quarta-feira, 30 de setembro de 2015

NUVEM






Eu sou uma nuvem que passa,
Por sobre uma rica paisagem.
O silêncio é quem me segue
Inconteste, na passagem. 

Nasci de um vapor soprado
Muito inesperadamente
Por um vento já tardio,
E quem sabe, indesejado.

Cresci sempre pelos cantos,
Inventando meus azuis
Sem que ninguém desse conta,
Achei, nas trevas, a luz.

O que eu tinha a dizer
-Quase sempre, ignorado
Por ouvidos sempre surdos
E olhos sempre fechados.

Tentaram cortar minhas asas,
Relegaram-me a um chão
Por onde eu só me arrastava
Sobre os joelhos e as mãos.

Por muitos e longos anos,
O meu nome eu assinava
Sobre as linhas pontilhadas:
-Nada, Nada, Nada, Nada!

Alguém bateu à minha porta,
E pegou-me pela mão,
Ergueu-me daquele chão
No qual eu vivia morta.

Apontou-me um céu azul,
Soprou-me em nuvem tão leve,
Ensinou-me a flutuar,
A pairar sobre o que é breve.

E os que sempre me negaram
Continuam pelo chão
Os olhos sempre fechados:
-Não me viram, nem verão...




A gente passa metade da vida se iludindo a respeito de pessoas e coisas, dando importância ao que pensam de nós, aos lugares aos quais nos relegam, tentando agradar, ser útil e ser aceito. Graças a Deus, posso dizer que passarei a outra metade da minha vida livrando-me destes grilhões aos quais chamam "laços", mas que só apertam de um lado - o mais doloroso. Quero ser como uma nuvem: leve, vaporosa, pairando acima, tão frágil, que pode ser desmanchada por um vento brando. Mas o hálito desse vento será o de Deus, e nunca mais o de seres humanos.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

50



Quando eu era criança, eu escutava todo mundo falando que o mundo deveria acabar de vez no ano 2000. Lá pelos idos de mil novecentos e setenta e poucos, o ano 2000 era algum lugar improvável em um futuro distante que talvez nunca chegasse. Lembro-me de um dia em que minha irmã - uma delas - chegou em casa na hora do almoço, dizendo que o mundo acabaria quando o planeta Marte se chocasse com a Terra. Naquele momento, eu, que nem sequer sabia o que era um planeta, imaginei uma bola caindo do céu e se espatifando de encontro ao solo de terra batida do nosso quintal. Não entendi como aquilo poderia fazer o mundo acabar. Nem sabia direito o que significava 'acabar.'O mundo deixaria de existir, e ficaríamos todos suspensos no espaço?

Bem, mas só por curiosidade, perguntei a minha mãe: "Mãe, quantos anos eu vou ter no ano 2000?" Ela fez as contas e respondeu: "35. Por que?" Não respondi, e fiz outra pergunta: "35 é nova ou velha?" Ela, que já passava dos 40, sorriu e me respondeu que 35 era mais-ou-menos. Fiquei calada, perdida em meus pensamentos, imaginando que se, afinal de contas, eu fosse uma velha de 35 anos, não tinha importância nenhuma morrer esmagada por Marte.

Mas o ano 2000 chegou, e o mundo não acabou. E vi que 35 anos não era velha. 50 anos sim, era velha. Por causa de um sonho que tive naquela época, fiquei achando que eu morreria aos 42. Porém, cheguei aos 42 vivinha da Silva, e nem sinal da Dona Morte. Infelizmente, aos 46 anos, perdi uma pessoa em minha família que era muito jovem, e compreendi que a morte era bem democrática quanto àqueles a quem ela escolhia para levar, não tendo preconceito de raça, classe social ou idade.

De vez em quando eu me olhava no espelho e me perguntava: "Por que ele, e não eu?" Bem, uma pergunta idiota para a qual não existe resposta... mas como eu ia dizendo, 50 anos é que deveria significar ser velha, e bem velha.

Hoje completo meus 50 anos de vida, e mais da metade do que tenho para viver já se foi. E completar 50 anos de idade me fez perceber que não é nada diferente de ter 49, 48 ou 47. Olhando uma de minhas fotos de três ou quatro anos atrás, vejo que nem mudei tanto assim, a não ser o corte de cabelo... e que sentir-se velha é uma questão de escolha.

