suas bases, a literatura relegada a números pífios de vendas. Enfim, o grito pela poesia, a mais abandonada das artes, é também um grito pela cultura brasileira em geral. É preciso que as escolas voltem a produzir  cultura também, com diretores mais ativos e proativos, que estimulem mais a atividade cultural em suas escolas, assim como as universidades precisam urgentes, repensarem melhor a formação de professores de letras, propiciando rodas culturais, concursos de literatura e aproximação com a sociedade local.. Vivemos a mediocridade de  formarmos  professores de literatura que não lêem,  de professores de artes que não sabem ensinar  ou transmitir o amor pela cultura. É preciso que todos se unam nesta missão de resgatar a cultura brasileira e elevarmos o nível  de qualidade das relações humanas neste país.  É preciso muita cultura. É preciso que reativemos os mananciais parados da cultura brasileira e que estes voltem a serem representativos da alma e da identidade brasileira. A  OPB - ordem dos Poetas do Brasil, tem ciência das Inúmeras dificuldades que cercam esta retomada da produção cultural do país, mas não teme o esforço. Sabe que  com  esforço de todos  e a longo prazo, os resultados são possíveis e mais que possíveis, saudáveis e benéficos a toda a sociedade brasileira. Com as bandeiras da educação e cultura como metas, , a OPB amplia seu leque também sobre o meio ambiente e cidadania,  dentro dos conceitos PHUC  assim distribuídos: POLITICA HUMANA , URBANA E CULTURAl para a sociedade, PEDAGOGIA HUMANA , URBANA E CULTURAL para a educação e POÉTICA HUMANA, URBANA E CULTURAL para as Artes.  Atualmente a ordem conta com um número de 50 poetas e mais 10 pessoas que compõe um grupo de apoiadores culturais.  Como entidade recente, ainda não possui apoios financeiros públicos ou privados.  A sua preocupação  primeira é firmar os seus princípios e  situar o seu campo de atividades por meio de 15 projetos  culturais que a norteiam, alguns delas já divulgados em rede.  Assim a OPB, ORDEM DOS POETAS DO BRASIL, completou seu primeiro ano de vida, reafirmando o compromisso com a poesia, a cultura e educação brasileira. OBRIGADO A TODOS.
                                           MAURICIO DE AZEVEDO 
                                     FUNDADOR E PRESIDENTE DA OPB

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Quem Canta...





Quem Canta...

Todo mundo sabe como esta frase termina, e podem acreditar: é  a mais pura verdade! Quem canta, seus males espanta, e eu descobri isso muito cedo. Sempre cantei: no banheiro, na sala ouvindo música, enquanto limpo a casa. 

E agora eu descobri uma coisa que eu simplesmente adorei: um karaokê online. E assim, eu sigo, espantando os meus males. Quem quiser ouvir como ficou, basta acessar o link abaixo, e terá a experiência (gratificante ou ingrata) de ouvir algumas de minhas performances. basta procurar por outras na página.




terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Armadilha da Raposa – Reflexões Sobre o Pequeno Príncipe


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A raposa é apenas um animal inocente, mas um dia, alguém decidiu que ela seria o símbolo da esperteza e da velhacaria – eu nunca soube o porquê. O pobre animal passou a figurar em fábulas infantis, representando aqueles que desdenham mas querem comprar (“As uvas estão verdes!) e também na famosa história de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, como uma criatura que ao ser cativada, logo disparou: “Tu te tornas eternamente responsável por aquele a quem cativas.” 

Alguém conhece um laço mais apertado que este? E foi desta forma que a raposa tentou prender o Pequeno Príncipe – que como não era bobo, acabou voltando para a sua rosa. Mas ele precisou sair de seu planeta e abandonar a sua rosa superprotegida, sem conseguir lembrar-se se estava amarrado ou não o carneiro que a ameaçava. Porque a rosa e o carneiro precisavam tomar as suas próprias decisões. E foi somente quando ele saiu de seu planeta, deixando a rosa que pensou ser única no universo, que ele descobriu que havia milhares iguais a ela pelo mundo. Mas ele também aprendeu que nenhuma era exatamente igual a ela, pois ele a amava, e não às outras, coisa que ele talvez jamais descobrisse se não a tivesse deixado. 

