segunda-feira, 12 de março de 2012

Resenha - "Cidadela" de Saint-Exupéry





Há muitos e muitos anos, quando eu era apenas uma recente pós-adolescente, achei um livro de Saint-Exupéry em uma feira de livros usados. Chama-se "Cidadela." Como está escrito na apresentação do livro, "Aqui temos um livro sem princípio, meio nem fim. Impossível medi-lo, extremamente difícil apreciá-lo, bastante ingrato ceder à veleidade de lhe facilitar o acesso."


O livro começou a ser escrito em 1943, mas o autor desapareceu em combate, tendo seu avião sido abatido na Bacia do Mediterrâneo, antes de terminar a sua obra. Assim, "Cidadela" tornou-se uma obra póstuma. 


É um livro sobre um rei e sua cidade, o império que ele construiu. 


É um livro sobre as cidades e impérios que construímos dentro de nós. 


Escolhi algumas frases favoritas para reflexão. 


Sobre o trabalho: 


"Pobre trabalho o teu, se não for o pão dos filhos ou transformação tua em alguma coisa superior a ti. Que vale o teu amor, se ele não for mais que procura de um corpo? A alegria que esse amor te desse, seria uma alegria fechada em si própria." 

Sobre o sofrimento e a alegria: 


"Aquilo que te causa os sofrimentos mais graves, traz-te também as maiores alegrias. Porque sofrimentos e alegrias são frutos dos teus laços, e os teus laços, das estruturas que te impus. Eu cá quero salvar os homens e obrigá-los a existir, ainda que os leve pela via que faz sofrer, como a prisão que separa da família, ou o exílio que separa do império." 


Sobre o egoísmo: 


"Onde se diz que há egoísmo, o que sempre encontramos é mutilação. E aquele que anda por aí sozinho a dizer: "Eu, eu, eu," como que anda ausente do reino. Assim a pedra fora do templo, ou a palavra seca fora do poema ou aquele fragmento de carne separada do corpo." 


Sobre a colaboração: 


"A pedra não tem esperança de ser outra coisa que não pedra. Mas, ao colaborar, ela congrega-se e torna-se templo." 



Sobre o amor e o ciúme: 


"Não confundas o amor com o desejo de possuir, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contráriamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer........ o amor verdadeiro começa lá onde não espera mais nada em troca." 


Sobre escrever: 


"Quando tu escreves ao homem, carregas um navio. Mas bem poucos navios chegam ao porto. Sossobram quase todos no mar. Poucas frases há que mantenham a sua ressonância através da história.......... Que me interessam as coisas que sabe aquele que tu me indicas? para isso há o dicionário. Interessa-me mais é o que ele é. E aquele acolá escreveu o poema e encheu-o de seu fervor, mas falhou na pesca do alto mar. Não trouxe nada das profundidades. Significou-me a primavera, mas não a criou em mim na medida em que poderia ter alimentado dela, o coração." 


Sobre o crescimento: 


"Depois de ter fundado um rosto, é preciso que ele permaneça............. Porque a minha verdade, para ser fértil, deve ser estável. O que é que tu amarás, que será de fato das tuas grandes ações se mudares de amor todos os dias? Só a continuidade permitirá a fertilidade do teu esforço. Porque a criação é rara. Se por vezes é urgente que, para te salvar, ela te seja dada, seria mau que te atingisse todos os dias. Para preparar um homem, preciso de várias gerações. E, a pretexto de melhorar a árvore, não a corto todos os dias, para a substituir por uma semmente." 

Sobre a morte e a vida: 


"Embora a morte e a vida se oponham uma a outra, como palavras que são, o certo é que só podes viver daquilo que te pode fazer morrer. E o que recusa a morte, recusa a vida. Se não houver nada acima de ti, não tens nada a receber. A não ser de ti próprio. Mas que hás-de tu ir buscar a um espelho vazio?" 

Sobre o poema: 


"O poema é belo por razões que não pertencem à lógica, já que se situa num outro andar. Ele é tão mais patético quanto mais se estabelece na extensão. O som que é possível extrair de ti e que tu podes dar é sempre o mesmo, mas nem sempre é da mesma qualidade. E é má música aquela que te abre caminhos mediocres no coração. E o deus que te aparece é débil. Mas há visitas que te deixam adormecida, por tanto teres amado." 


Um trecho da "Oração da Solidão": 


"A solidão, Senhor, é apenas fruto de um espírito que está doente. Ele limita-se a habitar numa pátria, a qual é sentido das coisas. Assim o templo, quando ele é sentido das pedras. Ele só tem asas para este espaço. Ele não goza com os objetos, mas apenas com o rosto que se lê através deles e que os liga uns aos outros. Fazei simplesmente com que eu aprenda a ler. Nessa altura, Senhor, ter-me-há acabado a solidão." 


É um livro belíssimo, e seria impossível escolher, entre tanta beleza, as frases certas para postar aqui. Escolhi aquelas que sublinhei há muitos anos, quando de minha primeira leitura. 


















4 comentários:

  1. Estou muito emocionada. Belíssimo, Saint Exupèry, único.

    ResponderExcluir
  2. A muito tempo que Exupéry me cativou com seu Pequeno Príncipe (que aliás, por incrível coincidência, reli ontem! ), e deixou de ser apenas mais um entre milhares de escritores, para ser aquele nome que torna qualquer citação em uma citação especial. Seu post de hoje fez um louco feliz...
    Não sabia da existência da cidadela, mas, já estou com "água nos olhos" para ter o prazer ingrato de consumi-lo, mesmo que incompleto... Interessante, que no trecho onde ele fala sobre escrever, ele talvez nem imaginasse que seus navios de palavras continuariam a percorrer os oceanos mentais após tanto tempo de sua morte...

    Um grande abraço

    =NuNuNO==
    (Que recomendou o Pequeno Príncipe para um amigo, ele disse que adorou, mas, anos depois foi descoberto que ele havia lido na verdade o Príncipe do Maquiavel...)

    ResponderExcluir
  3. O livro deve ser ótimo, Ana, pelas colocações do autor com as quais nos presenteou. Bjs.

    ResponderExcluir
  4. comprei o livro ha 20 anos. iniciei agora a leitura.

    ResponderExcluir

Obrigada pela sua presença! Por favor, gostaria de ver seu comentário.

Ah, os Italianos! - Parte II

Pôr do sol em Florença... jamais esquecerei. Continuação do texto anterior LIXO – Quando fui jogar o lixo fora pela pri...