terça-feira, 30 de abril de 2013

MAIO






Este ano,
Maio desceu como um raio,
Perturbando tudo,
Tudo cinza e frio,
E um grande vazio...

Ninguém cantará,
Não haverá festa
Ou presentes.
-Estás ausente de nós.

Maio ficou mudo.
-Para onde foi a voz de maio?

Este ano,
Maio brotou de repente
Sem necessidade
De nenhum ensaio.
Veio, e passará como flecha:
Rápido e mortal.

Maio passando
Pela minha janela
Uma tela em branco
Sem cores, sem pássaros,
Sem velas, sem cantos...

Ordinário maio,
Sem Feliz Aniversário.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

São Nossos





Aquela flor junto ao muro,
O pássaro pousado no galho
Que voa livre, quando bem quer,
A paz, o amor, o sonho
Da vida o mister,
Não são meus nem seus, 
São Nossos!

O céu imenso estendido
Por sobre as cabeças humanas
Também se estende, generoso
Sobre todas as outras cabeças!

O mundo,
Tal qual ele é
Ou como o tornamos
Através da nossa fome desmedida,
O mundo que subdividimos 
Em fétidos feudos
Que são 'dele', 'teu 'e 'meu,'
É nosso!

A paz que eu tanto desejo
E a paz que tu almejas,
Os sonhos que acalentamos
E aqueles que matamos
Através de nossas pelejas,
Não são meus, nem teus,
São nossos!

Sob a terra, os nossos ossos
Um dia, irão estar...
E o espírito já livre,
Viajará
Para um outro lugar,
Onde 'meu' e 'teu' não moram,
Onde encontraremos, enfim,
Apenas o que é nosso.



domingo, 28 de abril de 2013

Amargos Desejos





Dentro dos olhos,
Queria a imagem de tudo o que existe,
Como quem possui e absorve
Como quem nunca foi triste!

Desejo de possuir e guardar
Como se fosse possível
Abraçar tantas coisas
Em uma só vida!

Queria todas as flores,
Todos os pássaros,
O céu e as nuvens
Que com o vento, passavam...

Queria agarrar entre os dedos,
Segurar sem soltar...
Esquecia-se do medo,
Dos dias escuros 
Em que só a luz bastaria!

Fugindo da própria noite
Escurecendo o dia,
Achando que as pedras e pilastras,
As fontes, os rios, as casas,
Os livros, as terras, as palavras
Salvar-lhe iam 
Das garras do nada!

E as esperanças alheias,
As vidas alheias,
Pisoteadas 
Nas calçadas amargas!

Queria ter, possuir, selar,
O fogo, a terra, a água, o ar,
Que nunca seriam o bastante
Para conter tanta agonia!

E a pequena criatura
Que sob o sol, se movia,
Tentando apenas viver,
- Pisoteada!
Em meio a tanta amargura
Sob  botas tão pesadas!

Ah, nada é o bastante
Para quem, o tudo,
Transforma em nada!















sexta-feira, 26 de abril de 2013

Hoje Estamos Aqui








A partida de nossa colega Maria Cecília - A Flor Enigmática - deixou-me esta reflexão 














Hoje estamos aqui. Mas quantos de nós sabemos o quanto caminhamos na beirada da vida? Hoje, somos criaturas enigmáticas que se pensam rasas, mas afogamo-nos em profundidades assim que alguma coisa nos tira do frágil equilíbrio em que nos encontramos. 




Hoje estamos aqui. Escrevemos nossos poemas, espalhamos pelo mundo palavras e cenas de vida. Achamos que seremos eternos através de nossas palavras, e acreditamos, realmente, que elas nos farão mais fortes e presentes nas almas das pessoas; mas de repente, vem a ventania, e nos arranca de nossos galhos, jogando-nos, flores frágeis, nas correntezas tumultuadas e enigmáticas de um incerto adormecer. E ficam aqui as nossas obras - poemas, crônicas, pensamentos e palavras - até que alguém decida o que fazer com eles; apagá-los? Fazer um backup e colocá-los em algum CD que um dia alguém encontrará, ou que será perdido? Colocá-los em um livro? 




