sexta-feira, 30 de junho de 2017

O Vaso à Janela









Aquele vaso à janela
Onde mora a flor
De pétalas perfumadas
E cintilantes,
As folhas erguidas ao céu
Como numa prece constante,
Aquela flor sempre igual
Que atrai teus olhos
Ao inclinar-se, feliz,
À brisa dançante...

E tu a regas, diariamente 
Mostrando, contente, a tua flor
A todos os visitantes...
E um dia, de manhã,
Tu olhas na direção
Da janela onde ela fica
E vê que já não é bonita,
Até que, de repente,
Ela já não é...

E perplexo diante de um vaso
Vazio de qualquer beleza
Tu ficas, de olhos surpresos
Pensando na flor que se foi,
Guardando uma pétala caída
Dentro do livro
Da tua vida.

E assim, aprendes a viver
Da memória daquela flor,
Daquele efêmero ser
Que te tornou diletante,
O teu amor que se foi,
A tua flor inconstante...



















quarta-feira, 28 de junho de 2017

Anoitecer Suavemente...





Anoitecer devagarinho,
Suavemente,
Como uma teia de aranha que voa
Pelo ar,
Brilhando sem se notar...

Anoitecer sem pretensões,
À voz do vento,
Ao viajar por entre as cores
Crepusculares...

Anoitecer por toda a vida,
Eternamente,
Trazer por dentro o brilho fosco
Do luar de agosto...





sábado, 24 de junho de 2017

É QUE ÀS VEZES, O ADEUS PESA...









Não, não pude olhar para trás, 
Atravessar aquela rua,
Ir ao pé da tua janela
E me despedir.

Não, eu  não pude hesitar,
Por um momento, pensar
Na tua dor, na tua espera,
Pois eu tinha que ir...

É que às vezes, o adeus pesa,
Não, não pude carregar
Tal palavra tão pesada
Na ponta da minha língua
Ao portal de quem me espera,
À beirada de um olhar
Que por tanto que perdeu,
Já tem tanto a derramar...




Imagem: Petrópolis, friozinho de ontem à noite






quinta-feira, 22 de junho de 2017

MINHA MISSÃO É ESTAR AQUI








Estava lendo  uma entrevista da psicóloga e personal coach americana Laura Ciel, no qual ela fala sobre aquele momento (momento este que todos nós vivemos ou viveremos, quem sabe, algumas vezes na vida) de transição; a hora em que, ao passarmos por dificuldades, olhamos em volta e nos fazemos perguntas como: “Por que estou aqui?” “Estou no caminho certo?” “Qual a minha missão, ou o meu propósito na vida?”

Bem, eu acredito que não existe um propósito na vida, mas vários, e não os encontramos porque sempre pensamos em algo muito grande: queremos ser heróis, ter nossos nomes estampados no Livro da História, descobrirmos a cura para doenças graves, ficarmos famosos. Pensamos em grandes feitos, grandes objetivos, grande reconhecimento por parte das outras pessoas. 

Acho que a minha missão é acordar todos os dias – até que um deles seja o último – e viver o que está diante de mim, na minha frente. Resolver os problemas que se apresentarem da melhor forma possível, procurando sempre aprender um pouco, mudar alguma coisa para melhor, mas sem pretensões absurdas e vaidosas de achar-me perfeita ou pensar ter alcançado um grande patamar espiritual. Ninguém aqui está muito acima ou muito abaixo; estamos todos mais ou menos no mesmo nível. 

Eu penso nas várias vezes em que alguém chegou para mim, inesperadamente, e me agradeceu por uma coisa que eu fiz e depois esqueci de ter feito; algo que para mim, não teve a menor importância (não fiz pensando que estava fazendo algo muito importante), mas para a pessoa, foi muito importante. 

Por exemplo: lembro-me de que ao assistir a missa de sétimo dia de um ex-aluno, que morreu bem jovem, a mãe dele – que eu não conhecia – me agradeceu, dizendo que eu tinha sido muito importante para ele naqueles momentos finais, pois durante as nossas aulas, eu deixava que ele falasse de tudo sem preconceitos, sem querer mentir para ele e dizer “Não, você não está morrendo, ainda vai viver muitos anos!” Eu apenas o escutava e dava a minha opinião quando ele me pedia. Jamais pensei que aquelas conversas fossem tão importantes para ele. 

