witch lady

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quinta-feira, 23 de julho de 2026

A OSTRA

 

 


 

Caiu a pedra do anel na beira da estrada,

E você não viu.

Ficou a pérola perdida em um canto da vida,

E você sequer sentiu.

Olhos presos ao céu, procurando tempestades,

Caminhou para longe, refugiando-se em seu mundo.

Nem sequer notou as rosas que brotavam na paisagem

E que seus próprios pés insensíveis

Sem dó, pisoteavam.

 

Um riso sardônico, um tanto satânico num rosto de pedra,

O olhar insensível, distorcido,enviesado, a vista rasa

Sequer enxergou o quanto se afastava cada vez mais

Da acolhida amorosa daquela pequena casa.

Com uma arrogância que jamais medra e um coração sempre arredio,

Continuou pisando as rosas e se afastando,

Ostentando no dedo aquele anel vazio.

 

Mas um dia  a esperança se cansa  de renascer,

E exatamente como aquelas rosas, começa a se deixar morrer.

De vez em quando, alguém experimenta olhar para trás

Para descobrir que o passado já nem pesa mais,

(Sem compreender que isto não é, exatamente, uma alegria).

E a pérola caída, levada pela chuva,

Retorna ao mar, e à sua ostra segura,

Que há tanto tempo

Estivera vazia.

 

.

.

.

 

 

Ana Bailune

sexta-feira, 17 de julho de 2026

CONCLUSÃO

 





 

O que eu te desejo é nuvem

Da cor que você pintar

Que te leve aonde queiras

Mas não tente me levar.

 

A dom da minha palavra

Não ressoa em teus ouvidos,

De você, nem quero nada,

Sequer ser seu inimigo!

 

O que eu te desejo, é rio

Que corra para bem longe

Que preenchas teu vazio

Te enchendo em outra fonte.

 

O meu coração é porta

Pela qual não vais entrar,

No teu, sempre estive morta,

E eu nem quero acordar.

 

O que eu te desejo, é vento

Que te leve pelo ar,

Porque os anos que perdemos

Não vamos recuperar.

 

Que eu fique na minha nuvem,

E na tua irás ficar,

E que as duas não se encontrem,

Em um inútil trovejar.



{**}

 

 



domingo, 12 de julho de 2026

DELÍRIO

 


 

 

 

Seu corpo

É como uma oca vazia de chão batido,

A fileira de pó subindo

Em direção ao telhado de palha

Feito um desejo reprimido,

Pois que ninguém a toca.

 

As mãos percorrem a própria pele

Em busca de um sentimento antigo

De ser amada, de ser abrigo,

Enquanto os olhos fechados descortinam cenas

De tempos há muito tempo idos.

 

Ela sente a pele flácida nas pontas dos dedos,

Ela percorre as rugas como se fossem segredos,

E não as estradas óbvias que todos enxergam

Enquanto a observam; quanta ilusão!

 

O coração tomado por um princípio de delírio

É o que a salva da percepção da vida que lhe resta:

Uma embriaguez, uma sensação de que ainda há tempo,

Pois no seu relógio biológico, faltam ainda e sempre

Os mesmos cinco minutos antes do fim da festa.

 

Enquanto isso, a vida se desmancha,

Ninguém mais virá, e atrás da porta fechada

Ela ficará, na companhia fria

Dos mesmos velhos fantasmas que ela mesma cria.


E na história dela se descortinam

Todas as horas, todos os dias

Os dias da minha própria história.

 

 

Ana Bailune

terça-feira, 7 de julho de 2026

UM VESTIDO



 

Era um vestido de malha preto, simples e sem qualquer tipo de adorno. De comprimento um palmo abaixo do joelho, ele tinha decote em "V" profundo mas sem sem ser vulgar, mangas três quartos justas e descia colado no corpo até o início do quadril, onde a saia se abria pouco a pouco em uma roda fluida que dançava em volta das pernas quando eu andava.

 

Comprei-o pronto por volta de  2007 em uma loja daqui da cidade chamada DIMPUS, onde eu era cliente assídua - infelizmente, ela não existe mais. Comprei-o para ir a uma festa informal.

 

Posso dizer com segurança que foi a roupa mais bonita que já tive, pois aquele vestido era especial: tinha poderes mágicos. Transformava meu corpo em um corpo de bailarina, afinando a cintura, torneando as pernas e braços e criando uma aura de mistério em volta de mim. Era muito difícil sair com aquele vestido e não perceber o quanto as pessoas me olhavam. Algumas mulheres me perguntavam onde eu o tinha comprado. Não importava aonde eu estivesse, eu me tornava o alvo das atenções. Às vezes chegava a ser constrangedor ser abordada em filas de bancos, padarias e pontos de ônibus por mulheres curiosas. 

 

Enfim, o vestido era um fenômeno inexplicável. 

 

Eu o usava tanto no inverno quanto no verão, pois ele era muito versátil. Ficava lindo com um par de botas e um casaco por cima. Também era muito bonito com sandálias e um colar colorido. É uma pena que ele acabou desbotando, de tanto que eu o usei, mas durou uns bons anos. 

 

Ainda procuro por um vestido parecido - e cheguei até a possuir um do mesmo modelo, mas o efeito não era o mesmo: era apenas um vestido preto de malha. Não tinha poderes mágicos e nem me deixava com corpo de bailarina. Ninguém olhava para mim quando eu o usava e nemnhuma mulher jamais me perguntou onde eu o tinha comprado.

 

Quem sabe a magia não estivesse no vestido, afinal...

 

 

 

Ana Bailune

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