sábado, 24 de junho de 2017

É QUE ÀS VEZES, O ADEUS PESA...









Não, não pude olhar para trás, 
Atravessar aquela rua,
Ir ao pé da tua janela
E me despedir.

Não, eu  não pude hesitar,
Por um momento, pensar
Na tua dor, na tua espera,
Pois eu tinha que ir...

É que às vezes, o adeus pesa,
Não, não pude carregar
Tal palavra tão pesada
Na ponta da minha língua
Ao portal de quem me espera,
À beirada de um olhar
Que por tanto que perdeu,
Já tem tanto a derramar...




Imagem: Petrópolis, friozinho de ontem à noite






quinta-feira, 22 de junho de 2017

MINHA MISSÃO É ESTAR AQUI








Estava lendo  uma entrevista da psicóloga e personal coach americana Laura Ciel, no qual ela fala sobre aquele momento (momento este que todos nós vivemos ou viveremos, quem sabe, algumas vezes na vida) de transição; a hora em que, ao passarmos por dificuldades, olhamos em volta e nos fazemos perguntas como: “Por que estou aqui?” “Estou no caminho certo?” “Qual a minha missão, ou o meu propósito na vida?”

Bem, eu acredito que não existe um propósito na vida, mas vários, e não os encontramos porque sempre pensamos em algo muito grande: queremos ser heróis, ter nossos nomes estampados no Livro da História, descobrirmos a cura para doenças graves, ficarmos famosos. Pensamos em grandes feitos, grandes objetivos, grande reconhecimento por parte das outras pessoas. 

Acho que a minha missão é acordar todos os dias – até que um deles seja o último – e viver o que está diante de mim, na minha frente. Resolver os problemas que se apresentarem da melhor forma possível, procurando sempre aprender um pouco, mudar alguma coisa para melhor, mas sem pretensões absurdas e vaidosas de achar-me perfeita ou pensar ter alcançado um grande patamar espiritual. Ninguém aqui está muito acima ou muito abaixo; estamos todos mais ou menos no mesmo nível. 

Eu penso nas várias vezes em que alguém chegou para mim, inesperadamente, e me agradeceu por uma coisa que eu fiz e depois esqueci de ter feito; algo que para mim, não teve a menor importância (não fiz pensando que estava fazendo algo muito importante), mas para a pessoa, foi muito importante. 

Por exemplo: lembro-me de que ao assistir a missa de sétimo dia de um ex-aluno, que morreu bem jovem, a mãe dele – que eu não conhecia – me agradeceu, dizendo que eu tinha sido muito importante para ele naqueles momentos finais, pois durante as nossas aulas, eu deixava que ele falasse de tudo sem preconceitos, sem querer mentir para ele e dizer “Não, você não está morrendo, ainda vai viver muitos anos!” Eu apenas o escutava e dava a minha opinião quando ele me pedia. Jamais pensei que aquelas conversas fossem tão importantes para ele. 

Também fiquei muito feliz e agradecida nas várias vezes em que perfeitos estranhos me escreveram, dizendo que um dos meus textos os ajudou muito em alguns momentos de necessidade ou de dúvida. A gente faz as coisas e nem imagina de que maneira elas vão tocar os outros. 

Mas voltando a falar de missão, eu acho que todos nós temos várias: a pia cheia de louças para lavar é uma delas; a casa para limpar, ir para o trabalho todos os dias, mesmo estando cansados ou nos sentindo adoentados, desejarmos aquele bom dia à pessoa que está passando por nós e que talvez nunca mais vejamos, cuidar dos bichinhos que são colocados em nossas mãos, olhar as crianças, ensinar, aprender. E talvez a gente nem desconfie, mas temos muitas coisas a ensinar e a aprender. 

Minha missão é regar as plantas para que elas não morram; é trocar, todos os dias, a água dos beija-flores para que eles não fiquem doentes; é cuidar da minha casa e fazer a comida. Dar minhas aulas, ajudar alguém no que for possível.
Minha missão é estar aqui.





sexta-feira, 16 de junho de 2017

Metáfora









Às vezes,
há ainda uma  corrente
Muito fina e cristalina
Que quer correr para o mar,
Ainda há um par de pernas
Que caminham devagar, 
Mas que querem caminhar.

Há uma história em seu final,
Porém, algo a se contar
E também a se escrever;
Uma alma que pressente
Que as palavras são cansadas,
Que os olhos estão baços
Mas ainda querem ver.

Às vezes,
A memória se confunde,
Misturando em seu cadinho
O presente e o passado,
Mas ainda há um futuro,
Um epílogo iminente
Cujo fim está marcado.

Às vezes,
Ainda arde o desejo
De abrir portas e janelas,
E pôr aquele vestido
De saias muito rodadas
E pedir que um vento lúdico
Venha brincar, divertido,

Mas vem a voz do repúdio,
Aquela, que sempre diz “não”
E encerra o interlúdio
Com um só gesto de mão.

Às vezes, 
Ainda há um caminho
Com vontade de pegadas,
Há um pedaço de sonho
Sob as pálpebras fechadas,
Porém, à realidade,
Desfolha-se a rosa murcha
Debaixo dos olhos críticos
Que sentem-se ameaçados.

E um dia, sob a terra,
Ficará aquela história
De alguém que já se foi,
E nem fez muita questão
De incomodar a memória
De deixar uma lembrança
Num canto de coração.






Hai-Kai








Dia amanhece
No hálito, neblina 
Que o sol dissipa.







segunda-feira, 12 de junho de 2017

Onde Está a Barbárie?








Um rapaz é torturado em São Bernardo do Campo por suspeita de estar envolvido em um roubo de bicicleta. Um filme circula pelas redes sociais, no qual dois tatuadores tatuam na testa do rapaz os seguintes dizeres: “Sou ladrão e vacilão.” 