Também fiquei muito feliz e agradecida nas várias vezes em que perfeitos estranhos me escreveram, dizendo que um dos meus textos os ajudou muito em alguns momentos de necessidade ou de dúvida. A gente faz as coisas e nem imagina de que maneira elas vão tocar os outros. 

Mas voltando a falar de missão, eu acho que todos nós temos várias: a pia cheia de louças para lavar é uma delas; a casa para limpar, ir para o trabalho todos os dias, mesmo estando cansados ou nos sentindo adoentados, desejarmos aquele bom dia à pessoa que está passando por nós e que talvez nunca mais vejamos, cuidar dos bichinhos que são colocados em nossas mãos, olhar as crianças, ensinar, aprender. E talvez a gente nem desconfie, mas temos muitas coisas a ensinar e a aprender. 

Minha missão é regar as plantas para que elas não morram; é trocar, todos os dias, a água dos beija-flores para que eles não fiquem doentes; é cuidar da minha casa e fazer a comida. Dar minhas aulas, ajudar alguém no que for possível.
Minha missão é estar aqui.





sexta-feira, 16 de junho de 2017

Metáfora









Às vezes,
há ainda uma  corrente
Muito fina e cristalina
Que quer correr para o mar,
Ainda há um par de pernas
Que caminham devagar, 
Mas que querem caminhar.

Há uma história em seu final,
Porém, algo a se contar
E também a se escrever;
Uma alma que pressente
Que as palavras são cansadas,
Que os olhos estão baços
Mas ainda querem ver.

Às vezes,
A memória se confunde,
Misturando em seu cadinho
O presente e o passado,
Mas ainda há um futuro,
Um epílogo iminente
Cujo fim está marcado.

Às vezes,
Ainda arde o desejo
De abrir portas e janelas,
E pôr aquele vestido
De saias muito rodadas
E pedir que um vento lúdico
Venha brincar, divertido,

Mas vem a voz do repúdio,
Aquela, que sempre diz “não”
E encerra o interlúdio
Com um só gesto de mão.

Às vezes, 
Ainda há um caminho
Com vontade de pegadas,
Há um pedaço de sonho
Sob as pálpebras fechadas,
Porém, à realidade,
Desfolha-se a rosa murcha
Debaixo dos olhos críticos
Que sentem-se ameaçados.

E um dia, sob a terra,
Ficará aquela história
De alguém que já se foi,
E nem fez muita questão
De incomodar a memória
De deixar uma lembrança
Num canto de coração.






Hai-Kai








Dia amanhece
No hálito, neblina 
Que o sol dissipa.







segunda-feira, 12 de junho de 2017

Onde Está a Barbárie?








Um rapaz é torturado em São Bernardo do Campo por suspeita de estar envolvido em um roubo de bicicleta. Um filme circula pelas redes sociais, no qual dois tatuadores tatuam na testa do rapaz os seguintes dizeres: “Sou ladrão e vacilão.” 

As notícias se cruzam, se entrecruzam e não atingem um senso comum: alguns dizem que o possível ladrão é deficiente mental, viciado em drogas e alcoólatra, enquanto outros afirmam que a vítima (ou quase vítima) do roubo é quem sofre de deficiência mental. Uns defendem o torturado, e outros, os torturadores. 
Fato é que da verdade nua e crua, ninguém sabe.

Um internauta decide fazer uma campanha de arrecadação a fim de pagar pela remoção dos dizeres tatuados na testa do rapaz, e sofre ameaças de morte por isso. Enquanto isso, outros o criticam alegando que, quando há uma campanha para ajudar alguém doente, não se arrecada tanto dinheiro assim – dizem que a quantia já ultrapassa quinze mil reais, em apenas alguns dias de campanha. 

Observando tudo isso, eu me pergunto: onde está a barbárie? Quem está certo, e quem está errado?


