quarta-feira, 17 de abril de 2013

Nada Disso me Pertence






Elas vão brotando sob os fios espessos da grama Pelo de Urso que faz renda ao cedro. Quando eu dou por elas, já são árvores-bebês: pitangueiras, laranjeiras, pés de tangerina, ameixeiras, goiabeiras, amoreiras... os pássaros e morcegos, ao se alimentarem na árvore, deixam cair os caroços das frutas, ou então, depositam os mesmos no solo através de suas fezes.  Quando retiro as mudinhas, os caroços das frutas das quais elas nasceram ainda estão nas pontas das raízes.

Algumas eu consigo doar; mas o número de pessoas que eu conheço e que tem espaço para árvores no quintal, e que já receberam uma mudinha,  diminuiu bastante.

Já não tenho espaço para árvores em meu jardim. Ele é bem pequeno. Tenho o cedro, um pau-d'água, uma laranjeira, um xaxim, um ipê amarelo, um velho manacá da serra, e um ipê roxo que ainda não floriu, mas que já ultrapassa o telhado da casa, e por isso, cogitamos cortá-lo. Uma árvore assim, tão grande, e tão próxima à casa, nos dá um certo medo. Ganhamos de presente quando nos mudamos, e no entusiasmo de plantá-la, esquecemos de verificar o quanto uma árvore assim pode crescer. Por isso, pensamos em mandar cortá-lo.

Mas então eu olho para ele - como agora - e reparo no bem-te-vi pousado no galho, filosoficamente olhando a tarde que passa... ou o casal de rabilongas que vem quase todas as manhãs namorar neste ipê. Tenho o direito de cortá-lo? Ele não me pertence!

Ainda há pouco, eu retirava alguns 'matinhos' da grama e dos canteiros. De repente, me ocorreu: como eu me acho no direito de decidir o que é planta e o que é 'matinho', eliminando os da segunda categoria?





Uma vez, eu caí e machuquei a mão. Uma pessoa que estava aqui comigo, ao ver minha mão tornar-se uma bola em questão de segundos, saiu pelo jardim procurando: "Eu tenho certeza de que vi um pé de arnica por aqui..." E eu nem sabia que tinha arnica em casa! Bem, ela pegou as folhas que encontrou, macerou-as, fez um chá forte e esverdeado e colocou tudo em uma bacia, onde mergulhei a mão machucada. Após alguns minutos, o inchaço começou a melhorar. 

Lembrei-me de quantos 'matinhos' iguais àquele eu já tinha arrancado, sem saber que era arnica! 

E enquanto escrevo, o esquilinho sobe pelo tronco do xaxim. Um beija-flor descansa no ipê amarelo, um bem-te-vi me olha do ipê roxo e três jacus pousam pesadamente sobre o cedro.

Não... nada disso me pertence.


8 comentários:

  1. Ana, que paraíso é esse? Nossa, você mora em um paraíso, menina!
    Eu também não cortaria nenhuma árvore, moro na Capital de São Paulo,faço do meu pequeno espaço um pomar em grandes vasos, imagino agora o mundo lindo em que vives!
    Adorei ler, escreva sempre sobre esse seu lindo quintal.
    Abraços minha amiga feliz!

    ResponderExcluir
  2. Perfeito seu escrito, não podemos optar pela vida de nada, nem animais, nem plantas e nem humanos...gostei muito do seu texto...parabéns

    ResponderExcluir
  3. Ana, teu contato com a natureza através de teus escritos são tão infinitos e belos. Você consegue, de maneira sublime, descrever cada pedacinho da criação . E´para quem lê, as imagens vão aparecendo feito uma película de cinema.

    E, além do mais, que lugar lindíssimo você mora. Teu quintal deve ser a morada daqueles seres que levam as tortas de amoras para lá e para cá rs.

    Tá lindo demais esse texto. Eu vivi cada palavra dele e ao final você deixa a sublime mensagem de que nada nos pertence, tudo é emprestado.

    bacios bella

    ResponderExcluir
  4. Ana, que linda essa postagem. Poucos tem a sensibilidade de perceber o tudo o que a natureza disponibiliza para a gente. Eu adoro plantas e tenho que me contentar com meus pequenos vasos. Não tenho espaço para plantas maiores, então "adoto" praças da cidade. Planto minhas coisas, cuido e admiro a beleza natural. Infelizmente faço isso escondido porque tem a placa dizendo que é proibido pisar na grama, como eu consegui plantar uma pequena árvore alí no meio???!!! Mas, em silêncio eu consigo deixar lugares para que as aves não se afastem da cidade.
    Achei legal esse trecho da sua postagem:
    "como eu me acho no direito de decidir o que é planta e o que é 'matinho', eliminando os da segunda categoria?"
    Eu sempre pensei do mesmo jeito e até hoje acho os "matinhos" tão bonitos e muitas vezes "discriminados", rs...rs.
    Ana, adorei essa postagem.
    Um abração
    Manoel

    ResponderExcluir
  5. Ana,se todo mundo tivesse esse pensamento,não haveria tanto desperdício de natureza por aí!Uma linda msg!bjs,

    ResponderExcluir
  6. Muito bonito, Ana! O zelo, a entrega a esse pedacinho da imensa e maravilhosa Natureza, que para alguns não passa de chance de juntar dinheiro, e a indecisão precisa, ao se deparar com um dos coproprietários no galho, um dos condôminos, entra no coração como um alívio. Muito bonito, Ana!

    ResponderExcluir
  7. Uma crônica carregada de filosofia... - Mais que isso: completa de reverência à Natureza!

    ResponderExcluir
  8. Acesse o link do GRUPO ACADEMIA MACHADENSE DE LETRAS. É só acessar e verificar no canto superior direito a mensagem (seguir este grupo). Clique em cima e participe enviando seus poemas, contos, crônicas, biografias culturais, projetos, eventos culturais, textos, sugestões de discos, livros, filmes, autores, etc.
    https://www.facebook.com/groups/149884331847903/

    ResponderExcluir

Obrigada pela sua presença! Por favor, gostaria de ver seu comentário.

Mandrágora

Teu Nome – raiz de mandrágora Perpassando o meu caminho, Me fazendo tropeçar... Um dragão adormecido Em isolada cave...