terça-feira, 29 de março de 2016

EVENTOS ALEATÓRIOS








Se você for pensar na vida de forma prática, clara e objetiva, sentirá como se a vida fosse feita de uma série de coincidências, eventos aleatórios que não tem sentido e não estão interligados: as coisas acontecem porque tem que acontecer, e não há nada que possamos fazer a respeito desta (des)ordem.

Mas se você pensar melhor – e nem basta ir longe demais: é só pensar na sua própria vida – sentirá que muitas vezes, alguma coisa a mais aconteceu: de repente, você sentiu uma inspiração, algo totalmente fora do comum e sem explicação, a fim de agir desta ou daquela forma. E este pensar o conduziu em direções inesperadas, onde as portas pareceram abrir-se magicamente, levando-o a outros caminhos interessantes. Pode ser que uma simples decisão baseada naquilo que alguns chamam de intuição o tenha livrado de algum perigo. Você decidiu não seguir por aquela rua, e mais tarde, ficou sabendo de um grave acidente que aconteceu por ali, exatamente na hora em que você iria passar por ela.

Há coisas que não se explicam. A gente simplesmente as aceita e dá graças por elas existirem. Se chamamos esses eventos de fé, de mágica da vida, coincidência ou simplesmente de sorte, não podemos negar que eles acontecem. E quanto mais os escutamos, quanto mais confiamos nessa força desconhecida que permeia a todos os seres viventes, essa fita que enlaça, prende, segura, e une cada evento da vida, mais frequentemente ela – a intuição - passa a acontecer, pelo simples fato de estarmos prestando atenção.

Preste atenção.





sexta-feira, 25 de março de 2016

O CASTELO DOS MEUS SONHOS






Eu sonhei com um imenso castelo. As imagens deste sonho ficaram muito nitidamente presas à minha memória quando acordei. Era um lugar imenso, lindo, e também terrível. Minha mãe, meu pai e minhas irmãs estavam comigo. Quando acordei, não consegui mais dormir, com medo de perder as imagens deste sonho, e então levantei-me e anotei-as aqui. O sonho deu-se exatamente como se segue:




Eu sonhei que minha mãe
Havia herdado um castelo
Que era cheio de magia,
Tão imenso quanto belo
E era eu a responsável
Por guia-la, em um só dia,
Levando-a a conhecer
A sua herança tardia.

À direita da entrada
Escondido atrás de um muro
Encontramos um casebre
Velho, feio e obscuro...
As paredes amarelas
Sujas, tristes e mofadas,
E do teto a umidade
Sobre tudo gotejava.

E eu disse a minha mãe:
“Nós podemos reformá-lo,
Quem sabe, redecorar,
Mudar a cor, e trocar
Toda essa velha mobília
Por alguma mais bonita!”

Minha mãe, impaciente,
Respondeu-me, erguendo a voz:
“Nós herdamos um castelo,
Tão imenso e luxuoso,
E tu ficas a cismar
Sobre um casebre amarelo?
Feche a porta, passe a trave,
E vamos embora já,
Pois o dia já avança
E a tarde há de chegar!”

E a minha mãe me levou
Pela mão, até um jardim
Seguiam-nos minhas irmãs
Num silêncio extasiado.
Foi quando vi, no gramado,
O meu pai, feliz, sentado
A mão no rosto das flores,
A cuidar do seu legado.

Havia terra entre as unhas,
E por trás daquela cena
Uma linda casa branca
Rodeada de açucenas.
As pessoas passeavam
Entre as flores do jardim
E ao meu pai, nem notavam,
Mas ele estava feliz:
Sabia-se admirado
Através da sua obra
Naquele lugar encantado.
Seguimos em frente, deixando
No ar, um beijo enviado
E pisamos devagar
A fim de não perturbar
Aquele lindo cenário.