Esquecê-los? 




Hoje, estamos aqui; eivados de tolo orgulho pelas nossas aparentes 'conquistas' que, acreditamos, nos farão transcendentes. Mas quando formos embora, elas ficarão aqui; não as levaremos conosco! Ficarão à mercê de quem se disponha a decidir o que fazer com elas. Ou talvez, quem sabe, sejam copiadas por outras pessoas que tomarão para elas a autoria do que escrevemos. E de nada adiantará revoltarmo-nos, pois nada poderá ser feito. 




Hoje estamos aqui. Amanhã?... Melhor não pensar! Talvez a graça da vida esteja no dom de não pensar demasiadamente. Melhor que continuemos a ser canais para nossos poemas, e que tenhamos sempre a generosidade e a humildade para espalhá-los por aí, para quem desejar ler, sem a pretensão de que os possuímos. Porque, na verdade, hoje eles estão aqui; amanhã... 








Enigma










Enigma


...E que seja o enigma da Flor
Finalmente decifrado
Nos jardins do amor.


*


Para Flor Enigmática


Vá com Deus.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Tanta Coisa





Tem tanta coisa em ebulição dentro de mim, tanta coisa!...
As palavras mesclam-se aos sentimentos,
E quando escrevo, desmancho os nós.

Jorram tantas emoções
Aos borbotões!

*

Não Quero Esquecer





Não me venha dizer que tudo vai mudar,
Que o sol amanhã
Vai aparecer,
Que a saudade vai afrouxar...
Não acredito, e nem espero,
Não quero apagar da mente,
Não preciso tentar esquecer
O que já me fez feliz!

Mas deixo frouxas as cordas
Dessa lembrança,
Pois senão, ela me enforca,
Me amarra aos pés do passado.

O que dói, não é lembrar
Aquilo que foi consumado;
O que me dói, nessa vida,
É saber que tanta dor
Em quase nada nos mudou.



EXAGERO





Exagero


Mandei buscar uma estrela 

Para bordar o teu casaco 

A lua minguante, tiara 

Para ornar tua cabeça. 


Colhi uma espécie de cada 

De todas as flores que existem 

Mandei colocar em vasos 

Para enfeitar tua casa. 


As gotas da chuva de ontem, 

Recolhi, e pus na fonte 

Mandei desaguar em um rio 

Que passa pela tua porta. 


Colhi alguns raios de sol 

Com eles, fiz um enfeite 

Coloquei-o sobre a estante 

Apenas para teu deleite. 


Aluguei um aviãozinho 

Mandei escrever o teu nome 

E o meu, no céu azul 

Pra saberem que te amo. 


Mas isto tudo foi ontem, 

Hoje, já mudei de ideia... 

Acabou-se todo o encanto, 

E o efeito do feitiço. 


Quase não existem rimas 

Para compor-te um poema, 

E a métrica perdeu-se 

Quando o amor saiu de cena... 



quarta-feira, 24 de abril de 2013

No Céu




...E havia algo no céu,
Uma cor ansiosa
Não sei se de amanhecer 
Ou de por de sol...
Mas havia algo no céu,
Que transpassava cada alma
E alinhavava uma dor
Que nunca passava!...

Havia um espelho na terra,
Que refletia a insanidade
E a ansiedade
Por tudo o que está sangrando
Em volta do mundo
Pela tola intolerância.

Havia na sinuosidade
Do contorno de cada nuvem
Avermelhada
Um fio de sangue
Pelo sangue que aqui jorrava.

Havia algo no céu, 
Eu sei que havia,
Mas no passar rotineiro de cada dia,
Quase ninguém olhava.


Passos Amarrados



Amarrei meu passos 
À tua vida,
Para que eu nunca te deixe,
Para que nunca me deixes
E que jamais nos distanciemos.

