quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Vá Comprar Uma Laranja!







Cheguei ao ponto de ônibus perto da minha casa, e encontrei novamente aquele senhorzinho, também esperando pelo raro evento de um transporte de passageiros aqui na minha rua – o que só acontece a cada uma hora. Nos cumprimentamos, como sempre, e ele começou a puxar assunto. Não sei por que, mas as pessoas geralmente puxam assunto comigo – mesmo eu tendo essa cara não muito amigável. 

Começamos a conversar sobre os problemas de água em Petrópolis e nas dezenas de condomínios de luxo que estão construindo em Itaipava, Corrêas, Nogueira e outros locais. Nos perguntávamos se haverá água para toda essa gente, se já está começando a faltar para nós. Falamos também das chuvas que estão rareando cada vez mais. Falamos do aumento de temperatura dos últimos anos.

De repente, ele apontou para a ladeirinha que conduz à minha rua, e perguntou: “Você mora ali?” eu disse que sim, e ele me perguntou se eu tinha conhecido um senhor que morava ali e que morreu recentemente. Respondi: “Sim, ele era meu vizinho. Morava quase em frente à minha casa!” E ele começou a enumerar algumas pessoas que ele conhecia, e que tinham morrido. Lamentamos por eles. 

Não entendo por que lamentamos pelos que já morreram, se não sabemos o que há do outro lado, que pode até ser bem melhor do que o que temos aqui, ou então, se não há absolutamente nada, é aí que eu acho que deveríamos lamentar menos ainda. Mas a gente diz de quem morreu: “Coitado! Que descanse em paz!” Como se estarmos vivos fosse alguma espécie de presente, e a morte, uma desgraça. Estar vivo é vencer, e morrer, é perder. Será?

Bem, mas meu amigo e eu continuamos a nossa conversa, e de repente, ele começou a dizer algo, e uma vozinha lá de cima sussurrou em meu ouvido: “Escute com atenção, sua idiota. Isso é pra você!” Ele disse: “É... ninguém pode prever esse tipo de coisa... a morte, você sabe. Eu, toda vez que tenho vontade de comer uma laranja, por exemplo, eu vou lá fora, compro uma e como, porque a qualquer momento, a gente está aqui e de repente... dá um estalo no coração e a gente vai embora.”

E eu pensei nas laranjas que ainda não comprei. Pensei em todas as laranjas que tanta gente deixa de comprar, por medo, preguiça, vontade de economizar, ou simplesmente porque acha que hoje não é um bom dia, porque está chovendo. E muitas dessas laranjas ficam para trás nas estradas das nossas vidas, apodrecendo inutilmente, e a nossa vontade de prová-las, que não foi jamais saciada, será a fome que sofreremos antes do nosso último suspiro.





4 comentários:

  1. Que texto Ana! Que maravilha! Quanta sabedoria! Este, de algum tempo já, tem sido meu mote de vida ... chupo todas as laranjas onde, quando e como eu quero. Não deixo nenhuma se perder. A vida é boa mas daí julgarmos que a morte é ruim vai uma distância enorme. O fato é que estamos vivos, então vivamos e bem.

    Beijo grande amiga

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  2. Um brinde a este nosso tempo! ...com sabor de laranja!
    Belo texto!

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  3. Que texto bem bolado e escrito, Ana, tudo tão certo, sobre as mortes dos conhecidos, o tal do 'coitado' é palavra sempre presente. Pois é, e se a criatura for pra outra melhor? Por que o coitado? É o que mais escuto quando se fala em 'morreu!'
    Gostei muito, além de divertido é um texto sério. Entendeu isso? Acredito que não...rss
    bj

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  4. Bem interessante. Viver o dia como se fosse o último ou planejar a vida até o último minuto? Sempre tenho esssa duvida.

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