witch lady

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

PONTOS CARDEAIS

 


 

Passou a vida toda

Encarando o mesmo horizonte

A espera de um sol que nunca veio.

Dobrou as esperanças e os sonhos,

Tentando ser, para alguém

O sonho e a esperança,

Princípio, fim

E meio.

 

Fechou as janelas ao norte

E as janelas ao sul;

Viveu, por muitos anos,

De Lestes não amanhecidos

E Oestes jamais prometidos,

Mas escolheu acreditar neles.

 

Porém, o tempo é professor;

Compreendeu, assim,

Que tem gente que não amanhece nunca,

Gente que guarda um sol dentro de si

Que não emana luz, mas dor

Em qualquer direção.

Vive sempre os mesmos dias e as mesmas noites

Numa Roda da Fortuna sem fim

Que só conhece um movimento: rotação.

 

 

 

Ana Bailune

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

PERSUASÃO





 

 

A pior forma de persuasão é o constrangimento.
Todo mundo fala sobre aprender a dizer "não," mas andamos nos esquecendo de como aceitar um "não" dito por alguém.

Quando alguém diz "não", podem haver três motivos:

1- A pessoa não quer, embora possa;
2- A pessoa quer, embora não possa;
3- A pessoa não quer e não pode.

E em qualquer situação, é um constrangimento quando alguém insiste.

Precisamos aprender a aceitar um "Não" como resposta, não importa qual seja o motivo. Quem diz "Sim" ou "Não", tem as suas razões.

Cada pessoa é um universo, e nós só enxergamos a pontinha do iceberb quando olhamos para os outros. E exigir que alguém nos diga "Sim" apenas para satisfazer as nossas vontades ou necessidades, não é preocupação; é imaturidade.

Saibamos respeitar o momento alheio, pois agindo assim, garantimos interações confortáveis e verdadeiras no futuro, além de fazermos crescer a confiança mútua.

 


 

Ana Bailune

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

SEM

 




SEM

 

Eu vim 

E vou

Sem.

Nada trouxe, 

Nada levo,

Nada quero.

Meu momento

É já, 

Daqui a pouco,

Passou.

E nada fiz,

Nada sou.

Na verdade,

Sequer sei

De onde vim,

Para onde vou.

Eu só sei,

Eu só sinto

Que eu vim

E vou

Sem.

 

Às vezes, sol,

Às vezes chuva,

Às vezes monstro, 

Às vezes zen.

 

Às vezes olho

E compreendo

Que todo mundo

Veio sem

E vai Sem,

Só que não sabem,

Sequer notaram

E isso, é hilário.

 

O que se tem

É o que se deixa,

O que se encontra

É o que se perde,

O que se faz

Se desfaz,

É esquecido,

É apagado...

 

E isso é paz.

 

 

Ana Bailune


RASH




RASH

 

Café servido frio,

Sorvete derretido,

Refrigerante morno

Na hora do almoço.

 

As portas entreabertas,

Olhares enviesados,

Palavras recortadas

Que só trazem desgosto.

 

A chuva que não pára

Sobre a calçada lisa

Exatamente quando

A sola já está gasta!

 

Segundas de manhã

E domingos à noite,

Visita inesperada

Atravancando a sala.

 

Mensagens de “bom dia”

Enchendo a nossa caixa,

No meio do meu sonho

Um carro acelerando.

 

Um rash que não pára,

Quando vem a lembrança

De tudo que está gasto,

De tudo que está morto.

 

As mesmas velhas cores

Há muito desbotadas

Sorrisos amarelos 

De puro desconforto.

 

Funk rolando solto

Rachando o nosso sono

Naquela ataxia

Que eles chamam de dança.

 

Os mesmos velhos fogos

Que explodem no ano-novo

E um povo que não muda,

Mas diz ter esperança.

 

 

Ana Bailune


 

PROJEÇÃO




PROJEÇÃO

 

Era só um rosto de pedra

Impassível

Sem pupilas.

