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Mostrando postagens de Junho, 2016

UMA ESTÁTUA VIVA

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A tarde estava linda, e um pouquinho fria. Do jeito que eu gosto. Eu e meu marido acabáramos de chegar à Bauernfest, a festa que celebra a colonização alemã em Petrópolis. Enquanto caminhávamos, observando a alegria das pessoas, as barracas de quitutes e as cores, começamos a nos lembrar de pessoas que adoravam esta festa, e que já não estão mais aqui para celebrá-la. No meio de tanta alegria, nós estávamos um pouco melancólicos. 






E de repente, eu encontrei um anjo branco em um pedestal. As pessoas o rodeavam, curiosas. De longe, pensei que fosse uma estátua, e pensei: por que uma simples estátua chamaria a atenção de tantas pessoas? Nos aproximamos, e ele se moveu: era uma estátua viva! Coloquei algumas moedas na caixinha que estava aos pés do anjo, e li a inscrição: “Anjo Gabriel.” Aproximei-me mais, e mostrei o celular, pedindo para tirar uma foto, e ele concordou com a cabeça. O que mais me impressionou, foi a serenidade com a qual ele, de seu pedestal, olhava para nós. O artista…

A ONÇA

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Deixemos assim: Esqueçamos da onça, Entremos na dança  Dos jogos e festas; A tocha que passa De mão para mão, Sorrisos Colgate Na televisão!
Deixemos de lado O ouro roubado, Larguemos de mão Os corpos que sofrem Tão abandonados Nas filas, no chão De infernos lotados!
Esqueçamos os fatos As corrupções Discursos mofados, As aberrações Que grassam nas ruas De noite e de dia, Os berros obscenos As defecações!
Deixemos assim: Sem água que chegue Para se lavar A negra sujeira! Mentiras online, Calúnias escritas, Falácias bonitas, E há sempre alguém Pregando bondade, Fingindo justiça, Querendo só ser A tal salvação!
Irmão contra irmão, Direitos ‘iguais’ De sermos roubados, Vilipendiados, A fome, o terror, Os desempregados E nos trens lotados Olhares vazios De gente sofrida Que não tem saída, Não vê solução...
Deixemos assim: Esqueçamos das vacas Prenhes, mutiladas, E das invasões, Colheitas roubadas E distribuídas No meio de quem Não faz por ganhar Sua própria vida, Destrói, queima, mata, A…

Alma

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Toda alma, quando voa, Não precisa olhar para baixo, Nem de galhos para pousar.
Se precisa, é por apego, Ou até pior – por medo De ser alma, e de voar.





Ao Inverno

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Bendigo a branca umidade, Matéria que veio dos sonhos Das almas adormecidas E pousa sobre a paisagem.
Goteja gotas cantantes,  Da folha de cada árvore, E ficam presas às flores -Pedrinhas de diamantes!
No inverno dos meus sonhos, E da minha realidade, Me aconchego junto ao fogo, Pensando em minhas saudades...
Bendigo esse teu abraço Me chamando  a caminhar, Sair, e beber do vinho Que descansou no verão...
Aqueço meu coração Ao sentir o teu abraço E ao pisar nas poças d'água Revertidas em mormaços
Que sobem, sobem aos céus, Na face do meio-dia Matando do sol a sede Renovando a alegria.
Inverno, seja bem vindo Ao inverno da minha vida! Nossas almas são irmãs  E em mim te dou guarida.








PALAVRA DADA

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Quando eu era pequena, meu pai mantinha uma conta aberta em uma vendinha lá perto de casa, que pertencia ao Sr. Manuel, um Português, e sua esposa Dulce. Funcionava assim: Sr. Manuel tinha um caderninho onde ele anotava as coisas que as pessoas tinham comprado, e os valores. No final do mês, os clientes pagavam as contas, quitando-as ou deixando um saldo para o mês seguinte. Ninguém assinava papel nenhum: o que valia, era a palavra. Era raro alguém que não pagasse o que devia, e assim, o Sr. Manuel mantinha seus clientes e os clientes do Sr. Manuel contavam com o crédito que tinham com ele quando precisavam.
Quando meu avô morreu, minha mãe herdou um terreno que precisou vender, mas o inventário demoraria muito, e então ela o vendeu na base da palavra. A pessoa que comprou assinou os documentos, que na verdade, não tinham valor legal, e acredito que esteja por lá até hoje, se não passou o terreno adiante. Hoje em dia, quem faz uma negociação dessas está correndo sérios riscos de fica…