Às vezes eu me sinto como se tivesse 120 anos, e mesmo quando eu era ainda bem jovem, na casa dos vinte, sempre me sentia bem mais velha do que eu realmente era, não sei porque. Mas outras vezes eu penso no quanto continuo gostando das coisas que eu tanto gostava, e que não mudei tanto assim nesse aspecto.

Meus ídolos envelheceram. Ver Brian May e Roger Taylor, membros do Queen, na apresentação do grupo no Rock in Rio deste ano, serviu para lembrar-me de que a velhice também é bastante democrática, e chega para todo mundo.

Ou seja: 20, 30, 40 ou 50, estamos aqui pra isso. 

Caramba.




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

OCASO







O ocaso, não por acaso,
É um momento inevitável,
Que torna o raso, profundo,
E torna o profundo, raso.

O céu fica avermelhado,
As nuvens, em finas camadas,
Ganham cores encrustadas
Entre as dobras de suas rugas.

Quando o céu amadurece,
Cores tingem o horizonte
Com seus tons inadiáveis,
-Mas o azul, este, fenece!

E surge a primeira estrela,
E logo, outra, e mais outra
A brilharem sobre as telhas,
Salpicadas nas esquinas.

E não se vê mais o céu,
Apenas as cintilantes
Estrelas, quais diamantes
Numa caixa de veludo
Cheirando a naftalina.


"Ocaso" fará parte de meu próximo livro, que contém apenas poemas inéditos. Não sei ainda onde vou lançá-lo. Falará sobre a maturidade e sobre o envelhecer.
 


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

SOBRE VELHAS CANÇÕES E NOVAS ABERRAÇÕES




O festival de rock Rock in Rio me trouxe algumas reflexões. No palco, bandas e cantores dos anos 70, 80 e 90, que hoje em dia, até os adolescentes que não eram nascidos ou os  jovens que eram crianças na época em que tais artistas fizeram sucesso, sabem cantar algumas canções e conhecem um pouco da história de muitos deles. As pessoas ouvem as músicas e logo se lembram de momentos de suas vidas que, de alguma forma, estão associados a elas, como se fossem trilhas sonoras do viver.

Hoje em dia, 46 anos após a separação dos Beatles, nunca encontrei alguém que não conhecesse pelo menos uma ou duas de suas canções. Todo mundo sabe quem foram John Lennon, Paul McCartney, Ringo Star e George Harrinson. Todos se lembram do Queen e de Freddie Mercury, dos Rolling Stones e dos Pet Shop Boys.

Ao ligarmos o rádio, vemos que muitas das canções de ontem ainda tocam e são apreciadas pela geração atual. Há várias canções antigas regravadas em novas versões.

No Brasil, temos os Paralamas do Sucesso, Os Titãs, Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Gal Costa, Alcione, Martinho da Vila, e tantos outros que começaram suas carreiras entre os anos 70 e 80, e que são populares até os dias atuais. Mas e hoje?

O que teremos para lembrar desta geração?

Antes, as músicas ficavam gravadas em segurança nos vinis e CDs, que eram como um registro histórico do cenário musical. Só fazia sucesso e conquistava seu lugar ao sol quem fosse realmente bom e competente. Não havia todo esse trabalho de marketing por trás do artista, que transforma mulheres comuns em divas pop ou rapazinhos bonitos em galãs sensuais. Ganhava-se na voz, pois não havia sintetizadores para filtrar e corrigir a voz, transformando cantores medíocres em alguma coisa aceitável que, junto com a propaganda e o investimento na aparência, faz com que tais pessoas tornem-se famosos por cinco minutos. Artistas de consumo rápido, tanto pelas gravadoras quanto pelos fãs, sem talento real.

Ouve-se música virtualmente. Se gostamos, armazenamos em algum pendrive ou aparelho móvel, para mais tarde, apagarmos e substituirmos por outras. Antes, as músicas ficavam até mais de um ano nas paradas de sucesso, e hoje, apenas poucos meses, sendo logo substituídas e esquecidas. Tínhamos discos com coletâneas de sucessos antigos, as músicas das quais todos queríamos nos lembrar e ouvir outra vez. Este tipo de disco não existe mais hoje em dia, pois o que há para ser colocado nestas coletâneas?

