quinta-feira, 13 de agosto de 2020

MEU POBRE IPÊ AMARELO

Foto: uma imagem antiga do meu ipê


 Havia um vaso de terra sob o ipê, onde eu cultivava uma plantinha que não vingou. O vaso acabou ficando por lá um tempo, até que percebi que havia uma mudinha de alguma coisa crescendo dentro dele, brotando corajosamente da terra mal-tratada do vaso. Comecei a regá-la. Em algum tempo, percebi tratar-se de uma muda do ipê amarelo. Replantei-a para os fundos do terreno, e hoje ela já está mais alta do que eu, e já dá flores, embora tenha puxado a mesma magreza de seu pai/mãe ipê.


Quando nos mudamos para esta casa, ele já não ia muito bem de saúde: um tronco magrelo que se dividia em dois galhos ainda mais magrelos nas pontas. Dava algumas flores, porém. Começamos a cuidar dele, e ele cresceu e multiplicou seus galhos, mas nunca chegou à exuberância, mas deu muitas e muitas flores, atraindo a atenção de quem passava pela rua e olhava por cima do muro. Quando ventava, o gramado ficava cheio de manchas amarelas, e eu colhia algumas para colocar na minha fonte.


Houve uma tempestade, e meu manacá da serra foi arrancado do chão com raiz e tudo. Meu enorme mandacarú também não resistiu, mas o ipê, em toda a sua magreza, curvou-se sobre o telhado da garagem sem quebrar. Aos poucos, ele foi voltando ao normal, tal era a sua vontade de viver.


Mas agora, acho que ele está realmente se despedindo, e entendi a sua urgência em deixar-nos um descendente que continue a enfeitar o nosso jardim. Os galhos mais altos estão quase totalmente secos, e quebram-se ao peso dos pássaros maiores que pousam neles. Alguns galhos começaram a brotar bem no meio do tronco, e ao ler um livro sobre árvores, descobri que é uma última tentativa de tentar viver por mais alguns anos, mas que não há salvação para ele. Segundo o livro, quando uma árvore começa a dar galhos muito baixos, é porque a seiva já não chega aos galhos mais altos; ela está morrendo.


O jardineiro acha melhor que o cortemos de uma vez, mas não vou fazer isso com ele. Vou deixá-lo viver enquanto ele quiser, já que luta tanto para permanecer vivo. Tenho certeza que, caso ele esteja em sofrimento e deseje uma eutanásia, arranjará uma maneira de me dizer isso, e então abreviarei seu sofrimento. Enquanto isso, olho pela janela da sala de aula e vejo sua cria a crescer, magrinha, já vencendo a altura do muro que separa a minha casa da casa do vizinho. 


As árvores têm alma, eu tenho certeza. As árvores amam e são gratas. Também sou grata a todas as flores que meu ipê nos deu de presente nesses dezesseis anos que moramos aqui. Cuidarei bem de sua cria.



9 comentários:

  1. Tão linda foto e dá mesmo muita pena de cortar. Acho que podes plantar um novo e deixá-lo ali. Acredito que ele possas assim renascer!TOMARA! bjs, chica

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  2. Boa tarde de muita paz, querida amiga Ana!
    Que lindo seu post tão afetivo!
    Também amo árvores e flores...
    Como devemos preservar a natureza no seu conjunto harmonioso.
    Eu também não cortaria, pois os seres vivos sentem nossa ternura e sobrevivem.
    Tenha dias abençoados!
    Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

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  3. A natureza é sábia, mas quem sabe ele possa renascer, como disse a nossa amiga Chica?! Quem sabe?!
    Também faço de tudo para salvar minhas plantas!
    Amei ler aqui, o blogue está lindo!

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  4. Boa noite tudo bem? Sou carioca e procuro novos seguidores para o meu blog. E seguirei o seu com prazer. Novos amigos também são bem vindos, não importa a distância.

    https://viagenspelobrasilerio.blogspot.com/?m=1

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  5. OLÁ ANA!
    Uma arvore quando ganha vida, cresce e nos ata.
    Lindo ver uma arvore crescer fruto de nossas mãos e triste saber que é finita.
    Vamos plantar arvores pela vida Ana.
    Meu abraço e bom fim de semana.

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  6. Ana,
    Eu me impressiono com essa força que
    a natureza demonstra e quantos
    ensinamentos ela nos passa. Adorei ler
    sua história com o Ipê.
    Eu não tenho animais, mas
    tenho plantas e vivo uma
    história linda com uma Dama da Noite
    que em plena quarentena foi abandonada e
    posta numa calçada com a placa
    de doação. Minha nora fotografou e perguntou
    se eu a queria. Lógico. Fui pegar e em um pouco
    mais de 3 meses comigo já se recupera do abandono
    e me da a segunda flor e as netas vem aprender
    aqui comigo sobre ela e outras plantas.
    Bjins de boa sexta feira.
    CatiahoAlc.

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  7. Ana, em apartamento só podemos ter pequenas plantinhas. Cuido delas até que perceba não terem mais vida. Enquanto houver folhas, vou aguando e limpando, mesmo que as flores já tenham há muito desaparecido. Entendo seu amor ao ipê. Bjs.

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  8. Ana, voltei pra te avisar que acaba de entrar teu céu por lá! Obrigadão! Podes ver aqui:

    https://ceuepalavras.blogspot.com/2020/08/blog-post_25.html


    beijos, chica

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