PROJEÇÃO
Era só um rosto de pedra
Impassível
Sem pupilas.
Fitava o infinito
De um mundo longínquo
Que eu jamais alcançaria.
Foi um susto perceber
Que a tristeza que eu via
Naquele rosto de pedra,
Não era dele,
Era minha.
PROJEÇÃO
Era só um rosto de pedra
Impassível
Sem pupilas.
Fitava o infinito
De um mundo longínquo
Que eu jamais alcançaria.
Foi um susto perceber
Que a tristeza que eu via
Naquele rosto de pedra,
Não era dele,
Era minha.
O que eu quero – aprendi
É não querer demais.
É jamais trocar qualquer desejo
Pela minha autonomia,
Pela minha paz.
O que eu quero, é não morrer de sede
Enquanto eu me afogo,
É perceber que a minha grama é verde
E o céu sobre a minha casa
É o mesmo que cobre o mundo inteiro.
O que eu quero, é ver que as flores mais bonitas
Podem ser cultivadas aqui, no meu canteiro,
O que eu quero é estar presente
No aqui e no agora,
É tornar-me resiliente
Sempre que a alma sorri,
Sempre que a alma chora.

SAUDOSISMO
Eu tenho uma saudade enorme
De não saber o que eu sei.
Não sei por onde anda
Aquele riso bobo, frouxo
Que eu trazia sempre no rosto
Sem perceber que o que eu pensava ser
Proteção,
Era manejo.
Tenho saudades de sentar-me à mesa
Sem notar os olhares devoradores que hoje vejo,
As palavras tortas e mordazes,
Os tremores de fome sobre os dentes.
Eu caminhava resoluta
À beira dos abismos que me indicavam,
Achando-me segura.
Dizia sempre “sim,” fluentemente,
E negava a mim mesma, veementemente,
Toda ranhura.
Tenho saudades absurdas
Dos tempos em que eu era cega,
Muda,
Surda.

Todo mundo muda um dia – para melhor
ou para pior. Reconhecer isto faz parte da jornada do auto conhecimento. Para
mim, conhecer-se é olhar-se sem preconceitos, aceitar os próprios defeitos e
limitações (sempre tentando melhorá-los) e admitir um fato que muita gente
chama de vaidade, mas para mim é auto aceitação: você merece o melhor.
Eu mereço o melhor. Por isso,
faço escolhas, tomo decisões e me afasto daquilo que não agrega, que não me faz
crescer, que drena a minha energia.
Pode paracer fácil, mas na
verdade, é bem difícil. Crescer significa uma porção de incompreensão, solidão
e julgamentos. Antes de chegar à luz, existe um caminho tortuoso e demorado de
muitas trevas e de muito cansaço. Existe o medo de estar tomando as decisões
erradas – afinal, “sempre foi assim! Quem sabe, a errada sou eu?” Existem quedas e a vontade de voltar para o
lugar “seguro” de onde viemos e no qual conhecíamos exatamente qual era o nosso
papel – papel este que era determinado por algumas pessoas que nos cercavam, e
não exatamente por nós mesmos.
E a gente volta, inúmeras vezes,
e sofremos novas quedas que no fundo, sabíamos que aconteceriam, e dizemos que
foi a última vez, mas a gente acaba voltando de novo, e de novo... até que não
nos reste outra saída a não ser admitir que aquele lugar nunca foi para nós. Nunca
fomos realmente amados, estimulados ou reconhecidos ali. As pessoas
determinaram o nosso lugar e não suportaram quando fizemos outras escolhas. Se a
gente se atrever a brilhar só um pouquinho, colocar a cabeça só um pouquinho
para fora da caixa, corremos o risco de perdê-la. E vêm as represálias, as críticas,
as chantagens emocionais, os silêncios que tem como objetivo castigar.
E assim nós reconhecemos o quanto
éramos usados e confundíamos isso com amor e apoio.
