segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Morrer de Fome







Existem várias formas de se morrer de fome. A forma física é dolorida, cruel, inadmissível. Acho simplesmente bizarro que em pleno século XXI ainda haja pessoas que morrem de fome pelo mundo, porque a distribuição de comida é tão injusta. Todos nós cometemos o crime de jogar comida fora, nem que seja aquela sobrinha de arroz no fundo da panela, o pão que endureceu, a comida que foi feita a mais e ninguém comeu e acabou estragando. Somos campeões em desperdício. 

Mas há uma forma de morrer de fome que é mais lenta, talvez fisicamente menos dolorida, mas que mata uma coisa muito mais importante do que o corpo: mata a alma. É quando alguém delimita nossos caminhos, dizendo por onde podemos ou não seguir, a quem adorar e a quem odiar, quanto dinheiro podemos ter, onde podemos morar, e com quem, a quem pertencerá aquilo que produzimos através do nosso trabalho, quais ideias podemos propagar e quais ideias devemos calar sob risco de morte. 

E ficam as pessoas que morrem desta morte vivendo em um inferno em vida, onde a miséria é disfarçada em forma de comida. Porque não é só a fome que traz a miséria. Existe a miséria espiritual, que consiste em termos mordaças sobre a boca, vendas nos olhos, braços amarrados e sonhos castrados.

Morreu Fidel Castro. É claro que isto não vai resolver todos os problemas do mundo. Não morrerão com ele a memória das centenas de milhares de pessoas que ele exterminou, torturou, exilou e baniu do país. Ainda há seus herdeiros, ainda há a sua filosofia egoísta que teima em clamar ser possível dividir tudo por igual, desde que a maior parte fique com eles. Mas em vista de tudo o que vem acontecendo no Brasil, considero a morte de Fidel exatamente neste momento, simbólica.

Tomara que eu esteja certa.

ALELUIA!!!!




Google, O Paaaai






Ainda me lembro de quando eu fazia pesquisas para a escola: primeiro, ia a uma biblioteca e pesquisava o assunto em vários livros diferentes, selecionando (e copiando à mão) as partes que interessavam para a minha pesquisa; depois, chegava em casa e procurava figuras em revistas a fim de ilustrar meu trabalho (piquei muitas revistas das minhas irmãs e levei algumas broncas por isso); depois, passava o material todo a limpo, torcendo para não errar (alguns professores não admitiam qualquer tipo de rasura, e tinha que começar tudo de novo se cometesse algum errinho). Também tinha que fazer uma capa para o trabalho, com letras de imprensa para o título, colorindo com canetas hidrocor. Eu, que nunca tive habilidade para desenho, sofria muito nessa parte.

Levava pelo menos quatro horas para terminar tudo, sem contar a parte da pesquisa, que significava ter que tomar um ônibus, ir até a biblioteca, ficar lá uma tarde inteira e depois tomar outro ônibus para casa.

Hoje em dia, as crianças tem a opção de procurar no Google, e encontram textos, fotos e vídeos com documentários e depoimentos sobre o assunto que desejam aprender. Às vezes, isso pode ser muito negativo – há muita fofoca e mentira na internet – mas para confirmar informações, basta que se procure em vários sites e cruze as informações que encontrou. Também há várias enciclopédias online, além da Wikipedia, uma enciclopédia interativa.

Mas vejo pessoas partilhando posts que propagam mentiras absurdas, sem nem mesmo checar as fontes. Isso só serve para espalhar ódio. Também há os que propagam suas fontes de informações tendenciosas, a fim de confirmar suas teorias, mesmo que o óbvio prove o quanto elas estão erradas.

Mesmo assim, a internet e o Google são excelentes fontes de informação! Por que não aproveitar tais recursos, se eles são mais práticos e muito mais rápidos!

Os livros nos quais estudávamos história não eram totalmente confiáveis – visto a História do Brasil que aprendemos, e que contém informações equivocadas. Hoje mesmo, os livros liberados pelo MEC vem cheios de erros. Da mesma forma, nem tudo o que está online é confiável. Porém, acho um tremendo sinal de atraso considerar que tudo o que está no Google seja mentiroso. Através deste site de busca, podemos encontrar diferentes opiniões sobre o mesmo assunto, e lendo com atenção, tirar as nossas próprias conclusões.

Hoje em dia existem muitos livros de papel tendenciosos, escritos a fim de mostrar o que é interessante para esta ou aquela filosofia, e esconder o que não é. Como existem cientistas pagos capazes de provar qualquer teoria – até mesmo a de que maconha faz bem à saúde – existem escritores capazes de provar qualquer teoria que desejem, exercendo seu poder de persuasão e usando palavras bonitas. 
Mas na prática, as coisas podem ser bem diferentes.

Creio que a melhor forma de lidar com essa enxurrada de informações que nos assola diariamente, é usar o nosso discernimento; ler, sem preconceitos, sobre vários assuntos, cruzar informações e tirar conclusões.