Amarrei meus passos, em vão...
Pois na ânsia, eu me esqueci
Do quanto é livre, sempre,
Cada coração.

.
.
.

O que a Manhã Me Trouxe




A manhã me trouxe a rosa,
Tímida, simples, pequena,
Que eu plantei com minhas mãos,
Mas a rosa, sempre livre
Só brotou porque bem quis...

A manhã me trouxe a rosa,
De perfume tão suave,
Quase, quase inexistente,
Enfeitada pelo orvalho
E teiazinhas de aranha
Cintilantes pelo sol.

A manhã me trouxe a rosa,
Fresca, limpa, quase rosa,
Que a natureza, em prosa,
Emprestou aos versos meus.

A manhã me trouxe a rosa,
E eu, tola e orgulhosa
Por tê-la plantado, me esqueço
Que ela floriu porque quis,
Não pra me fazer feliz.



terça-feira, 23 de abril de 2013

Fala-me!...










Fala-me do quanto era lindo, e tão profundo 


Aquele crepúsculo, 


Que escondia fios de esperança 


Ao final de cada dia!... 






Fala-me dos sorrisos, 


Das palavras de quem jamais desistia, 


E mantinha-se firme, e acreditava, 


Sem nunca crer que não seria!.. 





Fala-me daquela vontade de viver 


Que nunca, jamais morria, 


Da beleza engrandecida e suave 


Daquela alma que nem notava que sofria! 




Conta-me, mil vezes, a mesma história, 


Pois eu preciso de motivos 


Para crer que houve motivos!... 





Fala-me então, da tua dor abstersa 


Purificada através dos meus pobres versos 


Que tentam reter, nas linhas, memórias 


Do que ainda está - e sempre estará 


Tão perto... 

















Prisão




Agitava-se,
Sonhava com a liberdade
Que estava do outro lado da vidraça.
Às vezes, se aquietava,
Como a ganhar forças
Para romper o que as separava.

Não via a porta aberta atrás de si,
O enorme espaço que se estendia,
E lhe oferecia a saída
Para a sua desolada situação.

Debatia-se na vidraça,
Sonhando com a liberdade
Que sobre suas asas, docemente soprava.


Quebramos os Ovos; O Que fazer Com as Cascas?





Olho em volta, e sinto que passamos por um momento de grande transição. Algo tumultuado, como nos anos 60 e 70. Lembro-me de toda aquela revolta, os hippies, a liberdade sexual, a liberação feminina, a guerra do Vietnam, a Ku Klux Kan, os Panteras Negras, Martin Luther King... eram tantas coisas acontecendo juntas, que as pessoas nem tinham tempo de assimilar e digerir tantas mudanças! Ninguém queria ser como os pais, e muitos passaram a fugir daquilo que chamavam de sociedade consumista e começaram a viver em comunidades alternativas. Surgiram religiões, como os Hare Krishna (que se é anterior aos anos 60, eu desconheço a origem, mas tornou-se moda naquela época). Vieram as drogas alucinógenas e os gurus. Aconteceu o festival de Woodstock, algo como nunca se tinha visto. Saiu o filme Easy Rider, que oferecia uma nova maneira de viver. Surgiram os Hell's Angels. Vieram The Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppellin e outras bandas que mudaram o mundo - ou mudaram junto com o mundo.

Mais tarde, após toda aquela explosão, as coisas foram se assentando; os ânimos se acalmaram. Já tendo conquistado seu espaço, as mulheres não precisavam mais ir às ruas fazer passeatas e queimar sutiãs. Ainda bem, ou hoje todas nós teríamos seios muito flácidos! Os Hippies foram sendo absorvidos pela necessidade de se viver num contexto social, aos poucos, foram assimilando a vida que eles tanto abominavam - mas no fundo, com algumas mudanças importantes. Ainda vemos por aí alguns remanescentes daquela época maravilhosa e muito maluca, mas são pouquíssimos. As sociedades alternativas foram acabando. Os Hare Krishnas foram desaparecendo, e os jovens revoltados voltaram para casa, casaram-se, constituíram família, arranjaram empregos.

