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terça-feira, 4 de agosto de 2026

EM TODOS OS LUGARES

 


 


Ninguém consegue estar em todos os lugares

Ao mesmo tempo.

Nenhuma alma pode viver aprisionada e ser livre

Ao mesmo tempo.

Ninguém pode amar alguém e mentir sobre si mesmo

Ao mesmo tempo.

Ninguém pode dar um passo adiante e permanecer parado

Ao mesmo tempo.

 

Existem histórias que não podem ser reescritas.

Existem lugares dentro da gente que não deveriam ser esquecidos.

Existem palavras que não podem ser evitadas – mas nós as calamos.

Existem fatos que não podem ser apagados –

Mas nós fingimos que não os vivemos.

 

Por que nos matamos,

Porque concordamos que simplesmente

Nos matem?

Por que admitimos que alguém nos esqueça,

Enquanto nos lembramos?

 

Existem caminhos tão áridos, que secam sentidos.

Existem olhares tão frios, que congelam vidas.

Existem corações tão vazios, que ecoam as vozes

Daqueles que tentam falar-lhes - sem serem ouvidos.

 

Só sei que nada sei, mas isso não tem me bastado.

Eu sou a junção perfeita do que perdi e do que foi encontrado

À beira do caminho, diante do portão fechado.








 

 

sábado, 1 de agosto de 2026

A ALQUIMISTA

 



 

Transformou o pano negro sobre o rosto

Em céu de veludo estrelado,

E a palidez de um luar malogrado

Em aconchego para um coração cansado.

 

Transformou a lama em solo fértil,

E a estiagem do deserto em paisagem,

Transformou a própria ausência em viagem,

E a ausência alheia, em poesia.

 

Transformou a solidão em mansa alegria,

Construiu com cada “não”, um novo dia,

Que a levou ao que de fato a agradava,

Transformou cada dor em uma escada.

 

Com o dorso da mão, desfez as teias

Que prendiam os seus passos no caminho,

Na árvore mais seca, fez seu ninho

Alimentando-a com a seiva de suas veias.

 

E de repente, a paisagem ressecada

Virou um caminho verde, uma estrada,

Um lugar no qual ela hoje descansa

E semeia, hoje e sempre,

A esperança.







 

 

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A OSTRA

 

 


 

Caiu a pedra do anel na beira da estrada,

E você não viu.

Ficou a pérola perdida em um canto da vida,

E você sequer sentiu.

Olhos presos ao céu, procurando tempestades,

Caminhou para longe, refugiando-se em seu mundo.

Nem sequer notou as rosas que brotavam na paisagem

E que seus próprios pés insensíveis

Sem dó, pisoteavam.

 

Um riso sardônico, um tanto satânico num rosto de pedra,

O olhar insensível, distorcido,enviesado, a vista rasa

Sequer enxergou o quanto se afastava cada vez mais

Da acolhida amorosa daquela pequena casa.

Com uma arrogância que jamais medra e um coração sempre arredio,

Continuou pisando as rosas e se afastando,

Ostentando no dedo aquele anel vazio.

 

Mas um dia  a esperança se cansa  de renascer,

E exatamente como aquelas rosas, começa a se deixar morrer.

De vez em quando, alguém experimenta olhar para trás

Para descobrir que o passado já nem pesa mais,

(Sem compreender que isto não é, exatamente, uma alegria).

E a pérola caída, levada pela chuva,

Retorna ao mar, e à sua ostra segura,

Que há tanto tempo

Estivera vazia.

 

.

.

.

 

 

Ana Bailune

sexta-feira, 17 de julho de 2026

CONCLUSÃO

 





 

O que eu te desejo é nuvem

Da cor que você pintar

Que te leve aonde queiras

Mas não tente me levar.

 

A dom da minha palavra

Não ressoa em teus ouvidos,

De você, nem quero nada,

Sequer ser seu inimigo!

 

O que eu te desejo, é rio

Que corra para bem longe

Que preenchas teu vazio

Te enchendo em outra fonte.

 

O meu coração é porta

Pela qual não vais entrar,

No teu, sempre estive morta,

E eu nem quero acordar.

 

O que eu te desejo, é vento

Que te leve pelo ar,

Porque os anos que perdemos

Não vamos recuperar.

 

Que eu fique na minha nuvem,

E na tua irás ficar,

E que as duas não se encontrem,

Em um inútil trovejar.



{**}

 

 



domingo, 12 de julho de 2026

DELÍRIO

 


 

 

 

Seu corpo

É como uma oca vazia de chão batido,

A fileira de pó subindo

Em direção ao telhado de palha

Feito um desejo reprimido,

Pois que ninguém a toca.

