quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Escrito à Tinta



Quando eu estava para completar dez anos de idade, minha mãe me chamou e perguntou-me o que eu preferiria ganhar de aniversário (o dinheiro era pouco): uma bola perereca, daquelas que quicam bem alto quando a gente as joga no chão - eu adorava jogar bola e era doida para ter uma daquelas-, ou canetas esferográficas e um caderno de dez matérias igual ao da minha irmã mais velha que já cursava o ginásio. Eu ia começar a quinta série ginasial no ano seguinte, e não via a hora de poder começar a escrever à tinta e ter todas as matérias da escola em um só caderno, ao invés de ter que carregar todos os dias os vários caderninhos encapados com um feioso plástico amarelo.
Eu queria as duas coisas: a bolinha e o caderno com as canetas. Mas minha mãe me disse que eu teria que escolher, pois eles não poderiam comprar as duas coisas. Escolhi o caderno, embora só fosse começar a usá-lo no ano seguinte – estávamos em setembro. Deixei para trás, embora não sem certa nostalgia, a bolinha que pulava bem alto. Simbolicamente, deixei para trás a minha infância.
No ano seguinte, com muito orgulho, comecei a usar meu caderno de dez matérias – que eu considerava uma grande mudança em minha vida, pois representava minha passagem para o ginásio, o que significava que eu já era “grande” e não teria mais apenas uma “Tia”, mas vários professores: um para cada matéria. Minha mãe já havia me dito que eu teria que tomar muito cuidado para não errar ao escrever, pois era muito difícil apagar a tinta da caneta. Mas é claro que eu cometi erros. Muitos! No início, usava a parte azul daquelas borrachas de duas cores que, supostamente, deveriam apagar palavras escritas à lápis e caneta, mas ficavam as manchas, os espaços puidinhos nas folhas. Depois, passei para os corretores de texto, que deixavam uma mancha branca, e a caneta escorregava em cima deles quando a gente escrevia por cima. Às vezes, a caneta ‘estourava.’ Eram muito comuns, naquela época, canetas que estouravam e manchavam toda a página. Quando aquilo acontecia, eu arrancava a página e recomeçava, mas eu sabia que sempre ficava faltando uma folha quando eu fazia aquilo, e cadernos custavam caro. Assim, eu procurava ser o mais cuidadosa que eu podia. Afinal, eu queria que meu caderno tivesse a melhor aparência possível, pois sempre fui muito caprichosa com as minhas coisas.
Fui crescendo. Mais tarde, fui trabalhar em uma loja de roupas masculinas de luxo que pertencia ao meu cunhado e minha irmã. Um dia, ela me veio com um enorme caderno preto chamado “livro de registros fiscais”, e me disse que eu deveria escrever ali os nomes dos clientes que compravam, os números das notas fiscais e os valores das compras. Detalhes: eu não podia rasurar de jeito nenhum! “Mas... e se eu errar?”, perguntei; minha irmã me olhou e disse: “Você simplesmente não pode errar, ou os fiscais virão em cima da gente.” Bem, eu errei... várias vezes. Só o medo de saber que não podia errar, já fazia com que eu errasse. Lembro-me da letra desenhada com cuidado, meio-tremida de medo. E a cada vez que eu errava, eu passava pedaços de noites em claro, visualizando a capa preta e ameaçadora do temível caderno de registros fiscais, e  pensando nos malvados fiscais... que jamais vieram!
E assim o tempo foi passando, e eu me tornei uma moça perfeccionista, envergonhada, crítica e rígida, que tinha sempre muito medo de errar. Preferia não pronunciar nada a falar uma besteira. Preferia não tentar fazer alguma coisa a cometer um erro. Apesar de ter sido uma moça muito bonita, eu era cheia de complexos e preferia passar despercebida, pois vivia me comparando às outras meninas, e aos meus olhos, elas eram sempre muito melhores, mais ricas e inteligentes e bem mais bonitas do que eu. 
Mas conforme eu amadureci, percebi que tudo isso é uma grande bobagem. Viemos aqui para tentar, errar, fazer de novo, e errar, e tentar de novo, e cair, e levantar quantas vezes forem precisas. E mesmo que existam pessoas que nos apontem e nos critiquem, isto apenas significa que estamos chamando a atenção, e que não passamos em branco. Hoje, eu quero continuar escrevendo no meu caderno à tinta, e enchendo-o de borrões e puidinhos toda vez que eu tiver que corrigir algum erro. Quero que as folhas fiquem amassadinhas de tanto eu lê-las e relê-las. Quero poder partilhar as coisas que eu escrevo neste caderno, trocar experiências, colocar fotografias e figuras de coisas que vi, lugares que visitei, pessoas que conheci, saudades que eu guardo. E no final, quando eu estiver na última folha, quero poder assinar meu nome sem medos e sem vergonha alguma, sabendo que as marquinhas daquilo que apaguei, as páginas que arranquei e ficaram amassadas pelo caminho, os borrões de tinta, tudo, tudo, fez parte do meu caminho, da minha história e do meu aprendizado.