Sinto que o mesmo está acontecendo agora. Há o movimento gay, que ainda está beirando o exagero em alguns aspectos, mas que vejo como necessário para que , mais tarde, as coisas possam se acomodar e as mudanças serem incorporadas. Houve um grande progresso nessa direção, o que ninguém pode negar, mas ainda existem os mais moralistas e tradicionalistas que lutam contra essas mudanças, o que causa uma grande comoção entre os gays, levando-os a agir, em certas ocasiões, com tintas muito fortes. Por exemplo, ontem eu assistia a um programa de fofocas na TV sobre as cantoras Pepê & Nenen, que insinuavam que sua carreira tinha fracassado após as duas declararem sua homossexualidade. Ora, todo mundo sabe que elas afundaram bem antes disso! Se fosse assim, cantores maravilhosos como Ana carolina, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e muitos outros, teriam sido legados ao esquecimento!

 Há essa coisa política bem radical, com os Petistas - que sempre clamaram pela justiça, igualdade e liberdade de expressão - manifestando-se de forma quase selvagem contra a blogueira cubana Yoane Sánchez em sua visita ao Brasil. 

Há a moda de dizer que toda brincadeira infantil é bullying, e hoje em dia, se algum colega põe um apelido em outro (coisa mais do que natural nos meus tempos de escola), é considerado um bully. Há o preconceito racial, que apesar de ter diminuído bastante, ainda existe, e quem o sofre tenta combater de forma , a meu ver, também exagerada. Se acontece algum conflito entre um negro e um branco, imediatamente o negro alega que está sofrendo preconceito racial, mesmo quando não é o caso.

Acredito que, como nos anos 60 e 70, nós estamos em ponto de ebulição. Quebramos os ovos, mas ainda não foi decidido quem comerá ovos mexidos, omelete, ou ovo frito. E ainda não sabemos o que fazer com as cascas - que trituradas, dão um ótimo adubo para jardim. Mas também creio que haverá um assentamento de tudo isso. Atingimos o ponto mais alto, e logo nós voltaremos ao meio - ao ponto de equilíbrio.


*

Ps: esta é uma visão muito pessoal das coisas, e não pretendo impor minhas ideias a ninguém, e nem causar polêmica.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sinos de Vento




Desde que nos mudamos para nossa primeira casa, sempre fui maluca por sinos de vento. O primeiro que compramos, veio de uma feira de antiguidades; era um carrossel de elefantinhos de bronze com guizos na ponta. Ele ainda existe, embora esteja em péssimo estado... alguns guizos e um elefantinho soltaram-se e foram perdidos.

Hoje eu tenho aqui em casa dez sinos de vento, espalhados pelo jardim, pendurados em árvores e nas varandas. Adoro o som que eles produzem! Uma pessoa que me visitou (meio-amarga) uma vez, me disse que detestava o som dos sinos de vento, pois parecia som de casa velha e abandonada. Sorri, e disse a ela que eu adorava meus sinos de vento, e que sempre teria muitos deles em minha casa. Afinal, a casa é minha.

Agora eu finalmente consegui colocar os sininhos também nos meus blogs. Posso curtir o som até mesmo quando não estiver ventando. Com certeza, eles vão me inspirar muito!


Se Soubéssemos...





Se soubéssemos
Quantos adeuses se escondem,
Adormecidos,
Por trás de cada 'olá',
Talvez nós não deixássemos
A vida passar, 
As pessoas irem embora
Sem nosso mais atencioso olhar...

Se soubéssemos
Que a estrada sob os pés
Pode, a qualquer momento, 
Desabar,
Talvez prestássemos mais atenção
À linda paisagem que nos cerca,
E que foi com amor, criada
Para que a possamos desfrutar!

Se soubéssemos
Que cada palavra proferida
Pode ter um imenso, enorme peso
Por sobre uma vida,
Talvez as medíssemos com cuidado
Antes de deixá-las caírem
Em ouvidos errados!

