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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

ENVELHECER É UM PRIVILÉGIO?

 






ENVELHECER É UM PRIVILÉGIO?

 

Antes de fazer esta reflexão, vamos pensar no significado da palavra privilégio; de acordo com o dicionário, privilégio significa “Direito, vantagem, prerrogativa, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria; apanágio, regalia.” Ou seja, um privilégio é alguma coisa que é legada apenas a poucos. Portanto, envelhecer não é um privilégio, já que a maioria das pessoas envelhece.

 

As redes sociais tem nos ensinado que é bom romantizar situações corriqueiras, como a velhice, a maternidade, a solidão, a família, uma dieta e até nossos fracassos, como sendo algo especial. Se você é velho, isso é uma grande vantagem, pois você chegou à “melhor idade” e se tornou alguém especial. Da mesma forma, se você é jovem, branco, negro, magro, gordo, casado ou solteiro, você está vivendo algo especial – um privilégio.

 

Eu não consigo enxergar a vida como sendo um privilégio, já que estamos todos vivos! A vida para mim é esse grande mistério, pois não tenho ideia sobre de onde ela vem, onde começou, quando terminará, se existe um propósito para estarmos aqui ou se existe algo depois que ela termina. Na verdade, sei tanto quanto todo mundo, ou seja: nada. Tudo o que se afirma a respeito da vida ou da morte é especulação.

 

Mas voltando ao tema ‘envelhecer’, ao escrever este texto tenho 60 anos e quase 3 meses de idade. Não posso dizer que envelhecer tem sido bom, pois com a velhice, chegam várias questões difíceis sobre saúde, finanças (aposentar-se no Brasil significa viver com muito pouco dinheiro), preconceitos, medos, dores físicas e morais. Estarmos velhos é difícil. Porque os mais jovens nos olham de forma diferente, como se a velhice significasse nececessariamente senilidade, incompetência profissional ou ideias ultrapassadas.

 

Mas aqueles que afirmam que o importante é ter uma mente jovem, não entendem que ao pensar desta forma estão jogando fora as experiências acumuladas e a sabedoria adquirida, talvez em troca de procedimentos estéticos que deixam os rostos todos iguais (e que não fazem ninguém parecer mais jovem) e atitudes de adolescentes que não caem nada bem em pessoas mais velhas. Vejo muitas pessoas velhas que querem recuperar o tempo perdido através de relacionamentos com pessoas mais jovens, ou usando roupas inadequadas ao seus corpos, ou frequentando academias não pela saúde física, mas tentando obter os músculos de um fisioculturista. Lamento por eles. Porque ainda não compreenderam que cada idade deve ser vivida quando chega o tempo.

 

Para mim, a velhice é um tempo de reflexão e um certo descompromisso. É claro que cuidar da saúde e da aparência é importante, assim como manter a mente atualizada. Mas perseguir esses ideais desesperadamente como se eles fossem manter você vivo por mais tempo, prolongando uma juventude que já não existe mais, é caminhar à beira do ridículo. É sinal de desespero, não de sabedoria.

 

Eu cheguei à minha velhice. O que eu quero, hoje? Desfrutar daquilo que conquistei em minha juventude: minha casa, meu marido, meus cães, a companhia de algumas pouquíssimas pessoas. Quero ler muito, escrever muito, ouvir boa música, viajar, ou apenas ficar sentada no jardim sem fazer nada. E quero comprar roupas novas (porque eu adoro andar muito bem vestida) e cuidar da minha saúde, mas sem neuras. Não me interessa parecer mais jovem, ser ‘sexy’ ou encher meu corpo de hormônios para focar na sexualidade. Para mim, esse tempo já passou. Sexo é bom quando acontece naturalmente.

 

Não tive filhos, portanto não tenho netos. Não tenho compromisso com nada. Sou uma pessoa praticamente livre. Construí minha vida para ser assim, para chegar onde cheguei. Não me arrependo de nada, e não quero mais nada, a não ser o que já descrevi acima. As opiniões das pessoas não me preocupam. Não me encaixo nas definições alheias.

 

Não tenho medo da morte, e não lamento a proximidade dela. A proximidade da morte me traz perspectiva. Ela me lembra que tudo acaba, que tudo é finito. E não faz diferença, na verdade, quando eu estiver em meu leito de morte, pensar em alguma coisa que deixei de fazer ou gostaria de ter feito, porque a morte é o selo final, é o cadeado que encerra esta vida, caso haja outra após esta ou caso não haja nada. E se não houver nada, ou se houver alguma coisa, não fará sentido nenhum tipo de arrependimento.





 

 

 

 


 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

MANIPULAÇÃO

 


 

 

De todas as formas de interação humana, a mais sórdida talvez seja a tentativa de manipulação. E muitos pensarão, ao ler a primeira frase deste texto, que a palavra "sórdida" talvez soe forte demais, mas eu penso que ela é a palavra exata para descrever manipuladores.