 

Fitava o infinito

De um mundo longínquo

Que eu jamais alcançaria.

 

Foi um susto perceber

Que a tristeza que eu via

Naquele rosto de pedra,

Não era dele,

Era minha.

 

 

 

Ana Bailune

 

O QUE EU QUERO


 





O que eu quero – aprendi

É não querer demais.

É jamais trocar qualquer desejo

Pela minha autonomia,

Pela minha paz.

 

O que eu quero, é não morrer de sede

Enquanto eu me afogo,

É perceber que  a minha grama é verde

E o céu sobre a minha casa

É o mesmo que cobre o mundo inteiro.

 

O que eu quero, é ver que as flores mais bonitas

Podem ser cultivadas aqui, no meu canteiro,

O que eu quero é estar presente

No aqui e no agora,

É tornar-me resiliente

Sempre que a alma sorri,

Sempre que a alma chora.

 

 

 

Ana Bailune

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

SAUDOSISMO




SAUDOSISMO

 

Eu tenho uma saudade enorme

De não saber o que eu sei.

 

Não sei por onde anda

Aquele riso bobo, frouxo

Que eu trazia sempre no rosto

Sem perceber que o que eu pensava ser

Proteção,

Era manejo.

 

Tenho saudades de sentar-me à mesa

Sem notar os olhares devoradores que hoje vejo,

As palavras tortas e mordazes,

Os tremores de fome sobre os dentes.

 

Eu caminhava resoluta

À beira dos abismos que me indicavam,

Achando-me segura.

Dizia sempre “sim,” fluentemente,

E negava a mim mesma, veementemente,

Toda ranhura.

 

Tenho saudades absurdas

Dos tempos em que eu era cega,

Muda,

Surda.

 

 

 

Ana Bailune


 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

NÃO TENHA MEDO DE DESCOBRIR QUE VOCÊ MUDOU

 


 

Todo mundo muda um dia – para melhor ou para pior. Reconhecer isto faz parte da jornada do auto conhecimento. Para mim, conhecer-se é olhar-se sem preconceitos, aceitar os próprios defeitos e limitações (sempre tentando melhorá-los) e admitir um fato que muita gente chama de vaidade, mas para mim é auto aceitação: você merece o melhor.

Eu mereço o melhor. Por isso, faço escolhas, tomo decisões e me afasto daquilo que não agrega, que não me faz crescer, que drena a minha energia.

Pode paracer fácil, mas na verdade, é bem difícil. Crescer significa uma porção de incompreensão, solidão e julgamentos. Antes de chegar à luz, existe um caminho tortuoso e demorado de muitas trevas e de muito cansaço. Existe o medo de estar tomando as decisões erradas – afinal, “sempre foi assim! Quem sabe, a errada sou eu?”  Existem quedas e a vontade de voltar para o lugar “seguro” de onde viemos e no qual conhecíamos exatamente qual era o nosso papel – papel este que era determinado por algumas pessoas que nos cercavam, e não exatamente por nós mesmos.

E a gente volta, inúmeras vezes, e sofremos novas quedas que no fundo, sabíamos que aconteceriam, e dizemos que foi a última vez, mas a gente acaba voltando de novo, e de novo... até que não nos reste outra saída a não ser admitir que aquele lugar nunca foi para nós. Nunca fomos realmente amados, estimulados ou reconhecidos ali. As pessoas determinaram o nosso lugar e não suportaram quando fizemos outras escolhas. Se a gente se atrever a brilhar só um pouquinho, colocar a cabeça só um pouquinho para fora da caixa, corremos o risco de perdê-la. E vêm as represálias, as críticas, as chantagens emocionais, os silêncios que tem como objetivo castigar.

E assim nós reconhecemos o quanto éramos usados e confundíamos isso com amor e apoio.