E ao mesmo tempo, a rosa teve que endurecer seus espinhos e crescer acima do carneiro, para evitar que este a comesse. Ela nunca teria conseguido enquanto estava protegida pela redoma do Pequeno Príncipe. E o carneiro precisou procurar outro tipo de alimento, já que a antes frágil rosa era agora uma roseira forte e alta que ele não mais alcançava. E sabem, acho que ele acabou descobrindo que havia em seu planeta muitas outras coisas interessantíssimas para ele comer, e que ele vinha ignorando devido à sua obsessão pela rosa! 

Quanto a raposa dominadora, que desejou tornar o príncipe responsável por ela, fazendo-o assumir uma vida que não era sua, teve que contentar-se com a sua ausência. Voltou a cobiçar as uvas verdes...

De volta ao seu amado planeta, após tantas descobertas, o Pequeno Príncipe – que perdeu a inocência, mas aprendeu a conhecer a verdadeira essência das coisas -  descobriu que, se ao invés de afastar a cadeira para assistir a mais um melancólico pôr-do-sol ele a virasse de costas, poderia vislumbrar um belíssimo amanhecer.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Sentindo na Pele




Na última sexta-feira, o Jornal Nacional começou falando das mudanças climáticas em curso no mundo. Enquanto eu assistia, parecia-me que estava fazendo parte de algum daqueles filmes de ficção que falam sobre o fim do mundo, da falta d'água no planeta. De repente, eu me dei conta de que não era um filme: está acontecendo.

Antes, quando escutávamos algo sobre este assunto, a maioria dos verbos estavam no passado. Atônita, percebi na última sexta-feira que eles estavam todos no presente. Um grupo de cientistas criou um gráfico que vai de um a quatro a fim de medir a intensidade das mudanças climáticas, sendo que o nível um é o nível mais ameno, e o quatro, o mais crítico, que implica extinção de espécies, aquecimento global e falta de água. Bem, como num pesadelo, descobri que estamos no nível quatro.

O ano de 2014 foi o mais quente da história, e parece que 2015 não vai perder o recorde. Vivo em Petrópolis, cidade serrana conhecida pelo clima ameno e pela boa qualidade de sua água; na minha varanda, neste exato momento - 11:38 da manhã - o termômetro marca trinta graus à sombra, e a água das minas que abastecem as casas em minha rua, está secando. Temos pouquíssima água. A chuva que estava prevista para cair por aqui na próxima quarta-feira, não está mais lá na previsão do tempo; foi substituída pelo anúncio de chuva leve na quinta-feira à tarde. 

Passeando em Itaipava no último domingo, nos sentamos para tomar um sorvete e beber água. Enquanto eu tomava a água mineral gelada, fiquei pensando se poderemos desfrutar deste prazer em um futuro próximo... porque as mudanças climáticas e suas consequências já não fazem mais parte de histórias que "cientistas loucos" como James Lovelock e Tim Flannery contavam sobre o futuro: elas estão aqui. Está acontecendo.





sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

FLOR




O olhar da criança
Pousou sobre as  pétalas,
Enquanto, encantada,
Ela anunciou: "Flor!"

Nos lábios rosados,
Um riso espontâneo.

A mãe corrigiu-a:
"Crisântemo!"
O riso murchou.

O olhar ansioso 
Por mais descobertas,
Pousou noutras pétalas,
E ela, encantada,
Ainda tentou: "Flor!"

A mãe, sempre atenta,
Querendo ensinar
Sobre as diferenças,
Logo consertou: "Margarida!"