PASSAR

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Passar de leve, passar, Pois a vida é só um sopro, Uma janela entreaberta, Incerta coreografia De uma dança sem ensaios...
Passar de leve, passar, Pois a vida é como um raio, Repentina, intensa, breve, Leve como a pluma solta, E chegamos sem escolta -Breve vida, vida louca!
Passar de leve, passar, Pois que nada levaremos, E também nada trouxemos, A não ser páginas brancas Que aos poucos, vão manchando De chorar e de amar...
Passar de leve, passar, Sem fazer muito barulho, Como fazem os marulhos Do imenso, denso mar, Que se ergue sobre ondas Que se acabam nas areias Voltando a se desmanchar...







O Peso dos Anos

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Eu hoje acordei  Com um peso estranho  Por cima dos ombros.
Olhei-me no espelho, E em cada marca, Havia cem anos.
Os olhos não viam O que sempre viram, Mas viam paisagens Que eu nunca toquei Na estrada das rugas Por onde eu segui Depois que acordei.
Eu hoje pensei, Lembrei-me de coisas Que eu tenho perdido:
Presenças ausentes, Das quais abri mão Tentando um sentido.
A boca não disse, Não houve palavras Minha voz já cansada De não ser ouvida. -Ah, coisas da vida! Depus o meu fardo E dele me aparto...








ControVERSOS

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Dizia, olhava, - Claro que queria! O olhar queimava, A boca vermelha, Cereja molhada Guardando seu mel Na língua que ardia.
Movia a cintura, Dançava, girava, Cabelos ao vento, Suor gotejava, Amargo sorriso, O riso amargava.
Fingia não ver, Enxergar não queria! A noite aguardava À borda do dia Um sonho, em promessa Ao fim da tal festa... E então, provocava, Vulcão explodia!
Deitou-se, lasciva, Na cama mal-feita, Lânguida, desfeita, A pele brilhando, A boca pedindo, O corpo aguardando As mãos convidando...
E então, disse: "NÃO!" Quebrou a magia, Zombou do desejo De quem lhe queria, Despiu-se do fogo Que lhe encendiava, E logo, rogava A quem lhe forçava:
"Me deixa sair, Me deixa ir embora!" Mas era um incêndio O que ela causara, E a água foi pouca, Nem mesmo apagou O fogo da cara, Quiçá, o da fome Que não saciara!
E a boca vermelha Tornou-se borrada, Os olhos que ardiam Morreram de dor... O corpo brilhante Fechou-se ao amor, Mais nada sobrou: -Alquebrada alma Sem paz…

A REALIDADE

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A realidade, sem a fantasia, É como uma lenda sem alegoria, É um sonho torto numa noite insone É sangue parado nas veias de um morto.
A realidade, pura e simplesmente, É solo arenoso, estéril semente, Viver doloroso, aquarela sem cor Dor intermitente, vida sem sabor.
A realidade, sem a poesia, É comida fria, sem tempero algum. É um barco à deriva numa tempestade, perfume sem cheiro, adeus sem saudade.
A realidade, sem imaginação, É um vale sem eco, amor sem paixão, Beco escuro e triste, estrada sem destino, Presente sem futuro, bandeira sem hino.





Que Seja Assim

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Que seja assim, tão bonito Quanto a suavidade da folha Que cai da árvore com o beijo do vento E antes de pousar no chão definitivo,  Vive o êxtase, doce momento, Do seu  primeiro e último voo.
Que haja pássaros cantando lá fora, E o pedaço de céu visto da janela Seja azul-rosado, e azul cobalto Quase assim, nacarado, Bordado de nuvens esgarçadas e finas Cortinas rendadas guardando o palco Para o meu último adeus.
Que seja assim, a alma a voar livre Pelos sisudos corredores rescendendo a éter, Por onde caminham, cabisbaixas, Pessoas amarguradas Pela sua fé embotada, Por tudo o que não percebem.
Que eu esteja calma, branda, leve, Sem nada que me detenha Ou me faça olhar para trás... Que seja assim, finalmente, Um desprender-se de repente E um seguir livremente Pelo caminho que se apresente Por trás dos meus olhos fechados.