sábado, 31 de maio de 2014

Dói a Garganta




Dói demais minha garganta
Pelo grito sufocado, 
Aquilo que não falei,
Aquilo que foi calado.

Arranha-se, lanha-se em espinhos
O céu negro da minha boca
Onde nuvens de enxofre
Escurecem os meus dentes.

É preciso abrir a boca,
Soltar essa minha voz rouca
Dizer o que for preciso...

Deixar a palavra louca
Ganhar os moucos ouvidos
Que ainda estão dormentes.



terça-feira, 27 de maio de 2014

Quem me Roubou de Mim?





Resenha

Pe. Fábio de Melo – Kindle edition, Amazon.com.br
Ano: 2013

Basta um minuto para nos apaixonarmos; um minuto que pode trazer luz a todos os nossos significados, ou que pode tornar-se o maior engano de nossas vidas. Ou então permitimos que nossos melhores amigos, sempre bem intencionados, tomem posse do nosso ser, e deixamos de ser quem somos para sermos quem eles esperam que sejamos. Ou vestimo-nos dos trajes que nossos familiares confeccionaram para nós, mesmo que estejam apertados e nada tenham a ver com o nosso estilo.

Destas relações vampirescas, onde o sangue sugado é voluntariamente doado muitas vezes sem que a vítima perceba, fala o livro “Quem me Roubou de Mim?”, de Fábio de Melo.

Ao lê-lo, impossível não fazer uma lista mental (curta ou longa) de pessoas que conhecemos e encontram-se em relacionamentos assim, onde um domina e o outro é dominado, como em um sequestro no qual a vítima acaba se convencendo da necessidade de dar-se bem com seu sequestrador a fim de continuar vivendo e acaba apaixonando-se por ele, pois passa a não se reconhecer sem o domínio do outro: a famosa Síndrome de Estocolmo. E esta forma de domínio, segundo Fábio de Melo, pode ser muito sutil; ela pode vir de pequenas chantagens emocionais que provocam culpa e submissão à vontade do chantageador.

Há pessoas que não sabem nascer através de si mesmas, e por este motivo ocupam um lugar dentro das outras pessoas, que passam a gestá-las, como no filme Alien, o Oitavo Passageiro. Posição extremamente cômoda, a de dominador, a de quem se põe a sonhar contando com o outro para realizar seus sonhos e satisfazer suas vontades... mas para quem é sugado e dominado sem perceber, há o risco de que tal situação só seja percebida depois de muitos anos e de muita vida perdida (ou roubada). Relacionamentos assim nascem entre pessoas dominadoras que encontram um útero vazio em pessoas inseguras ou com baixa autoestima. Passam a explorá-las; sequestram-nas delas mesmas. Os envolvidos nem percebem o quanto este tipo de relação castra não somente o dominado, mas também aquele que toma a posição de dominador; pois este não constrói uma vida para si, apenas sobrevive feito um parasita, alimentando-se do outro.

O caminho de volta a si mesmo pode ser difícil e doloroso, e requer muita coragem e bom- senso. É preciso, em primeiro lugar – segundo Fábio de Melo – que o dominado perceba-se como tal, e tenha coragem de tirar seus óculos cor de rosa, enxergando seu algoz como ele realmente é.

Alguns trechos do livro:

“Permitimos, ainda que inconscientes, que a amizade virtual nos retire da necessidade de construir artesanato afetivo com os que nos cercam. E então, o prejuízo.As horas que poderíamos aproveitar com uma boa leitura, um bom filme ou uma boa conversa, desperdiçamos na manutenção de um perfil virtual onde prevalecem as falas superficiais, as contendas, as disputas pela notoriedade(...).”

“Ser pessoa consiste em dispor-se de si e dispor-se aos outros. Trata-se de um projeto audacioso de pertencer-se para doar-se.”

“A subjetividade refere-se a essa capacidade que o ser humano tem de ser singular. Antes de ser comunidade, o ser humano é pessoal, particular, reservado, privado, porque segue a mesma regra do mosaico. Junta-se aos outros para compor o todo, mas não deixa de ser o que é.”

“É muito fácil a gente se perder na pluralidade do mundo. É muito fácil entrar nos cativeiros dos que nos idealizam, dos que nos desconsideram, dos que pensam que nos amam, dos que nos viciam, dos que pensam por nós.”