Morreu o sorriso
No rosto da criança,
Cessou a magia
De ver só a flor
Nos jardins da vida.




quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Perdão e Esquecimento





Perdão e Esquecimento

Ao ser indagado sobre quantas vezes devemos perdoar aos nossos ofensores, Jesus foi bem claro: “Setenta vezes sete.” Mas até mesmo esta conta é um número finito: 490. E com toda certeza, ele baseou este número em uma representação simbólica daquilo que ele mesmo faria – e qual de nós pode igualar-se a ele? Na oração que deixou para nós, ele continua: “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos nossos ofensores”, ou em outra versão, “Perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores." Mas em nenhum momento, ele disse: “Esqueçais as nossas dívidas assim como nós nos esquecemos dos nossos devedores.”  E foi ele mesmo que expulsou os vendilhões do templo (os oportunistas) à gritos e pontapés. Por mais que ele amasse a todos igualmente, Jesus sabia muito bem que existem pessoas e pessoas...

Jesus sabia muito bem que quem perdoa, não esquece. Lá no fundo da alma, no âmago do ser, aquele que foi traído, ferido, enganado ou caluniado, especialmente quem o foi mais de uma vez pelas mesmas pessoas, não pode esquecer-se deste fato. E mesmo que, por razões íntimas, sejam elas feitas de convicções religiosas ou do mais puro sentimento de amor, quando perdoam, as pessoas se lembram; nós nos lembramos. Porque, como circula em uma frase de filosofia Facebookeana, “perdoar não é sofrer de amnésia.”

Mas existe uma grande diferença entre não esquecer e guardar rancor. O rancor, o ódio, a raiva, são sentimentos destrutivos. Quando eu os sinto, eu procuro observá-los, entender suas causas e conversar com eles até que eu os tenha sob meu controle. Acredito que tentar soca-los debaixo de uma falsa capa de perdão e esquecimento poderá torna-los ainda mais fortes e nocivos, prejudicando até mesmo a minha saúde física e mental. E dizer a alguém “Eu te perdoo” sem que isso seja verdadeiro, é mentir. Mentir para si mesmo e para a pessoa em questão.

Tudo o que vivemos faz parte de nosso aprendizado, da nossa experiência, e não deve ser esquecido, porém, entendido, assimilado. Se uma pessoa me fere hoje, e amanhã, e depois de amanhã, qual o sentido em continuar expondo-me a ela deliberadamente, já sabendo de quais atitudes esta pessoa é capaz? Afasto-me dela. Observo-a. Dou-lhe um tempo para que ela evolua em seu próprio ritmo, sem tentar impor-lhe as minhas convicções mas sem submeter-me aos seus desmandos. E não o faço por razões falsamente altruístas, mas porque assim estarei protegendo a mim mesma. Se eu achar que aquela pessoa realmente vale a pena, digo a ela os motivos pelos quais estou me afastando. Caso contrário, não digo nada.

Aprendi que de nada adianta tentar modificar os outros, pois cada um acredita naquilo que está pronto a acreditar, e vive conforme suas próprias crenças e experiências. Tentar impor as minhas ideias e convicções – que podem muito bem estarem erradas - só vai fazer com que eu perca meu tempo. Mas eu também acredito que um dia todo mundo acaba percebendo os próprios erros e agindo a fim de consertá-los. Eu mesma sei que tenho muitos erros a serem consertados, e estou cuidando disso. 

Quando pessoas passam por treinamentos de busca e salvamento, elas aprendem, em primeiro lugar, a cuidarem delas mesmas e garantir a própria integridade física. Em um avião, em caso de acidente nós somos ensinados a colocar a máscara de oxigênio em nós mesmos antes de tentar ajudar os outros. A pessoa mais importante do mundo, para mim, sou eu mesma. Ninguém viverá por mim, ninguém aprenderá por mim, e se um dia eu precisar de ajuda, sei que é mais provável que eu a encontre em alguém que esteja calmo e equilibrado.

