quarta-feira, 26 de novembro de 2014

FICOU





Ficou tudo pelo chão,
 E é bom que tenha ficado.
Um vento lento a soprar
Desfez as tramas do passado
E levou, consigo, o legado
Para bem longe do mundo.

-Toda a inútil ilusão,
Arrogância, presunção,
Palavras de amor ou de ódio,
Escárnio, riso, e o punho
Que arremeteu os punhais
Cravados no coração.

Ficou sim, tudo no chão,
E a chuva que chegou
Lavou, levou e depois
Veio o sol, e desbotou
Os restos do que ficou.

Descoloriu sentimentos,
Apagou os pensamentos,
Preencheu de vazio os momentos
E nada, nada mais ficou

Além do que ficou no chão,
A fim de ser esquecido,
Daqui levado, varrido,
Como será carregado
Tudo aquilo que ainda está.

E agora, eu me pergunto:
Do que será que valeu
Tanto ódio, tanto pus,
Tanta mentira inventada,
Tantas lâminas cravadas
No caule frágil da flor?...

No fim, só fica o amor,
E mesmo este, algum dia
Segue a mesma estrada fria,
 Vai no rastro indefinível
De quem nunca mais voltou.

Ficou no chão o sentido,
Derramado feito água
No meio daquela estrada
Que ninguém mais percorreu...

Ficou toda a injúria vil,
De um coração desabrido
E desta, nem mesmo um til
Poderá ser removido.

Valeu?...




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

SUBSTÂNCIAS




Quem morre, fica à distância
De um pensamento.
Quem vive, fica à distância.

O pensamento separa
O que é mais denso.
É densa, a dor de quem vive.

A quem morre,
Tudo se perdoa,
Tudo é esquecido...

Reconstroem-se 
Silêncios e sorrisos,
E até mesmo, as ausências.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Você se Lembra?...

Você se Lembra?...






Você se lembra do que estava fazendo nas ocasiões abaixo? Algumas são muito tristes e outras, muito felizes, mas todas foram importantes. Você consegue se lembrar do que estava acontecendo e o que aconteceu em sua vida depois, naquele dia em que...
-As Torres gêmeas foram atacadas?
-John Lennon foi assassinado?
-O Brasil venceu a Copa do Mundo - todas elas?
-A Princesa Diana morreu?
-No seu primeiro e no seu último dia de aula - na escola ou na faculdade?
-Você se casou?
-Você descobriu que estava esperando um filho?
-Você foi pai ou mãe pela primeira, segunda, terceira ou décima vez?
-Você lançou seu primeiro livro?
-Algo muito importante - alegre ou triste - aconteceu pra você?
Tenho certeza de que todo mundo se lembra do que estava sentindo nestes dias, do que estava fazendo, quem estava ao seu lado, o que disseram. Porque a gente tende a se lembrar sempre dos dias importantes das nossas vidas e do que as pessoas disseram ou fizeram nesses dias. 
Portanto, quando você sentir que alguém está muito feliz, faça de tudo para tornar-se uma lembrança agradável na vida daquela pessoa. Respeite e incentive a felicidade alheia, pois nos lembramos sempre dos dias mais importantes das nossas vidas. E se você notar que alguém está muito triste, estenda a sua mão mesmo diante da possibilidade da ingratidão ou do esquecimento, pois mais tarde, se um dia esta pessoa lembrar-se de você, pelo menos ela se lembrará daquele momento em que você estendeu-lhe a mão.
Nunca nos esquecemos de quem riu e de quem chorou conosco. Pelo menos, não deveríamos.
E nunca nos esquecemos de quem nos fez chorar em um momento que deveria ser de alegria, e de quem nos fez sorrir em um momento que deveria ser de tristeza.





segunda-feira, 17 de novembro de 2014

PASSAGEM SECRETA




Minhas passagens são secretas,
 - Ou seja, quase secretas...

Às vezes, passa algum anjo
(Ou um demônio perdido)
Mas não ficam muito tempo.

Os anjos me deixam flores
Suavemente perfumadas,
E os demônios, nada deixam...
-Quem sabe, deixem lições
Que não ficam nos perfumes?