 

As mãos percorrem a própria pele

Em busca de um sentimento antigo

De ser amada, de ser abrigo,

Enquanto os olhos fechados descortinam cenas

De tempos há muito tempo idos.

 

Ela sente a pele flácida nas pontas dos dedos,

Ela percorre as rugas como se fossem segredos,

E não as estradas óbvias que todos enxergam

Enquanto a observam; quanta ilusão!

 

O coração tomado por um princípio de delírio

É o que a salva da percepção da vida que lhe resta:

Uma embriaguez, uma sensação de que ainda há tempo,

Pois no seu relógio biológico, faltam ainda e sempre

Os mesmos cinco minutos antes do fim da festa.

 

Enquanto isso, a vida se desmancha,

Ninguém mais virá, e atrás da porta fechada

Ela ficará, na companhia fria

Dos mesmos velhos fantasmas que ela mesma cria.


E na história dela se descortinam

Todas as horas, todos os dias

Os dias da minha própria história.

 

 

Ana Bailune

terça-feira, 7 de julho de 2026

UM VESTIDO



 

Era um vestido de malha preto, simples e sem qualquer tipo de adorno. De comprimento um palmo abaixo do joelho, ele tinha decote em "V" profundo mas sem sem ser vulgar, mangas três quartos justas e descia colado no corpo até o início do quadril, onde a saia se abria pouco a pouco em uma roda fluida que dançava em volta das pernas quando eu andava.

 

Comprei-o pronto por volta de  2007 em uma loja daqui da cidade chamada DIMPUS, onde eu era cliente assídua - infelizmente, ela não existe mais. Comprei-o para ir a uma festa informal.

 

Posso dizer com segurança que foi a roupa mais bonita que já tive, pois aquele vestido era especial: tinha poderes mágicos. Transformava meu corpo em um corpo de bailarina, afinando a cintura, torneando as pernas e braços e criando uma aura de mistério em volta de mim. Era muito difícil sair com aquele vestido e não perceber o quanto as pessoas me olhavam. Algumas mulheres me perguntavam onde eu o tinha comprado. Não importava aonde eu estivesse, eu me tornava o alvo das atenções. Às vezes chegava a ser constrangedor ser abordada em filas de bancos, padarias e pontos de ônibus por mulheres curiosas. 

 

Enfim, o vestido era um fenômeno inexplicável. 

 

Eu o usava tanto no inverno quanto no verão, pois ele era muito versátil. Ficava lindo com um par de botas e um casaco por cima. Também era muito bonito com sandálias e um colar colorido. É uma pena que ele acabou desbotando, de tanto que eu o usei, mas durou uns bons anos. 

 

Ainda procuro por um vestido parecido - e cheguei até a possuir um do mesmo modelo, mas o efeito não era o mesmo: era apenas um vestido preto de malha. Não tinha poderes mágicos e nem me deixava com corpo de bailarina. Ninguém olhava para mim quando eu o usava e nemnhuma mulher jamais me perguntou onde eu o tinha comprado.

 

Quem sabe a magia não estivesse no vestido, afinal...

 

 

 

Ana Bailune

terça-feira, 16 de junho de 2026

ONDE FOI QUE EU DEIXEI




Onde foi que eu deixei,

Em qual banco de praça,

Em qual sítio, em qual beira

De uma longa calçada?

Em qual rua deserta,

Em qual banco de trem,

Onde foi que esqueci,

Onde foi que eu deixei?


Onde foi que eu perdi,

Onde foi que eu larguei

Sob um negro capuz?

Onde foi que eu errei?

Onde está, onde pus,

-Em alguma gaveta

Ou no fundo do armário

Em um outro planeta?


Distraída, não vi,

Eu perdi no caminho,

Não notei a ausência...

Onde foi que eu perdi,

Onde foi que eu deixei

Não prestei atenção

Deslizou como anel

Minha doce inocência...








quinta-feira, 11 de junho de 2026

CABER

 



Eu quero caber 

Só dentro de mim,

Sentindo conforto,

E sendo acolhida

No meu pequeno altar

Pelo pequeno Deus 

Que sempre me abriga.


Eu quero poder

Esticar as pernas,

Voar sem limites,

Dançar sem medida.


Eu quero caber 

Aonde há olhares

Que gostem de ver

Aquilo que eu sou

Verdadeiramente,

Ouvir o que eu acho

Sem pregos, correntes,

Sem ser necessário

Andar devagar,

Me desmerecer

Ou falar mais baixo.


De nada me serve

Dobrar-me, cortar

As pontas das asas,

Sempre voar baixo

Sem incomodar,

Sempre engolir sapos,

Sempre me calar.