Se soubéssemos
Que tudo o que hoje vivemos
Em breve, tornar-se-há lembranças
Que, no futuro, teremos 
Para reviver em noites longas e vazias,
Talvez fôssemos mais felizes,
Quem sabe, escolhêssemos cores mais bonitas
Para pintarmos cada dia!...


sábado, 20 de abril de 2013

Uma Pergunta Para Deus





Estava escutando "What if God Was One of Us" (E se Deus Fosse um de Nós). A canção  diz coisas como: "Se Deus tivesse um nome, qual seria, e você o diria diante de Sua face se estivesse cara a cara com ele? E o que você perguntaria, se tivesse apenas uma pergunta?"

Tenho certeza de que, pelo menos uma vez na vida, todo mundo já imaginou isso.

Daí, fiquei pensando nas possíveis perguntas que eu faria a Deus, como por exemplo, "Existe vida após a morte?" Bem, acho que Ele ia rir desta, já que se o próprio Cristo prometeu-nos a Vida Eterna, esta é uma pergunta bastante idiota. Bem, eu poderia perguntar por que estamos aqui, mas ah, já vejo Deus dando um longo suspiro e me olhando com aquela sua antiga cara cansada, como se fosse começar a ensinar equações de segundo grau a uma criança que, até hoje, aprendeu a contar de um à cem. Então, eu achei que poderia perguntar quem somos, de onde viemos e para onde vamos; mas imaginei a cena de Deus tentando ensinar um camelo a andar ereto, nas patas traseiras.

Querem saber? Se eu pudesse fazer uma pergunta a Deus, não faria pergunta nenhuma, pois acho que eu não ia entender a resposta, mesmo... então, se eu tivesse mesmo que perguntar alguma coisa, acho que seria algo para cuja resposta eu estivesse emocionalmente preparada; algo assim como:

"Aceita um café?"




sexta-feira, 19 de abril de 2013

Eu Gostaria...





Eu gostaria
Que teu riso fosse assim, sempre tão frouxo 
E constante,
Gostaria de ver, mais vezes,
As rugas do teu rosto adormecidas,
Quase sumidas...

Queria sentir-me assim, sempre tão protegida,
Quando caminho ao teu lado,
Seja sob sol ou chuva,
A qualquer hora do dia.

Queria ver, mais vezes,
A cor da tua alegria,
Sentir o calor da tua mão sobre  a minha
E saber que vai durar,
Desta vez.

Eu gostaria
Que os céus te concedessem, a cada dia,
A coragem de olhar a vida
Sempre de cabeça erguida, 
Confiando que, ali na esquina,
É só virar, e tudo vai dar certo.

Te quero sempre perto,
Sempre certo,
Mesmo diante dos erros que possas cometer,
Que tu jamais os tema,
Mas que teime, sempre,
Insistindo na vontade de viver.


*

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Conduta







A santidade não faz bem
Nem a mim, 
Nem a ti
Nem a ninguém.

Planto rosas,
Partilho o perfume
Assumo os espinhos.




Não Tem Importância...














Acredite-me, 


Não tem importância - pelo menos, 


Não tanto assim - 


Aquilo que eu penso ou digo, 


Sou apenas uma voz 


Clamando no próprio deserto, 


E decerto, 


As minhas areias 


Não vão sujar 


Tuas aldeias! 






Acredite, 


O vento sopra ao contrário, 


Meu cheiro e o teu 


Jamais hão de misturar-se, 


E as minhas pegadas 


Nessa areia amaldiçoada 


Hão de sumir nas tempestades. 






Portanto, não te incomodes, 


Pois cada estrada é solitária, 


Cada destino é só mais um, 


É tão leve, cada palavra, 


Mesmo aquela que sangra, 


Mesmo aquela que mata! 














De manhã Bem Cedo






De manhã bem cedo,
A paz,
A vida rebrotando,
Esperanças fresquinhas
Ainda sem as escaras
Do medo.
Aquele minuto
Antes dos olhos se abrirem,
Antes dos sonhos se desmancharem
A vida entre as pálpebras e cílios,
Sem nenhum martírio!...