As notícias se cruzam, se entrecruzam e não atingem um senso comum: alguns dizem que o possível ladrão é deficiente mental, viciado em drogas e alcoólatra, enquanto outros afirmam que a vítima (ou quase vítima) do roubo é quem sofre de deficiência mental. Uns defendem o torturado, e outros, os torturadores. 
Fato é que da verdade nua e crua, ninguém sabe.

Um internauta decide fazer uma campanha de arrecadação a fim de pagar pela remoção dos dizeres tatuados na testa do rapaz, e sofre ameaças de morte por isso. Enquanto isso, outros o criticam alegando que, quando há uma campanha para ajudar alguém doente, não se arrecada tanto dinheiro assim – dizem que a quantia já ultrapassa quinze mil reais, em apenas alguns dias de campanha. 

Observando tudo isso, eu me pergunto: onde está a barbárie? Quem está certo, e quem está errado?


Só consigo ver erros em todos os lados. 

O rapaz errou por ter roubado, se é que ele realmente roubou. Errou ao tornar-se usuário de drogas e alcoólatra. A família dele errou por não dar a ele a assistência que ele precisa. Os torturadores erraram ao marcarem o rapaz por um crime que até agora as informações não confirmam se ele cometeu ou não. E mesmo que tivesse cometido, isto não justificaria alugar um quarto de pensão, sequestrar uma pessoa e praticar tortura contra ela, filmando e colocando tudo em redes sociais – o que prova a deficiência mental também dos tatuadores. 

Às vezes, na hora em que um criminoso é pego no ato, o sangue quente pode fazer com que alguém o agrida antes de chamar a polícia, mas não foi o caso. Os tatuadores em questão tiveram a frieza e o tempo de alugar um quarto de pensão, levando para lá todo o equipamento de tatuagem, sequestrar o garoto, tortura-lo e filmar tudo. Não foi uma reação causada pelo calor do momento: foi algo fria e calculadamente planejado. Não podemos aceitar que isso se torne comum. 

Afinal, em que mundo queremos viver? Torturar é normal agora?

Este é um tempo no qual circulam nas redes sociais toda espécie de barbáries e atrocidades, cometidas por alguns e defendidas ou criticadas por muitos. Vemos casos de idosos e crianças sendo agredidos covardemente, enquanto alguém filma tudo e põe na rede com dizeres como: “Compartilhem! Vamos pegar este criminoso!” Porém, quem filmou e nada fez também não cometeu crime? E quem, ao descobrir marcas e feridas no corpo de uma criança ou idoso, ao invés de chamar a polícia e demitir imediatamente o cuidador, preferiu colocar uma câmera escondida a fim de ‘pegar no flagra’ o torturador – sabendo que quem sofre as agressões poderia correr risco de morte – também não age de forma bárbara? 

Como eu poderia, sabendo que minha própria mãe ou avó, ou até meu bebê, tem marcas de agressões no corpo e que a próxima vez poderia ser a última, ter a frieza de instalar uma câmera e deixa-la ser agredida mais uma vez?

Aqui na minha cidade houve o caso de um homem que agrediu um cão de rua à facadas, causando sua morte. O caso aconteceu no meio da rua, e ninguém fez nada para impedi-lo. Todos sabem quem ele é, mas ninguém pensou em denunciá-lo ou impedi-lo enquanto o crime acontecia. Mas é claro, alguém filmou, fotografou e colocou no Facebook. Em um outro caso, um homem aparece colocando um cachorrinho dentro de uma caixa de papelão, enquanto vários observam e um deles filma tudo; depois, o tal homem ateia fogo à caixa, com o cão dentro, e ninguém faz absolutamente nada enquanto o cão grita, e após finalmente conseguir sair da caixa, sai correndo, em chamas. Quantos criminosos há nesta postagem?

Acho que quem assiste a estes acontecimentos e nada faz para impedi-los, é igualmente criminoso, e sádico, pois faz questão de assistir e depois partilhar na internet. E de que adianta submeter às pessoas a assistir estas filmagens, depois que o crime já aconteceu? Talvez, se ao invés de filmar, tivessem chamado a polícia, tais coisas não teriam acontecido! 

Sem contar os inúmeros casos de notícias falsas, acusando pessoas inocentes de maltratar animais ou vulneráveis, onde fotografias dos ‘torturadores’ são partilhadas enquanto o ódio é incitado contra estas pessoas inocentes, que acabam sendo torturadas e mortas por justiceiros. Eu me pergunto: por que ainda há pessoas que partilham coisas assim?

Existe uma divisão nos dias de hoje, entre os ‘bonzinhos’ e os ‘malvados.’ Mas pelo que vejo, esta divisão está ficando cada vez mais tênue, e a barreira entre a maldade e a bondade está sendo rompida pela hipocrisia e a vontade de aparecer. 

Quem filma coisas assim não é bonzinho: é um sádico. E o mal está vencendo, tomando conta do bem, contaminando o bom senso.

Está errado quem rouba, está errado quem tortura, está errado quem filma e posta na rede. E compartilhar cenas como estas – hoje eu compreendo – é o mesmo que dar suporte a esse tipo de coisa. Pois tudo o que eles querem, é notoriedade. Vídeos assim devem ser entregues à polícia, e não serem partilhados nas redes sociais. 






quarta-feira, 7 de junho de 2017

Tudo Vai Bem








Findo O trabalho, ao final de um dia,
Olhei para cima: o céu estrelado.
O dia se foi, e a lida, e a vida
Continuam sempre -  tudo vai bem...

