sexta-feira, 28 de agosto de 2020

PALAVRAS QUE ESCORREGAM

 



 

AS PALAVRAS DERRETEM NA SALIVA

SUFOCADAS, NÃO EXPRESSAS.

TORNAM-SE PORTAS FECHADAS

NUM PEITO ALUCINADO.

AS PALAVRAS QUE FALAM DO PASSADO.

 

AS PALAVRAS ESCORREM DAS NUVENS

CAEM DAS ASAS DOS PÁSSAROS

E CHEGAM ÀS ROSEIRAS,

SE ENTRELAÇAM NOS ESPINHOS,

SANGRAM SOBRE A TERRA.

AS PALAVRAS QUE FALAM DAS GUERRAS.

 

AS PALAVRAS ESCORREM DAS MONTANHAS

BROTAM DO ORVALHO E PINGAM

DA CUMEEIRA DO TELHADO

QUAIS LÁGRIMAS DE DOR.

AS PALAVRAS QUE FALAM DE AMOR.

 

AS PALAVRAS NÃO SABEM O QUE DIZEM,

ROLAM SOB O ESPELHO

DE UM RIO CONGELADO,

CAEM EM UMA CORREDEIRA SEM FIM.

AS PALAVRAS QUE FALAM DE MIM.





 

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

QUANDO VOCÊ FOI EMBORA




Quando você foi embora,

Eu fiquei ali, parada, 

A boca entreaberta,

Incapaz de dizer o que você esperava,

E não era “Adeus.”

Quem sabe, quisesse de mim uma palavra

De aceitação, consolo ou perdão?

Alguma coisa que te livrasse da culpa

De me impor a tua ausência – solidão?

Você virou as costas e partiu,

Mas não sem antes

Parar no alpendre, olhar para trás

E quem sabe, pensasse também

Nos anos vividos juntos

Que não teríamos mais?

Achou que eu fosse pedir que ficasse,

Queria que eu chorasse?...

Quando você foi embora,

Compreendi que agora eu estaria sozinha,

Que a vida era minha, afinal,

Que as horas seriam muito mais longas,

As noites, mais frias,

E que eu aprenderia a ter que conviver

Com a sucessão de dias e dias

Sem os ruídos dos teus passos, 

Sem a chave na fechadura,

-Ah, funesta urdidura do destino!

Foi-se embora um menino aventureiro,

Mas que se esqueceu de olhar-se no espelho

E reconhecer o homem feito,

Não viu que as novas roupas não caiam bem,

Que o novo corte de cabelo era inadequado,

Pegou pela mão a moça ao lado

E foram-se ambos viver uma história 

Que seria breve, estranha e inglória.

Quando você foi embora,

Querendo que eu te pedisse para ficar,

Hesitando com as malas no chão, `a porta,

Pensando que eu estaria morta,

Achando, quem sabe, que fosse preciso

Que eu te fizesse um discurso, clamando por siso,

Você sequer olhou direito

E enxergou, lá no canto,

O meu sorriso...





terça-feira, 25 de agosto de 2020

ONDE É O MEU LUGAR?









Tolerância não é o mesmo que amor e aceitação. 


Por que insistimos em ser 'tolerados', quando deveríamos procurar estar apenas nos lugares onde somos amados? Por que forçarmos a nossa presença onde não nos querem e não nos compreendem?

Neste vídeo, falo sobre isso. Inspirada em um comentário deixado em um dos vídeos anteriores, que me questionava sobre o assunto.

Eis o link:







quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Flor





Flor, sacode tuas pétalas

Espanta essa dor

De viver murchando

Quando o dia está lindo,

E sobre tua corola,

Os pássaros seguem, cantando.

Flor, as tuas raízes

Precisam ser fortes,

Retire do solo e do ar

O teu viço,

Não dependa jamais

De nenhum jardineiro

Omisso.

Flor, não espere que o tempo

Congele teu momento!

Mais cedo ou mais tarde,

Ele age em tuas cores,

Desbota teu viço,

Descola tuas pétalas

E solta-as ao vento.

Flor, aprenda melhor

Sobre o teu perfume,

Não o deixe ir assim, de repente,

A qualquer lugar, a qualquer vertente,

Aprenda a usá-lo com cuidado,

Verdadeiramente!

Flor, aprenda a ser gente,

Não espere que alguém a colha,

Porque todos os vasos

São rasos, são prisões

De água insalubre

Onde  apodrecem, mais cedo,

Tuas pétalas e folhas!




PARA QUEM AMA FALAR SOBRE CASAS


 Olá, pessoal!


Hoje eu venho compartilhar o link de meu novo vídeo no meu canal O 'X' DA QUESTÃO." É sobre um livro que adquiri há algum tempo e até fiz uma postagem no blogger sobre ele: Casa Natural, de Carlos Solano.