Observar cuidadosamente o que se passa em volta, por exemplo, as reações de quem defende isto ou aquilo, pois quando é preciso matar, xingar, ridicularizar ou ameaçar outras pessoas para que uma ideia predomine, é impossível que advenha de tais práticas alguma coisa positiva.

Quem chama o outro de burro ou de ignorante, na verdade está afirmando seu preconceito e sua própria ignorância, pois só admite uma única verdade: a sua. Pessoas assim são pretenciosas e fanáticas. Melhor fugir delas.




quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A Morte Não Mata




A Morte Não Mata


A morte não afasta; até aproxima
Agora  e para sempre, pelo pensamento
O que já está fora e o que ficou dentro,
E que pelo físico se afastaria.

A morte não mata o amor, nem o ódio,
Não se deixa de amar, ou se passa a amar...
Um foi, um ficou, mas se o laço ainda existe,
Não há recomeço, nem mesmo algum pódio.

A morte é apenas janela fechada,
Mas ainda há a casa, e o seu morador
Que guarda a saudade, ou todo o rancor
Daquele que passa por sua fachada.

A morte não mata; o morto não morre,
Pois a sua ausência ainda traz dor
(Quem sabe, alegria, se não houve amor)
Quem fica carrega consigo as lembranças.

Mas e quem se foi – lembrar-se há, ainda,
De quem adorou ou odiou nessa vida?
Eu creio que ‘sim’ é a certa resposta,
Não há mais a chave, mas ficou a porta.






"O amor não mata a morte, a morte não mata o amor. No fundo, entendem-se muito bem. Cada um deles explica o outro."

Jules Michelet







Sentidos








Eu acho que o amor
É uma briga de sentidos:
Cheiros, sabores, cores, sons
Ecoando em vários tons
Na ansiedade de um par de ouvidos.

Uns pensam que amor é só sentimento,
Volátil, feliz ou sofrível,
Um sentir que ninguém explica
Porque não cabe em ‘sim’ ou ‘não.’
Mas eu acho que amor é carne, alma e sangue,
Um pouco abaixo da loucura
Que se situa na paixão.

Depois, o fogo abranda, e ficam
Entre os gritos, silêncios e meiguices,
As brasas quentes e vermelhas
As mesmas que nos aquecerão
(Meias de lã não bastarão)
Nas noites frias da velhice.





terça-feira, 22 de novembro de 2016

Momento de Paz




O Paraíso
É quando estás em paz,
Envolto em branco
Bem no meio do arco-íris,
Descansando na  serenidade,
Sem querer prender a liberdade.

Estar em paz, é não querer mais nada,
A não ser agradecer pelo que tem,
Pelo que já é, e até
Pelo que jamais poderá ser.

É sentar-se lá fora, sobre a grama,
E fechar os olhos para melhor ver,
Abrir os sentidos,
Sentir no vento os cantos dos pássaros
Vindo, vindo, vindo, vindo...

Se houver chuva caindo,
Multipartir-se com as gotas
E cair junto com elas,
Achando que o dia é lindo,
Lindo, lindo, lindo, lindo...




sábado, 19 de novembro de 2016

VIDA







Sons de cristais que brindam,
Sons de cristais que quebram:
Assim tem sido minha vida
Nos caminhos que me levam.

Sonhos e pesadelos,
Vontade de despertar
Ou de dormir para sempre
E nunca mais acordar.

Cheiro de flor e mato,
Cheiro de asfalto quente:
Eu sigo, aceitando os fatos
No meio de tanta gente.

Ora triste, ora contente,
Assim como todo mundo
Que vai procurando um rumo
Entre o raso e o profundo.



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lembrança de um Dia Feliz - e Outras Lembranças






Não sei por que eu fui me lembrar deste dia logo hoje, que está chovendo e faz frio. Mas de repente, ele me surgiu lá do baú das coisas perdidas, quem sabe, trazido à tona pelas gotas pesadas de chuva que caem umas sobre as outras, e que eu - enquanto esperava por meu aluno - olhava da janela. 

Era uma tarde de verão. Minha mãe tinha um irmão por parte de mãe que morava em São Paulo, de cuja existência ela só ficou sabendo depois de adulta. Ele às vezes costumava nos visitar, e quando vinha, dormia no sofá da sala, e trazia alguém com ele: uma das filhas ou sobrinhas. Eu gostava muito do Tio Eugênio. Ele fumava muito, e vivia tossindo. Toda vez que ele tossia, colocava a mão sobre o coração e respirava fundo, os olhinhos caídos, e dizia: "Meu coração vai falhar a qualquer momento..." Na verdade, ele viveu bastante, embora pudesse ter vivido bem mais se não fumasse tanto. 