“É preciso estar emocionalmente amadurecidos para que sejamos capazes de nos opor aos que  ameaçam nossa subjetividade. Por que? Porque a imaturidade nos faz pensar que deixaremos de ser amados se não fizermos o que os outros esperam de nós.”

“Nem sempre o amor ama. Por vezes, ele é o disfarce do egoísmo.”

“O que nos atrai no outro é a terceira pessoa que conseguimos fazer nascer quando estamos com ele.”

“Os inimigos só podem sobreviver à medida que injetamos sangue em suas veias. O sangue da nossa permissão.”

“Conviver com quem optou pela inautenticidade causa uma infelicidade profunda. O gasto de energia para a mentira é muito mais elevado que para a verdade. Viver de projeções que não podem ser adequadas à realidade é o mesmo que não viver. A experiência das projeções nos coloca dentro de um mundo sem sustentação; e mundo projetado não é mundo que realiza, nem faz realizar.”

Um livro belíssimo e muito verdadeiro. Se lido com a atenção que merece, poderá abrir os olhos para muitos dos relacionamentos que nos roubam de nós sem que percebamos, e assim, o consentimos. Na tentativa de agradar aos outros e satisfazer suas expectativas, trilhamos um caminho amargo e árduo. Ralamos nossos joelhos até que sangrem em um calvário de privações pessoais e pensamos que este é o melhor caminho, chegando a nos convencer de que o desejamos realmente. Nós nos torturamos, nos tolhemos, nos mutilamos. Deixamos de ser quem nascemos para ser. Esquecemos dos nossos sonhos e os transformamos em pesadelos para que os sonhos dos outros – aqueles Aliens que se alimentam de nós – possam nascer.




segunda-feira, 26 de maio de 2014

Felicidade



Felicidade, na verdade
É palavra monossilábica.
Bastava o "fe",
Ali, na Cidade,
Soubéssemos ser felizes...

Mas necessitamos de mais,
Necessitamos de "dades",
Nos proclamamos sempre
Donos da verdade...

Assim, rimamos sem rir,
"Felicidade" com "maldade",
"Iniquidade" e uma vontade
De possuir o que é livre,
Classificar, etiquetar
E separar
Os complementos
Da mesma paisagem.

Fico com o "Fe" da felicidade,
Que não se explica,
Não tem motivos,
Nem verdades.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O Profeta







Do alto da minha torre
Envolta em neve e luar
Olho um mundo a contorcer-se
Competir e labutar.

O silêncio me acompanha,
Eloquente não-falar...
No bordado da minha fronha,
Nenhum sonho a se sonhar.

Do alto da minha torre
Pego um raio de luar
Desço ao mundo, falo aos homens,
Da importância de amar.

E eles me ouvem um pouco,
Mas logo prendem os dedos
Nas engrenagens do tempo
E consideram-me louco.

Volto ao alto da minha torre
Esquecendo as profecias...
Já não há gente no mundo,
Somente almas vazias

Que já nem tem esperanças,
São inúteis, mortas, frias,
Vem a névoa, encobre a torre
-Quem sabe, eu desça outro dia?...


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Distúrbios de Aprendizagem e Ensinagem





"Numa clínica psicológica estava escrito: "Distúrbios de Aprendizagem." Ainda não vi em clínica alguma anunciado "Distúrbios de Ensinagem." " - Rubem Alves

Esta frase de Rubem Alves levou-me a uma reflexão sobre o número exagerado de crianças e adolescentes que hoje classificam-se como hiperativos, com distúrbios de aprendizagem ou TDA. Lembro-me que nos meus tempos de escola, estas coisas não existiam; o que existia, eram alunos que estudavam e alunos que não estudavam. E no final do ano, quem não estudasse, não passava. Pronto.

Talvez eu esteja sendo simplista demais, mas acredito que há um certo exagero (Ok, não apenas um certo exagero, mas um exagero realmente exagerado) a respeito destas (des)classificações. Hoje em dia, há uma certa complacência quando os pais, psicólogos e educadores citam estes distúrbios como desculpa para a pura malandragem ou para a educação inadequada em casa devido ao despreparo dos pais. Acredita-se que tudo pode ser 'traumático' para a criança, e repreender é o mesmo que tolher a criatividade e a espontaneidade dos pimpolhos... se um dos pais dá uma simples palmada corretiva nos filhos, pode responder processo por maus-tratos e até mesmo perder a guarda da criança ou adolescente.