O meu caminho é secreto,
Feito de folhas caídas,
Musgo já ressecado,
Sobras de águas da chuvas,
Parreiras quase sem uvas...

Alguns passam e se debruçam
Sobre o meu muro arruinado,
Deixam os seus pensamentos
Em forma de comentários...

Outros passam e nem olham,
(Ou fingem que não me veem,
Acho que estes são vários...)
Enquanto tecem suas redes
Na intenção de me prenderem.

Eu fico silenciosa;
O tempo, meu professor,
Já me ensinou quase tudo:
A desviar dos abismos,
E a calar, se preciso,
Armazenar para estudo.

O meu caminho é secreto,
Apenas uma passagem
Que marca, sem pretensões,
Uma linha sobre o mundo.



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O DOM DO ESQUECIMENTO




O tempo às vezes traz
O dom do esquecimento,
Um vento benfazejo
Que apaga os maus momentos...

E ao cair dos panos,
No avançar dos anos,
Quem sabe, não lembrar
Não passe de um presente?

As águas das enchentes
Carregam muitas coisas
Que estão presas às margens
Pra bem longe da gente...

Entrar bem devagar
Na densa mata escura,
Sem dores ou memórias,
A mente e a pele nuas,

Deixar pelo caminho
Relógios e palavras,
Levar consigo apenas
A bênção da loucura...




segunda-feira, 10 de novembro de 2014

PARTILHANDO PALAVRAS




Acredito que o que é bonito e verdadeiro, deve ser partilhado, para que alcance o maior número de pessoas possível. Vivemos em tempos nos quais coisas horríveis são sempre partilhadas - maledicências, fofocas, invencionices, guerras, corrupção. Mas olhem só que lindo isso - Rubem Alves comentando sobre a parábola do filho pródigo:

"Jesus pinta um rosto de Deus que a sabedoria humana não pode entender. Ele não faz contabilidade. Não soma nem virtudes nem pecados. Assim é o amor. Não tem "porquês". Sem razões. Ama porque ama. Não faz contabilidade do mal nem do  bem. Com um Deus assim o universo fica mais manso. E os medos se vão. Nome certo para a parábola:

"Um pai que não sabe somar." Ou: "Um pai que não tem memória."

Se pudéssemos compreender Deus e a vida desta forma, saberíamos que ela, à sua maneira, é sempre justa, pois não faz contabilidade. Não haveria sequer a necessidade de fazer-se afirmações como "Aqui se faz, aqui se paga", ou "Recebemos de volta aquilo que mandamos," pois  se fosse verdade, os justos não sofreriam. Daí alguém pode afirmar: "Ah, mas os sofrimentos dos justos vem de outras encarnações." E do que eles valem, se aquele que está sofrendo não se lembra deles? E o próprio Jesus, exemplo da verdade, da justiça e da bondade, não sofreu horrores pendurado a uma cruz construída com a ajuda  daqueles em quem Ele mais confiava? Qual a culpa que Ele trouxera de outras encarnações?

Gosto de ler Rubem Alves porque ele sempre desperta o que há de melhor em mim, e me faz compreender o que há de pior sem culpas ou medos. Ele me mostra que o que tenho de melhor, é exatamente aquilo que está sob as camadas e camadas de tintas com as quais me pintaram, e que é a minha cor original. Entendo que Deus é bem diferente dessa criatura de mil faces que aparecem de maneiras diferentes para cada religião. Diz Rubem Alves, em um trecho de sua crônica Sem Contabilidade:": 

"...Não farás para ti imagem", tendo sido proibido até com pena de morte, que o seu próprio nome fosse pronunciado. Mas os homens desobedeceram. Desandaram a pintar o Grande Mistério como quem pinta casa. E a cada nova demão de tinta, mais o mistério se parecia com as caras daqueles que  o pintavam. Até que o mistério desapareceu, sumiu, foi esquecido, enterrado sob as montanhas de palavras que os homens empilharam sobre o seu vazio. Cada um pintou Deus do seu jeito."