Ok, então a gente finalmente cria
coragem e sai. Tiramos os óculos cor de rosa e os jogamos em algum lugar na
estrada onde nunca mais os acharemos, e continuamos. É um processo de muita dor
e de muita solidão. As memórias do que foi bom cismam em nublar nossos olhos,
mas nos forçamos a lembrar de todas as vezes em que foi bem ruim. Isso aumenta
a determinação.
E eu às vezes me pego pensando:
muitas vezes, quem nos causa mal pode pensar realmente que é uma boa pessoa. Que
nunca fez nada para nos prejudicar. Mas o afastamento as faz pensar (ou não). Só
sei que depois que a gente acorda, é impossível voltar a dormir. E a gente
decide que nunca mais queremos estar ali, naquele lugar onde nossa energia é
drenada, nosso sangue, sugado e nosso ‘eu,’ ignorado. Não queremos mais
emprestar os ouvidos a pessoas que só falam de si, que só pensam em si mas que
nunca estão prontas para ouvir. Nunca mais queremos vir cheios de entusiasmo
para contar sobre uma conquista e deparar com olhares indiferentes e críticas. Nunca
mais queremos mendigar afeto através da negação de nós mesmos.
E nesse momento, ao erguermos a
cabeça acima da dor, a gente descobre que Sozinho é um bom lugar. Que na
verdade, nós podemos caminhar com as próprias pernas, assumindo os riscos que
NÓS escolhemos, saboreando o sucesso em silêncio. Descobrimos que não
precisamos de plateia. Não precisamos de apoio ou validação.
Não precisamos agradar.
Não precisamos podar a nós
mesmos.
E a gente cresce.
Quando você sentir sede,
Procure por uma fonte,
Procure por um riacho
Ou erga o rosto para a chuva.
Não peça água às pedras,
Aos galhos secos, aos espinhos,
Por que eles nada têm
Para matar a sua sede.
Às pedras, peça um caminho,
Aos, galhos secos, fogueira,
E aos espinhos, peça cercas
Que te protejam do mal
Que a estrada e o fogo
Poderiam te causar.
.
.
.
Eu acredito que vivemos milagres
todos os dias, mas depois que eles acontecem, a tendência é duvidarmos deles. Nós,
seres humanos, somos naturalmente
incrédulos. Além disso, quando nos atrevemos a comentar esses milagres com os
outros, apesar de eles prestarem muita atenção às nossas histórias, depois de
ouvi-las eles nos jogam um olhar de incredulidade ou fazem comentários
depreciativos ou engraçadinhos a respeito deles, como: “Você tem certeza que
não foi só coincidência?” “Ah, sei... também
vi esse filme!” E tais comentários nos desmotivam a falar sobre certas coisas,
ou até mesmo nos fazem duvidar que elas realmente aconteceram.
Por isso vou relatar aqui alguns
milagres que vivi ou presenciei.
1- O Santuário de Bom Jesus dos
Montes, em Portugal – Quando visitamos esse local em 2019, algo inusitado
aconteceu. Eu e meu marido estávamos em uma lojinha de souvenir, e eu estava
indecisa sobre se deveria ou não levar um terço de presente para minha irmã,
que tinha perdido um filho há alguns anos, e com ele, a sua fé. Quem me conhece
daqui desde 2011 sabe que perdemos nosso querido Ricardo para o câncer.
A música favorita do meu sobrinho
– e que eu usei em quase todos os poemas que escrevi para ele e postei no site
do escritor no site Recanto das Letras – era “Times like These”, do Foo Fighters.
No momento em que comentei com
meu marido que eu não sabia se deveria levar o tercinho para minha irmã ou não,
esta música começou a tocar no alto falante da lojinha. Ora, qual a
possibilidade de que Foo Fighters toque no alto falante de uma igreja católica tradicionalíssima
em Portugal, exatamente no momento em que alguém está pensando se leva ou não
um terço para alguém que perdeu a fé porque seu filho morreu? Ainda mais sendo
esta música a favorita dele?