Pois por sobre a casa a noite estendeu
O seu véu rendado, todo salpicado
De pequenos brilhos frios e espelhados
Esperança que aguarda o dia que vem.






quinta-feira, 1 de junho de 2017

A REALIDADE









Crônica publicada também em meu blog, A Casa & a Alma, e no Recanto das Letras.






No último sábado, ao conversar com um de meus alunos sobre questões da vida, me veio à mente uma frase: "A vida é uma pergunta retórica."  Para explicar melhor, uma pergunta retórica é aquela que não tem como objetivo exigir uma resposta, mas apenas causar uma reflexão. Talvez porque, na verdade, não haja uma resposta que se adeque a todas as realidades, crenças e vontades. Quando se trata de vida, o que a maioria das pessoas deseja ao formular uma pergunta, é uma resposta que se adapte às suas próprias crenças: o religioso quer acreditar que existe uma vida espiritual, e o ateu, que ela não existe. O Budista acredita no Nirvana, o Cristão, no Paraíso, o espiritualista, no Nosso lar, e o ateu, em nada.

 E nós seguimos, afirmando isto e aquilo, sem termos certeza de absolutamente coisa alguma. 

Minha única certeza, é quando abro os olhos de manhã e sinto que ainda estou por aqui. É a água fria quando lavo a louça na pia da cozinha, o barulho da vassoura varrendo o chão, o preparo da comida que vai saciar a minha fome, os cheiros que me cercam, os momentos em que estou brincando com meus cães, ou sentada no jardim de olhos fechados, escutando o vento e as centenas de sons que me cercam, sentindo o sol, a chuva, olhando as plantas, os animais, as árvores, ou as pessoas na rua. 

Mesmo assim, gosto de criar uma realidade alternativa que me proteja. O meu Nirvana, o meu Paraíso, o Meu Nosso Lar, onde existe uma casinha pintada de azul, no meio de um pequeno jardim. Na varanda, me esperam todos os bichinhos de quem já cuidei até hoje, desde que eu era criança. Lá me aguardam também uma porção de gente que se foi antes e que eu gostaria de rever. Quando eu chegar lá, eles estarão pela casa, e me receberão. 

Mas noutras vezes, eu prefiro crer que fecharei os olhos um dia e todas as minhas lembranças serão imediatamente apagadas, juntamente com todos os sinais conscientes da minha existência. Talvez eu me transforme em uma força neutra, que será reabsorvida por alguma fonte que a re-utilizará para criar algo novo. E nada do que sou restará. Minha personalidade morrerá, desaparecendo para sempre. 

Mas também há dias em que preferiria simplesmente deixar de existir. Não ser, sequer, este material etéreo que será reutilizado na criação de algo novo. Fechar os olhos, e sumir para sempre. Não ouvir mais nada, não ver mais nada, não dizer mais nada, não pensar mais nada. Não mais ser. 

E eu caminho entre estas três respostas, não sabendo qual delas - ou se uma delas -   é a certa para a minha pergunta retórica; então eu ponho minha mão sob a água gelada, e deixo que ela escorra sobre minha pele. Vou varrer o chão, passar roupas, limpar a casa, trabalhar... e percebo que, na verdade, esta é a única realidade que eu tenho agora, a única da qual tenho certeza que faço parte, e se assim é, pode ser a única que realmente tem importância neste momento. 






quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Minha Vida








Parada na esquina
De pé, 
Mas cansada,
A bolsa jogada nos ombros
Pronta para a viagem
Há tempos planejada.

Andando para lá e para cá,
Marcando o caminho
Ao longo da calçada,
Debaixo de chuva e de sol,
Olhar preso na esquina,
Atenta ao que chega pela estrada...

Assim estava a minha vida,
Contemplando um amanhã sem promessas,
Vazia dos olhos de Deus,
Às pressas,
A tomar conclusões
Sobre os desfechos,
Apertando todos os fechos
Sobre os quais estavam escritas
Mais de um milhão de formas
De "Adeus."





segunda-feira, 22 de maio de 2017

Não vai Parar de Chover






A água cai das nuvens, 
E escorre pelos flancos
Tão escorregadios
Sinuosas correntes.

Aos poucos, ela ganha
Os vãos dos meios-fios,
Ornamentando poças
Que formam espelhos frios.

A chuva está em tudo
Que eu toco, vejo e sinto,
Nas superfícies lisas
Salpicadas de frio.

Ela transborda os rios,
Entorta os galhos fracos
Que tombam, encharcados
Perdendo o desafio.

A chuva está lá fora,
Batendo nas vidraças,
Pedindo para entrar,
E eu sinto um arrepio...

Porque ela extravasa
De um coração sombrio
 Furando meu telhado,
Entrando em minha casa...

















VOCÊ CHEGOU










Antes,
Eu estava em paz,
Estava feliz.

Você chegou,
Grudado às solas dos sapatos
De quem entrava.

Espalhou sua nódia no tapete,
Seus passos sorrateiros 
Cruzaram o chão da sala
Deixando pegadas.

De repente,
A voz não convidada,
Bafejou em meus ouvidos,
Psicografada.

Lá se foi minha paz,
Lá se foi a harmonia
Tão cuidadosamente
Conquistada!

De repente,
Tua presença de serpente,
Funesta e sinuosa,
Estava nas paredes
Da minha casa.

Terei cuidado,
Pedirei que limpem os pés na soleira
Ou que tirem os sapatos
Na próxima chegada.





quinta-feira, 18 de maio de 2017

FATOS FÉTIDOS





Temer tremeu: não vou entrar em detalhes sobre o que aconteceu, porque todo mundo já sabe. Agora, acho que a única saída digna que lhe resta, é renunciar - mas duvido que, como Dilma não fez, ele largue o osso tão facilmente - são farinha do mesmo saco. Mais uma vez, talvez tenhamos que passar por um processo longo, doloroso e péssimo para a imagem do país, e consequentemente, para as relações internacionais: impeachment. 