Os CDs estão desaparecendo totalmente do mercado. Eu gostava de escutar música enquanto apreciava o trabalho da capa, onde assinava meu nome, ou acompanhava as músicas com as letras. Mas hoje, ninguém mais se senta para realmente ouvir música. Nos coletivos, calçadas, restaurantes e até cinemas e teatros, o que vemos, é um bando de gente com fones de ouvido escutando lixo totalmente comercial e rapidamente consumível, como se fossem usuários de drogas. Ouvem música enquanto caminham, dirigem, comem, andam de ônibus, assistem aula, vão ao banheiro. Ouvem de forma superficial as músicas que daqui a um ou dois meses serão deletadas e substituídas por outras do mesmo gênero. Não há mais o prazer em sentar-se confortavelmente em casa e escutar com atenção.

Para mim, este comportamento musical é uma das facetas que reflete a realidade de que as pessoas estão vivendo apenas para o agora, e existe uma obsessão até mesmo em diversos grupos religiosos que pregam que o agora é tudo o que temos. É preciso ser feliz agora, imediatamente, consumir a felicidade antes que ela se esgote e mude de nome. Mas o ontem existe, e alguma preocupação com o futuro é sinal de bom senso.

As pessoas estão se esquecendo de criar memórias.

Em um passeio, clicam tudo o que veem e postam nas redes sociais, mas na verdade, o que será que eles realmente viram? O que foi desfrutado, e que ficará na memória das coisas vividas que descansarão além das fotografias e filminhos? E até mesmo estas fotos e filminhos serão armazenados em um computador, celular ou pendrives, ou em nuvens virtuais, juntos com centenas de milhares de outras fotos e filminhos, e talvez nunca mais acessados.

As pessoas evitam pensar. Querem estar conectadas, sem terem que refletir sobre a vida, sobre suas escolhas, o que fizeram ontem, o que farão amanhã. Socam lá para dentro as suas esperanças, medos, dúvidas e tristezas – pois é preciso ser feliz, estar sorridente, ter certeza e jamais demonstrar fraqueza. As pessoas estão curtindo defuntos nas redes sociais. Se alguém posta a fotografia de um ente querido que morreu, logo haverá centenas de ‘curtidas.’ Depois, sentem um grande vazio, e ficam deprimidas. Daí, tomam remédios para ficarem ‘bem’ novamente.

Hoje, as pessoas passam a maior parte de suas vidas estudando e fazendo cursos de especialização para conseguirem uma vaga no mercado de trabalho. Por volta dos trinta anos, quando muitas finalmente terminam seus estudos e conseguem um emprego, passam os outros vinte e cinco ou trinta anos tentando não serem demitidas.
Existe alguma coisa muito errada com o nosso estilo de vida. Será que ninguém percebe?



terça-feira, 22 de setembro de 2015

GIZ



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Cada lição
Anotada à giz no quadro negro,
O pó branco acumulando-se no chão.

-Copiávamos,
Repetíamos em sabatina
Todas as lições,
Todas as tabuadas e verbos
Até que descessem pela garganta,
Circulassem pelo sangue
E chegassem ao cérebro.

Passávamos (ou não) nos testes,
E hoje,
Nos esquecemos de tudo,
Dos pronomes e equações,
Até mesmo
Do que ficou anotado nos cadernos amarelos.

E o que guardamos
Nos silêncio dos olhos fechados?
-O pó de giz acumulado sob o quadro,
Os sorrisos,
Os anseios,
E as imagens dos sonhos que voaram pela janela...




domingo, 20 de setembro de 2015

Sob o Céu




Sob o céu
Tudo continua
Sob o mesmo véu...

Seja de sol ou de chuva,
De açúcar ou fel,
É sempre o céu.

Mas sob ele,
Movem-se as criaturas
Em léus de descompostura.

Nada se purifica.
Nada se aprende.
Nada se apura.

Nada me surpreende.

Não há nada que me fira.

Faço de um canto desafinado
Alguma coisa que me ergue
E que me inspira...





terça-feira, 15 de setembro de 2015

Feliz da Vida!!!



 


Acabo de receber esta mensagem da amazon.com:


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Thanks,
KDP Team

Eles estão dizendo que meu livro, junto com mais quatro mil outros, foi selecionado para uma promoção no Brasil que durará quatro dias, começando em 16/09. Isto significa que ele será divulgado por e-mail pela amazon não só no Brasil, mas no mundo todo!

Feliz da vida!


QUEM QUISER DAR UMA OLHADINHA, BASTA IR NA AMAZON.COM.BR E DIGITAR ANA BAILUNE NO SITE DE BUSCA.