Ok, então a gente finalmente cria coragem e sai. Tiramos os óculos cor de rosa e os jogamos em algum lugar na estrada onde nunca mais os acharemos, e continuamos. É um processo de muita dor e de muita solidão. As memórias do que foi bom cismam em nublar nossos olhos, mas nos forçamos a lembrar de todas as vezes em que foi bem ruim. Isso aumenta a determinação.

E eu às vezes me pego pensando: muitas vezes, quem nos causa mal pode pensar realmente que é uma boa pessoa. Que nunca fez nada para nos prejudicar. Mas o afastamento as faz pensar (ou não). Só sei que depois que a gente acorda, é impossível voltar a dormir. E a gente decide que nunca mais queremos estar ali, naquele lugar onde nossa energia é drenada, nosso sangue, sugado e nosso ‘eu,’ ignorado. Não queremos mais emprestar os ouvidos a pessoas que só falam de si, que só pensam em si mas que nunca estão prontas para ouvir. Nunca mais queremos vir cheios de entusiasmo para contar sobre uma conquista e deparar com olhares indiferentes e críticas. Nunca mais queremos mendigar afeto através da negação de nós mesmos.

E nesse momento, ao erguermos a cabeça acima da dor, a gente descobre que Sozinho é um bom lugar. Que na verdade, nós podemos caminhar com as próprias pernas, assumindo os riscos que NÓS escolhemos, saboreando o sucesso em silêncio. Descobrimos que não precisamos de plateia. Não precisamos de apoio ou validação.

Não precisamos agradar.

Não precisamos podar a nós mesmos.

E a gente cresce.





 

 

 

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

ÁGUA

 




 

Quando você sentir sede,

Procure por uma fonte,

Procure por um riacho

Ou erga o rosto para a chuva.

 

Não peça água às pedras,

Aos galhos secos, aos espinhos,

Por que eles nada têm

Para matar a sua sede.

 

Às pedras, peça um caminho,

Aos, galhos secos, fogueira,

E aos espinhos, peça cercas

Que te protejam do mal

Que a estrada e o fogo

Poderiam te causar.



.



.



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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

DESVER

 






Ninguém poderá desver
O que foi visto,
Ou desescutar aquilo
Que lhe foi dito
Sem deixar cair do rosto
Os próprios olhos
Sem cobrir de lama e dor
Os seus ouvidos.

A verdade é como um fogo:
Esquenta e queima.
E na alma, existe um ogro
Adormecido.
-Não o queiras despertar - a inocência
É um menino abandonado,
Em um precipício.



.
.
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PEQUENOS MILAGRES

 

 





Eu acredito que vivemos milagres todos os dias, mas depois que eles acontecem, a tendência é duvidarmos deles. Nós,  seres humanos, somos naturalmente incrédulos. Além disso, quando nos atrevemos a comentar esses milagres com os outros, apesar de eles prestarem muita atenção às nossas histórias, depois de ouvi-las eles nos jogam um olhar de incredulidade ou fazem comentários depreciativos ou engraçadinhos a respeito deles, como: “Você tem certeza que não foi só coincidência?”  “Ah, sei... também vi esse filme!” E tais comentários nos desmotivam a falar sobre certas coisas, ou até mesmo nos fazem duvidar que elas realmente aconteceram.

Por isso vou relatar aqui alguns milagres que vivi ou presenciei.

 

1- O Santuário de Bom Jesus dos Montes, em Portugal – Quando visitamos esse local em 2019, algo inusitado aconteceu. Eu e meu marido estávamos em uma lojinha de souvenir, e eu estava indecisa sobre se deveria ou não levar um terço de presente para minha irmã, que tinha perdido um filho há alguns anos, e com ele, a sua fé. Quem me conhece daqui desde 2011 sabe que perdemos nosso querido Ricardo para o câncer.