Aqui mesmo, em minha cidade, uma escola que é considerada a melhor de todas, incentiva a competição entre os alunos, e separa-os em grupos A, B e C (veladamente, vencedores, medianos e perdedores), sendo que alunos de um grupo não se misturam com os outros. Isto para mim não é educação, é tortura. Por outro lado, lembro-me que quando minha sobrinha era pequena, a escola onde ela estudava dava aos alunos total liberdade para desenhar e rabiscar aonde bem quisessem; ela chegava em casa e queria fazer a mesma coisa, e saía desenhando nas paredes da casa... e a "educadora" aconselhava os pais a permitir que a criança "se expressasse livremente!"

Para mim, educar é mostrar limites, ensinar a convivência, a tolerância, a solidariedade (os alunos que sabem mais devem ajudar os que tem dificuldades). Educar é mostrar que existem regras na sala de aula, onde o professor deve ser respeitado como a autoridade maior. Professor não é colega, por mais bacana que ele seja. E mais do que tudo, estes conceitos, em minha opinião, devem ser formados em casa. O aluno deveria chegar à escola sabendo que as pessoas devem ser respeitadas e que o ambiente de uma sala de aula é feito para a integração e aprendizagem, e não para bagunçar.

Quando eu era pequena, meus pais deixaram claros estes conceitos; havia a hora para estudar e fazer os deveres de casa, e não tinha discussão! Ai de mim se um dos professores mandasse bilhetinhos para meus pais reclamando de falta de disciplina... hoje em dia, quando isso acontece, os pais vão até a escola e reclamam do professor, alegando que ele não tem didática para lidar com os alunos. E neste clima de permissividade, justificativas e desculpas embasadas pela psicologia mal-empregada, crescem a maioria das crianças de hoje, sem disciplina e sem direção. Por não concordar com esse tipo de coisa, deixei de lecionar em escolas.

A responsabilidade pela educação dos filhos é dos pais, e não dos professores. Alunos indisciplinados, rebeldes, agressivos e preguiçosos não são responsabilidade da escola, e nem sempre sofrem de distúrbios psicológicos. Muitas vezes, tudo o que eles precisam é de direcionamento, limites, diálogo com os pais, orientação, e se preciso, punição sim, por que não? Algumas horas sem computador e um final de semana sem futebol ou videogame podem ser bastante eficazes. 

Mas vivemos em uma sociedade na qual ser professor, ao invés de honra, significa vergonha e desonra, do ponto de vista dos alunos e de alguns pais. As crianças são deixadas à solta, e algumas vezes, são incentivadas ao preconceito, bullying, violência e competição. Há alguns dias todos assistimos pela TV o caso do pai que acompanhou o filho e ambos, em público, surraram quase até a morte um outro rapaz com quem o filho deste brutamontes tivera uma discussão. Isto é educação? Alunos brigam em sala de aula e colocam o vídeo na internet. E nada é feito para punir estes acontecimentos. Alunos batem nos professores, ameaçam-nos de morte e até os matam! E a culpa, é da falta de didática dos professores? Um professor tem que dançar funk em sala de aula para chamar a atenção dos alunos? Imaginem só, tendo uma jornada de até doze horas de trabalho! Quem chegará inteiro ao final do dia?



terça-feira, 20 de maio de 2014

A Vingança das Flores





As flores me olham quando eu passo,
Balançam suas leves cabeças e riem,
Em sinal de desaprovação:

-"Estúpida criatura humana,
Nem és capaz de cumprir uma promessa
Que há tanto tempo, fizeste a ti mesma!"

Então, eu as colho em um buquê bem apertado,
E as amarro, todas juntas em um vaso
Que coloco em algum canto escuro da sala.

Penso em, mais tarde,
Brincar de mal-me-quer.

