sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

ANGÚSTIA




Enquanto escrevo, todas as fibras do meu corpo retesam-se ao ouvir os uivos profundos do cão do vizinho, que é idoso e está sofrendo com seu câncer terminal. Ele é bem cuidado e recebe assistência; seus donos são carinhosos, e o recolheram da rua, como a maioria dos cães que eles possuem. Ele já foi operado duas vezes, mas não há solução para o seu problema, e sua única saída para livrar-se deste sofrimento, é morrer. Precisa usar um daquela colares plásticos enormes e incômodos a fim de não morder as partes feridas pela doença.

Olho para ele, vejo seu estado miserável e irreversível. Latidos alegres de cães não me incomodam, nem mesmo no meio da noite, mas os uivos dele me perturbam imensamente. Eu sei o que faria se ele fosse meu: aliviaria seu sofrimento. Como fiz com meu Aleph, de 14 anos, após o veterinário me confirmar que o caso dele não tinha jeito. Cuidei dele por mais de uma semana, trocando fraldas e colocando-o ao sol, mas quando ele parou de beber e comer, e começou a tossir muito, precisando apoiar a cabeça em travesseiros altos para respirar melhor, eu pedi a injeção letal. Jamais me esquecerei a última vez que eu o olhei nos olhos: o veterinário aguardava na sala, e eu conversava com ele, que me olhava de maneira tão inteligente e profunda, que tive a impressão que ele entendia tudo o que eu estava dizendo. Falei para ele que eu tomara uma decisão dificílima para mim, e que fizera aquilo porque eu o amava muito e não suportava ver seu sofrimento. Acariciei sua cabeça, ele lambeu minha mão. Dei-lhe um abraço final.

Quando voltei, o veterinário disse: "Ele já foi, Ana. O coração dele estava tão fraco, que mal comecei a injetar a anestesia, ele morreu." Esta lembrança dolorida eu vou carregar para sempre. Mas também saberei que fiz o melhor que pude, e quando não pude mais, fiz a única coisa que traria a ele alívio e dignidade. 



9 comentários:

  1. Ana,
    Sinto, aqui, a dor desse ser. Sei do que fala, quando se refere a essas decisões difíceis. Mas, felizmente que nos é possível deixá-los partir, sem que sofram demasiado. Espero que os seus vizinhos tomem essa decisão rapidamente

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  2. Ana, linda Ana, é com lágrimas que leio aqui e lhe digo, também precisei pelo bem do meu cão, um Dálmata lindo que também tinha 14 anos, seguir o meu coração, não aguentávamos mais ver o nosso cão sofrer, esperamos um tempo determinado pelo veterinário, depois a decisão foi crucial, choramos muito com isso, mas não havia outra saída, faz quatro meses e ainda fico pensando se fizera o certo, mas tudo o que fazemos para o bem dos nossos amados bichinhos, é válido!
    Sei o que é ficar a ouvir o cão do vizinho uivando de dores sem poder fazer nada, nossa, que pena!
    Também, como a Teresa, fico aqui torcendo para que façam algo, que pensem na dor do amigo, pois é, triste né minha amiga, muito triste isso!
    Abraços minha querida!

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  3. Que queres? Eu e os animais tivemos sempre uma má relação. Excluo bácoros e patos de que, em miúdo fui guardador. Ao contrário com plantas (criei e tratei três anos uma extensa horta), tive um grande prazer, com a sua verdura, Parece que era ouvido. Ainda hoje considero a grande obra da minha vida.
    Como sou bastante emocional perante a vida, o tua prosa me comoveu.
    Desejo sempre FELIZ NATAL!...
    beijos de amizade

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  4. Oi Ana, li tudo com AQUELE nó na garganta, porque eu passei por situação semelhante e sei o quanto nos custa tomar essa decisão.
    O que nos consola é não ver mais o sofrimento deles, porque também dói em nós.
    Você tomou a decisão certa minha amiga, apesar dos pesares... Aleph está livre!

    um beijo pra ti

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  5. oi ana,
    vc tem belos espaços na blogosfera e esta postagem é muito sensível!
    deixo meu carinho e desejo de um excelente fim de ano a vc e família...
    namastê

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  6. Faz anos, que também não houve outra solução para a nossa LADY, uma cadela perdigueira portugusa que, para lá detodas as doenças e óbnio sofrimento, estava praticamente cega.
    Nunca mais um animal de estimação em casa, foi a decisão assumida.

    Um beijo, querida Ana e BOM NATAL.

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  7. Dignidade! Fechaste o texto com uma palavra mágica. No meu humilde entendimento, acredito que o/um animal, qualquer que seja, nesse estado e com essa esperança de vida, necessita de respeito e uma atitude nobre de desprendimento que ponha termo ao sofrimento inglório.
    Adorei o texto!
    --
    Ana, desejo-te um Santo e Feliz Natal!

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  8. Boa tarde, Ana. Já passamos por uma situação igual aqui em casa com nosso cachorro, tanto que o meu padrasto nem quis mais que entrasse qualquer animal aqui.
    Enfim, decisão muito dolorida que você teve que tomar, ao mesmo tempo, aliviadora para o cão.
    Sofrer, prolongar por mais tempo a dor, quando sabe-se que não tem mais como existir uma cura, é desnecessário, na minha opinião.
    Ele foi em paz, e sei que o guardas no coração, caso contrário, esse texto não estaria aqui escrito.
    Obrigada pelo seu carinho em 2013.
    Espero que tenhas um Natal de muita paz e um abençoado 2014 com muita fé e saúde!
    Beijos na alma!

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  9. Pelo menos acabou o sofrimento dele , tadinho, a doença
    é terrivel.
    bjs
    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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