Perdoar não é esquecer; tem mais a ver com entender, compreender e superar, arriscando-se a ser ferido novamente. Porque muitas vezes, quem pede perdão não o faz sinceramente, mas apenas por questões que envolvem interesses pessoais momentâneos. Aprender a identificar estas pessoas é vital para quem preza sua autoestima. 

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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

ASAS DE OURO





"Faça-se de outro as asas do pássaro e ele nunca mais voará aos céus." - Tagore



Asas de Ouro


Tuas asas são de ouro, 
De ouro são teus desejos,
E no coração, um peso
te mantém sempre no chão.

De brilhantes, os teus olhos,
E os teus pés, são de latão...
Só dão passos pequeninos,
Mantém-se firmes no chão...

Tuas asas são de ouro,
E tua alma encarnada
Entre pesos e tesouros
Perdeu-se num denso nada!

Há um céu azul deserto
Coalhado de nuvens brancas,
Ansiando por teu voo,
Esperando que te livres
Das tuas asas de ouro!



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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Hare Krishna




Saí bem cedo para caminhar, antes que o sol esquentasse demais. Acordar cedo é maravilhoso, e aconselho quem não gosta a experimentar durante alguns dias, mas de coração aberto...

Assim que acordo, ao escovar os dentes, olho pela janela do banheiro, e deparo com um pica-pau - daqueles de cabeça e pescoço vermelhos, com penacho e tudo - fazendo a festa no tronco da árvore do vizinho. Lindo de viver! Se eu não estivesse ali naquele momento, não o teria visto!

Desço a rua da minha casa, e vou encontrando com as pessoas que também acordaram cedo para ir trabalhar ou caminhar, como eu. Trocas de "Bom dia" em plena manhã de segunda-feira me deixam mais otimista em relação ao mundo e às pessoas. Uma brisa fresca sopra, mas o céu totalmente azul promete muito calor para mais tarde.

Chego à Barão do Rio Branco. Começo a caminhar mais rápido. Carros e ônibus passam pela estrada, e mais pessoas me cumprimentam. Sinto o movimento da vida, a semana que se inicia, caminhos que se cruzam, portas que se abrem e se fecham. Olho para o céu, as árvores antiquíssimas, e penso no quanto é preciso agradecer todas as manhãs. E agradeço. Faço as minhas orações, tenho a minha conversa com o Deus que vive em mim. Depois, respiro fundo várias vezes, e começo a entoar, mentalmente, um antigo mantra que aprendi quando ainda era adolescente:

"Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare." Ele significa: "Ó Senhor Todo-Atrativo e fonte de todo o prazer, ó energia do Senhor, por favor, ocupai-me no vosso serviço".

OCUPAI-ME NO VOSSO SERVIÇO.

E enquanto o recito muitas e muitas vezes, mentalizo uma luz azul entrando pelas minhas narinas quando inspiro, e uma luz cinzenta saindo quando expiro. Vou me limpando por dentro.

Faço isso há muito tempo, toda vez que saio para caminhar. Para mim, esse mantra significa soltar as amarras da vida  que supomos ter entre as mãos e deixá-la fazer o serviço, conduzir-nos no caminho, mostrar-nos por onde seguir. Porque nós não temos controle de nada, absolutamente nada. Podemos sonhar, correr atrás daquilo que queremos, mas só virá até nós aquilo que for nosso por direito divino. A vida sempre sabe o que é melhor, o que precisamos fazer para aprender o que viemos aprender. Acredito que uma grande parte das desgraças e frustrações que nos caem são devidas à nossa mania de querer controlar tudo, apressar tudo.

Vejo pessoas lutando para obter coisas e mais coisas, e mesmo após obtê-las, não conseguem se sentir felizes, não tem paz, e o desejo de obter mais e mais coisas jamais cessa; acho que é justamente porque elas querem mandar na vida, controlar tudo, tomar a frente de Deus. 

Caminhar me traz serenidade. Sozinha na estrada, eu me lembro de compreender que qualquer estrada que tomemos sempre nos conduzirá a algum destino. Mas quando estivermos em uma encruzilhada, a decisão sobre qual caminho tomar não deve vir só da gente. É hora de silenciar para escutar. 




