witch lady

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Casa da Mãe

imagem: Google






Eu e meus irmãos nascemos e crescemos naquela casinha de dois quartos, pelas mãos da parteira Dona Maria Carioca.  A casa era pequena, e precisávamos dividir um único quarto e a sala na hora de dormir, pois o segundo quarto pertencia aos nossos pais. O quarto que partilhávamos era também conhecido como 'quarto do vovô', pois quando ele chegava de suas viagens para nos visitar, nós tínhamos que nos amontoar na sala e ceder-lhe o quarto. Foi assim durante muitos e muitos anos.

Tínhamos um pequeno quintal onde meus pais cultivavam algumas plantas decorativas e também legumes. Por lá, caminhavam livres muitos cães, gatos, galinhas, porquinhos da índia e certa vez, patos. Havia muitas árvores frutíferas: dois abacateiros, um figueiro, um pessegueiro, dois pés de limão galego, uma ameixeira, muitas bananeiras, e às vezes, abóboras, alface couve e tomate. Quando as abóboras do meu pai se derramavam pelo chão, mal havia espaço para pisarmos, e por isso, eles deixaram de plantar abóboras. 

Era um quintal simples, de terra batida. Por ali passaram muitos amigos, e em volta daquela casa, fazendo nossos bolinhos de terra e pintando as unhas com pétalas de flores, nós crescemos. Conforme meus irmãos iam casando e mudando, a casa ia ficando maior. Até que finalmente, meu grande sonho se realizou: ter o meu próprio quarto. E logo depois, descobri que ter o próprio quarto nem era tão bom assim, talvez porque aquilo aconteceu em uma época de pouca saúde para meu pai. Ele morreu quando eu tinha 22 anos, e eu e minha mãe ainda ficamos alguns anos morando sozinhas na casa, até que ela foi morar com uma de minhas irmãs e eu me casei.

Hoje a casa é ocupada por outra de minhas irmãs.

Já falei e escrevi muitas vezes sobre esta casa, e acho que ainda o farei durante muito tempo - quem sabe, pelo resto da vida. A casa da mãe é um lugar que a gente não abandona, nem mesmo quando casamos e vamos embora, pois a levamos conosco. E todas as experiências boas e ruins que lá tivemos também passam a fazer parte das nossas vidas de aultos, não importa quantos anos tenhamos.
Aquela casa foi um presente de nosso avô, que os pais dele compraram quando vieram da Itália, através da renda das frutas e legumes que vendiam de porta em porta.

 Minha mãe contava que quando ela se casou e foi morar lá, quase não havia nada em volta, nem outras casas e nem vizinhos. A rua não era calçada, não tinha ônibus, quase não passavam carros. Só havia muito mato e muitas árvores, e ela se sentia muito sozinha, até que aos poucos, outras casas foram sendo construídas em volta da nossa. Alguém colocou luzes e paralelepípedos nas ruas, e os ônibus começaram a passar. 

Uma das  boas lembranças que trago daquela casa e daquele bairro são os vizinhos e amigos com quem nos relacionávamos diariamente. As crianças brincavam na rua depois da escola. Nós brincávamos de bola, de fazer cabanas de bambú, de guerra de lama e de mamona (naquela época ninguém sabia que as mamonas eram plantas venenosas, e quem sabe, a inocência nos tenha salvo?) e também de pique-esconde, passa-anel, e outras brincadeiras que as crianças de hoje nem sequer ouviram falar. No domingo de manhã a gente se reunia para falar do filme que passara na Primeira Exibição na noite de sábado. Geralmente, o filme ficava sendo anunciado várias vezes diarimente durante mais de uma semana antes de ser exibido, e isso criava uma enorme expectativa na gente. Ainda me lembro de "O Grito do Lobo", um filme de terror que me rendeu um conto de humor publicado neste blog em 2012.

As coisas eram mais intensas, mais esperadas e desejadas. Não havia preocupações com a decoração das casas - elas tinham que ter o necessário para que fossem limpas e funcionais, e isso era tudo. Os espaços comuns eram partilhados sem muita preocupação sobre mantê-los arrumados, e privacidade era algo que se tinha durante alguns minutinhos por dia, quando se entrava no banheiro. Dividíamos os quartos, os armários, a mesa da cozinha, as histórias, os gibis, as rusgas, os brinquedos, os doces que comprávamos no bar da esquina, a garrafa de Coca-Cola. Tudo era mais 'desencanado.'  Ninguém fazia dramas sobre os acontecimentos da vida - mortes, mudanças, doenças. Tudo era o que tinha que ser, e a gente simplesmente aceitava tudo como era. As pessoas não choravam muito, e ninguém jamais ouvia falar em coisas como depressão e psicólogos. Resolvíamos nossos próprios problemas, ou então, deixávamos que se resolvessem sozinhos. 

