Minha Casa




A minha casa é meio-Frida Kahlo:
As cores se misturam e se espalham
Aleatoriamente nas paredes,
Em verdes e azuis, roxos, laranjas,
Em brancos, amarelos e vermelhos.

Cortinas não tem forros; esvoaçam
Ao vento que adentra e as agita,
E espalha o cheiro doce do incenso
Que eu queimo pela casa todo dia.

A minha casa é simples, e aqui dentro
Somente os objetos que amamos:
Presentes e lembranças de viagens,
E coisas que gostamos e compramos.

Por sobre a escadaria de madeira,
As mãos dos marceneiros já idosos...
A maioria deles já se foi,
Deixaram suas presenças no meu chão.

Sob esta escadaria, hoje estão
Os livros que mais amo, e que não doo;
De vez em quando os leio, e então me entrego
A branda realidade dos seus voos.

O meu jardim é uma parafernália
De plantas que eu encontro pela rua,
E ao plantá-las, raramente brotam
Onde eu as plantei, mas onde querem.

E Burle Marx, acho, se revira
Na tumba onde dorme, ao contemplá-lo!
Pois nada nesse canto é ordenado,
E nada obedece seus espaços!

Cresce uma pitangueira no canteiro,
As rosas se debruçam sobre o muro
E escolhem enfeitar outros jardins;
O meu bonsai cresceu trinta centímetros,
O cedro se encheu de passarinhos
Que fazem os seus ninhos por ali;
Me acordam de manhã, sempre bem cedo.

Pelo gramado, há falhas onde a grama
Foi arrancada pelas patas ávidas
Dos meus cachorros; ele se divertem
Ao derraparem sobre as folhas verdes.

Na minha casa nada é muito certo:
Eu desafio o rígido bom gosto
E rio das suas leis – desobedeço
O que já foi determinado e posto.





Comentários

  1. Com sempre uma bela poesia... Sua casa é linda, pois está como desejas.
    Tenha uma linda semana.
    Élys.

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  2. esta semana começa uma nova exposição da Frida, no MIS... sua poesia caberia bem no folheto da mostra... com certeza

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  3. Ana,
    O seu poema “Minha casa” é muito bom. Na agradável leitura do poema ficamos conhecendo um pouco a sua casa, muitas coisas que a revestem, até as cortinas sem forro, que por ficarem mais leves fazem a dança dos ventos. O quê dizer mais de um poema tão bem construído, que certamente nasceu da vivência com a sua casa, com quem a construiu, e o jardim à vontade, sem doentia vigilância, e os cachorros fazendo a farra deles, com tudo que te inspiraram.
    Abraço.

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  4. Nesta casa a poesia se instalou.
    Nesta casa há amor em cada cantinho e este derrama por escadarias,escorre pelos corredores e faz cascata sobre livros e deságua numa linda lagoa que no jardim se fez naturalmente, onde passarinhos se banham pelas manhãs, depois que o galo canta.
    Esta casa é fantastica e mora a harmonia Ana.
    Linda a casa que aqui canta.
    Abraços amiga.

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