Cansada
De tanto ter,
Tanto querer
E nunca ter nada.
As mãos atadas,
Vida regrada
Palavras prontas,
Cansada, cansada, cansada...
Nada me atinge,
E nada tinge
O bege manso
Das minhas pegadas...
Cansada, cansada, cansada,
Asas abertas, esticadas,
Num voo alto e cego
Que nunca me leva a nada!
A alma em câimbras
A cambraia da fronha
Bordada de pesadelos
-Cansada, cansada, cansada!
A lida lisa,
Brisa soprada
Dentro da vida
Adormentada.
Cansada, cansada, cansada
De tanta fala,
De tanta gente
Equivocada!
Ouvidos cheios,
Cabeça cheia,
Os olhos cheios
De não ver nada!
E nada muda,
Nada acontece,
Sento no canto,
No vão da escada.
Cansada, cansada, cansada
De ver a rua,
De ver passar
A minha vida
Diante da minha casa.

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