A casa da mãe era o ponto de referência para onde todo mundo voltava no domingo, após a semana de trabalho. O nosso centro. Na verdade, acho que nem era bem a casa da mãe, mas sim, a mãe. A própria mãe. Nenhuma família continua a mesma depois que  mãe morre.



A SOMBRA E O INIMIGO







Trecho do livro "Ao Encontro da Sombra" - Pensamentos de vários autores, organizados e discutidos por Connie Zweig e Jeremiah Abrahms


....
O Filho de um rabino foi celebrar os ritos do Shabbat numa cidade vizinha. À sua volta, a família perguntou:
-Eles fizeram algo diferente do que fazemos aqui?
-Sim, é claro, -respondeu o filho.
-E qual foi a lição? - perguntaram.
-"Ama o teu inimigo como a ti mesmo."
-Mas isso é o que dizemos aqui. Por que disseste que era diferente?
-Eles me ensinaram a amar o inimigo dentro de mim mesmo.



Amar o inimigo dentro de nós mesmos não elimina o inimigo lá fora, mas pode mudar o nosso relacionamento com ele. Quando o mal deixa de ser demonizado, somos forçados a lidar com ele em termos humanos. Essa é, a um só tempo, uma tarefa espiritual potencialmente dolorosa e uma oportunidade para a paz espiritual. Esse é sempre o caminho da humildade.

O coração das trevas é o nosso próprio coração. Existe um certo consolo em demonizar as pessoas mais monstruosas e perniciosas dentre nós, como se o fato de elas serem um tipo diferente de criatura tornasse o seu exemplo irrelevante para nós. Por isso um alemão escreveu que todas as tentativas para entender o caráter do nazista Heirich Himmler estavam fadadas ao fracasso, "pois implicam compreendermos um louco, em termos da experiência humana." Mais sábio foi o jornalista alemão que lembrou aos seus compatriotas: "Sabíamos que Hitler era um de nós desde o começo. Não deveremos esquecer isso agora." Ele também era um de nós, um ser humano. Na dança do espelho, econtramos a falsa paz interior ao demonizar o inimigo. Mas reconhecer que até mesmo um inimigo realmente demoníaco é feito da mesma substância que nós faz parte do verdadeiro caminho em direção à paz.




Nossa cisão interior faz com que nos apeguemos à guerra do bem contra o mal. Mas se sustentarmos que o recurso da guerra é, em si, o mal, então somos desafiados a encontrar uma nova dinâmica moral que represente a paz pela qual lutamos . Na medida em que a moralidade toma a forma da  guerra, seremos compelidos a escolher um lado, a nos identificar com uma parte de nós mesmos e repudiar a outra. Esse caminho da guerra faz com que nos elevemos acima de nós mesmos, precariamente equilibrados sobre um abismo.

No nosso mundo, os "fazedores da paz" frequentemente compartilham com os "fazedores da guerra" esse paradigma fundamental da moralidade. Nossos movimentos pacifistas demonizam os guerreiros como amantes da bomba, enquanto "nós" somos as boas pessoas que querem a paz: como se os guerreiros também não estivessem nos protegendo contra  perigos muito reais, e como se nós, amantes da paz, não tivéssemos a nossa própria necessidade de afirmar  a nossa superioridade sobre os 'inimigos' que escolhemos. O recurso da guerra continua a dar as cartas, mesmo sob a bandeira da paz.




Em Gandhi's Truth (A Verdade Sobre Gandhi), Erik Erikson lança luz sobre alguns dos perigos do caminho em direção à paz. Gandhi é um herói do movimento ideológico do nosso século para transcender o sistema da violência - e, muito apropriadamente, merece toda a admiração que recebe; o livro de Erikson é, em si, um tributo: Gandhi, de tanga, representando a simplicidade do espírito; Gandhi ensinando-nos a não demonizar nossos adversários mas a apelar para o melhor lado deles; Gandhi mostrando como deter o ciclo de escalada da violência através de uma corajosa disposição para absorver o golpe sem devolvê-lo. 