E ficamos por aí, sempre pintando imagens com tintas falsas, construindo esculturas com imagens falsas e concebendo o Inconcebível. Colocamos palavras na boca de Deus como se Ele mesmo as tivesse dito. E apontamos para o outro que sofre, orgulhosamente afirmando que "O que vai, volta", como se tivéssemos sido eleitos juízes de Deus. Vejo, em algumas pessoas, um brilho de mórbido prazer no olhar (disfarçado de piedade), quando contabilizam as quedas alheias.

Se algum dia eu tivesse uma religião, seria aquela que admitiria não ter todas as respostas e quase nenhuma certeza. Uma que não tivesse dogmas ou receitas infalíveis, e que diante do inexplicável, baixaria a cabeça e diria: "Não sei responder." Eu teria uma religião que não determinasse o que eu posso vestir, que tipo de música eu posso ouvir, ou que comida eu posso consumir; uma que não separasse as pessoas entre "bons" e "maus", "merecedores" e "não-merecedores", "santos" e "pecadores."

Acho que eu jamais terei uma religião.

Minha religião são pessoas que tem algo a dizer, como Rubem Alves. É uma tarde de chuva após um dia calorento, uma linda manhã toda dourada de sol, flores e insetos no jardim, a voz do vento quando traz o perfume da vida. A minha religião são os livros, as palavras, os poemas, as músicas, as cores, as pequenas felicidades, os pequenos prazeres, a comida na mesa todos os dias, a água que sai da torneira limpa e fresca sempre que eu preciso, o silêncio, o silêncio, o silêncio.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Chá




-Eu penso em pássaros,
Em voos, em asas,
Em sonhos, em nuvens,
E casas no céu.

-Eu penso em esquilos,
Em amoras, mirtilos,
No açúcar das xícaras,
Nos doces croissants.

-Eu penso em sapos,
Em grilos, espinhos,
Desfaço os ninhos,
Esmago os doces,
Afio as foices...

-Eu penso em peixes,
Em mares e mágoas,
Nas águas salgadas
Afogo meus medos.

-Eu penso em dores,
Em lágrimas, cortes,
No sul sem norte,
Eu penso na morte...

Tomemos o chá
Da nossa união,
Confraternizemos
Nossas diferenças,
Afrouxemos o peso
Dessas prensas
Tão ajustadas,
Que esmigalham
Nossa existência.

Para que possamos
Conviver,
Co-existir
E não matar,
E não morrer.


Trancos



Trancos
E trancas,
Barracos
Barrancos
Eu estanco
Tu mancas,
Eu sangro
Tu cantas,
Eu morro
Te encantas,
Eu rio
Tu choras...

E agora?

Os santos
E santas,
Apago,
Imantas,
Torcendo-me
As tranças
Matando
Esperanças
Eu calo,
Tu danças
Eu falo,
Te arranhas...

Ah, tramas!

Encantos
São tantos!...
Desfaço
Quebrantos
Quebrando...
Não ando
Na corda
Tão bamba
Que estendes,
Não cerro
Meus dentes...

-Nem sentes!


terça-feira, 4 de novembro de 2014

PAISAGEM





 O circo passou,
Deixou muita lama,
Confetes na calçada,
E ecos de risos,
Lágrimas borradas...

Mais nada.

Te escondes na paisagem,
Sublimas mensagens
Que caem dos trapézios
E liquefazem-se
Na solitária estrada...

Quem dera, pudesses
Reter os aplausos!...
Quem dera...
Mas as feras do circo
Soltaram-se todas,
As cores da lona
Escorrem e borram
O solo...

-Respeitável público,
CORRAM!

Palavras pisadas
Sob as sapatilhas
Das bailarinas...
A platéia presa
Entre as desbotadas
Serpentinas...


sábado, 1 de novembro de 2014

Em Branco




Eu não ia dizer nada.
Passaria em branco,
Como as nuvens brancas
Num céu de outubro.

Eu ia deixar que o silêncio 
Cobrisse tudo.
Mas existe uma força
Que reforça o luto.
Teria sido ontem,
E haveria bolo,
E haveria risos...

Feliz aniversário!



A Minha Vida

Parada na esquina De pé,  Mas cansada, A bolsa jogada nos ombros Pronta para a viagem Há tempos planejada. And...