2- Ganesha – Aqui em Petrópolis
existe um santuário chamado Vale do Amor, um belíssimo lugar de difícil acesso
entre as montanhas. Lá várias religiões estão representadas em templos e
jardins ao ar livre. Estávamos passeando pelo jardim quando passamos diante de
uma figura que chamou minha atenção: um ser que era metade elefante e metade
menino, rodeado de oferendas de flores, moedas e frutos. Algo me fez parar
diante dele, e eu não conseguia seguir adiante. Meu marido voltou, e
perguntou-me de quem se tratava. O primeiro nome que me veio à cabeça foi:
Ganesha. Só que eu não tinha a menor ideia de quem ele era.
Seguimos o caminho e esqueci a
história. Quando chegamos em casa, eu estava procurando um protetor de tela para
meu computador no Google, e qual foi a imagem que me apareceu? A mesma que eu
tinha visto no Vale do Amor! O menino elefante. Daís resolvi pesquisar mais
sobre ele, e descobri a sua história. Basicamente, ele é uma entidade protetora
que ao mesmo tempo abre os caminhos da prosperidade. De uma forma ou de outra,
a figura me fascina e atrai até hoje, e tenho vários Ganeshas em casa.
Sempre que sinto que as coisas ‘travaram’,
eu canto seu mantra e tudo se resolve em alguns dias.
A primeira imagem de Ganesha que
adquiri aconteceu desta forma: estávamos em uma loja que vende artigos para
jardim, mais ou menos uma semana após visitarmos o Vale do Amor. Eu queria
comprar algumas plantas e vasos. De repente, meu marido veio falar comigo: “Você
vai gostar do que eu vou te mostrar!” Eu o segui, e ele me colocou diante de uma
imagem de... Ganesha!
Depois disso, adquiri várias
outras que estão espalhadas pela minha casa toda.
3- Chico Monteiro – Há muitos
anos, meu marido e eu passávamos pelo Teatro D. Pedro após sairmos do trabalho.
Eu estava com muita dor de garganta há vários dias, e mal conseguia falar.
Minha garganta estava cheia daquelas placas bacterianas brancas, e os remédios
não estavam fazendo efeito. No letreiro do teatro estava escrito: “Só Esta Noite
– Chico Monteiro – Médium.”
Resolvemos entrar e assistir a
palestra. A palestra foi muito interessante e o teatro estava lotado – tivemos sorte
de conseguir dois lugares na última hora. Pouco antes do término do evento, o palestrante disse que
ia fazer uma oração e pediu que quem estivesse doente, ou com familiares em
casa que estivessem passando por problemas de saúde, deveria se concentrar e
orar junto com ele.
Me concentrei na minha garganta e
mentalmente fiz a oração. Ainda nem tinha acabado de rezar quando senti uma
sensação de calor na garganta, e senti também as placas de inflamação se
soltando (tive que engoli-as). E de repente, eu não estava mais com dor de
garganta.
Quando a palestra terminou,
entramos na fila para comprar um livro que Chico Monteiro estava vendendo, e
diante dele, comentei o que tinha acontecido. Ele sorriu, me deu uma rosa
branca e me disse para colocá-la em um vaso com água ao chegar em casa.
Bem, a rosa durou mais de um mês
intacta!
4- Joelho Dolorido – Recentemente
procurei três médicos para tentar tratar uma lesão no joelho. Tenho (ou tinha)
extrusão do menisco e princípio de artrose. Os medicamentos não surtiram efeito
algum, e o trabalho do fisioterapeuta apenas piorou o problema. A dor que eu sentia
estava me impedindo de caminhar adequadamente e até mesmo de dormir bem à
noite, pois doía quando eu andava, sentava, deitava, enfim – doía o tempo todo,
não importava o que eu estivesse fazendo.