Mas existe um lado problemático em Gandhi; Erikson a ele se refere numa carta aberta ao Mahatma. Essa dimensão escura é derivada do excesso de zelo de Gandhi na sua luta por perfeição moral. Erikson vê, no relacionamento de Gandhi consigo mesmo, uma espécie de violência. E também percebe que nessa dinâmica desse esforço para triunfar sobre si mesmo no recurso da guerra, cresceram relações tirânicas e exploradoras entre Gandhi e as pessoas que lhe eram mais próximas e mais vulneráveis a ele. Erikson identifica, na própria luta de Gandhi pela santidade, as dificuldades que nos ligam ao caminho da violência.




O caminho da não-violência (Satyagraha), diz Erikson a Gandhi em sua carta aberta, "terá pouca chance de encontrar sua relevância universal, a menos que aprendamos a aplicá-lo também a qualquer coisa má que possamos sentir dentro de nós mesmos e que nos faça temer  a satisfação dos instintos, sem a qual o homem não só fenece enquanto ser sensual como também se transforma numa criatura duplamente perniciosa." Em lugar de destaque nesse argumento de Erikson, figura  a guerra de Gandhi contra a sua própria sexualidade, uma guerra na qual a projeção também teve um papel a desempenhar e que trouxe, como consequência parcial, o sofrimento de outras pessoas. Vale lembrar as restriçoes de George Orwell quanto ao exemplo de Gandhi: "Não há dúvida de que álcool, tabaco, etc., são coisas que um santo deve evitar, mas a santidade também é uma coisa que os seres humanos devem evitar." A santidade involve uma extrema identificação com a parte "boa" enquanto irreconciliavelmente oposta à parte "má." Ela se liga à via de guerra: "Grande parte desse excesso de violência que distingue os homens dos animais", continua Erikson, falando de Gandhi, "é criado nele por esses métodos de treinamento infantil que lançam uma parte dele contra a outra."




Talvez exista uma outra via. A bondade pode ser reconhecida como saúde. A raiz linguística inglesa de health (saúde) está ligada a whole (total, íntegro). Portanto, o mal é doença - queremos ser curados, totalizados e não destruídos no caminho do "fazedor de guerra". Ao nos totalizarmos, encontramos  o caminho para a bondade da paz, para a qualidade do shalom (paz, em hebraico). E no seu âmago, vem a paz com o nosso ser, criaturas imperfeitas e pecadoras que somos. Erich Neumann fala da "coragem moral de não desejarmos ser piores nem melhores do que realmente somos." Essa, diz Neumann, é a parte mais importante do objetivo terapêutico das psicologias de profundidade. E, de modo semelhante, Erikson escreveu ao Mahatma Gandhi sugerindo que se acrescentasse ao caminho do Satygraha o encontro terapêutico consigo emsmo, conforme é ensinado pelo método psicanalítico.  Os dosi caminhos estão relacuionados, diz Erikson, porque a psicanálise ensina a "confrontar o inimigo interior de uma maneira não violenta..." O recurso da guerra, que divide, é aqui suplantado pelo recurso da reconciliação, que totaliza.





A bondade reinará no mundo, não quando ela triunfar sobre o mal, mas quando o nosso amor por ela deixar de se expressar em termos de triunfo sobre o mal. A paz, se um dia vier, não será feita por pessoas que se fizeram santas, mas por pessoas que aceitaram humildemente sua condição de pecadores. Na verdade, foi uma santa - Santa Teresa de Lisieux - quem expressou o que é preciso para permitirmos que o espírito da paz resida em nossos corações:

 "SE ESTIVERES PREPARADO SERENAMENTE PARA SUPORTAR A PROVAÇÃO DE SERES FONTE DE DESGOSTO PARA TI MESMO, ENTÃO SERÁS UM AGRADÁVEL ABRIGO PARA JESUS."





Haverá diferença entre o sim e o não?
Haverá diferença entre o bem e o mal?
Deverei temer o que os outros temem? Contrasenso!
O ter e o não ter surgem juntos.
O fácil e o difícil se complementam.
O longo e o curto se contrsastam.
O alto e o baixo dependem um do outro.
Frente e costas, uma à outra se seguem.

Lao Tsé






ESPAÇO




Abrir os braços ao vento,
Tentar reter o espaço
Entre as fibras dos cabelos...

A pausa ficou no meio
Da viagem, do abraço,
Da tessitura dos medos.

E tudo era tão imenso,
Os voos, o azul profundo
Misturados no horizonte!

Muitas águas, muitas fontes,
Mas a porção permitida
Nas mãos em concha, contida.