Só consigo ver erros em todos os lados. 

O rapaz errou por ter roubado, se é que ele realmente roubou. Errou ao tornar-se usuário de drogas e alcoólatra. A família dele errou por não dar a ele a assistência que ele precisa. Os torturadores erraram ao marcarem o rapaz por um crime que até agora as informações não confirmam se ele cometeu ou não. E mesmo que tivesse cometido, isto não justificaria alugar um quarto de pensão, sequestrar uma pessoa e praticar tortura contra ela, filmando e colocando tudo em redes sociais – o que prova a deficiência mental também dos tatuadores. 

Às vezes, na hora em que um criminoso é pego no ato, o sangue quente pode fazer com que alguém o agrida antes de chamar a polícia, mas não foi o caso. Os tatuadores em questão tiveram a frieza e o tempo de alugar um quarto de pensão, levando para lá todo o equipamento de tatuagem, sequestrar o garoto, tortura-lo e filmar tudo. Não foi uma reação causada pelo calor do momento: foi algo fria e calculadamente planejado. Não podemos aceitar que isso se torne comum. 

Afinal, em que mundo queremos viver? Torturar é normal agora?

Este é um tempo no qual circulam nas redes sociais toda espécie de barbáries e atrocidades, cometidas por alguns e defendidas ou criticadas por muitos. Vemos casos de idosos e crianças sendo agredidos covardemente, enquanto alguém filma tudo e põe na rede com dizeres como: “Compartilhem! Vamos pegar este criminoso!” Porém, quem filmou e nada fez também não cometeu crime? E quem, ao descobrir marcas e feridas no corpo de uma criança ou idoso, ao invés de chamar a polícia e demitir imediatamente o cuidador, preferiu colocar uma câmera escondida a fim de ‘pegar no flagra’ o torturador – sabendo que quem sofre as agressões poderia correr risco de morte – também não age de forma bárbara? 

Como eu poderia, sabendo que minha própria mãe ou avó, ou até meu bebê, tem marcas de agressões no corpo e que a próxima vez poderia ser a última, ter a frieza de instalar uma câmera e deixa-la ser agredida mais uma vez?

Aqui na minha cidade houve o caso de um homem que agrediu um cão de rua à facadas, causando sua morte. O caso aconteceu no meio da rua, e ninguém fez nada para impedi-lo. Todos sabem quem ele é, mas ninguém pensou em denunciá-lo ou impedi-lo enquanto o crime acontecia. Mas é claro, alguém filmou, fotografou e colocou no Facebook. Em um outro caso, um homem aparece colocando um cachorrinho dentro de uma caixa de papelão, enquanto vários observam e um deles filma tudo; depois, o tal homem ateia fogo à caixa, com o cão dentro, e ninguém faz absolutamente nada enquanto o cão grita, e após finalmente conseguir sair da caixa, sai correndo, em chamas. Quantos criminosos há nesta postagem?

Acho que quem assiste a estes acontecimentos e nada faz para impedi-los, é igualmente criminoso, e sádico, pois faz questão de assistir e depois partilhar na internet. E de que adianta submeter às pessoas a assistir estas filmagens, depois que o crime já aconteceu? Talvez, se ao invés de filmar, tivessem chamado a polícia, tais coisas não teriam acontecido! 

Sem contar os inúmeros casos de notícias falsas, acusando pessoas inocentes de maltratar animais ou vulneráveis, onde fotografias dos ‘torturadores’ são partilhadas enquanto o ódio é incitado contra estas pessoas inocentes, que acabam sendo torturadas e mortas por justiceiros. Eu me pergunto: por que ainda há pessoas que partilham coisas assim?

Existe uma divisão nos dias de hoje, entre os ‘bonzinhos’ e os ‘malvados.’ Mas pelo que vejo, esta divisão está ficando cada vez mais tênue, e a barreira entre a maldade e a bondade está sendo rompida pela hipocrisia e a vontade de aparecer. 

Quem filma coisas assim não é bonzinho: é um sádico. E o mal está vencendo, tomando conta do bem, contaminando o bom senso.