Um raio de sol que penetra
Nas frestas da cortina,
O canto do primeiro pássaro,
O apagar da última estrela...

De manhã bem cedo,
Antes que passe o primeiro carro na rua,
Desfazendo os laços frágeis do sono,
Antes do grito berrante do despertador,
Antes que a gente se lembre,
Antes...






No Rosto










No Rosto


No rosto, rugas e rusgas
Da vida, as marcas
Rotas,
Arranhões do tempo,
Retratos de um coração
Despedaçado
Cujas partes ainda rolam
Por um chão sem pecados,

Pois como chamar de pecado
Aquilo que alguém escolhe,
Pensando que é o melhor?
As rotas da vida
Riscadas à ferro e fogo,
Pés queimados - pecados pagos.

Rugas e rusgas, retratos
Armazenados no peito,
Momentos guardados para sempre
Dissolvendo-se nas lágrimas
Que resvalam pelas rugas
Vagarosamente, antes de caírem.

Mas posso dizer sem medos:
Tua história é simples,
Não é melhor ou pior
Do que a minha.
Te olho nos olhos, e me vejo,
Pego a tua dor comprimida
E estendo-a em meus poemas,
Para te trazer, quem sabe,
Algum alívio.
















Se Fosse Hoje





Se fosse hoje, eu fecharia os olhos,
E talvez
Enrijecesse o corpo
E soltasse mais a alma.
Quem sabe, eu até pudesse
Manter a calma
E fazer, cinicamente,
Meu último pedido?...

Só não teria pena,
Não levaria, comigo,
Traços de arrependimento
Pelo que não foi dito
Ou vivido.

Trataria de esquecer 
Tudo o que não foi bom,
E num gesto de pura
Covardia,
Poderia até falar em perdão!...

Se fosse hoje, eu ergueria
A cabeça pesada  e cansada
Bem acima das nuvens,
Para ver o que me aguarda,
Talvez subisse bem alto,
Lá, na mais solitária, austera e augusta
Montanha,
Onde a bruma faz morada,
E ficasse ali, parada,
Esperando para ver o que surgiria.

Só esperaria
Que fosse frio, e bonito, e silencioso,
E que houvesse luzes coloridas piscando entre a bruma,
Jardins lindos, com pedras cobertas de musgo,
Lagos espelhados, misteriosos e profundos,
Cavernas imensas, de onde pingasse não só umidade,
Mas verdade,
Um nascer e um por de sol
A cada vinte minutos, 
E um céu crivado de estrelas, e cheio de luas,
Cada qual, com seu São Jorge 
E seu dragão.

Se fosse hoje, eu não olharia para trás,
Pois há muito tempo,
Já não me arrependo mais
Por aquilo que fiz ou deixei de fazer.
Entendi que crescer
É uma coisa que não tem fim, e nem motivos,
Cuja necessidade eu jamais vou entender,
Mas que é necessário
Mesmo assim,
E que de nada adianta brigar com a vida ou com a morte,
Pois elas apenas observam, pacientemente, as nossas birras,
Como mães que apenas riem
Da inocência dos seus filhos.

Se fosse hoje, eu talvez fosse
Gargalhando pelo caminho,
Ou chorando lágrimas amargas
Pelos que fossem ficar para mais tarde.
Deixaria nesse mundo,
Apenas uma pedrinha,
Pois é só este o peso que carrego
Agora, junto comigo.



quarta-feira, 17 de abril de 2013

Nada Disso me Pertence






Elas vão brotando sob os fios espessos da grama Pelo de Urso que faz renda ao cedro. Quando eu dou por elas, já são árvores-bebês: pitangueiras, laranjeiras, pés de tangerina, ameixeiras, goiabeiras, amoreiras... os pássaros e morcegos, ao se alimentarem na árvore, deixam cair os caroços das frutas, ou então, depositam os mesmos no solo através de suas fezes.  Quando retiro as mudinhas, os caroços das frutas das quais elas nasceram ainda estão nas pontas das raízes.