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A MUSA






Penteava, tranquila,
Seus cabelos de Medusa,
A musa.
Mirava-se num rio
De águas profundas,
Sua imagem desfazendo-se em círculos concêntricos,
Descrita nas palavras
Da gente confusa
Que não entendia a sua língua.

Deitava lágrimas nas águas 
E risos nas margens.
Mergulhava fundo,
E embora não soubesse nadar
Jamais se afogava!

Enquanto isso,
A barca passava...

Poetas deitavam suas penas nas águas claras
Da musa impassível,
Formando conjuntos risíveis de luz e de trevas,
Mentes obtusas
Que se alimentavam
Das linhas da musa.

Julgavam com palavras excusas,
E profetizavam
Sobre o que somente ela compreendia.

A noite engolia o dia,
Apagando as inspirações...




Entre Orquídeas




Uma caminhada. O dia estava quente. Após andar durante quase trinta minutos sob o sol forte, preciso refrescar-me. Passo em frente ao Orquidário Binot, e entro, percorrendo o caminho sombreado por feixes de bambu e árvores frondosas, escutando o barulhinho da água que entra no laguinho de trutas através de um pequeno riacho.

O resto, é só encantamento.



Caminhar entre as flores... deixar-me ficar ali, olhando para elas em reverência, sentindo suas energias de cor e veludo... qualquer alma há de sentir-se em paz, com a sensação benfazeja de que tudo está certo no mundo, e que todas as coisas caminham para um bom final. Junto às flores, não pode haver tristeza, saudades, ou qualquer tipo de eco maldoso vindo do mundo lá fora. Aqui só chega a paz. Estou protegida, e nada de mal pode acontecer-me. 



Não quero ir embora. O vendedor chega, oferecendo-me ajuda, e digo que só estou olhando. "Me refazendo," digo a ele, e ele sorri, e tenho certeza de que me entendeu. retira-se discreta e reverentemente, deixando-me à sós com a beleza. Mas o mundo lá fora me chama... há as urgências: aulas a serem preparadas, alunos chegando, jardineiro aguardando o lanche da tarde.

Dirijo-me à saída carregando uma caixa com a orquídea e a bromélia que comprei. Sinto-me leve, refeita, energizada e totalmente feliz. Levo para casa um pedacinho daquela paz, que arrumo sobre o console da lareira. É reconfortante saber que aquele lugar estará ali amanhã, e depois, e depois...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Segredos




Te disse que eu não tinha tempo,
Mas cismaste em confessar
Aos meus ouvidos apressados
Os teus segredos guardados!

Metade ficou derramada
Nas águas turvas do lago,
Naquelas águas cansadas
Onde já não há mais barcos...

Uma parte foi levada
Pelo vento, em céu nublado,
Caiu em gotas de chuva
Teu coração salpicado...

A última parte, eu ouvi,
Mas confesso, não guardei...
Eu disse que eu não tinha tempo,
Por isso, eu não te escutei...


domingo, 4 de janeiro de 2015

VIVER É INTERPRETAR






O que você vê quando olha para o céu à noite? Os que focam na superfície miram as estrelas, a lua, algumas nuvens talvez. Mas há aqueles que procuram por algo mais, coisas que geralmente as pessoas não enxergam. Munem-se de telescópios poderosos ou simples lunetas - dependendo do seu desejo. Enxergam planetas, satélites, galáxias. Assim, acham que já viram tudo e que sabem tudo a respeito do universo.

Mas existem aqueles que, ao olhar para um céu estrelado, enxergam além das estrelas simplesmente fechando os olhos e sentindo que elas tem muitas histórias para contar, mas que nós não entendemos a sua linguagem. Tentamos interpretá-la através da poesia, da música, da pintura, enfim, através de todo tipo de arte, e também, das religiões. Assim, vão surgindo varias interpretações e teorias. Eu creio que a teoria mais completa, mais espiritualizada, mais bela e mais profunda, não chega nem a arranhar a superfície da verdade sobre as estrelas e galáxias, sobre o céu, os planetas, os buracos negros e as nebulosas. Existe tanta coisa que não sabemos!