Em resposta, elas murcham.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

Portas





"...A força da natureza que impele a vida para frente e fecha as portas atrás dela para que jamais recue." - A Ciência dos Espíritos - Eliphas Levi



A vida passa, e fecha as portas
Atrás da barra das suas saias
Guardando a chave, enquanto passa...
-Não volta jamais, e não se volta.

E o que fica atrás das portas,
Veste-se em véu só de mistério
Leve, bordado de pretéritos
A adornar nossos cabelos
(Embora não possamos vê-los).

E o que segue em frente, nunca
Alcançará o que deixou,
Leva as lembranças nos artelhos
E numa caixa, a esperança.





"...Sendo a fé uma graça que é necessário merecer, Deus nunca a impõe a ninguém, mesmo após a morte." - Eliphas Levi

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Não é o Momento de Ficarmos Tristes




Vem, chega mais perto e senta aqui comigo,
Dê-me a tua mão, e vamos contar as nuvens que passam...
Elas levitam e transformam-se em grandes animais,
Depois, desaparecem pouco a pouco, desmanchadas...

Assim é a vida: transformação e movimento,
E somos como as nuvens: passamos sem notar
Num céu ora claro, ora tempestuoso,
Crivado de estrelas que há muito já se apagaram...

-Ilusão! Eis o que debrua o limiar da existência!
Pois o olho só alcança aquilo que ele percebe,
Enquanto outras coisas vão ficando entre mistérios
Que a vista jamais capta, que o pensamento não vê!

Mas não é o momento de ficarmos tristes,
Ainda não, não enquanto passam as nuvens,
Enquanto as formiguinhas, enfileiradas, trabalham,
Enquanto os passarinhos voam de galho em galho...

Escuta: não existe uma canção passando com o vento?
Por dentro da tristeza, brotam sementes de alegria...
E tudo é passageiro, nada permanece,
E mesmo que a saudade nos alcance um dia,
Ainda não é o momento de ficarmos tristes!

Eu sei que pendem dos galhos da árvore da vida, gotas pesadas...
Que um dia, vão cair, acarretando-nos mágoas;
Mas por enquanto, desfrutemos da paz que ainda nos resta,
Pois não sabemos quando será o final da festa.

Ainda não é o momento de ficarmos tristes,
Digamos uma prece pelo que ainda existe...




terça-feira, 13 de maio de 2014

Spans




Procurando uma mensagem que alguém enviou-me e não recebi, achei que ela poderia ter caído em minha caixa de spans. Abri-a, e mal pude acreditar nas coisas que estão por lá! Além de conversas no Facebook das quais jamais participei, descobri que fui contemplada várias vezes com prêmios que variavam entre cem e trezentos mil reais! Pena que não cliquei no link...

Também recebi vários emails oferecendo-me produtos que prometem aumentar o tamanho do meu pênis e assegurar um bom desempenho sexual com minha parceira, além de vários links para adquirir vídeos "adultos" que apimentarão a minha vida...

Infelizmente, havia alguns links de bancos cobrando dívidas que jamais contraí, e mensagens da Receita Federal dando-me mais uma chance para resgatar uma graninha preta que ficou 'esquecida' durante a minha restituição do Imposto de Renda; para tal, bastaria que eu fornecesse o número de minha identidade, demais dados e o número de uma conta bancária na qual eles pudessem fazer os depósitos.

Também havia links de amigos que não conheço (como meu círculo de relacionamentos é vasto!) convidando-me a visualizar as últimas fotografias do nosso último passeio juntos, e um destes emails era de uma suposta "amiga" que, sentia muito, mas precisava que eu ficasse sabendo, através de imagens, da traição do meu marido...

Como vocês podem ver, a caixa de spans pode ser um local maravilhoso, onde você pode ficar rico de repente, dar um flagra no seu (a) cara-metade, rever velhos amigos que jamais conheceu, aumentar o tamanho de seu pênis ( tendo um ou não; caso você não tenha, com certeza conseguirá achar um link que forneça-lhe um) e aprimorar sua vida sexual com sua parceira. Não deixem de acessá-la e não se esqueçam de clicar nos links!




segunda-feira, 12 de maio de 2014

Atire a Primeira Pedra!




A mão da justiça não deve ser leve nem pesada demais. Em ambos os casos, sendo demasiadamente leve ou pesada, ela torna-se complacente com o crime - aquilo que deveria combater. É muito difícil pesar a justiça, e tomá-la nas próprias mãos é a maneira mais rápida e fácil de desvirtuá-la.