Poema inspirado na figura abaixo - imagem retirada do Google






quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

OS SERES DE LUZ







Há muito tempo escutei falar dos seres de luz pela primeira vez. Eram pessoas místicas, aparentemente divididos entre este mundo e o outro, engajados nos movimentos da Nova Era e servindo de canalizadores para mensageiros espirituais que aconselhavam e iluminavam o mundo e suas trevas. Eram inofensivos. Reuniam-se em grupos e dançavam aos seus deuses e deusas, mantendo no rosto o ar piedoso e compreensivo de quem vive a dizer, “Eu sei de coisas que você não sabe,” e está disposto a esclarecer e elevar os demais.

Aos poucos, os seres de luz foram passando por algumas transformações, e seus dons espirituais cheios de bondade e abnegação passaram a fundar seitas que sequestravam e escravizavam adolescentes. Todo mundo já ouviu histórias sobre suicídio coletivo, casos de estupro e outros absurdos que aconteciam nestas comunidades. Devido a tais fatos, os seres de luz perderam força em meados dos anos 80. 

Até o advento da internet, que os trouxe de volta, espalhados em blogs e sites, pretendendo iluminar, educar, encantar, e esclarecer aqueles internautas que ainda vivem no mundo da escuridão e da falta de amor. Já fui abordada (primeiro, gentilmente; depois, como não lhes desse ouvidos, de forma incisiva e deseducada) por alguns desses seres de luz. E o que eu tenho a dizer a respeito deles, é que sua luz brilha tanto, e é tão forte, que cega a todos em volta – a começar por eles mesmos. Eles me falaram da minha falta de caráter e da minha resistência em abrir meu coração para deixar a luz entrar. Eles me xingaram, me rebaixaram, escreveram coisas a meu respeito e depois me mandaram e-mails que, segundo eles, tentavam trazer à minha alma ‘um pouco de iluminação.’  E como eu me recusasse a ceder aos seus encantos luminosos, despediram-se com impropérios, pragas que deixariam as do Egito em posição desvantajosa e desejos de que eu e meus entes queridos morrêssemos. 

Bem, eu não morri. Pelo menos, ainda não. Sinal de que eles podem até ser iluminados, mas não tem tanta força assim. Mas já vi alguns deles se regozijando por aí às custas do sofrimento e da morte alheias, como se Deus existisse apenas para eles e agisse apenas a fim de castigar seus desafetos. E mesmo assim, eles se reafirmam como seres iluminados, dotados de dons especiais de amor e bondade, sabedores e propagadores da verdade. Chegam a colecionar as homenagens que lhes são feitas, numa tentativa de reafirmar sua superioridade sobre os seres escurecidos.

Hoje, toda vez que ouço alguém comentando: “Fulano é um ser de luz,” ou “Sicrano é iluminado,” eu sinto arrepios percorrendo a minha espinha e ânsias de vômito. Também sinto uma vontade muito grande de correr para bem longe desses seres de luz, e mergulho bem fundo no meu pequeno poço de escuridão, onde espero, eles não me encontrem.




My Love







My love for you
Is not insane,
Or mostly immense.
It doesn't break the limits
Of my good sense.

My love for you
Is something simple,
Without derision,
Unsympathetic 
But not demanding.

My love is real,
And has survived
Under the limits
Of limitations,
With little sparks
Of infatuation.

And if you ever
Doubt that it's real,
I'll close my eyes,
And I'll say nothing
To reassure you
Of how I feel.






AMARGA








Era a cena de um filme na TV – A Praia do Futuro, com o nosso Wagner Moura. Na cena em questão, um rapaz bem jovem – que no filme interpreta o irmão mais novo do personagem de Wagner Moura – pega uma motocicleta sem autorização do proprietário e sai pelas ruas da Alemanha. Vai parar em uma boate, onde , na cena seguinte, ele está dançando com uma estranha a quem ele beija na boca, enquanto bebe e fuma (e o local sugere o consumo de outras coisitas mais...). A cena me deixou triste, com um sentimento de vazio. Comentei: “Que coisa vazia!”


Pensei nas centenas de pessoas que se “divertem” daquela forma hoje em dia: dançando, em transe, ao som de música extremamente alta e repetitiva, as batidas compassadas funcionando como as batidas de um martelo sobre uma bigorna, os organismos regados a energéticos com bebidas alcoólicas e drogas. A música é o que menos importa. Ninguém está ali para ouvir música, mas para exorcizar seus demônios (ou para invocá-los). Impossível conversar e conhecer alguém em um ambiente assim. Me lembrei que quando eu tinha aquela idade, a gente dançava diferente. Pulávamos, fazíamos passos sincronizados, nos divertíamos... e se bebêssemos, seria apenas uns golinhos para ficarmos mais ‘alegres.’
Sem perder o senso. As músicas que escutávamos tinham letras.