A música favorita do meu sobrinho – e que eu usei em quase todos os poemas que escrevi para ele e postei no site do escritor no site Recanto das Letras – era “Times like These”, do Foo Fighters.

No momento em que comentei com meu marido que eu não sabia se deveria levar o tercinho para minha irmã ou não, esta música começou a tocar no alto falante da lojinha. Ora, qual a possibilidade de que Foo Fighters toque no alto falante de uma igreja católica tradicionalíssima em Portugal, exatamente no momento em que alguém está pensando se leva ou não um terço para alguém que perdeu a fé porque seu filho morreu? Ainda mais sendo esta música a favorita dele?

 

2- Ganesha – Aqui em Petrópolis existe um santuário chamado Vale do Amor, um belíssimo lugar de difícil acesso entre as montanhas. Lá várias religiões estão representadas em templos e jardins ao ar livre. Estávamos passeando pelo jardim quando passamos diante de uma figura que chamou minha atenção: um ser que era metade elefante e metade menino, rodeado de oferendas de flores, moedas e frutos. Algo me fez parar diante dele, e eu não conseguia seguir adiante. Meu marido voltou, e perguntou-me de quem se tratava. O primeiro nome que me veio à cabeça foi: Ganesha. Só que eu não tinha a menor ideia de quem ele era.

Seguimos o caminho e esqueci a história. Quando chegamos em casa, eu estava procurando um protetor de tela para meu computador no Google, e qual foi a imagem que me apareceu? A mesma que eu tinha visto no Vale do Amor! O menino elefante. Daís resolvi pesquisar mais sobre ele, e descobri a sua história. Basicamente, ele é uma entidade protetora que ao mesmo tempo abre os caminhos da prosperidade. De uma forma ou de outra, a figura me fascina e atrai até hoje, e tenho vários Ganeshas em casa.

Sempre que sinto que as coisas ‘travaram’, eu canto seu mantra e tudo se resolve em alguns dias.

A primeira imagem de Ganesha que adquiri aconteceu desta forma: estávamos em uma loja que vende artigos para jardim, mais ou menos uma semana após visitarmos o Vale do Amor. Eu queria comprar algumas plantas e vasos. De repente, meu marido veio falar comigo: “Você vai gostar do que eu vou te mostrar!” Eu o segui, e ele me colocou diante de uma imagem de... Ganesha!

Depois disso, adquiri várias outras que estão espalhadas pela minha casa toda.

 

3- Chico Monteiro – Há muitos anos, meu marido e eu passávamos pelo Teatro D. Pedro após sairmos do trabalho. Eu estava com muita dor de garganta há vários dias, e mal conseguia falar. Minha garganta estava cheia daquelas placas bacterianas brancas, e os remédios não estavam fazendo efeito. No letreiro do teatro estava escrito: “Só Esta Noite – Chico Monteiro – Médium.”

Resolvemos entrar e assistir a palestra. A palestra foi muito interessante e o teatro estava lotado – tivemos sorte de conseguir dois lugares na última hora. Pouco antes  do término do evento, o palestrante disse que ia fazer uma oração e pediu que quem estivesse doente, ou com familiares em casa que estivessem passando por problemas de saúde, deveria se concentrar e orar junto com ele.

Me concentrei na minha garganta e mentalmente fiz a oração. Ainda nem tinha acabado de rezar quando senti uma sensação de calor na garganta, e senti também as placas de inflamação se soltando (tive que engoli-as). E de repente, eu não estava mais com dor de garganta.

Quando a palestra terminou, entramos na fila para comprar um livro que Chico Monteiro estava vendendo, e diante dele, comentei o que tinha acontecido. Ele sorriu, me deu uma rosa branca e me disse para colocá-la em um vaso com água ao chegar em casa.

Bem, a rosa durou mais de um mês intacta!