Todo mundo tem uma pedra guardada na manga do casaco, e não vê a hora de jogá-la contra alguém. Vivemos tempos violentos, onde pensar tornou-se esforço demais, e as pessoas se deixam levar por boatos sem nenhuma base ou critério, elegendo líderes cretinos e aproveitadores. Basta que alguém tenha a voz mais alta ou o discurso mais floreado e aponte um caminho qualquer, e logo uma turba enfurecida e acéfala o seguirá, sem pensar e sem pesar os fatos, tal qual uma manada de celerados.

Por isso, eu temo os líderes e seus 'movimentos.' Movimento demais causa tonturas. Quem muito grita, pouco tem a dizer, e quer ganhar a razão através da voz, e não através dos fatos. Quem sai por aí quebrando coisas em nome da justiça não poderia estar mais longe dela. 

Assim, seguimos transformando a atmosfera e a energia deste país em algo cada vez mais pesado e poluído, e nem paramos para pensar na espécie de lugar que deixaremos às gerações futuras; o que mais importa, é atirar as pedras que temos nas nossas mangas como uma maneira de aliviar nossas frustrações e desabafar a nossa voluntária ignorância.

E cada vez mais, aquele espaço tão precioso, onde tudo começa, onde estão guardadas as sementes para um mundo melhor, permanece ignorado: as nossas próprias calçadas.


Vou te Ver de Novo

sol e chuva, da varanda da minha casa


Se de manhã bem cedinho
Dia e noite se encontram,
Se chuva e sol se misturam
Mesmo que de vez em quando,

Eu sei, sinto que um dia
Apesar do imenso abismo
Que hoje em dia, nos separa,
Chegará a hora exata
Em que vou te ver de novo...

O luar encontra o sol
Ao nascer de uma manhã,
No céu claro, ainda brilha
Uma estrela temporã...

Sob um arco-íris qualquer
Após horas, após vidas,
Sei que vou te ver de novo,
Sei que vou te ver de novo...





sexta-feira, 9 de maio de 2014

Destino

Praia de Iracema - Fortaleza



O destino é um oceano
De conchas abertas e fechadas
Por onde navegam as almas
Que já nascem naufragadas.

Não há remos para os barcos,
São as ondas que os levam.
À deriva, eles flutuam
E ao destino se entregam.

Sopram os ventos tão frios
Maremotos, calmarias...
E o porto é sempre o mesmo:
O fundo azul do oceano
Onde dormem os navios.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

Botão de Rosa



O botão da rosa não se abriu,
Murchou, fechado em si mesmo
E a morna luz do sol, não viu...

Ah, meu Deus, triste destino
O de morrer botão de rosa,
Tendo nas pétalas fechadas
Perfumes, cores e veludos,
Promessas de olhares encantados
Sem nunca abrir-se para a vida!...




quarta-feira, 7 de maio de 2014

Momento




O dia hoje está calmo,
Nem quente, nem frio.
Ruído de vento e de rio,
Carros que passam,
Vozes que riem.

Entre os cílios, raio morno
De sol, refulge seu brilho...
O dia hoje está calmo,
Nem quente, nem frio...

Latido de cachorrinho
Ao longe, no vizinho,
Pétalas roxas e brancas,
Um pássaro canta.

A alma é um diapasão
Que afina o dia que passa
E compõe uma canção
Que sobe, feito fumaça...

O dia hoje está calmo,
Nem quente, nem frio,
Cumpre seu destino,
Passa de mansinho...



segunda-feira, 5 de maio de 2014

BORDADO




Dá um ponto, e arrebenta
De repente, toda a linha...
Pega a tesoura e desmancha
E depois, o recostura...

Pede a Deus que ajude um pouco,
Pois os dedos já cansados
Se perderam nos caminhos
De um bordado desmanchado.

Uma flor daquele lado,
Um sol se pondo no pano,
O existir arremedado
De um destino de cigano...

As agulhas se cansaram,
E os dedais, já não protegem
Os seus dedos espetados:
Há sangue sobre o bordado.

