PARTILHANDO PALAVRAS




Acredito que o que é bonito e verdadeiro, deve ser partilhado, para que alcance o maior número de pessoas possível. Vivemos em tempos nos quais coisas horríveis são sempre partilhadas - maledicências, fofocas, invencionices, guerras, corrupção. Mas olhem só que lindo isso - Rubem Alves comentando sobre a parábola do filho pródigo:

"Jesus pinta um rosto de Deus que a sabedoria humana não pode entender. Ele não faz contabilidade. Não soma nem virtudes nem pecados. Assim é o amor. Não tem "porquês". Sem razões. Ama porque ama. Não faz contabilidade do mal nem do  bem. Com um Deus assim o universo fica mais manso. E os medos se vão. Nome certo para a parábola:

"Um pai que não sabe somar." Ou: "Um pai que não tem memória."

Se pudéssemos compreender Deus e a vida desta forma, saberíamos que ela, à sua maneira, é sempre justa, pois não faz contabilidade. Não haveria sequer a necessidade de fazer-se afirmações como "Aqui se faz, aqui se paga", ou "Recebemos de volta aquilo que mandamos," pois  se fosse verdade, os justos não sofreriam. Daí alguém pode afirmar: "Ah, mas os sofrimentos dos justos vem de outras encarnações." E do que eles valem, se aquele que está sofrendo não se lembra deles? E o próprio Jesus, exemplo da verdade, da justiça e da bondade, não sofreu horrores pendurado a uma cruz construída com a ajuda  daqueles em quem Ele mais confiava? Qual a culpa que Ele trouxera de outras encarnações?

Gosto de ler Rubem Alves porque ele sempre desperta o que há de melhor em mim, e me faz compreender o que há de pior sem culpas ou medos. Ele me mostra que o que tenho de melhor, é exatamente aquilo que está sob as camadas e camadas de tintas com as quais me pintaram, e que é a minha cor original. Entendo que Deus é bem diferente dessa criatura de mil faces que aparecem de maneiras diferentes para cada religião. Diz Rubem Alves, em um trecho de sua crônica Sem Contabilidade:": 

"...Não farás para ti imagem", tendo sido proibido até com pena de morte, que o seu próprio nome fosse pronunciado. Mas os homens desobedeceram. Desandaram a pintar o Grande Mistério como quem pinta casa. E a cada nova demão de tinta, mais o mistério se parecia com as caras daqueles que  o pintavam. Até que o mistério desapareceu, sumiu, foi esquecido, enterrado sob as montanhas de palavras que os homens empilharam sobre o seu vazio. Cada um pintou Deus do seu jeito."

E ficamos por aí, sempre pintando imagens com tintas falsas, construindo esculturas com imagens falsas e concebendo o Inconcebível. Colocamos palavras na boca de Deus como se Ele mesmo as tivesse dito. E apontamos para o outro que sofre, orgulhosamente afirmando que "O que vai, volta", como se tivéssemos sido eleitos juízes de Deus. Vejo, em algumas pessoas, um brilho de mórbido prazer no olhar (disfarçado de piedade), quando contabilizam as quedas alheias.

Se algum dia eu tivesse uma religião, seria aquela que admitiria não ter todas as respostas e quase nenhuma certeza. Uma que não tivesse dogmas ou receitas infalíveis, e que diante do inexplicável, baixaria a cabeça e diria: "Não sei responder." Eu teria uma religião que não determinasse o que eu posso vestir, que tipo de música eu posso ouvir, ou que comida eu posso consumir; uma que não separasse as pessoas entre "bons" e "maus", "merecedores" e "não-merecedores", "santos" e "pecadores."

Acho que eu jamais terei uma religião.

Minha religião são pessoas que tem algo a dizer, como Rubem Alves. É uma tarde de chuva após um dia calorento, uma linda manhã toda dourada de sol, flores e insetos no jardim, a voz do vento quando traz o perfume da vida. A minha religião são os livros, as palavras, os poemas, as músicas, as cores, as pequenas felicidades, os pequenos prazeres, a comida na mesa todos os dias, a água que sai da torneira limpa e fresca sempre que eu preciso, o silêncio, o silêncio, o silêncio.



Comentários

  1. Amiga Ana, amei ler aqui me identifiquei, tanto com seus pensamentos quanto os citados sobre Rubem Alves, eu adoro lê-lo, ainda bem que deixou grande legado, "lá" de onde ele está deve estar escrevendo outros tantos,rs, pois é, adoro acreditar nisso, nada acaba, tampouco há sofrimentos a serem resgatados, não acredito nisso também, mas acredito em reencarnação, pois pra mim dá prazer em crer nisso, mesmo porque, se não for verdade, tudo bem, não perco nada!
    Não sou religiosa, não gosto de complicar a vida, ela é para ser vivida e muito bem vivida!
    Até escrevi um poema hoje sobre isso, o título é Vida!
    Abraços apertados!

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  2. Ana, realmente nos fazes pensar. Lindo teu texto e Rubens Alves sempre tem muito a nos dizer! Lindo dia! bjs, chica

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  3. Essa parábola vem ensinar para gente sobre perdão.
    Um pai por mais que o filho pise na bola, sempre está de braços abertos para recebe-lo.
    O nome deste sentimento maior é amor.
    O mesmo amor que Deus sente por cada um de nós, não importa o qto erramos, ele sempre está lá de braços abertos para nós receber.

    bjokas =)

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  4. Sempre é bom ler RRubem Alves queé muito inteligenteCada pesspoa pode ter sua forma de ver Deus, mas uma coisa eu creio, Ele não castiga e nunca castigara ninguém.
    Um abraço.

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  5. Ana Bailune
    E muito bom ter crónicas, como esta que esta que apresenta. Rubem Alves é paradigma de um grande pensador. Realmente, os deuses, são idealizados à semelhança do homem, das várias sensibilidades do homem. Todas as civilizações tiveram a seu Deus, é certo mas agora há abusos em nome de um deus, muito a gosto. Depois quem pode acreditar num deus vingativo?
    Beijos

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  6. Também eu, Ana, também eu não tenho religião. Direi que tenho religiões que me inspiram e gente que admiro.
    Beijo

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  7. Gostei muito deste seu post. Li o texto com muita atenção.
    Obrigada pela partilha.
    Bj.
    Irene Alves

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  8. Ana, estava tanto precisando destas palavras... Saio daqui com a alma leve, obirgada pela partilha!
    Um abraço, lu.

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  9. Ana,
    Palavras que nos reportam a uma reflexão profunda !
    Parabéns !
    Ana

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