Naquele dia, ele estava lá em casa. Estava sol e muito calor, e eu e minha irmã, que estávamos usando biquines, brincávamos de correr uma atrás da outra pelo quintal  levando baldes de água que jogávamos uma na outra de surpresa. Acho que eu tinha uns dez anos, se muito... não aconteceu nada de especial naquele dia. Não existe nada que eu gostaria de deixar registrado, algo que alguém tenha dito ou feito que justifique uma crônica como esta. Não existe nenhuma mensagem construtiva em nada disso. 

Minha mãe era viva, e jovem. Depois da correria e dos baldes d'água, houve um café da tarde à mesa da cozinha, preparado por ela. 

Eu me lembro dos meus pés descalços e da lama no quintal. Lembro-me do contato gelado da água em meu corpo e de minha mãe ralhando: "Vocês vão pegar um resfriado!" Lembro do Tio Eugênio encostado à parede, do lado de fora da casa, observando nossa brincadeira. Eu me lembro do sol brilhando, o céu azul, os cachorros (tínhamos muitos) correndo para tentar escapar das rebarbas da água. E minha mãe disse; "Aproveitem e reguem as plantas do canteiro para mim!" E a gente ficava na frente do canteiro, de modo que a água caísse nele quando a jogávamos uma na outra. 

Também me lembrei, enquanto escrevia, das guerras de lama, mamona e limão que fazíamos com os colegas na rua. Só bem mais tarde ficamos sabendo que mamonas eram plantas venenosas, e que os limões podem manchar a pele em contato com o sol. Mas no nosso tempo, isso não acontecia; Deus poupa as crianças, os bêbados e os loucos. Sobrevivemos ao Ki-suco - uma bebida feita de química, aromatizantes artificiais, corantes e conservantes. A língua ficava roxa ou rosa quando bebíamos, dependendo do sabor escolhido. Sobrevivemos ao açúcar, que era propagandeado na TV como sendo uma fonte de energia para as crianças. Nós comíamos doces que ficavam pegando poeira sobre o balcão do bar do 'seu' Manoel, e comíamos do pão que era embrulhado com folhas de papel de pão que ele cuspia no dedo para separar umas das outras. E nós sobrevivemos. 

Quando chovia muito, nós andávamos pela enxurrada da rua, água pelos tornozelos, e costumávamos também tomar banho numa sobra de água da antiga CAEMPE que corria bem ao lado do portão da nossa casa, em um bueiro aberto e comprido. Nunca soubemos se aquela água era limpa. Imaginem, naqueles tempos tinha tanta água em Petrópolis, que sobrava e era jogada fora.

Eu abraçava cachorros e gatos que raramente tomavam banho. Tinha galinhas, porquinhos da índia e hamsters. Brincava com besouros, joaninhas, lagartas, formigas e borboletas. Fazia bolinhos de terra. Minha vida não era lá muito higiênica, se comparada à vida das crianças de hoje, mas eu era feliz. 

Por que eu fui lembrar de tudo isso? Sei lá. Acho que estou ficando velha mesmo.




quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Se Você me Deixar







Se você for embora,
Não vai levar consigo um pedaço meu,
Não me fará andar pela rua, entre o breu,
Nem ficarei cheirando a tua camisa usada.

Não, não vou ficar aqui, te esperando voltar,
A cama desfeita, a luz apagada,
A chorar, encharcando a fronha onde eu bordei
Teu nome com tanto zelo, no meu travesseiro.

Se você for embora,
O tempo vai passar, e eu vou te esquecer
(Mas escolha ir embora sem jamais morrer)
Pois o vento e a chuva levam tudo o que fica
E o teu nome vai embora na enxurrada, a escorrer...

Sei que o que sempre houve morrerá aqui,
Porque a vida seguirá, e o tempo não para
Para contarmos o tempo, nem ao sentirmos saudade...

Porém, há uma grande verdade que o futuro assiste,
Ao olhar para trás, lembrar você há de deixar-me
Mesmo que só às vezes, tremendamente triste...




No link abaixo, eu cantando Tim Maia








domingo, 6 de novembro de 2016

Lembrança







Quem morre,
É como um pássaro que se lança num abismo
E nunca mais pousa.

Gosto de olhar para o céu
E pensar em voos eternos,
Asas que movem-se, abertas
Por sobre a saudade dos vivos.
Estranho, como nos tornamos
Tão próximos de quem se vai,
Pois é possível, sempre,
Olhar para cima e revê-los,
Abranger distâncias 
Através dos pensamentos.

E essas águias que planam,
O que sentem?
Escutam as preces sopradas,
Ou pairam sobre as saudades
Num voo longo e solitário
Sem pousos, sem sofrimentos,
Adormecidos?

Mas há manchas no azul,
Há sombras dentro das nuvens
E um brilho diferente 

REFLEXÃO

Já muito andei sem enxergar, sem ver, O que me fez e me desfez, a fome... "Ana" é o nome que alguém me deu, M...