segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O DIA DOS TRANSPAIS



Quando estamos diante de grandes mudanças, nos sentimos inseguros e a maioria de nós tenta agarrar-se àquilo que já conhece – nem sempre por maldade, mas por medo. E nessas tentativas de nos agarrarmos, de tentarmos continuar tendo as mesmas interpretações a respeito das coisas, o que permite que tenhamos a ilusão de estarmos seguros num mundo que já conhecemos e ao qual nos acostumamos, surgem os preconceitos.

Mas o mundo não pode esperar; assim, os grupos que estão envolvidos nessas mudanças e que delas dependem, passam a querer incuti-las à força em mentes que não estão preparadas para elas, o que só faz com que o medo e o preconceito aumentem ainda mais. 

Não posso obrigar ninguém a concordar comigo; mas preciso entender que se eu sou vegetariano, isso não significa que aqueles que gostam de comer carne são assassinos cruéis. Se eu sou trans, não posso forçar que héteros passem a me ver como alguém como eles – primeiramente, porque eu não sou. 

A Natura colocou Thammy Miranda em sua campanha de Dia dos Pais, como se fosse geneticamente possível que ela possa, algum dia, vir a ser um pai. Thammy jamais será pai, pois ela não é um homem. Mas ela pode sim, ser um excelente  transpai. Ao invés de tentar colocá-la como símbolo de uma classe que ela não representa, por que a Natura não cria o dia dos Transpais? Assim, cada um ficaria feliz dentro do seu quadradinho, respeitando o quadradinho do outro. 

Certa vez li uma frase que dizia: “Se precisa forçar, é porque não é o seu tamanho.” Hoje em dia existem muitas pessoas querendo forçar as outras a vestirem algo que não lhes serve – e fica apertado ou largo demais, ninguém se sente bem. Seria bem melhor se cada um tivesse a liberdade de “vestir” aquilo que o deixa feliz, respeitando e sendo respeitado.

Eu penso que a melhor coisa da vida, é não forçar a minha entrada em lugares onde eu sei que não serei bem-vinda, não tentar calçar um sapato que não me serve e não tentar comer uma coisa que eu sei que não vou conseguir engolir. Acho que o caminho para fazer com que as mudanças pelas quais o mundo está passando sejam aceitas – ou pelo menos, toleradas – seria cada grupo ficar no seu quadrado sem interferir no quadrado alheio, ou seja, se eu não sou aceito por uma determinada religião porque vou contra os seus preceitos, eu devo criar  a minha própria religião; se não me querem por perto, eu vou achar um lugar aonde eu sou bem-vindo, ao invés de me arriscar forçando a minha permanência em um grupo de pessoas que eu sei que me odeia. 

Hoje, apesar de ainda termos pessoas intolerantes e preconceituosas, as coisas melhoraram bastante. A tendência é que essas mudanças sejam lentamente absorvidas, pois novas crianças estão nascendo e crescendo, aprendendo coisas diferentes e vendo o mundo e as pessoas de formas diferentes. Não é preciso invadir a praia alheia, pois o sol é o mesmo e brilha para todo mundo. 

Tenho esperanças de que um dia olhemos uns para os outros sem nos preocuparmos com questões de gênero, etnia ou religião. Será algo tão natural, que nem passará pelas nossas cabeças alguma coisa como “Olhe, ele é preto/gay/índio!” Mas por enquanto, não é assim ainda. Forçar um entendimento em cabeças que não estão prontas para ele não vai fazer com que haja aceitação, e sim mais ódio, medo e preconceito.





6 comentários:

  1. Perfeita contextualização destas questões ... como sempre ...

    Beijão

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  2. Uma correta abordagem. Não se precisa forçar nada, apenas respeitar. Bjs.

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  3. Temos que respeitar as opções dos outros....

    Isabel Sá  
    Brilhos da Moda

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  4. Excelente texto.
    As suas esperanças são as minhas: que um dia esqueçamos diferenças e vivamos todos em harmonia.
    Quando? Pois é!
    Beijo.
    (Leia "Viagens". Vai adorar!)

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  5. Perfeito minha amiga, não podemos atacar , como tem acontecido nas redes sociais, as pessoas que carregam em si racismo,preconceitos vários, ao invés de se modificarem terão a tendência de se sentir agredida e até poderão criar uma aversão maior, poderiam sentir até ödio. Creio que o melhor caminho é expormos o que pensamos sem direcionar a postagem para qualquer tipo de entidade ou classe de pessoas. Jogar a semente que no tempo certo ela irá germinar devagarinho ! Desculpe me estendi! Bjo

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  6. Boa noite Ana
    Uma bela postagem.Este também é a minha forma de ver a vida. Devemos ter respeito a opção de cada um. O mundo seria tão melhor se não existisse nenhum tipo de preconceito. Um feliz final de semana. Abraços.

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