 

4- Joelho Dolorido – Recentemente procurei três médicos para tentar tratar uma lesão no joelho. Tenho (ou tinha) extrusão do menisco e princípio de artrose. Os medicamentos não surtiram efeito algum, e o trabalho do fisioterapeuta apenas piorou o problema. A dor que eu sentia estava me impedindo de caminhar adequadamente e até mesmo de dormir bem à noite, pois doía quando eu andava, sentava, deitava, enfim – doía o tempo todo, não importava o que eu estivesse fazendo.

E tudo isso começou há apenas alguns meses, quando soubemos que retornaríamos à Itália a fim de batizarmos o Leozinho, filho de Isabela e Leo, de quem fomos padrinhos de casamento também na Itália em 2018. Desde então a dor começou e não ia embora de jeito nenhum.

Na Itália ela também não parou, mas decidi que ela não ia me impedir de fazer nada. Continuei fazendo exercícios todos os dias pela manhã, ignorando a dor. Lá eu andei muito, e quando chegávamos em casa à noite, eu tomava remédios para diminuir a dor.  Mas ela nunca passava totalmente. Então eu decidi fazer uma promessa em todas as igrejas que visitamos: eu entrava, acendia uma vela e prometia que, caso a dor passasse, eu ficaria ajoelhada em uma igreja durante 1 hora.

Mas a dor não passou.

Depois que voltamos para o Brasil, eu estava fazendo alongamentos quando escutei meu joelho fazendo um barulho bem alto, como se estivesse estalando ou quebrando. Até meu marido que estava perto escutou e perguntou: “O que foi isso?” Assustada, respondi: “Meu joelho.” Achando que eu estava para sentir uma dor muito forte, eu baixei a perna devagar (ela estivera esticada em uma cerca em um ângulo de 90 graus durante o alongamento).

Mas assim que pus o pé no chão, percebi que a dor tinha sumido. Isso foi há quase uma semana, e desde então estou bem.

Preciso achar uma igreja tranquila, na qual eu possa ficar ajoelhada durante 1 hora inteira.




 








quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

ENVELHECER É UM PRIVILÉGIO?

 






ENVELHECER É UM PRIVILÉGIO?

 

Antes de fazer esta reflexão, vamos pensar no significado da palavra privilégio; de acordo com o dicionário, privilégio significa “Direito, vantagem, prerrogativa, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria; apanágio, regalia.” Ou seja, um privilégio é alguma coisa que é legada apenas a poucos. Portanto, envelhecer não é um privilégio, já que a maioria das pessoas envelhece.

 

As redes sociais tem nos ensinado que é bom romantizar situações corriqueiras, como a velhice, a maternidade, a solidão, a família, uma dieta e até nossos fracassos, como sendo algo especial. Se você é velho, isso é uma grande vantagem, pois você chegou à “melhor idade” e se tornou alguém especial. Da mesma forma, se você é jovem, branco, negro, magro, gordo, casado ou solteiro, você está vivendo algo especial – um privilégio.

 

Eu não consigo enxergar a vida como sendo um privilégio, já que estamos todos vivos! A vida para mim é esse grande mistério, pois não tenho ideia sobre de onde ela vem, onde começou, quando terminará, se existe um propósito para estarmos aqui ou se existe algo depois que ela termina. Na verdade, sei tanto quanto todo mundo, ou seja: nada. Tudo o que se afirma a respeito da vida ou da morte é especulação.

 

Mas voltando ao tema ‘envelhecer’, ao escrever este texto tenho 60 anos e quase 3 meses de idade. Não posso dizer que envelhecer tem sido bom, pois com a velhice, chegam várias questões difíceis sobre saúde, finanças (aposentar-se no Brasil significa viver com muito pouco dinheiro), preconceitos, medos, dores físicas e morais. Estarmos velhos é difícil. Porque os mais jovens nos olham de forma diferente, como se a velhice significasse nececessariamente senilidade, incompetência profissional ou ideias ultrapassadas.