Para quem gosta de sentar-se na rede calmamente, com um livro lindo nas mãos - lindo no conteúdo e na estética -  e tirar uma tarde de muita calma, paz de espírito e aprendizado. Eis o link:


https://youtu.be/7_jxDZVlC6k





terça-feira, 18 de agosto de 2020

SOBRE A ESCRITA - ESCREVER E COMUNICAR

 


Escrever e comunicar
 
Quando comecei a escrever, as palavras se entornavam de dentro de mim sem que eu pudesse contê-las. Havia uma enorme necessidade de colocar para fora tudo aquilo que eu mantivera escondido durante a maior parte da minha vida, o que nem sempre soava bonito. Eu pensava que aquilo era escrever: colocar no papel o que eu estava sentindo.

Também era importante a reação das pessoas a respeito do que eu lia - se eram contra ou a favor, o que pensavam.

Hoje, acho que é bem mais do que isso; após o jorro sentimental catártico (muitas vezes inadequado e desinteressante para quem não o estava vivenciando), as palavras deixaram de jorrar espontaneamente. Minha escrita tem se tornado cada vez menos fluente, porém, antes de chegar à página, ela passa pelo crivo de períodos mais ou menos longos de total silêncio. Cheguei a pensar que estava deixando de escrever, mas na verdade, minha escrita estava apenas amadurecendo. 

Hoje eu meço melhor aquilo que é ou não interessante colocar no papel, tanto para mim quanto para quem lê. A urgência em ser lida e comentada não é mais um dos meus objetivos quando escrevo. O único objetivo é comunicar o que sinto e penso – não apenas despejar sentimentos.






domingo, 16 de agosto de 2020

O QUE PENSAM DE NÓS?


 





Ontem assisti a um filme no qual um rapaz visitou algumas pessoas, e antes de sair, deu um jeito de colocar o celular gravando, escondido sob as almofadas do sofá, a fim de ouvir as conversas depois que ele saísse da casa. Na rua, usando uma escuta conectada ao aparelho, ele ouviu quais as verdadeiras impressões das pessoas sobre ele, e constatou que elas o achavam simplório, insignificante e risível. Ele as ouviu falarem sobre seu perfume barato, darem risadas sobre a maneira como ele segurava o garfo e oferecerem à empregada da casa um pote de geleia com o qual ele as tinha presenteado. Lágrimas rolaram de seus olhos durante a humilhação.

 

Isso me fez pensar: e se nós pudéssemos saber o que as outras pessoas realmente pensam de nós? Bem, mesmo sem ter esse poder, confesso que minha intuição me ajuda muito nessa parte; costumo acertar quanto a quem gosta ou não gosta de mim, e consigo sentir no ar insinuações ou trocas de olhares significativos entre as pessoas presentes. Também sinto de longe o cheiro da tentativa de manipulação e do elogio falso.  Mas sempre fica uma dúvida: será que a minha intuição está certa?


Bem, se tivéssemos certeza absoluta a respeito do que pensam de nós de verdade, não existiriam amizades. As pessoas viveriam isoladas, aquarteladas em suas casas, com ódio ou ressentimento umas das outras. E talvez constatássemos que a grande maioria das pessoas que nos criticam, na verdade, gostariam de ser como nós ou ter algum talento que nós temos.

Diante desse pensamento, concluo que Deus realmente sabe o que faz; melhor não saber ou continuar fingindo não saber o que pensam de nós!





quinta-feira, 13 de agosto de 2020

MEU POBRE IPÊ AMARELO

Foto: uma imagem antiga do meu ipê


 Havia um vaso de terra sob o ipê, onde eu cultivava uma plantinha que não vingou. O vaso acabou ficando por lá um tempo, até que percebi que havia uma mudinha de alguma coisa crescendo dentro dele, brotando corajosamente da terra mal-tratada do vaso. Comecei a regá-la. Em algum tempo, percebi tratar-se de uma muda do ipê amarelo. Replantei-a para os fundos do terreno, e hoje ela já está mais alta do que eu, e já dá flores, embora tenha puxado a mesma magreza de seu pai/mãe ipê.


Quando nos mudamos para esta casa, ele já não ia muito bem de saúde: um tronco magrelo que se dividia em dois galhos ainda mais magrelos nas pontas. Dava algumas flores, porém. Começamos a cuidar dele, e ele cresceu e multiplicou seus galhos, mas nunca chegou à exuberância, mas deu muitas e muitas flores, atraindo a atenção de quem passava pela rua e olhava por cima do muro. Quando ventava, o gramado ficava cheio de manchas amarelas, e eu colhia algumas para colocar na minha fonte.


