OS BOLOS E OS TOLOS




Faltam alguns minutos até a próxima aula. Ligo a TV para passar o tempo, e deparo com um reality show sobre aspirantes a chefes de cozinha, onde o desafio do dia é fazer o bolo mais saboroso e apresentável. Os candidatos, que se esforçam ao máximo, são divididos em equipes, mas ao final do programa, tornam-se rivais. Todos estão muito estressados, e apesar de trabalharem juntos, não conseguem esconder seu medo, sua insegurança e seu alto grau de competitividade.

 O tempo é contado. Tempo é moeda forte no programa onde a tarefa é hercúlea, e talvez seja tão curto, apenas para aumentar ainda mais o estresse dos participantes. E de repente, alguém anuncia: "O tempo acabou!" Neste momento, todos tem que parar imediatamente, ou terão pontos descontados na avaliação.

Chega o momento da análise, onde amostras dos bolos são apresentadas para uma equipe de chefs já famosos: a equipe julgadora. Um a um, eles colocam os pedaços na boca, mastigando devagar, e algumas vezes, fazendo cara de nojo. No rosto do candidato, algo entre o desespero, a humilhação e a ansiedade, mas principalmente, a humilhação ao terem suas obras severa e sarcasticamente criticadas ao vivo e à cores. Eles torcem as mãos. Através da telinha, vejo seus rostos ficando vermelhos, e depois, pálidos, e novamente vermelhos. Alguns começam a chorar, enquanto outros cerram os lábios tentando se controlar.

Finalmente, ao final do programa, um deles é escolhido como o melhor e outro deixa o programa como se fosse um cão escorraçado. 

Fico me perguntando: por que alguém se submete àquilo, meu Deus? Será que eles não sabem que cozinhar é uma arte que demanda paz de espírito, calma, bom humor e muito amor? Melhor seria se colocassem entre os juízes pessoas que os candidatos amassem, pois assim, cada um seria capaz de dar o melhor de si, pois cozinhar sabendo que alguém que amamos vai comer aquela comida, faz com que ela tenha o tempero certo na medida certa. Mas não; é uma competição - apenas mais uma entre tantas que existem no mercado de trabalho. Vejo essas coisas e penso: está tudo errado.

Em outro programa, vejo um chef de cozinha grosseiro e mal-educado, que grita o tempo todo e humilha os participantes enquanto berra suas ordens e ofensas, com a face vermelha feito uma pimenta malagueta adubada pelo ódio. Os candidatos correm de um lado para o outro, deixam as coisas cair, se desesperam. Quem consegue alcançar o sucesso, recebe apenas um tímido elogio cercado de críticas. Eu jamais conseguiria trabalhar em um lugar assim! Acho que deve ser como acordar todos os dias e encaminhar-se para um local onde pedaços das almas das pessoas são arrancados à dentadas. Preferiria continuar fazendo meu trabalho anonimamente, calma e relaxada, em minha própria cozinha.

Reflito: a pior coisa do mundo, o maior dos sofrimentos, é submeter-se àquilo que os outros exigem de nós, e depender de opiniões alheias para sermos felizes. O sucesso é sempre associado à luta, esforço, abnegação, dedicação total de tempo, competitividade, estresse. Ter sucesso não significa, de jeito nenhum, ser feliz.




Comentários

  1. Bem, eu já não gosto muito mesmo de realitys, mas fico de boca aberta com a grosseria que os candidatos sofrem. Pra quê tudo isso?

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  2. Fomos feitos para amar e não para competir, a competição anula o prazer de curtir, o melhor que podemos oferecer ao outro, através do alimento.
    Ana, que seja sempre abençoada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  3. Muito bem ANA tiro-lhe o chapéu...você escreve particularmente bemmmmmmmm mas, BEM mesmo. Parabéns! Seu Blog está ao Rubro. Luísa Zacarias

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