terça-feira, 27 de março de 2012

SANDÁLIAS - um conto







Sandálias





O coração dele disparou ao vê-la aproximar-se. Não era como as outras meninas que chegavam, interessadas nas pulseiras, colares e sandálias que ele fabricava. Já trabalhava naquele canto de praia há vários anos, montando sua barraca todas as manhãs e desmontando-a no final do dia. Estava acostumado à rotina de lindos corpos bronzeados, e por isso, sabia que não era apenas pela beleza do corpo, nem pelas cores deslumbrantes do florão da canga que ela trazia enrolada à cintura.

Talvez fosse a maneira como os cabelos castanho dourados se agitavam sinuosamente com o vento do mar... ou as esmeraldas que ele percebeu nos olhos dela.

Não era só aquilo; era exatamente aquela coisa que acontece e que é indefinível. Pronto: estava perdido, irremediavelmente perdido.

Pegar seus pertences e ir trabalhar todas as manhãs tornou-se um acontecimento diferente, bem longe da rotina que ele cumpria há anos; pois agora, ela estava lá. Sempre no mesmo horário, passava por ele sem notá-lo. Passava como a brisa do mar, refrescando a todos sem distinções.

Ele decidiu que lhe faria um presente: um par de sandálias. O par mais lindo que jamais havia feito. Selecionou as melhores tiras de couro, as miçangas e cristais. Começou a pensar em um arranjo encantador para dispor tudo sobre as tiras, e como trançá-las de forma que os cristais e miçangas formassem um lindo desenho. Engenhoso que era, logo arranjou uma solução.

Um dia, enquanto trabalhava em sua preciosidade, ela chegou de repente, parando para olhar as coisas que ele vendia. Ela fingia estar olhando as pulseiras, mas na verdade, tinha o olhar atento às costas bronzeadas e musculosas do rapaz (ele estava sentado de costas para ela). Reparou que ele usava uma argola em uma das orelhas. Achou aquilo horrível! Pode perceber que suas unhas estavam sujas devido aos produtos que usava para trabalhar o couro. Também não gostou nada daquilo... mas ele tinha alguma coisa de especial que a atraía, embora ainda nem tivesse visto seu rosto: era o cheiro que vinha dele.

Quando ele se virou de frente para ela, ambos tiveram um momento de confusão, corações disparados, bocas entreabertas.Finalmente, ela gostou de alguma coisa que viu nele: os olhos, o olhar profundo, a barba por fazer. Tinha um charme que não era nada parecido com o charme estudado dos rapazes que ela tinha namorado. Ele era totalmente natural e original, tão original que chegava a ser bruto, e aquilo doía.

Ela pegou uma das pulseiras sem pensar, e disse friamente: "Vou levar esta..." Ele não conseguiu dizer nada: colocou a pulseira em um saquinho de papel, que estendeu a ela, pegou o dinheiro, fez o trôco. Foi quando ela reparou nas tiras cravejadas de pedrinhas e contas que estavam no chão, atrás dele. Ficou encantada com a beleza delicada que estava sendo formada por aquelas mãos embrutecidas.

Perguntou: "O que é aquilo?" Ele respondeu, gaguejando um pouco: "Um par de sandálias." Sem pensar, ela quase gritou, entusiasmada: "Eu as quero! Quando ficam prontas?" Ele sorriu: "Na verdade, elas já tem dono... ou melhor, dona. Estou fazendo as sandálias para dá-las de presente à mulher que é a dona do meu coração."

Ela percebeu que uma leve fúria começou a insinuar-se dentro dela, sem querer. Como ele podia ser tão petulante? Ele percebeu o desconcerto da moça, e achou-o divertido. Ela apenas virou as costas e foi embora, deixando no ar o leve perfume de seus cabelos misturado à maresia.

Ele trabalhou a noite toda, na casinha humilde que ocupava junto ao pier, para terminar o par de sandálias no dia seguinte. Não aceitou o convite dos amigos para mais uma noitada de violão na praia, em volta da fogueira. Quando terminou, o dia amanhecia, e as gaivotas gritavam em volta dos barcos de pesca.

Ele vestiu sua melhor camiseta, sua melhor bermuda, e foi caminhando até a praia. Seu coração não estava acostumado à emoções tão fortes. Batia descompassado, causando-lhe um misto de alegria e ansiedade.

Ela chegou, passando por ele. Desta vez, ela sorriu e seus olhares se cruzaram. Ele esperou até que ela estendesse sua canga na areia e, colocando seus óculos escuros, se deitasse sobre ela. Então, ele pegou sua obra-prima e foi até aonde ela estava, parando diante dela, que, ao perceber que havia uma sombra entre ela e o sol, abriu os olhos, retirando os óculos escuros.

"Você ainda quer as sandálias?"
"Pensei que você tivesse dito que elas estavam sendo feitas para a dona do seu coração..."

Sem nada dizer, ele se ajoelhou diante dos pés dela, colocando-lhe as sandálias. Só então ela compreendeu!

No final do dia, quando ambos estavam sentados diante do mar, exaustos de tanto amar, ela se lembrou que teria que partir na manhã seguinte. Sua vida estava lhe esperando. E a vida bem sabia que não poderia juntar, durante muito tempo, duas criaturas tão diferentes.

Quando ele acordou e estendeu o braço, procurando por ela, encontrou apenas o par de sandálias.





Ana Bailune







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