E tudo isso começou há apenas
alguns meses, quando soubemos que retornaríamos à Itália a fim de batizarmos o
Leozinho, filho de Isabela e Leo, de quem fomos padrinhos de casamento também
na Itália em 2018. Desde então a dor começou e não ia embora de jeito nenhum.
Na Itália ela também não parou,
mas decidi que ela não ia me impedir de fazer nada. Continuei fazendo
exercícios todos os dias pela manhã, ignorando a dor. Lá eu andei muito, e
quando chegávamos em casa à noite, eu tomava remédios para diminuir a dor. Mas ela nunca passava totalmente. Então eu
decidi fazer uma promessa em todas as igrejas que visitamos: eu entrava,
acendia uma vela e prometia que, caso a dor passasse, eu ficaria ajoelhada em
uma igreja durante 1 hora.
Mas a dor não passou.
Depois que voltamos para o
Brasil, eu estava fazendo alongamentos quando escutei meu joelho fazendo um
barulho bem alto, como se estivesse estalando ou quebrando. Até meu marido que
estava perto escutou e perguntou: “O que foi isso?” Assustada, respondi: “Meu
joelho.” Achando que eu estava para sentir uma dor muito forte, eu baixei a
perna devagar (ela estivera esticada em uma cerca em um ângulo de 90 graus
durante o alongamento).
Mas assim que pus o pé no chão,
percebi que a dor tinha sumido. Isso foi há quase uma semana, e desde então
estou bem.
Preciso achar uma igreja
tranquila, na qual eu possa ficar ajoelhada durante 1 hora inteira.
ENVELHECER É UM PRIVILÉGIO?
Antes de fazer esta reflexão, vamos pensar no
significado da palavra privilégio; de acordo com o dicionário, privilégio
significa “Direito, vantagem, prerrogativa, válidos apenas
para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria; apanágio,
regalia.” Ou seja, um privilégio é alguma coisa que é legada apenas a
poucos. Portanto, envelhecer não é um privilégio, já que a maioria das pessoas
envelhece.
As redes sociais tem nos ensinado que é bom
romantizar situações corriqueiras, como a velhice, a maternidade, a solidão, a
família, uma dieta e até nossos fracassos, como sendo algo especial. Se você é
velho, isso é uma grande vantagem, pois você chegou à “melhor idade” e se
tornou alguém especial. Da mesma forma, se você é jovem, branco, negro, magro,
gordo, casado ou solteiro, você está vivendo algo especial – um privilégio.
Eu não consigo enxergar a vida como sendo um
privilégio, já que estamos todos vivos! A vida para mim é esse grande mistério,
pois não tenho ideia sobre de onde ela vem, onde começou, quando terminará, se
existe um propósito para estarmos aqui ou se existe algo depois que ela
termina. Na verdade, sei tanto quanto todo mundo, ou seja: nada. Tudo o que se
afirma a respeito da vida ou da morte é especulação.
Mas voltando ao tema ‘envelhecer’, ao escrever
este texto tenho 60 anos e quase 3 meses de idade. Não posso dizer que
envelhecer tem sido bom, pois com a velhice, chegam várias questões difíceis
sobre saúde, finanças (aposentar-se no Brasil significa viver com muito pouco
dinheiro), preconceitos, medos, dores físicas e morais. Estarmos velhos é
difícil. Porque os mais jovens nos olham de forma diferente, como se a velhice
significasse nececessariamente senilidade, incompetência profissional ou ideias
ultrapassadas.
Mas aqueles que afirmam que o importante é ter
uma mente jovem, não entendem que ao pensar desta forma estão jogando fora as
experiências acumuladas e a sabedoria adquirida, talvez em troca de
procedimentos estéticos que deixam os rostos todos iguais (e que não fazem
ninguém parecer mais jovem) e atitudes de adolescentes que não caem nada bem em
pessoas mais velhas. Vejo muitas pessoas velhas que querem recuperar o tempo
perdido através de relacionamentos com pessoas mais jovens, ou usando roupas
inadequadas ao seus corpos, ou frequentando academias não pela saúde física,
mas tentando obter os músculos de um fisioculturista. Lamento por eles. Porque
ainda não compreenderam que cada idade deve ser vivida quando chega o tempo.