Meu livro fala sobre os porquês das dificuldades de quem deseja aprender inglês. Conta a minha própria história com o Inglês, traz um teste que eu selecionei para ajudá-lo a conhecer melhor seu perfil como aluno - visual, auditivo ou cinestésico - e muitas dicas práticas e diretas sobre como aprimorar seu aprendizado no inglês. 

Agradeço profundamente a todos os meus alunos, ex-alunos e futuros alunos, que através das nossas aulas, ensinaram-me, ensinam-me e me ensinarão a jamais me esquecer de afiar as minhas ferramentas de ensino. 

Obrigada por acreditarem em mim! Obrigada por serem meus alunos.






É Só o Começo




Nossos passos ainda hesitam,
Claudicantes,
No meio de uma gigante estrada
Que não se sabe onde vai dar,
Ou se vai dar em nada.

Seguimos de mãos dadas,
A mente nas nuvens e nas estrelas,
As almas separadas
Por quilômetros e quilômetros
De palavras mal-cuidadas.

Mas dizem que é só o começo,
E que as pernas já maduras,
Acostumadas às duras
E intensas caminhadas,
Aprenderão o caminho
Para não mais se ferirem
Ou ferirmos uns aos outros
Entre tantos espinhos.




sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O MAPA ENGANOSO DOS TEUS OLHOS




O mapa enganoso dos teus olhos
Conduziu-me a um caminho enegrecido
Onde nada brotaria do estolho
Que eu tentei, por muito tempo, cultivar.

E aquilo que eu pensava ser o mar,
Não passava de uma poça, um lamaçal,
E o sol que me apontavas, comovido,
-Luz mortiça, brilho artificial!

A palavra que encantava meus ouvidos
Era apenas um feitiço que passou;
Nada existe de profundo ou abissal,
Nesse pântano que a vida me mostrou.




segunda-feira, 7 de setembro de 2015

STILL LIFE - UMA VIDA COMUM - RESENHA





Imagem: Google




STILL LIFE – UMA VIDA COMUM
Ano: 2013 – Reino Unido / Itália
Direção: Uberto Pasolini
Com: Eddie Marsan


John May é um simples funcionário público inglês, sem família e sem amigos, cujo trabalho consiste em tentar encontrar amigos ou familiares de pessoas que morreram sozinhas. Ele tem um grande coração e muito respeito pelas pessoas, e por isso, tenta saber um pouco mais a respeito delas a fim de escrever um obituário decente. E ele o faz com competência, mesmo sem jamais tê-las conhecido em vida, cuidando também dos seus velórios, cremações ou sepultamentos – aos quais ele assiste respeitosamente, sempre sozinho, pois nas raras vezes em que ele consegue contatar algum parente ou conhecido do morto, estes não demonstram qualquer interesse em comparecer ao velório.

Após dedicar-se por 22 anos ao seu trabalho, John May recebe a notícia de sua demissão, e sente-se perdido; passa a pensar em sua vida solitária, e acredito que talvez descubra que ele mesmo poderá ter um fim igual ao das pessoas cujos parentes ele tenta encontrar. Mas seu último caso – Billy Stoke, um homem que morava em frente à sua janela, mas que ele não conhecia, faz com que sua vida mude de rumo.

Um filme sem grandes sobressaltos, mas com um significado profundo, verdadeiro e poético. O final, surpreendente, dá à história sempre cinzenta uma nova tonalidade, mais colorida e absolutamente comovente.

Aqui termina a resenha.

VISÃO PESSOAL SOBRE O TEMA

Fiquei pensando no quanto muitos de nós são como aquelas pessoas que morrem sozinhas em seus apartamentos sem que ninguém saiba ou se importe, a não ser quando os corpos começam a exalar mau-cheiro. Indo um pouco mais profundamente, penso na inutilidade de todos os velórios, tanto para os mortos quanto para os vivos. Considero-os uma tradição cruel e dolorosa para os poucos que realmente amaram o morto, e uma espécie de circo para a maioria dos que comparecem. Para mim, não fará a menor diferença se eu tiver um, e se tiver, o número de pessoas que comparecerem também não fará a menor diferença. Quando deixamos esta vida, deixamos para trás tudo o que ficou nela, quer haja uma vida após esta ou não. Como disse um dos personagens, “Os velórios não são para os mortos: são para os vivos, e quando não há nenhum vivo que tenha algum interesse em acompanhá-lo, para quê prepará-los?”