 

O manipulador atrai suas vítimas de várias maneiras, e algumas delas são:

 

 - Através do elogio exagerado;

 - Através da insinuação de fraqueza ou incompetência, colocando o outro como seu único possível salvador;

 - Criando situações a fim de envolver sua vítima em uma teia falsa de gentileza, mas por trás de tanta "bondade",   escondem seus interesses excusos em impor certos pequenos favores, de forma que a vítima pense, "Como eu poderia dizer não após tanta gentileza?"

 

O manipulador realmente pensa que seus problemas podem ser jogados sobre as costas de outras pessoas. Envolvem-se em confusões ou fazem promessas difíceis de serem cumpridas, contando com a ajuda e o suporte das pessoas que os cercam. E ai de quem estiver na mira de um manipulador! Ver-se-há tão envolvido, que pensará que  lhe resta apenas o constrangimento de um "sim" torto e caduco que atrapalhará todos os seus planos; um sacrifício involuntário que jamais esteve disposto a fazer, mas que de repente, parece ser a única saída a um possível constrangimento.

 

Mas eu aprendi que existe sim, uma outra saída  às tentativas de manipulação alheia: e ela é a palavra "NÃO", repetida calmamente quantas vezes forem necessárias, olho no olho, sobre um discreto sorriso. Não será um momento agradável, mas é necessário a quem não deseja ser vítima das armadilhas da manipulação. E o manipulador poderá passar a odiar quem lhe diz na cara a palavra "NÃO." Mas quem não se importa em obter validação alheia, quem não teme a desaprovação e a solidão, e não precisa que 'gostem' de si, sobreviverá.

 

E eu sempre me pergunto, diante de uma tentativa de manipulação: por que a criatura não me disse logo no início o que realmente queria? Por que essa necessidade de levar o outro para dentro do inferno mentiroso disfarçado de paraíso que ele mesmo criou? Por que a mania de tentar dobrar o outro à sua vontade, até mesmo tentando mostrar as possíveis vantagens (inexistentes) que o outro teria, caso cedesse às suas sutis exigências?

 

Eu desenvolvi para minha vida o seguinte princípio: tentar ser independente de qualquer pessoa, o máximo possível, e só solicitar ajuda quando for estritamente necessário, sem perturbar os outros com os meus problemas. Porque eu acredito que respeitar a paz alheia é essencial. Porque eu penso que ninguém está aqui para se sacrificar por mim. E porque eu compreendo que aquilo que a  quem pede parece ser apenas um pequeno favor, pode representar um grande constrangimento e um problema na vida do outro. 

 

Manipulação? Sinto o cheiro de longe.

 

Nem tente.

 

"Ah, mas ele vai ficar zangado se eu disser não!"

 

Dane-se.

 

Ana Bailune

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

VIDA

 





Passarinho pousado no muro da casa
Carrega no bico a intenção do ninho.
Borboleta azul de grandiosas asas
Recém libertada da dor do casulo.

Cai a chuva formando poças d’água,
Que refletem um céu que é só de promessas.
Um cão abandonado no meio da praça
Com um galho de árvore ele faz sua festa.

Passarinho não sabe se os ovos chocarão,
Borboletas não sabem para onde vão.
A chuva e a poça sequer se conhecem,
O cão com seu galho se esquece da fome.

Com caneta e papel, lá vem o tal homem,
Cismando, arrotando sua filosofia...
E é ele o que menos tem sabedoria
Mas crê na mentira que ele mesmo cria.








sábado, 20 de setembro de 2025

O AMOR

 




O AMOR

 

O amor talvez esteja

Entre o que me prometeram

E o que me foi negado,

Entre aquilo que me deram

E o que me foi tomado,

Entre a noite desabrida

E o meu sono agitado,

Entre a paz da margarida

E o centro do tornado,

Nas alegrias da vida

E no Mistério selado,

Entre a palavra não dita

E o grito alucinado,

Entre a presença maldita

E o adeus inusitado,

Entre o olhar comovido

E o olhar dissimulado,

Entre uma língua fendida

E o sorrir falsificado,

Entre o que não entendi

E jamais foi explicado.

 

O amor é uma palavra

Que tilinta, frouxa e fraca

No meu coração fechado.

 

 

 

 

Ana Bailune


NEGLIGÊNCIA

 




Algo de mim se perde,
Escorrega devagar
Aos poucos
De dentro de mim
Deixando uma casca
Solta,
Totem que o vento desmancha.

Algo de mim
Escorrega, feito lava,
E esfriando, endurece
Num solo onde nada cresce
E então permanece
Fria,
E você nem nota.

Você me perde
Todos os dias,
Um pouco de mim sai pela porta
Ah, mas isso não faz diferença...
Estou ao teu lado, aparentemente,
E é isso que te importa.










domingo, 7 de setembro de 2025

O CHÃO

 




O CHÃO 


O chão é  um bom lugar para um recomeço, 

Ou até  mesmo um descanso após o tropeço, 

Para alguém se deitar e contemplar o céu. 


Os olhos têm tempo de olhar as pegadas

De cada pessoa, no meio das estradas

Onde quem caiu as vê do avesso.