 

Mas aqueles que afirmam que o importante é ter uma mente jovem, não entendem que ao pensar desta forma estão jogando fora as experiências acumuladas e a sabedoria adquirida, talvez em troca de procedimentos estéticos que deixam os rostos todos iguais (e que não fazem ninguém parecer mais jovem) e atitudes de adolescentes que não caem nada bem em pessoas mais velhas. Vejo muitas pessoas velhas que querem recuperar o tempo perdido através de relacionamentos com pessoas mais jovens, ou usando roupas inadequadas ao seus corpos, ou frequentando academias não pela saúde física, mas tentando obter os músculos de um fisioculturista. Lamento por eles. Porque ainda não compreenderam que cada idade deve ser vivida quando chega o tempo.

 

Para mim, a velhice é um tempo de reflexão e um certo descompromisso. É claro que cuidar da saúde e da aparência é importante, assim como manter a mente atualizada. Mas perseguir esses ideais desesperadamente como se eles fossem manter você vivo por mais tempo, prolongando uma juventude que já não existe mais, é caminhar à beira do ridículo. É sinal de desespero, não de sabedoria.

 

Eu cheguei à minha velhice. O que eu quero, hoje? Desfrutar daquilo que conquistei em minha juventude: minha casa, meu marido, meus cães, a companhia de algumas pouquíssimas pessoas. Quero ler muito, escrever muito, ouvir boa música, viajar, ou apenas ficar sentada no jardim sem fazer nada. E quero comprar roupas novas (porque eu adoro andar muito bem vestida) e cuidar da minha saúde, mas sem neuras. Não me interessa parecer mais jovem, ser ‘sexy’ ou encher meu corpo de hormônios para focar na sexualidade. Para mim, esse tempo já passou. Sexo é bom quando acontece naturalmente.

 

Não tive filhos, portanto não tenho netos. Não tenho compromisso com nada. Sou uma pessoa praticamente livre. Construí minha vida para ser assim, para chegar onde cheguei. Não me arrependo de nada, e não quero mais nada, a não ser o que já descrevi acima. As opiniões das pessoas não me preocupam. Não me encaixo nas definições alheias.

 

Não tenho medo da morte, e não lamento a proximidade dela. A proximidade da morte me traz perspectiva. Ela me lembra que tudo acaba, que tudo é finito. E não faz diferença, na verdade, quando eu estiver em meu leito de morte, pensar em alguma coisa que deixei de fazer ou gostaria de ter feito, porque a morte é o selo final, é o cadeado que encerra esta vida, caso haja outra após esta ou caso não haja nada. E se não houver nada, ou se houver alguma coisa, não fará sentido nenhum tipo de arrependimento.





 

 

 

 


 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

MANIPULAÇÃO

 


 

 

De todas as formas de interação humana, a mais sórdida talvez seja a tentativa de manipulação. E muitos pensarão, ao ler a primeira frase deste texto, que a palavra "sórdida" talvez soe forte demais, mas eu penso que ela é a palavra exata para descrever manipuladores.

 

O manipulador atrai suas vítimas de várias maneiras, e algumas delas são:

 

 - Através do elogio exagerado;

 - Através da insinuação de fraqueza ou incompetência, colocando o outro como seu único possível salvador;

 - Criando situações a fim de envolver sua vítima em uma teia falsa de gentileza, mas por trás de tanta "bondade",   escondem seus interesses excusos em impor certos pequenos favores, de forma que a vítima pense, "Como eu poderia dizer não após tanta gentileza?"

 

O manipulador realmente pensa que seus problemas podem ser jogados sobre as costas de outras pessoas. Envolvem-se em confusões ou fazem promessas difíceis de serem cumpridas, contando com a ajuda e o suporte das pessoas que os cercam. E ai de quem estiver na mira de um manipulador! Ver-se-há tão envolvido, que pensará que  lhe resta apenas o constrangimento de um "sim" torto e caduco que atrapalhará todos os seus planos; um sacrifício involuntário que jamais esteve disposto a fazer, mas que de repente, parece ser a única saída a um possível constrangimento.