Daí a não-necessidade de tanto orgulho, desejo de poder, fama, autoafirmação ou reconhecimento, se aquilo que realmente somos não interessa a mais ninguém, a não ser a nós mesmos, e mesmo assim, muitos passam por esta vida sem sequer atinar para esta questão do autoconhecimento, saindo dela como chegaram: totalmente alheios. Para mim, aqueles que se tornaram célebres por algum motivo que não tenha sido apenas a vaidade, vieram com uma missão importante, embora muitos a percam pelo caminho. São como faróis para os outros, mas sua missão mais importante sempre terá mais a ver consigo próprios do que com os outros.

Viver bem é trocar-se por alguma coisa. Alguns dedicam-se a causas humanitárias, e é triste perceber o quanto a maioria destas pessoas apenas visem o reconhecimento público pela sua ‘bondade’ e ‘solidariedade.’ Outros, dedicam-se à família, ou aos amigos, e até mesmo a eles mesmos, o que, visto através de um ponto de vista menos preconceituoso, pode ser a missão da maioria das pessoas, e isto não significa que elas sejam egoístas; quem saberá, com certeza, qual a verdadeira missão de alguém, e por que esta missão não pode estar centralizada na própria pessoa? Nem todos estamos aqui para sermos avatares, profetas ou salvadores. Quem sabe, salvando a nós mesmos e estendendo a mão aos que estão mais próximos, ao nosso alcance – considerando que todos fizéssemos isto – o mundo não daria um salto evolutivo?

Alguns buscam suas respostas nos grandes filósofos e sábios, e outros, de forma mais simples, acabam descobrindo-as sem fazerem perguntas, através da simples observação da natureza e das próprias experiências – ou seja, cuidando da própria vida! Existe um significado profundo no viver, e conforme os anos avançam sobre mim, mais eu percebo este fato. Igualmente percebo que este significado é muito pessoal, e que convivemos uns com os outros não para apontá-los e criticá-los, velada ou publicamente (embora muitas vezes o façamos), mas para tê-los como um espelho às nossas atitudes. Aquilo que desperta a minha repulsa pelo outro, eu não devo praticar – caso contrário, serei um hipócrita.

Existe hoje em dia uma sede pela felicidade, como se ela fosse um prêmio a ser alcançado, e quem conseguir demonstrá-la mais convincentemente, será o vencedor. Parece que o objetivo das pessoas é terem um velório concorrido, no qual haja muitas pessoas chorando, tirando “selfies” na frente do caixão e publicando os pêsames nas redes sociais. Quantas curtidas serão possíveis? Acho isto bem mais mórbido do que o simples compartilhamento de uma imagem – como a do garotinho afogado – dentro de um contexto que faça sentido e que expresse os verdadeiros sentimentos de alguém a respeito do mundo em que vivemos.

Para mim, velório nenhum seria o ideal. Quando eu morrer, quero ser totalmente esquecida e deixada em paz. Melhor morrer sozinha a morrer cercada de abutres.




sexta-feira, 4 de setembro de 2015

IRONIA




À beira do mar, uma estrela branca,
Que se apagou, e tristemente, sangra,
Jaz, entre o descaso e a desesperança,
Bem longe do céu que tentou alcançar.

E enquanto isso, mil estrelas negras
Que jamais ousaram voo tão longínquo,
Morrem sem piedade, sobre um solo seco
Sem que ninguém venha, por elas, chorar...





Imagens: Google da vida





quarta-feira, 2 de setembro de 2015

SE EU SOU FELIZ?






Se eu Sou Feliz?

Me perguntaram se eu sou feliz.

Esta é uma pergunta difícil de responder, pois a felicidade é algo diferente para cada pessoa. Alguns passam a vida em uma busca incansável por esta personagem de mil faces, e estão tão concentrados em encontrá-la, que acabam não a vendo passar bem diante de seus narizes nas várias oportunidades em que cruzam com ela. Outros, mesmo diante das coisas mais tristes, conseguem erguer os olhos de repente de suas dores, e mesmo que por um breve instante, capturam nas retinas a sua passagem.

Não acredito em felicidade escandalosa; isto é alegria passageira. A felicidade não é de falar muito de si, nem sente necessidade de propagandear a si mesma. Ela não cabe nas fotografias, e nem sempre está em um sorriso – que muitas vezes pode ser falso.  A felicidade é tão simples, que abomina a perfeição. Ela é fugaz quando intensa, e duradoura quando leve. Mesmo assim, fugaz ou duradoura, toda felicidade é válida.