O chão é  a chance que todos nós temos

De criar novas asas, ver o que vivemos,

Ajustar as cordas, afinar as teclas,

Até  que as feridas estejam bem secas.


E o chão... ah, tem sido meu local preferido

Pra curar os meus medos, catar o que é  meu,

Dar a mim o valor que eu tenho merecido

E o amor gratuito que ninguém mais me deu.


Ana Bailune






sexta-feira, 1 de agosto de 2025

À JANELA

 




Quem era aquela moça

Que ficou à janela?

Passei por ela, há alguns dias,

E quase a reconheci.

Seus olhos tinham um brilho estranho,

O sorriso discreto era feliz,

E a sua alma sozinha

Não pertencia a nenhum rebanho.


Nossos olhos se encontraram

Por um breve momento,

E pelo olhar, ela me disse

Aquilo que sobre mim mesma,

 Eu já não sabia há algum tempo.


Quem era aquela moça

Que ficou à janela, 

E me acenou, de repente,

Quando eu já estava longe?

Deixou cair um lenço verde

Que voou até as nuvens,

Mas secou meu desalento.


Quando eu olhei para trás

Querendo saber quem era,

Ela já tinha entrado.

E já nem sei se houvera moça

Ou se fora simplesmente

Uma miragem, criada

Por um coração quebrado.







segunda-feira, 21 de julho de 2025

MOTIVOS

 



Deve haver algum motivo pelo qual as folhas caem das árvores, mas jamais retornam a elas. E também deve haver um motivo pelo qual os rios correm para o mar, mas o mar jamais devolve aos rios suas águas. E as lagartixas viram borboletas, mas as borboletas nunca voltam a ser lagartixas. E as pupas viram cigarras, mas as cigarras não voltam a ser pupas.

E depois, tudo desaparece.

Dizem que voltamos ao Todo e renascemos transformados em outras pessoas, sem lembranças de quem fomos. Se é assim, então é como morrer totalmente.  Porque jamais voltaremos a ser quem somos. É pior do que se fôssemos apenas a memória de um computador que é frequentemente formatado, não deixando nenhuma memória na máquina. Somos os arquivos irrecuperáveis. O computador fica, mas isso não significa nada, pois ele é reprogramado e vira outra coisa com outra função. Assim, só temos esta vida, pois se houver uma próxima, nós não seremos nós. 

Nada faz sentido. E talvez o sentido seja este.





terça-feira, 8 de julho de 2025

A ÁRVORE

 

 





Quando uma folha cai da árvore,

Ela não volta jamais.

Solta-se,

Desce sinuosamente, pousando no gramado,

Bem devagar.

 

E então, ela acaba de secar.

 

A árvore solta o que está seco,

O que morreu,

O que a intoxica.

Assim, gera  frutos plenos,

Repletos de açúcar

E sem cica.





sábado, 21 de junho de 2025

DESAPRENDA

 

 

 




Desaprenda

E se desprenda

Da rede invisível que sufoca.

 

Questione, e nunca, jamais,

Se abandone!

 

Não deixe que ninguém te ensine,

A auto indulgência, a pena,

-Nem mesmo este poema!

 

Olhe sempre com os olhos fechados,

Olhe para dentro, mesmo que os olhos ardam,

Ou caiam desse rosto escandalizado!

 

Desaprenda, e enfim,

Compreenda!

 

Escute além do que é dito,

Entenda o que está escondido

Além da explicação!

 

Aprenda a ser visionário,

Adivinha, médium, sensível,

Não tenha medo de ser risível

Muito menos, de ser julgado!

 

Nesse mundo de hoje em dia,

A coisa mais necessária

É não aceitar verdades impostas,

As bostas que nos empurram

Gargantas abaixo.

 

Não se ponha em qualquer lado,

Não tente escolher o certo

Ou apontar o errado,

Fique em silêncio,

Mas tenha sempre aceso

O discernimento!

 

Não tente impor coisa alguma,

Mas não aceite sem mastigar

E sentir o gosto daquilo

Que querem que você engula

E que pode até matar!

 

Aprenda a erguer limites

E acima disso tudo,

A aguentar a solidão 

Por mais que ela grite.

 

 

 

Ana Bailune

quinta-feira, 12 de junho de 2025

ESTRANHEZA

 





Eu sou de outro país,

De outra época, há muitos anos,

Milênios, talvez.

Não sei quem me fez,

Mas jamais me esqueci

De quem me desfez.

 

Eu venho de alguma galáxia

Muito distante,

Não tem alguém que a alcance,

Ou alguém que fale a minha língua

Ou cure a minha íngua.

 

Quem me olha, nem percebe

Que eu já não estou,

Que eu fui embora

Há muito tempo,

Sou uma folha verde que caiu mais cedo

Derrubada pelo vento.

 .



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SEMENTE

Lá no horizonte, junto com o sol, Vem um mistério. Ergue-se por sobre as montanhas, Derrama luzes e sombras Sobre as cidades, estradas e cal...