Houve uma tempestade, e meu manacá da serra foi arrancado do chão com raiz e tudo. Meu enorme mandacarú também não resistiu, mas o ipê, em toda a sua magreza, curvou-se sobre o telhado da garagem sem quebrar. Aos poucos, ele foi voltando ao normal, tal era a sua vontade de viver.


Mas agora, acho que ele está realmente se despedindo, e entendi a sua urgência em deixar-nos um descendente que continue a enfeitar o nosso jardim. Os galhos mais altos estão quase totalmente secos, e quebram-se ao peso dos pássaros maiores que pousam neles. Alguns galhos começaram a brotar bem no meio do tronco, e ao ler um livro sobre árvores, descobri que é uma última tentativa de tentar viver por mais alguns anos, mas que não há salvação para ele. Segundo o livro, quando uma árvore começa a dar galhos muito baixos, é porque a seiva já não chega aos galhos mais altos; ela está morrendo.


O jardineiro acha melhor que o cortemos de uma vez, mas não vou fazer isso com ele. Vou deixá-lo viver enquanto ele quiser, já que luta tanto para permanecer vivo. Tenho certeza que, caso ele esteja em sofrimento e deseje uma eutanásia, arranjará uma maneira de me dizer isso, e então abreviarei seu sofrimento. Enquanto isso, olho pela janela da sala de aula e vejo sua cria a crescer, magrinha, já vencendo a altura do muro que separa a minha casa da casa do vizinho. 


As árvores têm alma, eu tenho certeza. As árvores amam e são gratas. Também sou grata a todas as flores que meu ipê nos deu de presente nesses dezesseis anos que moramos aqui. Cuidarei bem de sua cria.



sábado, 8 de agosto de 2020

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE

 




SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE

Título original:  A MONSTER CALLS

Autor: Patrick Ness

O filme homônimo foi estrelado por Lewis MacDougall, Sigourney Weaver, Felicity Jones, Toby Kebbell e Liam Neeson.


Conor O'Malley (Lewis MacDougall) é um menino de 12 anos de idade que está em uma péssima fase de sua vida, na qual enfrenta, ao mesmo tempo, a péssima performance na escola associada ao bullying que vem sofrendo, à ausência do pai, ao mal relacionamento com a avó e à deterioração da saúde da mãe, acometida por um câncer em fase terminal. 

O’Malley precisa amadurecer muito rapidamente, tomando para si responsabilidades que deveriam ser assumidas por adultos, como cozinhar, cuidar da casa e ajudar a mãe doente, até que sua avó – mãe de sua mãe – vem para ajudar. Porém, a presença autoritária da avó causa ainda mais conflitos, e a chegada do pai, que vive nos Estados Unidos com sua nova família, também não parece ajudar. 

É quando um monstro enorme, surgido na forma de uma velha árvore que está plantada no terreno da igreja nos fundos de sua casa,  aparece para ele, e promete contar ao menino três histórias, dizendo-lhe que ao final da terceira, o menino terá que contar a sua própria história e revelar a sua verdade. 

A história é magnífica, inesperada, tocante, comovente e reveladora. Esteja preparado para derramar muitas lágrimas e reviver muitas de suas próprias histórias.


FM DA RESENHA


Minha opinião pessoal sobre a história-


Eu me senti representada pelo O’Malley da história, pois lembrei de mim mesma quando passei pela perda de minha mãe. As muitas idas ao hospital, as muitas semanas de noites mal-dormidas ao lado dela, sentada em uma cadeira, observando seu sofrimento e esperando que ela melhorasse – ou, a terrível verdade, que algo acontecesse e mudasse a situação – me levaram a me sentir totalmente identificada com o menino da história, o que me causou a catarse final que eu precisava para me libertar dos meus próprios monstros, mesmo oito anos após a morte de minha mãe.


Do lado de fora do hospital, as coisas também iam de mal a pior, e ir para casa de manhã, sendo substituída por uma de minhas irmãs, não me trazia nenhum alívio. 


A história me ajudou a entender que todos temos monstros dentro de nós que precisam ser encarados e ouvidos a fim de que aprendamos que, afinal, somos todos muito parecidos em nossos dramas e perdas, e que aquilo que consideramos monstruoso dentro da gente, na verdade, é apenas o nosso lado humano. Olhar para esse lado não é fácil, e entende-lo, muito menos; mas quando finalmente fazemos isso, sentimos um alívio enorme, pois compreendemos que é normal chorar, é normal não aguentar tudo que acontece e enlouquecer de vez em quando, e acima de tudo, é normal desejar o fim do próprio sofrimento.