Está errado quem rouba, está errado quem tortura, está errado quem filma e posta na rede. E compartilhar cenas como estas – hoje eu compreendo – é o mesmo que dar suporte a esse tipo de coisa. Pois tudo o que eles querem, é notoriedade. Vídeos assim devem ser entregues à polícia, e não serem partilhados nas redes sociais. 






quarta-feira, 7 de junho de 2017

Tudo Vai Bem








Findo O trabalho, ao final de um dia,
Olhei para cima: o céu estrelado.
O dia se foi, e a lida, e a vida
Continuam sempre -  tudo vai bem...

Pois por sobre a casa a noite estendeu
O seu véu rendado, todo salpicado
De pequenos brilhos frios e espelhados
Esperança que aguarda o dia que vem.






quinta-feira, 1 de junho de 2017

A REALIDADE









Crônica publicada também em meu blog, A Casa & a Alma, e no Recanto das Letras.






No último sábado, ao conversar com um de meus alunos sobre questões da vida, me veio à mente uma frase: "A vida é uma pergunta retórica."  Para explicar melhor, uma pergunta retórica é aquela que não tem como objetivo exigir uma resposta, mas apenas causar uma reflexão. Talvez porque, na verdade, não haja uma resposta que se adeque a todas as realidades, crenças e vontades. Quando se trata de vida, o que a maioria das pessoas deseja ao formular uma pergunta, é uma resposta que se adapte às suas próprias crenças: o religioso quer acreditar que existe uma vida espiritual, e o ateu, que ela não existe. O Budista acredita no Nirvana, o Cristão, no Paraíso, o espiritualista, no Nosso lar, e o ateu, em nada.

 E nós seguimos, afirmando isto e aquilo, sem termos certeza de absolutamente coisa alguma. 

Minha única certeza, é quando abro os olhos de manhã e sinto que ainda estou por aqui. É a água fria quando lavo a louça na pia da cozinha, o barulho da vassoura varrendo o chão, o preparo da comida que vai saciar a minha fome, os cheiros que me cercam, os momentos em que estou brincando com meus cães, ou sentada no jardim de olhos fechados, escutando o vento e as centenas de sons que me cercam, sentindo o sol, a chuva, olhando as plantas, os animais, as árvores, ou as pessoas na rua. 

Mesmo assim, gosto de criar uma realidade alternativa que me proteja. O meu Nirvana, o meu Paraíso, o Meu Nosso Lar, onde existe uma casinha pintada de azul, no meio de um pequeno jardim. Na varanda, me esperam todos os bichinhos de quem já cuidei até hoje, desde que eu era criança. Lá me aguardam também uma porção de gente que se foi antes e que eu gostaria de rever. Quando eu chegar lá, eles estarão pela casa, e me receberão. 

Mas noutras vezes, eu prefiro crer que fecharei os olhos um dia e todas as minhas lembranças serão imediatamente apagadas, juntamente com todos os sinais conscientes da minha existência. Talvez eu me transforme em uma força neutra, que será reabsorvida por alguma fonte que a re-utilizará para criar algo novo. E nada do que sou restará. Minha personalidade morrerá, desaparecendo para sempre. 

Mas também há dias em que preferiria simplesmente deixar de existir. Não ser, sequer, este material etéreo que será reutilizado na criação de algo novo. Fechar os olhos, e sumir para sempre. Não ouvir mais nada, não ver mais nada, não dizer mais nada, não pensar mais nada. Não mais ser. 

E eu caminho entre estas três respostas, não sabendo qual delas - ou se uma delas -   é a certa para a minha pergunta retórica; então eu ponho minha mão sob a água gelada, e deixo que ela escorra sobre minha pele. Vou varrer o chão, passar roupas, limpar a casa, trabalhar... e percebo que, na verdade, esta é a única realidade que eu tenho agora, a única da qual tenho certeza que faço parte, e se assim é, pode ser a única que realmente tem importância neste momento. 






REFLEXÃO

Já muito andei sem enxergar, sem ver, O que me fez e me desfez, a fome... "Ana" é o nome que alguém me deu, M...