 

Mas eu aprendi que existe sim, uma outra saída  às tentativas de manipulação alheia: e ela é a palavra "NÃO", repetida calmamente quantas vezes forem necessárias, olho no olho, sobre um discreto sorriso. Não será um momento agradável, mas é necessário a quem não deseja ser vítima das armadilhas da manipulação. E o manipulador poderá passar a odiar quem lhe diz na cara a palavra "NÃO." Mas quem não se importa em obter validação alheia, quem não teme a desaprovação e a solidão, e não precisa que 'gostem' de si, sobreviverá.

 

E eu sempre me pergunto, diante de uma tentativa de manipulação: por que a criatura não me disse logo no início o que realmente queria? Por que essa necessidade de levar o outro para dentro do inferno mentiroso disfarçado de paraíso que ele mesmo criou? Por que a mania de tentar dobrar o outro à sua vontade, até mesmo tentando mostrar as possíveis vantagens (inexistentes) que o outro teria, caso cedesse às suas sutis exigências?

 

Eu desenvolvi para minha vida o seguinte princípio: tentar ser independente de qualquer pessoa, o máximo possível, e só solicitar ajuda quando for estritamente necessário, sem perturbar os outros com os meus problemas. Porque eu acredito que respeitar a paz alheia é essencial. Porque eu penso que ninguém está aqui para se sacrificar por mim. E porque eu compreendo que aquilo que a  quem pede parece ser apenas um pequeno favor, pode representar um grande constrangimento e um problema na vida do outro. 

 

Manipulação? Sinto o cheiro de longe.

 

Nem tente.

 

"Ah, mas ele vai ficar zangado se eu disser não!"

 

Dane-se.

 

Ana Bailune

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

VIDA

 





Passarinho pousado no muro da casa
Carrega no bico a intenção do ninho.
Borboleta azul de grandiosas asas
Recém libertada da dor do casulo.

Cai a chuva formando poças d’água,
Que refletem um céu que é só de promessas.
Um cão abandonado no meio da praça
Com um galho de árvore ele faz sua festa.

Passarinho não sabe se os ovos chocarão,
Borboletas não sabem para onde vão.
A chuva e a poça sequer se conhecem,
O cão com seu galho se esquece da fome.

Com caneta e papel, lá vem o tal homem,
Cismando, arrotando sua filosofia...
E é ele o que menos tem sabedoria
Mas crê na mentira que ele mesmo cria.








sábado, 20 de setembro de 2025

O AMOR

 




O AMOR

 

O amor talvez esteja

Entre o que me prometeram

E o que me foi negado,

Entre aquilo que me deram

E o que me foi tomado,

Entre a noite desabrida

E o meu sono agitado,

Entre a paz da margarida

E o centro do tornado,

Nas alegrias da vida

E no Mistério selado,

Entre a palavra não dita

E o grito alucinado,

Entre a presença maldita

E o adeus inusitado,

Entre o olhar comovido

E o olhar dissimulado,

Entre uma língua fendida

E o sorrir falsificado,

Entre o que não entendi

E jamais foi explicado.

 

O amor é uma palavra

Que tilinta, frouxa e fraca

No meu coração fechado.

 

 

 

 

Ana Bailune


NEGLIGÊNCIA

 




Algo de mim se perde,
Escorrega devagar
Aos poucos
De dentro de mim
Deixando uma casca
Solta,
Totem que o vento desmancha.

Algo de mim
Escorrega, feito lava,
E esfriando, endurece
Num solo onde nada cresce
E então permanece
Fria,
E você nem nota.

Você me perde
Todos os dias,
Um pouco de mim sai pela porta
Ah, mas isso não faz diferença...
Estou ao teu lado, aparentemente,
E é isso que te importa.










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