Um rococó, um laçado,
Ponto-cruz que ele carrega,
O caminho alinhavado,
-Não se solta, não se entrega!

Cai no chão o pano: fado!
E a vida se encarrega
De riscar outro bordado
Com pespontos bem marcados...




domingo, 4 de maio de 2014

Reflexões sobre A Importância de Viver - Lin Yutang








nascimento: 10/10/1895 , China- morte: 26/03/1963, Taiwan


Lin Yutang - Uma reflexões sobre trechos de seu livro A Importância de Viver"-
publicado em Julho de 1937


"Quando um homem cria uma civilização própria, mete-se numa corrente de desenvolvimento que, pelo aspecto biológico, seria capaz de aterrorizar ao próprio Criador. No tocante a adaptação à natureza, todas as criaturas são maravilhosamente perfeitas, porque a natureza mata as que não de adaptam perfeitamente. Mas agora já não se nos exige que nos adaptemos à natureza; cumpre que nos adaptemos a nós mesmos, a isto que se chama civilização. Todos os instintos eram bons, eram sãos na natureza, mas na sociedade, chamamos selvagens aos instintos. Todo rato rouba- e ele não é menos moral ou mais imoral pelo fato de roubar -, todo cão ladra, todo gato se escapa de noite e estraçalha tudo aquilo em que põe as garras, todo leão mata, todo cavalo foge ao ver o perigo, toda tartaruga dorme durante as melhores horas do dia, e todo inseto, réptil, ave e besta reproduz a sua espécie em público. Bem, mas em linguagem civilizada, todo rato é ladrão, todo cachorro faz demasiado barulho, todo gato é um esposo infiel, quando não é um vândalo selvagem, todo leão ou tigre é um assassino, todo cavalo, um covarde, toda tartaruga é uma preguiçosa e, finalmente, todo inseto, ave, réptil, ave ou besta é obsceno quando cumpre as suas naturais funções vitais. Que transformação na massa dos valores! E esta é a razão pela qual nos quedamos a assuntar, espantados, por que nos teria feito Deus tão imperfeitos."



Segundo este trecho, que li e reli várias vezes, Lin Yutang discursa sobre o qaunto nos distanciamos de nossa própria natureza. Aquilo que era natural e nos ajudava a sobreviver, hoje é considerado pecaminoso, imoral ou pelo menos, desaconselhável. Acredito que chegamos a um ponto sem retorno; já criamos nossas regras para conviver em sociedade, e devemos seguí-las se quisermos evitar sérios conflitos com as outras pessoas, que também a elas, em sua maioria, adaptaram-se. Hoje, é inaceitável que nos reproduzamos em público ou que ajamos como os ratos, que roubam, e como os felinos, que destroem tudo no qual deitam suas garras - embora muitos ainda hajam desta maneira.

Mas acho que existem alguns instintos básicos que perdemos, e que seria muito interessante se pudéssemos resgatar; antigamente, as pessoas que trabalhavam nos campos tinham um incrível sincronismo com os rítmos da natureza. Plantavam e colhiam nas épocas certas, sabiam quando era melhor cortar os cabelos (segundo as fases da lua), entendiam os humores das marés sem que necessitassem de instrumentos muito poderosos. Elas viajavam guiando-se pelas estrelas, e raramente se ouvia falar de alguém que se perdera. Infelizmente, hoje nos tornamos dependentes da tecnologia para estes e outros fins. E quanto mais deixamos de usar os nossos instintos, mais os perdemos.

Tornamo-nos seres racionais e frios, e tratamos de apagar ou socar para o fundo qualquer tentativa de escutarmos os nossos instintos, pois isto significaria ser chamado de louco, irresponsável ou inconsequente. Aquela voz fininha que falava aos nossos ancestrais, hoje não passa de um murmúrio quase inaudível. Saímos por aí agindo 'racionalmente', e por isso damos racionais cabeçadas.

E cada vez mais, nos achamos no direito de criar regras aos outros. Quem se adapta a elas é considerado 'esperto', racional, inteligente, sociável; quem não concorda com elas, é anti-social, execrável, estúpido e digno de isolamento. E vamos matando nossos instintos, e assim, nossas almas vão se tornando pálidos espectros que vagam acima do mundo e acima de nós mesmos, desconectadas de nós, vítimas de depressão, sentimentos de inadequação, medo, preconceitos, urgência em agradar e ser aceito por aqueles que 'ditam as regras.'