Nunca gostei dele. Mas também não pensei que ele estivesse tão mergulhado nesse mar de lama. Como a maioria das pessoas, eu achava que talvez ele pudesse trazer alguma coisa melhor do que o governo PT.  Mesmo assim, não posso dizer que estou surpresa, porque qualquer coisa que venha da política, não tem mais o poder de me surpreender. 

Mas o incrível no meio de tudo isso que está acontecendo, é que ainda tem gente achando que as provas contra Temer inocentam Dilma, Lula e o PT.

Só que não.

Apenas mostram que ele é tão corrupto quanto qualquer um deles. E menos inteligente.

Como todo mundo, aguardo o próximo passo: eleções diretas? Eleições indiretas? Realmente espero que alguma coisa que valha a pena esteja acontecendo.

Mexeram no tacho da podridão, e o que estava no fundo veio para cima, contaminando tudo e fedendo mais do que esgôto a céu aberto. Mas isso precisava ser feito, cedo ou tarde. Vamos aguentar o cheiro e ver o que acontece. 

E de repente, a "Globo Golpista" jogou a caca no ventilador, e assim a Lava Jato tornou-se uma operação aceita e elogiada pelos de esquerda... e Lula vai ter que parar de usar a vitimização para defender-se, achando argumentos melhores do que dizer-se  perseguido por todos, porque agora sobrou pra todo mundo!

Estes acontecimentos deixarão espaço para uma porção de gente mal intencionada e oportunista que almeja acessar o poder, como o engravatadinho Dória (que para mim é um Collor II) , e tantos outros. Espero que a população fique mais esperta desta vez.





segunda-feira, 15 de maio de 2017

O Cadáver








O cadáver no meio da sala.

Alguns jogam pedras,
Outros, flores.
Alguns relembram como foi bom.
Outros maldizem o quanto foi ruim.

Mas cadáveres não se importam.

Cadáveres têm vida própria.

E quando começam a exalar o cheiro pútrido
(que a todos repele,
Talvez por fazê-los lembrar
que todos cheirarão igual)
Eles o enterram.

O cadáver não tem mais passado,
Nem se preocupa com o futuro.

Mas os que por ele zelam,
Ainda têm muito
Com o que se preocupar.

Ninguém argumenta
Com o cadáver,
Pois equivocadamente pensam
Que ele não é muito eloquente.

Se alguém o provoca,
Se alguém o indaga,
Se alguém o ama ou odeia,
Não é pela morte que ele representa,
Mas pela vida que há nele.

Todos serão cadáveres,
Alguns já são, e nem sabem.
Pretendem, de malas furadas,
Seguir sua tola viagem.

Cadáveres encontram aqueles
Que foram primeiro,
E constata que até eles
São cadáveres, mesmo que tenham
Seus nomes escritos na história.

Uma vida inteirinha
Ou um segundo que seja
De glória,
Não os salvou
De serem, no fim,
Cadáveres.

E os vivos os repetem,
Os citam, os utilizam
Como argumento para suas teorias
Quando as próprias teorias
Não se sustentam.

São cadáveres vivos, 
E fedem antes do tempo.





sexta-feira, 12 de maio de 2017

Soldadinho de Chumbo







Ah, soldadinho de chumbo,
Não és mais o mesmo!
O azul descascado da farda
De tanto segurá-lo entre as minhas mãos!
Os olhinhos de alfinete
Já desbotaram,
Mas as botas pretas e retintas
Guardam a glória 
Que ainda te sobrou!

Ah, soldadinho de chumbo,
Como, nos dias de infância,
Alegraste o meu mundo!
Eu te segurava, e tu andavas
Ao longo do áspero muro
Que circundava minha casa,
E depois, eu te esquecia
Sobre o gramado, e ficavas
Sozinho, enquanto chovia!

Ah, soldadinho de chumbo!
Ainda guardo memórias
De quando éramos unidos!
Eu te punha na cadeira,
Te ensinava uma lição
Enquanto apontava a lousa...
Meu aluno de brinquedo,
Ando pensando em derretê-lo,
Transformá-lo em outra coisa...





quinta-feira, 11 de maio de 2017

Lugar

Um lugar que ambos escolhemos, e ocupamos há mais de 34 anos





Ando me perguntando sobre meu lugar no mundo, e na vida das pessoas que me cercam. Através das nossas escolhas e das escolhas das pessoas que interagem conosco, vamos criando nossos lugares. Por exemplo, ao nascermos, temos o nosso lugar entre os pais e os irmãos; sabemos exatamente qual o nosso papel, e o papel dos demais. Mais tarde, na escola, geralmente escolhemos um local para nos sentarmos no primeiro dia de aula, e lá permanecemos o ano todo. Todo mundo sabe que aquele é o nosso lugar, e saberão que estamos ausentes quando ele estiver vazio. A cada ano, talvez mudemos de sala de aula, de escola e de professores, mas sempre escolheremos um lugar no qual nos sentimos bem, e se chegarmos atrasados e alguém ocupá-lo, pediremos que o cedam ao verdadeiro dono assim que chegarmos. 

Escolhemos os lugares onde vamos morar; estabelecemos o nosso endereço, com nome de rua e número de casa ou apartamento. É ali que moramos. É ali que estão as coisas que nos pertencem, é na casa onde vivemos que a nossa personalidade mais se faz confortável. 

E assim vamos construindo nossas vidas e estabelecendo os nossos lugares, tanto na família quanto nos grupos de amigos. 

