domingo, 27 de abril de 2014

Cartas Entre Amigos - Sobre Ganhar e Perder (resenha)





Cartas Entre Amigos -Sobre Ganhar e Perder
Gabriel Chalita & Fábio de Melo
Editora Globo –Ano: 2010 -
225 páginas







Hoje em dia, quase ninguém mais escreve cartas; ficamos presos à rapidez e informalidade dos e-mails, redes sociais e mensagens por telefone. A beleza e a verdade da palavra cuidadosamente escrita (e refletida) parece estar, cada vez mais, perdendo-se. E é neste exato momento que me caiu às mãos o livro Cartas Entre Amigos – Sobre Ganhar e Perder, de Gabriel Chalita e Fábio de Melo. O livro, como deixa claro o título, é o resultado da troca de correspondência entre dois grandes amigos, onde ambos discursam e refletem intensamente sobre o mundo de hoje, as pessoas, os relacionamentos, suas agruras, tristezas e vazios; e no meio de tudo, eles encontram e nos mostram o caminho de sua fé, sem a qual ficaria ainda mais difícil seguir em frente.

O respeito e a reverência que os dois amigos demonstram um pelo outro também é uma grande lição nesses tempos em que relacionamentos ganham contornos cada vez mais superficiais, frágeis e artificiais, e onde a palavra amizade tornou-se um clichê e a barreira entre a amizade e o excesso de intimidade é tão facilmente (co)rompida.

Um livro para ser lido e relido bem devagar. As histórias dos dois amigos entrelaçam-se com as nossas, e nos sentimos, ao mesmo tempo, personagens e autores coadjuvantes nos cenários que eles tão bem descrevem.

Alguns trechos do livro:

Carta de Fábio de Mello:

“Meu amigo, a escolha do filtro é determinante para o que conseguimos como resultado final. A vida é dura em todo canto. É dura em mim, é dura em você, é dura em todos nós. O sofrimento é normativo na condição humana. Há sempre uma dor sendo gestada, sendo sofrida em algum canto deste imenso mundo.”

Carta de Chalita, sobre a amizade:

“Amigos são poetas da alma. São andarilhos duais, alegres e tristes. São malabaristas, e, se necessário, palhaços. Brincam para que o sorriso não se faça de rogado. Testemunham o aconchego de um fim de tarde. Exalam o perfume agradável de uma flor que não se encontra em atacado. Amigos tem o poder da unicidade e não merecem a economia de nossos sentimentos. Se o convite é para o banho de cachoeira, para que perder tempo com a bica rala?

É uma vitória ter amigos. É uma derrota querer que os amigos sejam a projeção de nossas frustrações. O outro não é um pedaço que vai preencher um buraco do manto que me aquece. O outro é um manto inteiro. Mas um outro manto. Diferente do meu, e portanto, necessário.

Amizades interesseiras não são amizades. Na solidão das nossas decisões e no vazio de nossas escolhas, vamos percebendo quem é necessário e quem não entendeu o que é amar. Nada de parasitas, nada de sugadores nem de bajuladores hipócritas. Quantos são os que oferecem o perfume da euforia para que o cheiro da falsidade fique imperceptível? Cedo ou tarde se esquecerão de usar o perfume, e o odor natural será sentido.”

Fábio de Melo, sobre seu pai:

Meu amigo, pude viver muitos aprendizados ao lado do meu pai, mas há um fato que se tornou muito marcante para mim. Um aprendizado que aconteceu ao longo da minha vida, fruto de uma atitude que o acompanhou a vida inteira. Ele tinha o hábito de lavar o prato em que comia. (...) Depois de tanto tempo, fico pensando na mística que estava escondida naquele gesto. Lavar os pratos era um jeito que ele tinha de consertar o mundo. Herbert Viana tem um verso muito bonito em “Vamos Viver” que propõe: “Vamos consertar o mundo/Vamos começar lavando os pratos.” Meu pai aceitou a proposta, mesmo sem tê-la ouvido. (...) Talvez quisesse mostrar que, se cada um de seus oito filhos repetisse o gesto, minha mãe poderia descansar mais cedo depois das refeições.”

Chalita, sobre o luto:

(...) O luto necessário fortalece. O choro nos aproxima de quem somos, seres dotados de emoção. As janelas fechadas significam que a casa está sendo arrumada, que a sujeira está sendo limpa e que os enfeites estão encontrando o seu espaço para adornar e dar aconchego. Há o tempo da reforma e o tempo da inauguração. Em tempos de reforma, é melhor não trazer muita gente. A poeira pode dar uma impressão desagradável, as toalhas sobre as poltronas não são tão convidativas. Quando tudo estiver organizado, os convidados serão bem-vindos.”

Fábio de Melo:

“Nosso empenho precisa estar nisso. Fazer caber nas mãos o que queremos da vida.”

“(...)É isso que nos faz reconhecer, com Fernando Pessoa, que nada, absolutamente nada somos:

Não sou nada
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.

(...) Leiam de novo:

Não sou nada.
Nunca serei nada.

E quantas vezes forem necessárias. Leiam Pessoa os críticos de plantão, os fofoqueiros ou futriqueiros, como queiram. Leiam Pessoa os sujos, os que se emporcalham na avidez de emporcalhar os outros. Leiam Pessoa os que maltratam aqueles que servem. (...) Mas o poema continua. Se ficássemos apenas na negativa do que somos e do que seremos, negaríamos a própria razão da existência.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...) Depois de constatar que não somos nem nunca seremos nada, Pessoa nos alívia com a água fresca dos sonhos. Temos em nós todos os sonhos do mundo. E só temos porque primeiro nos esvaziamos. Antes de saber que os sonhos do mundo moram em nós, precisamos concluir que não somos nada.”


Um comentário:

  1. Ana você se abastece do bom conhecimento e nos presenteia sempre com sua generosidade, oferecendo o cálice com um bom vinho. Se todos lavássemos nossos pratos, quem sabe ocupados, não criticaríamos tantos os outros e olharíamos menos para nosso umbigo. Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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