Eu às vezes olho pela minha janela e a vejo brincando com meus cães no quintal, enquanto eles correm um atrás do outro ou disputam um brinquedo ou um graveto. Noutras vezes, eu a sinto quando acordo de manhã e vou até a minha varanda, e ao olhar a paisagem, sinto que um sorriso se desenha bem de leve, e quando o percebo... ela já se foi. Mas volta sempre, várias vezes ao dia, enquanto ao fazer o meu trabalho, eu e meus alunos rimos juntos por algum motivo. Ou então quando eu tiro um bolo do forno, e ele não murcha, ou quando o macarrão não gruda. Ela – a felicidade – me visita todas as noites, quando escuto uma certa chave na fechadura da sala.

Assim como acontece com todas as pessoas, já passei por muitas coisas tristes na vida. Algumas delas foram tão intensamente tristes, que eu cheguei a pensar que jamais me recuperaria. E eu fiz questão de ir ao fundo de todas elas, lá, onde a tristeza é mais escura, mais densa e mais profunda. Não tentei ‘ficar feliz’ ou ‘parecer feliz’ só para não chocar os outros ou para agradar as visitas. Nunca fugi da minha tristeza. Sentei-me com ela em silêncio até que ela me ensinasse que ela é apenas a irmã gêmea da alegria, e como disse Gibran, “Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constitui vosso deleite.”

Certa vez, há alguns anos, quando eu estava intensamente triste, uma pessoa tentou me alegrar. Convidou-me para ir à sua casa. Aceitei o convite, pensando que talvez ela estivesse me oferecendo um ombro amigo, uma oportunidade para falar sobre a minha perda e a minha tristeza. Mas ao chegar lá, tudo o que encontrei foi uma pessoa desesperada em contar piadas e conversar amenidades para disfarçar o que me afligia, concentrada em não deixar nenhuma brecha para que o assunto viesse à tona. Na única vez em que tentei tocar no assunto, ela ouviu com um sorrisinho sem-graça e arrematou: “Mas agora não é hora de falar em tristezas.” Notei que daquela forma torta e insensível, ela estava tentando me alegrar, como se fosse possível arrancar a dor com a mão e sufocar sua voz com palavras forçadamente alegres. Permaneci calada a noite inteira, até a hora de ir embora, mas não forcei nenhum sorriso, não participei de nenhuma conversa amena, não entrei naquele jogo social. Acho que não agradei minha anfitriã, e ela com certeza notou que também não me agradou.

A pior coisa que alguém pode fazer a alguém que passou por uma perda ou por uma grande tristeza, é tentar alegrá-lo. Se você tiver ouvidos para ouvir, coragem e um ombro amigo para oferecer, faça-o; senão, deixe-o em paz.

Mas, voltando à pergunta que me fez escrever este texto: Se eu sou feliz?

Sim. E não. Sou feliz e sou triste. Posso estar me sentindo feliz de manhã, e me sentindo triste no final da noite. Posso ficar uma semana inteira me sentindo nas nuvens, e de repente, a nuvem escurece, chove e eu caio lá de cima. Mas enquanto eu estou caindo, consigo observar a beleza da paisagem que se aproxima, contra a qual eu vou me esborrachar. E depois que eu caio, tenho sido capaz de levantar sempre. Por isso eu não acredito sempre na definição injusta que dão à bipolaridade. Ninguém é monopolar (se é que esta palavra existe; bem, se não existe, acabo de inventá-la como um oposto à palavra ‘bipolar.’). Nem a natureza é sempre igual! De repente, vemos um céu azul dar lugar a maior tempestade do século em menos de cinco minutos. E a natureza não fica preocupada em definir se ela é ou não é feliz. Faz sol quando tem que fazer sol, e chove quando tem que chover.

Eu também sou assim.

Encerro este texto (que já está longo demais) com outro pensamento de Gibran: 

"Alguns dentre vós dizeis: "A alegria é  maior que a tristeza," e outros dizem: "Não, a tristeza é maior."
Porém, eu vos digo que elas são inseparáveis.
Vem sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama."




REFLEXÃO

Já muito andei sem enxergar, sem ver, O que me fez e me desfez, a fome... "Ana" é o nome que alguém me deu, M...