Quando nos casamos, passamos a ocupar um lugar na vida de nossos cônjuges, e por conseguinte, nas famílias de nossos cônjuges. 

Porém, nem sempre este lugar é reconhecido ou respeitado. Às vezes, ele não é considerado. A fim de evitarmos situações desconfortáveis, muitas vezes acabamos por fazer vista grossa a muitas coisas que vemos, e fingimos não perceber outras que escutamos, sendo repetidamente deixados de lado ou excluídos das principais decisões - afinal , somos vistos como um apêndice, um membro invasor, um cisco, ou qualquer coisa assim. É muito triste quando isso acontece. 

Mas, quando acontece, o melhor não é calar-se e aceitar ser relegado ao cantinho, lá, onde querem que você permaneça para não atrapalhar. Não: precisamos lutar pelo lugar que conquistamos. Não podem simplesmente mover-nos daqui para lá, ou de lá para cá sempre que acharem conveniente!

Não importa quanto tempo passamos deixando para lá, aceitando tudo o que foi imposto, fingindo não ouvir ou perceber a fim de manter uma paz que não nos beneficia, a não ser a quem a impõe. Aprendi que tem um lugar aquele que o defende. É respeitado quem não admite ser deixado de lado. 

E se não for assim, a melhor coisa é procurar outro lugar. 










quarta-feira, 10 de maio de 2017

O Sonso







Todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já deparou com o sonso. Ele é aquele que sempre fica bem na foto, pois está sempre sorrindo, e tem um olhar bondoso e aparentemente sincero. Costuma falar baixo e não dizer diretamente o que pensa, preferindo expressar-se de forma mais dissimulada.

O sonso tem a habilidade de comer pelas beiradas. Rodeia o prato devagar, fingindo não sentir a voracidade que o aflige, e de repente, dá uma mordidinha. Geralmente, é uma mordidinha inocente, arranca só um pedacinho que não vai fazer muita falta; talvez, ninguém note. Mas ele não para por aí, pois a fome do sonso é insaciável. Logo depois, ele dá outra mordidinha, e mais outra, e mais outra.       Quando a gente percebe, o sonso já chegou no recheio do sanduíche, e não deixou nada para ninguém.

Uma das maiores habilidades do sonso, é a manipulação. Ele conta uma história pela metade, só até o ponto no qual ele sabe que receberá a aprovação dos seus ouvintes. O resto, ele prefere omitir. Ou então ele conta o restante da história apenas quando ele percebe que o seu ouvinte já caiu na sua teia, que ele armou com todo cuidado entre os arbustos para ninguém perceber. Gosta de contemplar o olhar perplexo e constrangido de sua vítima. O sonso é como uma aranha, que estende sua teia invisível esperando que um besourinho incauto fique preso nela. Depois, ele se aproxima e se alimenta dele.

O sonso gosta de todo mundo. Pelo menos, aparentemente. Morre de medo de entrar em conflitos, mas adora quando vê o circo pegar fogo. Especialmente se o incendiário foi ele. Ele se senta no alto, em uma posição confortável de onde ele possa ver todo o prédio em chamas, e quando alguém passa, balança a cabeça tristemente e comenta: “Que pena!”

Quando o sonso quer uma coisa, ele tenta obtê-la e não desiste. Porque o sonso é invejoso. E ele não tem pressa. A fim de conseguir o que quer, está disposto a esperar muitos anos. Ele muda de casaca e desiste de suas convicções, sejam elas quais forem, adotando novas crenças e defendendo novas causas se isso lhe trouxer algum benefício pessoal. Porque no fundo, as causas dos sonsos são apenas uma maneira de atingir metas pessoais. Podem ser Flamengo hoje, se o chefe for Flamengo, ou Fluminense amanhã, se o chefe mudar de time.
O sonso pensa no futuro!

O sonso não gosta muito de emitir suas opiniões, justamente porque sabe que elas precisam ser voláteis. Temem dizer alguma coisa que possa prejudicá-los, ou aos seus interesses, caso as coisas mudem no futuro. Lembram-se daquele antigo programa de humor, que em um dos quadros  falava da relação entre um funcionário e seu chefe? Toda vez que o chefe pedia uma opinião, o sonso retrucava: “O que o senhor acha?” Daí, logo após o chefe expressar seu pensamento, o sonso repetia: “Tirou daqui!”, apontando para a própria cabeça. Desta forma, o sonso estava sempre de bem com o chefe. 

E é assim que o sonso cai nas graças de todo mundo: sendo cordato, bonzinho, discreto... dissimulado.
O sonso sempre carrega uma caixinha de fósforos no bolso. E quando o circo pega fogo, ele culpa o palhaço.






terça-feira, 9 de maio de 2017

Dia Chegará






Dia chegará
Em que não haverá mais nada a se dizer.
Recolherei minhas folhas
(As secas e as de papel)
E partirei para o alto de alguma montanha,
Quem sabe, sentando-me em posição de lótus,
Pronta para fechar os olhos
E morrer.





segunda-feira, 8 de maio de 2017

Dos Sentimentos







A dor que dói em mim
Dói sempre bem antes
De doer em você.

Arranho meus braços,
Subo pelas paredes,
Perco a compostura,
Choro até morrer.

Enquanto isso,
Tu me observas, tranquilo,
O lenço pronto
Para me estender...

E quando eu me calo,
A tua dor, finalmente,
Começa a doer.

Dor atrasada,
Amplificada,
Que mais demora a morrer.

Mas lá estou eu,
Com o mesmo lenço
Lavado e perfumado,
A te oferecer.









quarta-feira, 3 de maio de 2017

JUNTO AO CORAÇÃO - Miniconto






Miniconto


"O coração do homem-bomba faz tum tum
Até o dia em que ele fizer bum!"