A cena continua, e os dois terminam encostados a um muro em uma parte deserta da cidade, onde transam. Minha sensação de vazio aumentou. Na cena, chega o dono da motocicleta e leva o menino com ele, deixando a menina sozinha, de madrugada, em uma parte deserta da cidade, a fim de encontrar o caminho de casa sozinha.

Ao meu comentário (Que coisa vazia!), responderam: “Você está amarga! Eles só estão se divertindo.”


É. Eu estou amarga. Porque quando eu olho para fora, pela minha janela, as coisas que eu vejo me deixam assim. Não é falso moralismo, nunca fui moralista na minha vida, mas há coisas demais acontecendo e eu sinto que não estou conseguindo acompanhar a lógica de todas elas. Atrasada demais para os novos tempos? Eu às vezes me pergunto se essa coisa que eu sinto se chama evolução ou involução; afinal, não estou acompanhando o que a maioria chama de evolução, e por isso, sou considerada amarga. Não consigo aceitar algumas coisas que tentam me empurrar garganta abaixo.


Que cada um seja feliz à sua maneira, mas eu me pergunto se essa gente é feliz mesmo. Afinal, o que é felicidade? É essa coisa psicodélica, drogada, superficial e barulhenta, essa mania de não pensar muito em nada, mas seguir o que a maioria está fazendo sem discernir se é bom ou verdadeiro? Ser feliz é não olhar jamais para dentro de si mesmo, a fim de não ver e nem escutar quando os corações sangram? Ser feliz é entrar na passeata para simplesmente conseguir boas fotografias para colocar na rede social? É encher a cara até vomitar? Porque se for, então eu não quero ser feliz; se for, eu então sou amarga, a mais amarga e retrógrada das pessoas.




terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Estar em Casa








Acordo cedo, com os primeiros raios de sol entrando pelas frestas das cortinas. Apesar do verão absurdamente quente que temos tido, as noites em Petrópolis são sempre frescas, e ainda sinto na pele o friozinho que me cobriu de madrugada.

Levanto da cama, desço as escadas e começo a abrir as portas e janelas da casa. Os primeiros passarinhos já estão pousados nos galhos do cedro, aguardando que eu abasteça seus comedouros. Meus cães saem correndo felizes jardim afora, assim que eu abro o portão do canil. De repente, Mootley - meu Cocker Spaniel - volta correndo, pega um brinquedinho com a boca e dá um pulo sobre mim, como se de repente se lembrasse de me dizer bom dia. E parte para brincar com a Leona, que o espera lá fora.

Estou em casa. Ajeito as almofadas no sofá da sala, preparo o café da amnhã e fico contente por poder desfrutar destes momentos sozinha, enquanto meu marido ainda dorme lá em cima. Acendo uma vareta de incenso, perfumo a casa, olho as plantinhas nos vasos para ver se precisam de rega. Abro a geladeira e começo a pensar em algo para o almoço. Lá fora, meus sinos de vento cantam, pendurados na varanda.

Para mim, estar em casa me passa aquela sensação de segurança - que mesmo sendo falsa, é agradável. Ninguém está seguro em lugar nenhum hoje em dia... ou talvez estejamos, quem sabe... mesmo quando caminhando pela beira do abismo ou enfrentando perigos, eu às vezes penso que não importa o que me aconteça: estarei bem.

Vai ficar tudo bem.

Certa vez, contei quantas vezes escutei esta frase durante uma semana, ao assistir à TV. Por coincidência, "Vai Ficar Tudo Bem" é o título de um de meus livros de poemas. Quando a personagem de um filme a disse pela primeira vez, achei normal, até que a frase começou a repetir-se, e repetir-se... ao final do dia, já a tinha ouvido quatro vezes. E continuei a ouví-la durante a semana, mas perdi a conta de quantas vezes.

E acho que vai sim, vai ficar tudo bem. Porque eu estou em casa. Estou aqui, entre as coisas que eu amo, das quais me cerquei, e que foram escolhidas a dedo por nós especialmente para ocupar este espaço. Aqui estão meus livros e discos, fotografias, objetos, cores, sabores e perfumes. Aqui está o homem que eu amo, e meus animais de estimação. Para onde quer que eu vá, eu levarei tudo comigo na memória do coração.





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EU SÓ TENHO UMA FLOR

  Eu Só Tenho Uma Flor   Neste exato momento, Eu só tenho uma flor. Nada existe no mundo que seja meu. Nada é urgente. Não há ra...