9 comentários:


  1. Bonito texto, Ana! A vida é um aprendizado e temos que errar mesmo para crescer e dar passos melhores e mais firmes! Lendo a sua narração, lembrei de coisinhas também que passei, tipo "caligrafia" p a letra ficar bonita, falavam isso... Rsss...
    Um abraço...

    ResponderExcluir
  2. Que coisa bacana e interessante ... tivemos uma infância com gosto similares ... q saudades da minha bola perereca ... e dos cadernos de 10 matérias ... e do colecionador ... OMG!
    Outra coisa ... sou um perfeccionista por excelência ... chega a ser neurótico ... rs

    Beijão

    ResponderExcluir
  3. Ana, como foi marcante a infância daquela época, a nossa infância!
    Os ritos simbolizados no escrever à tinta, os cadernos universitários tão cobiçados ( eu fazia questão de levá-los no braço e não dentro de mochilas ou bolsas, acho que era pra todo o mundo ver! ).
    Um caderno universitário hoje é algo tão banal; canetas, os bebês as manuseiam...
    Ah! E o puído das folhas? Várias folhas dos meus cadernos assim, que me envergonhavam, mas eu seguia; não usava a borracha metade azul e rosa, usava o lápis borracha, um invólucro amarelo-canário que rasgava folhas sem dó!
    Você escreve de uma forma que nos toca. Uma sensibilidade que poucos têm.
    Beijo.

    ResponderExcluir
  4. oi Ana

    Vc me fez lembrar da minha infância dos meus matérias rs...
    Tão bom lembrar.
    Sabe a gente se cobra tanto na vida, pra sermos corretas e não erramos, mais tem coisas que são inevitáveis, se vc não erra vc não acerta. Se vc se cobra demais acaba vivendo privada de muitas coisas. Devemos nos permitir errar,acertar, cair e levantar.

    bjokas =)

    ResponderExcluir
  5. É Ana, as histórias quase sempre são iguais, mas poucos aproveitam para se lapidar, você se descobriu numa joia rara, que a todos encanta com sua sabedoria. Como foi bom sentir-se contida, oportunizou o desabrochar da sua rica vida interior.
    Nossas certezas vêm do tentar, errar, consertar, mudar e começar de novo. Abraços carinhosos
    Maria Teresa

    ResponderExcluir
  6. Minha estimada poetisa sem dúvida a vida é uma grande sala de aula em que cada ser humano tem a sua carteira. Quem não aprende pelo o amor, aprenderá pela dor. Parabéns és uma grande escritora. Leais abarcamentos de S/M.<><> MikasA>>> SukasA<><>

    ResponderExcluir
  7. Ana Bailuna, quem nuca erra? Quem nada faz. Errar e saber procurar emendar, está no ato de apender. A preção nunca nasce connosco. Adquire-se com o amor e gosto que temos das nossas coisas.
    Beijos

    ResponderExcluir
  8. Olá Ana,
    Coisa boa recordar essas coisas da infância.
    Belo texto.
    Desculpe não ter vindo antes para retribuir todas as suas visitas em meu blog. Confesso que não sei lidar bem com o Google+ e não achava o caminho daqui, por sorte hoje achei.
    Grata pelo carinho.

    Beijos,

    Lis

    ResponderExcluir
  9. Oi Ana.
    Muito bom seu texto.
    As marcas da nossa infância ficam para sempre.
    Eu fui muito criativo e usufruía de uma liberdade que me aguçava essa criatividade.
    E isso fez toda a diferença em minha vida.
    Um grande abraço.
    Bom final de semana.

    ResponderExcluir

Obrigada pela sua presença! Por favor, gostaria de ver seu comentário.

É QUE ÀS VEZES, O ADEUS PESA...

Não, não pude olhar para trás,  Atravessar aquela rua, Ir ao pé da tua janela E me despedir. Não, eu  não pude hes...