Zeca Baleiro



. . . .


Ela era linda, envolta em véus esvoaçantes de azul e dourado. A mecha de cabelo negro aparecia como uma faixa em volta da testa, debruando o véu. De vestido longo, sentada à mesa junto à porta do café movimentado, ela chamava a atenção de todos que entravam e saíam. 

Os homens ficavam encantados por seus olhos verdes, e as mulheres  admiravam sua beleza exótica com silenciosa inveja. Será que estaria esperando por alguém? Com certeza, uma jovem tão bonita não deveria estar sozinha em um país estranho. 

De onde estava, ela olhava as pessoas a sua volta, demorando-se nos rostos felizes das crianças e trocando sorrisos com elas, que ficavam encantadas pela moça bonita. Ela parecia absorver a atmosfera tranquila, o burburinho das conversas, os risos e vozes que se intercalavam, bebendo tudo aos golinhos junto com o seu chá. 

Ela aguardava um sinal. Apertava na mão a pequena chave dourada que lhe abriria as portas para uma vida perfeita. Junto ao coração, trazia um segredo  do qual ninguém suspeitava. Estava feliz, e emanava paz. Daqui a pouco, a bomba que estava escondida junto ao peito explodiria, transformando  tudo e todos em milhões de pedacinhos coloridos que a elevariam ao céu, onde ela era aguardada.






terça-feira, 2 de maio de 2017

PARADOXO









“A liberdade tem limites que a justiça lhes impõe.”     Seria bom se fosse verdade.
Jules Renard – Nascido em 22 de Fevereiro de 1864 em Châlons du Maine, Mayenne, França – Morto em  22 de Maio de 1910, em Paris, França) foi um escritor francês.

Através de tudo o que tem acontecido nos dias de hoje (e também ao lembrar-me de coisas que aconteceram há anos) tenho me perguntado quais são os limites entre o ser humano e o ser desumano. Olho e vejo tudo o que está acontecendo no nosso país – bilhões e bilhões, quantias de dinheiro público inimagináveis para mim e para todos nós, sendo roubados há anos, extraviados e usados para pagar propinas a políticos desonestos que jamais serão capazes de viverem o suficiente para desfrutarem dos frutos de seus roubos – talvez nem sua quinta geração consiga gastar tanto. O mais sério de tudo, é saber que tais despautérios causaram e causam as mortes de centenas de milhares de pessoas em hospitais públicos, que amargaram e amargam estar sem atendimento médico ou sem os medicamentos que necessitam para sobreviver. Morreram e morrem à míngua, enquanto os ladrões viajavam por aí e se empanturram em restaurantes caros, vestindo roupas de luxo e joias caríssimas. 

Alguns foram presos, outros já estão em “Prisão domiciliar”, comandando de casa seus “negócios” e desfrutando do luxo que roubaram. E é exatamente isto que acontecerá em breve a todos eles. Tenho pensado e concluo que a Lava-jato é um desperdício de tempo e dinheiro, já que no país não existem leis que mantenham tais pessoas na cadeia.

Lembro-me também das horríveis cenas de pessoas sendo decapitadas com facões, ao vivo e à cores, em rede nacional e internacional, por terroristas que dizem estarem apenas “lutando por suas causas.”  

E penso até aonde vai o limite do que se pode chamar de “Ser Humano.” Falta empatia. Falta colocar-se no lugar do outro e tentar sentir o que ele sente. Falta seguir aquela máxima que diz que não devemos fazer ao outro o que não gostaríamos que nos fosse feito. Quando uma causa passa por cima dos limites dos direitos alheios, ela deixa de ser uma causa justa e passa a ser fanatismo. Quando matar, depredar, roubar e agredir passam a ser comportamentos normais e maneiras de se protestar, a humanidade deixa de existir.

Existem opções? Existem escolhas, sim. Não precisamos refletir em nós o pior do outro. Existem mil maneiras de se protestar sem prejudicar a quem nada tem a ver com isso, e que na verdade, também sofre da mesma maneira que todos nós. Vocês acham mesmo que políticos se importam com o que acontece aos ônibus e patrimônio público destruídos? Acham que estão preocupados com os trens que deixaram de circular? Acham que eles sequer ligam? Quem sai prejudicado por estes atos, são aqueles mais humildes, que moram longe e precisam sair de casa às quatro da manhã e tomar duas ou três conduções para chegar ao trabalho, e depois, fazer todo o trajeto de volta! Político não toma café no bar da esquina que foi depredado, mas o bar da esquina depredado presta serviços e dá empregos a várias pessoas como eu e você. “Eles” não estão nem aí. Tais protestos não valem nada. Só ajudam à um pequeno número de sindicalistas que estão vendo suas mamatas ameaçadas. Pessoas que fingem que lutam pelos direitos dos trabalhadores enquanto estão envolvidas nas maiores sujeiras, quiçá, assassinatos. Pessoas que não trabalham. Acham mesmo que alguém está preocupado com os seus direitos de trabalhador? Ingenuidade sua.

Se fosse greve, bastaria que todos ficassem em casa e simplesmente não fossem trabalhar. Se fizéssemos isso por 3 dias apenas, os prejuízos seriam enormes, e seriam sentidos nos lugares certos. E a repercussão seria muito maior. 

Escuto e leio por aí coisas horríveis sobre a livre negociação entre patrões e empregados: os patrões terão prioridade, pois serão soberanos. Os trabalhadores não terão como negociar. 
Mas já não é assim? Não tem sido sempre assim? Quantas e quantas vezes tive que aceitar ter um salário mais baixo lançado em minha carteira de trabalho,  recebendo o restante “por fora”, porque o patrão não tinha como arcar com os impostos absurdos e com os ‘direitos trabalhistas’ exigidos pelo Governo? Não é difícil só para nós, mas para os patrões também.