Eu posso apenas dizer que acredito que haja vida em outros lugares além daqui. Não sei de que espécie, não sei se mais ou se menos evoluída. Também acredito na sobrevivência da alma após a morte. Acredito que a maioria das pessoas que dizem terem visto ou interagido com seres mágicos como fadas, duendes e espíritos, realmente viram alguma coisa que interpretaram através de suas crenças ou de seu conhecimento. Respeito-as. Antes de duvidar delas, pergunto-me: "O que eu sei?" Isso é o bastante para que eu me cale. 

Também sei que cada pessoa é um universo, mesmo as que nem sequer se dão conta disso. Todo mundo tem seus motivos para ser como é e sentir o que sente, reagindo da maneira que aprendeu e acredita ser a correta. Ando aprendendo que até mesmo aqueles que me feriram ao longo do caminho, tenham seus motivos para agir como agiram - o que não significa que eu deva expor-me aos seus desmandos. A eles, desejo toda paz que puderem alcançar, aceitando que cada um tem seu tempo e seu modo de aprender, pois é seguido por uma história de vida, onde deram-se fatos que a grande maioria ignora.

Assim como todos, estou no caminho da evolução, pois o universo só permite este caminho, e espero - sei - que um dia, alcançarei um bom nível. Quero ser capaz de olhar para todos e ver apenas o que eles tem de bom a oferecer, mas ainda não consegui alcançar este patamar. Talvez seja a minha hora de aprender de outra maneira, de aprender também sobre o mal, quem sabe... porque ele existe. E se não trilharmos seu caminho e aprendermos a reconhecê-lo e a lidar com ele apropriadamente, cairemos sempre em suas armadilhas. Mas enxergá-lo não significa agir através dele. Mas ele exige uma resposta. Quando ignorado, ele cresce. O mal não admite ser ignorado. Gostaria de ter o poder ou a habilidade de neutralizá-lo com palavras de amor, com compreensão, com paciência, mas ainda estou no início do meu caminho... não posso fingir que sou diferente do que sou.

Tenho uma história atrás de mim que só eu conheço. Você também tem uma história que só você conhece. Respeito a sua. Espero que respeite a minha.

Que em 2015 possamos todos enxergar além das estrelas. Que possamos aprender a enxergar o medo que se esconde por trás das atitudes que ferem, a dor que se esconde por trás de quem provoca lágrimas nos outros, o amor por trás da aparente indiferença. Às vezes, o amor também precisa retirar-se para que o outro possa crescer. Mas isso não significa que ele tenha morrido; apenas descansa, observa e torce para que haja um momento em que aqueles que nos ferem possam aprender, finalmente, a enxergar além das estrelas, e a viajar para fora de seus próprios buracos negros.

Um ano novo de paz e descobertas, é o que eu desejo a todos, inclusive, a mim mesma.

sábado, 3 de janeiro de 2015

O Lírio








Ao som da corrente do rio,
Do assovio lento de uma brisa
E do cantar distraído de um passarinho,
Abriu-se o lírio.

Branca e leitosa cor,
Suave perfume, quase nuvem,
Protegido no colo macio das folhas,
Viu o céu,
Sentiu o sol,
Bebeu da chuva,
E desfolhou-se.

As pétalas cairam no rio, 
Ou foram levadas pelo vento,
Ou tornaram-se secas de tanto sol,
Ou moles de tanta chuva...

A beleza que o trouxe,
Recolheu-o no final.
Mas deixou no ar
Um leve perfume...



REFLEXÃO

Já muito andei sem enxergar, sem ver, O que me fez e me desfez, a fome... "Ana" é o nome que alguém me deu, M...