Lin Yutang falava contra o nazismo em uma época na qual o Nazismo dominava grande parte da Europa; ele confrontava valores há muito estabelecidos, apontava novos caminhos e trilhas de pensamento, em uma época na qual judeus eram queimados em fornos da mesma maneira que hoje assamos frangos em microondas. Usando de seu inabalável senso de humor e coragem - e até mesmo, uma ponta de ironia - desnudava o verdadeiro caráter dos líderes de sua época, em trechos como:


"Perdoamos os grandes do mundo porque morreram. Por estarem mortos, sentimos que ficamos igualados a eles. Todo cortejo fúnebre carrega um estandarte em que estão escritas as palavras: "Igualdade Humana. (...) Vem daí, pois, o senso da comédia humana e o próprio material da poesia e da filosofia. Quem percebe a morte adquire o senso da comédia humana e logo se torna poeta."

E ainda:


"A diferença entre os canibais e o homem civilizado é, parece-me, que os canibais matam seus inimigos e os comem, ao passo que os civilizados matam seus inimigos e os enterram, plantam uma cruz sobre seus cadáveres e mandam rezar missas por suas almas." Lembrei-me muito de Ayrton Senna e toda perseguição que sofreu, quando li este trecho. Revi a cena do documentário sobre sua vida, onde um Prost compungido carrega uma das alças de seu caixão.

E em seu discurso sobre o senso de humor:


"(...) os capazes, os hábeis e os ambiciosos e orgulhosos são ao mesmo tempo os mais covardes e confusos, pois carecem da coragem, profundeza e sutileza dos humoristas. Estão sempre dedicados a trivialidades, ao passo que os humoristas, com seu maior descortino de espírito, podem pensar em coisas maiores. Conforme andam as coisas,, um diplomata que não fala cochichando, nem parece muito assustado e composto e cauteloso, não é um diplomata... Mas nem é preciso reunir uma conferência de humoristas internacionais para salvar o mundo. Em todos nós há uma suficiente qauntidade deste desejável ingrediente que se chama senso de humor. 


(...) Afinal, só o que maneja levemente suas ideias é senhor de suas ideias, e só o que é senhor de suas ideias não se vê escravizado por elas. A seriedade, enfim, é apenas um sinal de esforço, e o esforço é um sinal de imperfeita maestria. Um escritor sério sente-se pesado e a contragosto no reino das ideias, como um novo-rico na sociedade. É sério porque não chegou a sentir-se a gosto na companhia de suas ideias.


(...) Quando vemos um escritor a lutar com suas ideias, podemos estar certos de que as suas ideias é que estão lutando com ele."

Assim, seguindo as ideias de Lin Yutang, por que não levarmos a vida de maneira mais leve e despreocupada? Por que continuarmos fazendo questão de parecer o que não somos? Ninguém é perfeito, ninguém tem a chave da porta do Céu (ou do inferno), e ninguém tem o poder de destinar os outros a este céu (ou inferno) que concebemos.


sábado, 3 de maio de 2014

Tolas Escolhas







Algumas tolas escolhas
Tolhem o talhe,
Talham o leite
Da vida.

Telhados de vidro,
Telhas quebradas...
-Almas molhadas
Mofadas...

E as bolhas infladas
Na ponta do dedos
Se ferem nas linhas
Embaralhadas,
Nas malhas mais finas
Cortantes...

E torna-se tarde
Após o mergulho...
Anêmonas tolas,
Agitam tentáculos
Ilhadas no fundo
-Afogam-se.


Ficheiro:Actiniaria.jpg


Imagem: Anêmonas-do- mar. Animais que tendem a ficar no mesmo lugar a vida inteira. Alimentam-se de peixes e crustáceos, paralisando-os com seu veneno tóxico concentrado em seus belos filamentos. Apenas o peixe-palhaço é imune ao veneno das anêmonas-do-mar.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sobre Ayrton Senna





Ontem foi o vigésimo aniversário da morte de Senna. Ele morreu no dia do aniversário de minha mãe, e por isso recordo-me do acontecido com detalhes. Todos ficamos chocados. O país parou. Até mesmo seus inimigos declarados lamentaram (não sei se foi sincero, mas lamentaram). 