Penso que os direitos trabalhistas garantiram apenas que ficaríamos submissos a salários baixos, presos a direitos que são bem menores do que os que merecemos, amargando anos de nossas vidas trabalhando em empregos que odiamos, sem controle sobre as nossas vidas, férias, viagens, horários.

Nós muitas vezes ficamos anos em empregos que detestamos apenas para garantir a tal ‘carteira assinada’ e os depósitos de FGTS, as férias pagas e a ‘garantia de estabilidade’ – que todo mundo sabe, não é garantia nenhuma. Sou um exemplo disso: durante anos amarguei trabalhar em lugares onde não era valorizada, apenas por medo de perder meus direitos de trabalhadora se me tornasse autônoma. Quando finalmente tomei coragem e decidi encarar, me arrependi pelos anos em que passei pastando o capim curto e limitado oferecido pelos meus ex-patrões – que também eram explorados pelo Governo e foram à falência ao serem obrigados a pagar verdadeiras fortunas para manter um funcionário. Posso não ganhar muito bem, mas faço o que quero, da maneira que acho melhor, organizo meus horários e negocio livremente com os meus clientes. E se algum deles não me agrada (e vice-versa) sou livre para não atende-lo mais. Da mesma forma, quem negociar livremente com seus patrões poderá escolher onde vai trabalhar com mais liberdade, pulando fora quando achar que está sendo explorado e começando a trabalhar no concorrente sem ter que pagar aviso prévio. Basta que cada um saiba seu verdadeiro valor e não se deixe enganar. 

Existem muitos países onde há livre negociação entre patrões e empregados. Quem garante seu trabalho é a qualidade dos seus serviços, e não seu sindicato. Sair por aí quebrando coisas e arriscando sua vida para lutar por seus “direitos” pode ser o avesso da sua liberdade pessoal. Talvez você esteja lutando pela manutenção da coleira que colocaram em seu pescoço desde quando você começou a trabalhar. Você pode sobreviver sem seu sindicato, mas ele não sobreviverá sem você. aquelas pessoas pelas quais você luta, pensando que está lutando por si mesmo, terão que trabalhar caso você não vá para as ruas. Elas não querem a sua liberdade; visam apenas manter seus próprios privilégios. 

Ninguém precisa tornar-se desumano para garantir que seja tratado com humanidade. É um paradoxo absurdo. Quem o aconselha que para defender seus direitos você deve matar, quebrar, destruir e prejudicar pessoas inocentes, só pode ter interesses escusos.




quarta-feira, 26 de abril de 2017

Por que os Vagalumes Estão Desaparecendo?


IMAGEM; GOOGLE





Eu, com essa velha mania de ler tudo o que me cai às mãos, acabei descobrindo a resposta para a pergunta acima em um saco de pão, enquanto tomava meu café da manhã.

Lembro-me de quando eu era criança, e bastava anoitecer para que o capim melado que cobria o morrinho ao lado de minha casa, e também as copas das árvores e demais plantas, ficassem cheios de luzinhas piscando; eu às vezes tinha a impressão de que as estrelas tinham descido do céu para brincar de esconder na Terra. 

Com o tempo, essas criaturinhas foram desaparecendo aos poucos, e presentemente, quando eu vejo um, chamo quem estiver perto para partilhar do meu encanto, tal a raridade desses bichinhos nos dias de hoje.

Lendo o texto no saco de pão, fiquei sabendo que as luzes dos vagalumes servem para atrair as criaturas do sexo oposto, para que possam acasalar. Porém, o texto explica que “Infelizmente, os vagalumes estão ameaçados de extinção pela forte iluminação das cidades, pois quando entram em contato com essa forte iluminação, sua bioluminescência é anulada, interferindo fortemente na reprodução, podendo até serem extintos." 

A luz artificial sobrepujando a luz natural e verdadeira.

O que li me fez pensar: nos dias de hoje, há luzes artificiais demais, não apenas nas grandes cidades, mas nos corações das pessoas. E essas luzes brilham com tal fulgor – embora sejam falsas – que acabam ofuscando as luzes verdadeiras, aquelas que brilham devagar e que verdadeiramente iluminam ao invés de ofuscarem. 

Na internet, que foi um dos melhores inventos do século, e que teve sua utilidade contaminada por pessoas oportunistas e de má índole, vemos isso o tempo todo: bandidos sendo fotografados ao lado de crianças sorridentes, meninas expondo seus corpos como se fossem mulheres adultas e estivessem à venda, baleias Azuis navegando pelo mar cibernético e afogando incautos, notícias falsas criando pânico e alimentando o ódio. E os vagalumes verdadeiros ficando cada vez mais ofuscados.

O brilho dos vagalumes servia para que eles se agrupassem e descobrissem seus parceiros, garantindo assim a sua sobrevivência. Por isso, eles todos brilhavam na medida certa, a fim de não causar ofuscação a nenhum deles. Mas hoje, a necessidade de destacar-se e de brilhar – achando-se no direito de escurecer e ofuscar quem estiver em volta – e a falta de senso de quem segue e aplaude tais comportamentos, está causando uma triste – e quem sabe, irrevogável -  inversão de valores. De repente, as coisas que as pessoas da minha geração cresceram aprendendo que eram erradas, tornam-se certas e são praticadas em plena luz do dia. A falta de respeito impera. A falta de carinho, solidariedade e paciência para esperar sua vez sem passar sobre ninguém que esteja na frente também. Nas grandes empresas, estimula-se a competição, e tudo o que for feito em busca de sucesso e promoção é considerado empenho e dedicação. 