 E é normal não tentar ser um super-humano que aguenta tudo sozinho e que sente vontade de mandar para o inferno todos aqueles que pensam que é nossa obrigação carregar seus problemas para eles – e manda-los para o inferno de fato, sem sentir culpa. Sete Minutos Depois da Meia-Noite é uma história e tanto. A história que eu gostaria de ter escrito, e confesso que eu tinha material para cria-la.




segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O DIA DOS TRANSPAIS



Quando estamos diante de grandes mudanças, nos sentimos inseguros e a maioria de nós tenta agarrar-se àquilo que já conhece – nem sempre por maldade, mas por medo. E nessas tentativas de nos agarrarmos, de tentarmos continuar tendo as mesmas interpretações a respeito das coisas, o que permite que tenhamos a ilusão de estarmos seguros num mundo que já conhecemos e ao qual nos acostumamos, surgem os preconceitos.

Mas o mundo não pode esperar; assim, os grupos que estão envolvidos nessas mudanças e que delas dependem, passam a querer incuti-las à força em mentes que não estão preparadas para elas, o que só faz com que o medo e o preconceito aumentem ainda mais. 

Não posso obrigar ninguém a concordar comigo; mas preciso entender que se eu sou vegetariano, isso não significa que aqueles que gostam de comer carne são assassinos cruéis. Se eu sou trans, não posso forçar que héteros passem a me ver como alguém como eles – primeiramente, porque eu não sou. 

A Natura colocou Thammy Miranda em sua campanha de Dia dos Pais, como se fosse geneticamente possível que ela possa, algum dia, vir a ser um pai. Thammy jamais será pai, pois ela não é um homem. Mas ela pode sim, ser um excelente  transpai. Ao invés de tentar colocá-la como símbolo de uma classe que ela não representa, por que a Natura não cria o dia dos Transpais? Assim, cada um ficaria feliz dentro do seu quadradinho, respeitando o quadradinho do outro. 

Certa vez li uma frase que dizia: “Se precisa forçar, é porque não é o seu tamanho.” Hoje em dia existem muitas pessoas querendo forçar as outras a vestirem algo que não lhes serve – e fica apertado ou largo demais, ninguém se sente bem. Seria bem melhor se cada um tivesse a liberdade de “vestir” aquilo que o deixa feliz, respeitando e sendo respeitado.

Eu penso que a melhor coisa da vida, é não forçar a minha entrada em lugares onde eu sei que não serei bem-vinda, não tentar calçar um sapato que não me serve e não tentar comer uma coisa que eu sei que não vou conseguir engolir. Acho que o caminho para fazer com que as mudanças pelas quais o mundo está passando sejam aceitas – ou pelo menos, toleradas – seria cada grupo ficar no seu quadrado sem interferir no quadrado alheio, ou seja, se eu não sou aceito por uma determinada religião porque vou contra os seus preceitos, eu devo criar  a minha própria religião; se não me querem por perto, eu vou achar um lugar aonde eu sou bem-vindo, ao invés de me arriscar forçando a minha permanência em um grupo de pessoas que eu sei que me odeia. 

Hoje, apesar de ainda termos pessoas intolerantes e preconceituosas, as coisas melhoraram bastante. A tendência é que essas mudanças sejam lentamente absorvidas, pois novas crianças estão nascendo e crescendo, aprendendo coisas diferentes e vendo o mundo e as pessoas de formas diferentes. Não é preciso invadir a praia alheia, pois o sol é o mesmo e brilha para todo mundo. 

Tenho esperanças de que um dia olhemos uns para os outros sem nos preocuparmos com questões de gênero, etnia ou religião. Será algo tão natural, que nem passará pelas nossas cabeças alguma coisa como “Olhe, ele é preto/gay/índio!” Mas por enquanto, não é assim ainda. Forçar um entendimento em cabeças que não estão prontas para ele não vai fazer com que haja aceitação, e sim mais ódio, medo e preconceito.





sábado, 1 de agosto de 2020

TREVAS




Tem gente
Que traz dentro de si
Apenas trevas,
E as leva e as espalha
Pelas pedras do caminho.

Tem gente
Que leva uma faca
Sob a manga,
Arrasta pessoas em uma canga,
Prende passarinhos,
Destrói ninhos.

Tem gente
Que até se faz de amigo,
Mas traz na língua uma dormência,
Uma carência que vem do umbigo,
Espalha a maledicência.

Tem gente
Cuja presença sombria
Recacha a paz alheia,
Tricotando suas vítimas
Nas mais vis teias.

Tem gente
Que infelizmente,
Nem deveria ser chamada
De gente.







COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ

  Como se não houvesse amanhã, Ele acordou naquele dia se sentindo mais vivo, Abriu a janela e percorreu as curvas das montanhas Com as pont...