Eu quero caber

Naquilo que eu sei

Que é bom pra mim,

No meu coração,

Ou na solidão

Bem acompanhada

Por essa presença

Que sempre me ajuda,

Que sempre me fala.


.

.

.


terça-feira, 26 de maio de 2026

COPO QUEBRADO

 







O copo espatifou-se no chão frio da cozinha.

Com cuidado, varri todos os seus cacos.

Aspirei também o pó de vidro espalhado

Para não ter meus pés cortados.


Lamentei um arranhão sobre o piso deixado...

Juntei tudo em um saco plástico onde escrevi

A fim de evitar um acidente indesejado:

“Cuidado, atenção, vidro quebrado.”


E eis que um dia desses, reparei

Ao limpar de novo o chão, sob meu passo,

Algumas sobras daquele copo imprevisto

Como a me dizer-me: “Ainda estou aqui, ainda existo.”










quinta-feira, 14 de maio de 2026

INGLÊS SEM MESTRE




Hoje de manhã eu abri meu livro antigo de Inglês Sem Mestre, no qual no final dos anos 70 eu comecei a aprender inglês sozinha. Minha mãe comprou a coleção de um vendedor ambulante, daqueles que iam de casa em casa e que a gente convidava para tomar café enquanto escolhia as mercadorias. Depois, ele anotava tudo em um caderninho e voltava todo mês para cobrar as parcelas. A vida era assim - as pessoas eram confiáveis.

Já fazia muito tempo que eu não abria mais esses livros, mantendo-os em meu escritório apenas para decorar as prateleiras. Foi estranho deparar com as minhas anotações no livro. A letra pequena inclinada para a direita, espremida como se tentasse se esconder, os exemplos escritos com os advérbios e tempos verbais que eu jamais soubera se estavam certos ou não - eu não tinha um professor e a internet não existia. 

Foi interessante repassar tudo com a Professora Ana de hoje, corrigir alguns erros que a Ana adolescente cometeu: Por exemplo: "gone" deveria ter sido usado naquela frase que estava no Present Perfect, e não "went." E aquele advérbio deveria ter sido colocado entre o verbo e o sujeito, não antes do sujeito.

Fiquei pensando no quanto seria bom se pudéssemos realmente voltar e corrigir alguns erros que cometemos no passado - e considero como erros aquilo que fizemos tentando acertar, e não aquilo que fizemos sabendo ser errado apenas para prejudicar ou magoar alguém. Estes últimos não são erros, mas atos voluntários e conscientes.

De repente, ao virar uma página, deparo com uma fotografia onde meus pais (jovens, provavelmente apenas um casal de namorados) me sorriam. Aquilo foi forte. No momento da foto, eles não tinham ideia de que se casariam e teriam cinco filhos. Não sabiam das dificuldades que atravessariam a vida toda. Minha mãe não sabia que perderia a beleza, os dentes e a juventude cuidando de nós. Meu pai não sabia que morreria de um enfarto fulminante aos 62 anos (apenas dois a mais do que eu tenho hoje). Quantas coisas não sabemos a respeito de nós mesmos!

Achei também, algumas páginas adiante, uma fotografia comemorando o primeiro aniversário de uma pessoa de quem gosto muito e de quem eu viria a ser madrinha de casamento e madrinha também do seu primeiro filho, lá na Itália. E eu não tinha a menor ideia disso, quando fui visitá-la recém-nascida no hospital.

E no livro havia a pequena história escrita em Inglês e traduzida para o Português que me trouxe a resposta a uma indagação que vinha me corroendo há alguns dias. Eis a história

MÊNCIO E CONFÚCIO

Uma vez, Mêncio, um discípulo de Confúcio, perguntou-lhe: “Mestre, devo pagar o mal com o bem?”

E confúcio:

-Se você pagar o mal com o bem, com quê você pagará o bem? Pague o bem com o bem e o mal com a justiça. 

Às vezes um livro antigo aberto nas páginas certas pode mudar muitas coisas. 








quarta-feira, 13 de maio de 2026

QUEM GOSTA DE VOCÊ?

 


 Deixem a Roda da Fortuna girar...


Certa vez, após dizer algo que naquela época me magoou bastante, uma pessoa me ligou alguns dias depois. Percebi que ela queria testar o efeito do que tinha dito. Talvez quisesse confirmar se tinha atingido seu objetivo. E quando percebeu que eu estava realmente chateada, ela simplesmente disse: "Você sabe que eu tenho esse jeito de ser, mas eu gosto de você, okay?" E então eu respondi: "Acontece que você tem um jeito muito esquisito de tratar as pessoas de quem você gosta."