Para mim, a velhice é um tempo de reflexão e um
certo descompromisso. É claro que cuidar da saúde e da aparência é importante,
assim como manter a mente atualizada. Mas perseguir esses ideais
desesperadamente como se eles fossem manter você vivo por mais tempo,
prolongando uma juventude que já não existe mais, é caminhar à beira do
ridículo. É sinal de desespero, não de sabedoria.
Eu cheguei à minha velhice. O que eu quero,
hoje? Desfrutar daquilo que conquistei em minha juventude: minha casa, meu
marido, meus cães, a companhia de algumas pouquíssimas pessoas. Quero ler
muito, escrever muito, ouvir boa música, viajar, ou apenas ficar sentada no
jardim sem fazer nada. E quero comprar roupas novas (porque eu adoro andar
muito bem vestida) e cuidar da minha saúde, mas sem neuras. Não me interessa
parecer mais jovem, ser ‘sexy’ ou encher meu corpo de hormônios para focar na
sexualidade. Para mim, esse tempo já passou. Sexo é bom quando acontece
naturalmente.
Não tive filhos, portanto não tenho netos. Não
tenho compromisso com nada. Sou uma pessoa praticamente livre. Construí minha
vida para ser assim, para chegar onde cheguei. Não me arrependo de nada, e não
quero mais nada, a não ser o que já descrevi acima. As opiniões das pessoas não
me preocupam. Não me encaixo nas definições alheias.
Não tenho medo da morte, e não lamento a
proximidade dela. A proximidade da morte me traz perspectiva. Ela me lembra que
tudo acaba, que tudo é finito. E não faz diferença, na verdade, quando eu
estiver em meu leito de morte, pensar em alguma coisa que deixei de fazer ou
gostaria de ter feito, porque a morte é o selo final, é o cadeado que encerra
esta vida, caso haja outra após esta ou caso não haja nada. E se não houver
nada, ou se houver alguma coisa, não fará sentido nenhum tipo de
arrependimento.
De todas as formas de interação humana, a mais sórdida talvez seja a tentativa de manipulação. E muitos pensarão, ao ler a primeira frase deste texto, que a palavra "sórdida" talvez soe forte demais, mas eu penso que ela é a palavra exata para descrever manipuladores.
O manipulador atrai suas vítimas de várias maneiras, e algumas delas são:
- Através do elogio exagerado;
- Através da insinuação de fraqueza ou incompetência, colocando o outro como seu único possível salvador;
- Criando situações a fim de envolver sua vítima em uma teia falsa de gentileza, mas por trás de tanta "bondade", escondem seus interesses excusos em impor certos pequenos favores, de forma que a vítima pense, "Como eu poderia dizer não após tanta gentileza?"
O manipulador realmente pensa que seus problemas podem ser jogados sobre as costas de outras pessoas. Envolvem-se em confusões ou fazem promessas difíceis de serem cumpridas, contando com a ajuda e o suporte das pessoas que os cercam. E ai de quem estiver na mira de um manipulador! Ver-se-há tão envolvido, que pensará que lhe resta apenas o constrangimento de um "sim" torto e caduco que atrapalhará todos os seus planos; um sacrifício involuntário que jamais esteve disposto a fazer, mas que de repente, parece ser a única saída a um possível constrangimento.
Mas eu aprendi que existe sim, uma outra saída às tentativas de manipulação alheia: e ela é a palavra "NÃO", repetida calmamente quantas vezes forem necessárias, olho no olho, sobre um discreto sorriso. Não será um momento agradável, mas é necessário a quem não deseja ser vítima das armadilhas da manipulação. E o manipulador poderá passar a odiar quem lhe diz na cara a palavra "NÃO." Mas quem não se importa em obter validação alheia, quem não teme a desaprovação e a solidão, e não precisa que 'gostem' de si, sobreviverá.