Ontem à noite assisti a um documentário sobre a vida dele, mais focado em sua carreira. Fiquei sabendo de coisas que eu nem imaginava, já que o mundo da Fórmula I é estranho para mim, e eu não acompanhava nem acompanho muito as corridas. Mas o que mais chamou-me a atenção, foi a oposição que Senna sofria. Tinha inimigos que faziam de tudo para prejudicá-lo, até mesmo tirando-lhe a melhor posição na Pole Position, conquistada com esforço, quando os dirigentes criaram regras de última hora que fizeram com que Senna tivesse que largar do lado ruim da pista, apenas para prejudicá-lo.

 Senna não compreendia e não aceitava a política dentro do mundo das corridas, e para ele, essa coisa de "Piloto principal tem que vencer" não existia - o que causou vários atritos com Alain Prost. Senna não via o francês como companheiro de equipe, mas como um adversário, quando ambos estavam na pista, e achava que o melhor venceria. E várias vezes, provou ser o melhor, o que irritou Prost.

Os métodos de Senna eram contestados, e os entrevistadores tentavam quase sempre colocá-lo em saia justa durante as entrevistas, acusando-o de direção perigosa - o que ele rebatia, afirmando que em corridas, todos praticam direção perigosa, e como se trata de uma competição, é assim que tem que ser. Vi, durante as reuniões com os pilotos, que ele recebia muitas indiretas e algumas diretas que muito o perturbavam. Sofreu grandes injustiças, mas jamais deixou de acreditar em si mesmo.

Ele foi forte. Teve a presença de espírito de combater seus oponentes onde era necessário - na pista - e muitos tiveram que render-se à sua capacidade superior. Ele era um predestinado. Acredito que algumas pessoas nascem predestinadas a brilhar, a mostrar que podem superar obstáculos. Houve uma Grande Prêmio no qual todas as marchas do carro, exceto a sexta, quebraram-se. Mas ele levou a corrida até o fim, e o esforço físico foi tanto, que ao final (após a vitória) ele sentia dores horríveis nos ombros. Mesmo assim, fez um último enorme esforço e ergueu a pesada taça.

Senna não era uma pessoa sutil. Dizia o que pensava, fosse a quem fosse, em qualquer lugar ou hora. Defendia suas ideias, se estivesse certo delas. Nada o desencorajava. Ele corria a corrida da vida sabendo que  qualquer curva poderia ser a última. Mesmo assim, não se deixava dominar pelo medo. Quantos de nós podemos dizer que fazemos a mesma coisa?

Antes da sua última corrida, segundo declarações de sua irmã Viviane Senna, ele abriu a Bíblia em busca de uma resposta (ele era muito espiritualizado) e encontrou uma passagem na qual Deus dizia que, naquele dia, Ele lhe daria um grande presente: o encontro consigo mesmo. Incrível, não?

Sem a menor sombra de dúvida, Senna foi e continua sendo uma das personalidades mais marcantes do Brasil e do mundo, não apenas na Fórmula I, mas na vida em si. 


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Esquecimento





Que eu seja em tua vida
Como a gota que evapora
No espelho das tuas águas,
Primeira dor que se cura
Na lembrança das tuas mágoas.

Que eu seja a flor já seca
Que de manhã, jogas fora,
Que meu tempo em tua vida
Não tenha ontem ou agora,
Que a imagem que restou
Naquela fotografia
Não te faça recordar
Da mulher que fui, um dia.

Que eu seja em tua vida
O último raio de sol
Do último dia que reste,
O botão que cai, perdido,
Da beira das tuas vestes.

Que não recordes de mim
Nem sequer, do nome, a letra,
Que a minha voz resvale
Como a chuva nas valetas
E escorra para longe...

Que não fique um "quê", um "onde"
De mim, no teu pensamento,
Que a nossa vida inteira
Seja qual breve momento
Onde o encontro e o desencontro
De dois perfeitos estranhos
Por sua desimportância
Foi levado pelo vento...



A Minha Vida

Parada na esquina De pé,  Mas cansada, A bolsa jogada nos ombros Pronta para a viagem Há tempos planejada. And...