 

Depois daquilo, continuei me relacionando com ela, porém me mantive em guarda, mais afastada. E é claro, ela não mudou: me atacou novamente. Daí eu me afastei ainda mais.

 

Esta mesma pessoa, em outra ocasião (ao perceber que eu realmente me afastara dela), soltou uma indireta, dizendo que as pessoas precisavam aprender a perdoar. Segundo ela, "Nem tudo é sempre ruim, as pessoas erram, e devemos pensar que houve bons momentos também." Eu respondi que muitas vezes, os bons momentos não compensam os ruins.

 

Afinal, quem realmente gosta da gente?

 

Estive pensando muito nisso, e a conclusão é muito simples:

 

1- quem gosta de você jamais fará ou dirá alguma coisa que deprecie você ou tire o seu brilho, principamente em um momento importante da sua vida. Ela saberá respeitar o seu momento de brilhar e não vai tentar diminuir a sua vitória.

 

2- Quem gosta de você ficará entusiasmado com suas conquistas. Você vai sentir o quanto ela se interessa por você, pelo seu bem estar, e assim que alguma coisa boa acontecer na sua vida - uma viagem, um bom negócio, uma meta cumprida - ela vai se manifestar com alegria genuína. Se tal pessoa sequer comenta seu sucesso, não se interessa pelo que acontece com você ou deprecia suas conquistas, ela não gosta de você.

 

3- Quem gosta de você vai saber pedir desculpas e reconhecer seu erro quando necessário. Não vai fazer algo que o magoe e de repente chegar 'do nada'  fingindo que nada aconteceu, pretendendo retomar o relacionamento como se estivesse tudo normal. 

 

4- Quem gosta de você vai saber te escutar. Se a todo tempo essa pessoa te interrompe, falando por cima da sua fala e mudando de assunto quase sempre que você tenta dizer alguma coisa, ela não gosta de você.

 

5- Quem gosta de você não fará comentários ferinos sobre a sua aparência, corte de cabelo, roupas. Se fizer, tal pessoa na verdade inveja você. Gostaria de ser como você.

 

6- Quem gosta de você não vai tentar indagar sobre você às outras pessoas. Não tentará saber sobre a sua vida perguntando aos outros, o que é uma tremenda falta de respeito. Chamo isso de fofoca. Fico imaginando quantas coisas construtivas uma pessoa poderia realizar se ao menos cuidasse da própria vida ao invés de tentar fuçar a vida alheia.

 

7- Quem gosta de você demonstra respeito: por você, pelas suas conquistas, pela sua casa, pela sua posição. Não joga indiretas, não faz comentários ferinos ou brincadeirinhas depreciativas. Não tenta colocar as outras pessoas contra você. Não especula sobre a sua vida, não deseja o que é seu.

 

Não inveja. 

 

E se você perceber que alguém age desta forma com você, não a justifique, não perdoe o imperdoável e nem tente ficar apenas pelos poucos bons momentos: se afaste. A sua energia merece ser poupada de pessoas assim. Invista em coisas melhores - sua saúde, seu bem estar, sua casa, seu relacionamento. Não frequente jamais locais onde você sente que não é bem vindo ou que é apenas tolerado. Não aceite convites de última hora apenas para preencher espaços vazios de quem não confirmou presença. Aprenda a se valorizar. 

 

Isso vai fazer com que você seja mais feliz?

 

A curto prazo, não. Você vai se sentir sozinho e isolado. Vai perguntar a si mesmo se fez a escolha certa, e pode ser que haja recaídas. Pode ser que você aceite mais um convite apenas para ver se houve alguma mudança, mas vai perceber logo que gente assim não muda. 

 

Mas a longo prazo, você verá que a solidão vai te tornar mais forte. Você vai aprender a fazer melhores escolhas, a se valorizar mais, e acabará por encontrar novas pessoas que fazem sentido na sua vida, que realmente torcem por você. E desenvolverá a sua autoconfiança de uma forma que nada que alguém diga ou faça terá o poder de te destruir. Nunca mais.

 

É muito fácil perceber quando alguém não gosta da gente. E tentar agradar estas pessoas é um trabalho árduo e totalmente inútil. Nem tente. Sequer comece. Saia fora enquanto ainda tem saúde mental. Porque nessa vida, há pessoas que envelhecem e amadurecem, e outras que apenas envelhecem, sem jamais aprenderem sequer o básico da vida: respeito pelos outros. 

 

 

Ana Bailune

Parceiros

SEMENTE

Lá no horizonte, junto com o sol, Vem um mistério. Ergue-se por sobre as montanhas, Derrama luzes e sombras Sobre as cidades, estradas e cal...