E eu sempre me pergunto, diante de uma tentativa de manipulação: por que a criatura não me disse logo no início o que realmente queria? Por que essa necessidade de levar o outro para dentro do inferno mentiroso disfarçado de paraíso que ele mesmo criou? Por que a mania de tentar dobrar o outro à sua vontade, até mesmo tentando mostrar as possíveis vantagens (inexistentes) que o outro teria, caso cedesse às suas sutis exigências?
Eu desenvolvi para minha vida o seguinte princípio: tentar ser independente de qualquer pessoa, o máximo possível, e só solicitar ajuda quando for estritamente necessário, sem perturbar os outros com os meus problemas. Porque eu acredito que respeitar a paz alheia é essencial. Porque eu penso que ninguém está aqui para se sacrificar por mim. E porque eu compreendo que aquilo que a quem pede parece ser apenas um pequeno favor, pode representar um grande constrangimento e um problema na vida do outro.
Manipulação? Sinto o cheiro de longe.
Nem tente.
"Ah, mas ele vai ficar zangado se eu disser não!"
Dane-se.

O AMOR
O amor talvez esteja
Entre o que me prometeram
E o que me foi negado,
Entre aquilo que me deram
E o que me foi tomado,
Entre a noite desabrida
E o meu sono agitado,
Entre a paz da margarida
E o centro do tornado,
Nas alegrias da vida
E no Mistério selado,
Entre a palavra não dita
E o grito alucinado,
Entre a presença maldita
E o adeus inusitado,
Entre o olhar comovido
E o olhar dissimulado,
Entre uma língua fendida
E o sorrir falsificado,
Entre o que não entendi
E jamais foi explicado.
O amor é uma palavra
Que tilinta, frouxa e fraca
No meu coração fechado.

O CHÃO
O chão é um bom lugar para um recomeço,
Ou até mesmo um descanso após o tropeço,
Para alguém se deitar e contemplar o céu.
Os olhos têm tempo de olhar as pegadas
De cada pessoa, no meio das estradas
Onde quem caiu as vê do avesso.
O chão é a chance que todos nós temos
De criar novas asas, ver o que vivemos,
Ajustar as cordas, afinar as teclas,
Até que as feridas estejam bem secas.
E o chão... ah, tem sido meu local preferido
Pra curar os meus medos, catar o que é meu,
Dar a mim o valor que eu tenho merecido
E o amor gratuito que ninguém mais me deu.
Ana Bailune
Quem era aquela moça
Que ficou à janela?
Passei por ela, há alguns dias,
E quase a reconheci.
Seus olhos tinham um brilho estranho,
O sorriso discreto era feliz,
E a sua alma sozinha
Não pertencia a nenhum rebanho.
Nossos olhos se encontraram
Por um breve momento,
E pelo olhar, ela me disse
Aquilo que sobre mim mesma,
Eu já não sabia há algum tempo.
Quem era aquela moça
Que ficou à janela,
E me acenou, de repente,
Quando eu já estava longe?
Deixou cair um lenço verde
Que voou até as nuvens,
Mas secou meu desalento.
Quando eu olhei para trás
Querendo saber quem era,
Ela já tinha entrado.
E já nem sei se houvera moça
Ou se fora simplesmente
Uma miragem, criada
Por um coração quebrado.
Quando uma folha cai da árvore,
Ela não volta jamais.
Solta-se,
Desce sinuosamente, pousando no gramado,
Bem devagar.
E então, ela acaba de secar.
A árvore solta o que está seco,
O que morreu,
O que a intoxica.
Assim, gera frutos plenos,
Repletos de açúcar
E sem cica.
Já é tarde, muito tarde, Para o cão e sua dor, O desamor que ele sofreu Por quem perdeu o coração. No chão, o sangue espalhado, A crueldad...