Triste momento esse no qual vivemos.

Por isso, quando a noite chega, eu gosto de ir lá para fora e ficar olhando a mata que existe em frente à minha casa. Ouvindo o cricrilar dos grilos e os pios das corujas, eu firmo o olhar até que eu veja uma luzinha piscando, brincando de esconder com outra luzinha em volta da copa de alguma árvore. Daí, eu respiro fundo, pois sei que enquanto elas estiverem lá, haverá esperança. 




terça-feira, 25 de abril de 2017

Vinco









No espelho, eu te vi
Em meu rosto de manhã.

Foi antes do café; olhei-me, e lá estavas,
Cruzando a minha testa
De um lado ao outro,
Profundamente vincado.

Senti-o nas pontas dos dedos,
Lamentei a minha falta
Por não ter, há muito tempo,
Desfeito os laços.




Histórias Enfadonhas






Fotos de ovos para quem quiser babar em cima da minha fotografia




Olá amigos!


Por sugestão de alguém que realmente entende do assunto e sabe tudo sobre blogagem, e é o proprietário de um dos blogs mais lidos de toda a rede, decidi fazer uma pequena mudança no meu blog "Histórias por Ana Bailune." 

A partir de hoje, ele se chamará Histórias Enfadonhas, por Ana Bailune. Mas não se preocupem; as mesmas histórias longas, enfadonhas, cansativas e desinteressantes continuarão a ser publicadas, e para torná-las ainda menos lidas e mais desinteressantes, eu continuarei publicando-as em capítulos - todos longos e enfadonhos, como sempre foram!

Pelo amor de Deus, peço-lhes encarecidamente que tenham pena de mim, leiam e comentem as minhas historietas, pois se não o fizerem, eu sucumbirei às críticas e deixarei de publicar para sempre na internet. Talvez eu tente suicídio, como no jogo da Baleia Azul, ao saber que perdi meus seguidores não-leitores. E vocês serão os responsáveis.

Como todos sabem, eu escrevo apenas para ser lida e agradar aos meus milhões de leitores, e não porque eu gosto de escrever e faço da escrita um exercício de autoconhecimento e, ao mesmo tempo, uma maneira agradável de me divertir. Portanto, caio em depressão toda vez que escrevo alguma coisa e não tenho, pelo menos, 150 comentários. Ajudem-me! Tenham pena de mim!

Deixarei aqui o endereço do meu blog Histórias Enfadonhas por Ana Bailune. Espero que odeiem. Mas se odiarem, por favor, mintam e comentem: "Amei! Lindo e reflexivo!"


domingo, 23 de abril de 2017

HISTÓRIA



Macaquices no Museu Imperial




Anos e anos
Pilhas e pilhas
De datas e nomes
De nomes e datas
E traças.

Séculos e séculos
De feitos e glórias,
Inglórias vitórias,
Derrotas e mortes
E cortes.

Eras e eras
De guerras e acordos,
acordos e guerras,
Impérios desfeitos
E pleitos.

Essa é a sina
Dos homens na Terra,
Eterno Retorno,
Escrita no solo
A História.




terça-feira, 18 de abril de 2017

O DIABO RI




O diabo ri quando batemos panelas esperando que justiça seja feita. Ele adora, e se diverte quando vamos às ruas e quebramos coisas das quais precisaremos mais tarde – ônibus, bancos, monumentos e prédios públicos, restaurantes e lojas. 

O diabo dá gargalhadas quando ficamos nas redes sociais defendendo políticos corruptos, incapazes de percebermos que não existe um só deles que seja honesto, que valha a pena ou que mereça um segundo sequer da nossa consideração. Todos – absolutamente todos – estão envolvidos em mamatas e corrupção, utilizando dinheiro em suas campanhas que deveria ter sido usado para salvar as vidas de milhões de pessoas em hospitais, pessoas que morreram sem atendimento médico, sem remédios, sem leitos hospitalares, enquanto eles viajavam e se divertiam em países estrangeiros, e financiavam as mamatas dos ditos “artistas populares” que só os defendem porque são, eles mesmos, beneficiados com parte do dinheiro roubado. 

O diabo é um sujeito irônico, e ama ver as pessoas brigando para defenderem aqueles que passaram anos explorando-as, enganando-as, mentindo para elas, promovendo lavagens cerebrais e dando-lhes esmolas e migalhas (sempre muito menos do que elas teriam realmente direito a receber), e fazendo-as acreditar que as estão beneficiando, ajudando e assegurando seus direitos de cidadãos. O diabo ama ver pessoas chorando e agradecendo por terem recebido uma casinha minúscula e mal-acabada em algum lugar longe de tudo e um dinheirinho que mal dá para elas se alimentarem com dignidade, enquanto eles mesmos compram aviões banhados a ouro, viajam de primeira classe pelo mundo todo, plantam verdadeiros laranjais a fim de lavarem o dinheiro sujo que roubam do povo e recebem bilhões em propinas. 

O diabo adora ver o povo usando anéis de lata enquanto políticos enchem os dedos, pulsos e pescoços de joias valiosíssimas, e mesmo quando são presos, sabem que tudo será temporário, que mais cedo ou mais tarde eles estarão novamente do lado de fora, desfrutando do produto de seus roubos e falcatruas, reeleitos pelas mesmas pessoas a quem roubaram e enganaram. 

O diabo ama aqueles que têm memória fraca. E também, principalmente, aqueles que se recusam a enxergar o óbvio.

O diabo ri, pois ele adora ver o povo fazendo papel ridículo.



É QUE ÀS VEZES, O ADEUS PESA...

Não, não pude olhar para trás,  Atravessar aquela rua, Ir ao pé da tua janela E me despedir. Não, eu  não pude hes...