Algumas eu consigo doar; mas o número de pessoas que eu conheço e que tem espaço para árvores no quintal, e que já receberam uma mudinha,  diminuiu bastante.

Já não tenho espaço para árvores em meu jardim. Ele é bem pequeno. Tenho o cedro, um pau-d'água, uma laranjeira, um xaxim, um ipê amarelo, um velho manacá da serra, e um ipê roxo que ainda não floriu, mas que já ultrapassa o telhado da casa, e por isso, cogitamos cortá-lo. Uma árvore assim, tão grande, e tão próxima à casa, nos dá um certo medo. Ganhamos de presente quando nos mudamos, e no entusiasmo de plantá-la, esquecemos de verificar o quanto uma árvore assim pode crescer. Por isso, pensamos em mandar cortá-lo.

Mas então eu olho para ele - como agora - e reparo no bem-te-vi pousado no galho, filosoficamente olhando a tarde que passa... ou o casal de rabilongas que vem quase todas as manhãs namorar neste ipê. Tenho o direito de cortá-lo? Ele não me pertence!

Ainda há pouco, eu retirava alguns 'matinhos' da grama e dos canteiros. De repente, me ocorreu: como eu me acho no direito de decidir o que é planta e o que é 'matinho', eliminando os da segunda categoria?





Uma vez, eu caí e machuquei a mão. Uma pessoa que estava aqui comigo, ao ver minha mão tornar-se uma bola em questão de segundos, saiu pelo jardim procurando: "Eu tenho certeza de que vi um pé de arnica por aqui..." E eu nem sabia que tinha arnica em casa! Bem, ela pegou as folhas que encontrou, macerou-as, fez um chá forte e esverdeado e colocou tudo em uma bacia, onde mergulhei a mão machucada. Após alguns minutos, o inchaço começou a melhorar. 

Lembrei-me de quantos 'matinhos' iguais àquele eu já tinha arrancado, sem saber que era arnica! 

E enquanto escrevo, o esquilinho sobe pelo tronco do xaxim. Um beija-flor descansa no ipê amarelo, um bem-te-vi me olha do ipê roxo e três jacus pousam pesadamente sobre o cedro.

Não... nada disso me pertence.


terça-feira, 16 de abril de 2013

Beira do Sempre








Sentada à beira do sempre,
Coração envolto em sol,
Observo o que se passa
Quanto àquilo que não passa...

A saudade vem e grassa,
Gasta as beiras do presente,
A memória acorda e sente
O que não foi apagado.

Sentada à beira do sempre, 
Eu fico, pranto calado...




                                         


                                         

O Jardim








Da janela
Ela o olhava o jardim
Por onde jamais passaria, 
E sonhava...

Sonhava com as árvores,
As folhas caindo sobre ela, 
Como uma homenagem
Quando passasse por ali 
Pela última vez.

Pensava na beleza das flores
Que colheria no caminho,
No canto dos passarinhos
Que em festa, voariam sobre ela.

Pensava em dar passos pequenos,
Aproveitando a luz do sol
Que atravessaria, em raios finos, 
As copas das árvores
Só para festejá-la!

Queria aproveitar cada momento
Daquele jardim derradeiro,
Até que chegasse ao portão de saída
E dele se despedisse para sempre...

Sonhava com a casa, o quarto,
A velha TV sobre a cômoda,
Os livros dentro do armário,
E o seu antigo rosário...
Sentia o perfume doce e rascante
Das damas da noite, 
Entrando pela janela da casa
Numa noite de luar.

E olhava o jardim, em sonho,
Depois, voltava para o leito,
E de olhos fechados,
Acordava.


"A saudade é uma aldrava que a lembrança usa ao bater às portas da memória."




Metáfora

Às vezes, há ainda uma  corrente Muito fina e cristalina Que quer correr para o mar, Ainda há um par de pernas Que...