Chegamos a um salão
Tão enorme, que os passos
Ecoavam, e ficavam
Presos entre as altas paredes
E o teto, que o guardava.
As cadeiras e as mesas
Pareciam pequeninas
Naquele imenso salão
De grandes janelas fechadas;
E em volta, havia portas
De imponentes batentes,
E eu fui seguindo à frente
Minha mãe e as irmãs
A seguirem logo atrás.

Nós chegamos a um quarto
Onde havia quatro camas
Já desfeitas; os lençóis
Eram todos de cetim
De um bege nacarado,
E as cobertas, de brocados,
Os travesseiros, bordados
Por delicados motivos.
As paredes, se perdiam
Em um alto pé-direito,
Nas janelas, as sacadas
Ornadas de boungainvilles
E de rosas perfumadas.
Perguntei à minha mãe
Onde estavam as crianças
Que as camas tinham desfeito.

E ela me respondeu:
“As crianças já cresceram
E deixaram este quarto,
Elas nunca mais voltaram,
Mas deixaram nas paredes
Os seus risos, que ecoam;
Levaram sonhos consigo
Mas outros, elas deixaram
Para sempre abandonados.”

Minha mãe seguiu em frente,
E nós quatro a seguíamos;
Era ela quem guiava,
Embora tivesse eu
Sido, entre nós, a escolhida
Para mostrar, em só um dia,
Os salões de tal castelo
Que a mãe havia herdado.

Sendo assim, adiantei-me
E abri uma das portas
Que mostrava um corredor
Longo, escuro, iluminado
Fracamente por archotes
Presos às negras paredes;
Quis voltar, mas minha mãe
A puxar-me pela mão
Obrigou-me a adentrar
O cômodo por mim escolhido.
Seguimos, amedrontadas,
De mãos dadas, encolhidas,
Minha mãe a nos guiar
Pelo insólito caminho.

Achei que não sairíamos
Jamais, de tal armadilha,
Mas minha mãe me falou:
“Coragem, querida filha!
Estes corredores negros
Existem, não é à toa,
Ao deixá-lo, sentiremos
O quanto a vida ainda é boa.”

Percebi, ao caminhar,
Que quanto mais avançava
Por dentro da escuridão,
Mais forte eu me tornava.
Até que ao final do túnel,
Os meus olhos se feriram
Com uma luz que brilhava.

Olhei por cima do ombro,
E uma orquestra tocava
Por sobre uma plataforma
De luz, que muito brilhava.
Minha mãe aconselhou:
“Fechem bem os olhos, filhas,
Escutem com atenção
A música que extasia
E nos leva pela mão.”
E assim, nós despertamos
Sob um céu azul de verão
Onde o tempo mal passava,
E as linhas marcadas nas palmas
Não queriam dizer nada.

Quando abrimos nossos olhos
Corações extasiados
De alegria e esperança,
Não havia mais orquestra
E o clamor daquela festa
Era só uma lembrança.
Estávamos em uma sala
Com paredes de espelhos
E nela, o tempo passara
Sem piedade ou desvelo...

A tarde já avançava
Projetando suas sombras
Nas paredes do castelo.
Minha mãe ajoelhou-se
Perto de umas florezinhas
E passou a elogiar
A beleza que elas tinham.
Impaciente, gritei:
“Vamos, mãe, que a tarde cai,
E há tanta coisa a ser vista,
Tantos quartos, tantas salas,
Temos que continuar!”

Minha mãe ergueu os olhos,
E senti-me envergonhada
Com o olhar que ela tinha,
E que em silêncio, pousou
Por sobre a minha arrogância.
Deu-me a mão, e então chegamos
A uma sala de tesouros
Onde havia coisas lindas,
Muita prata, muito ouro,
Antiguidades, pinturas,
Esculturas, joias, livros,
Mobília cara e antiga,
Encrustados na madeira
Brasões de antigas famílias.

Os meus olhos se encheram
(E também meu coração)
Das belezas que ali estavam.
Por nós, o tempo passava,
Em ruidosa ventania;
Perguntei a minha mãe
Se ela se importaria
Caso eu voltasse mais tarde
Para escolher, entre as coisas,
As que mais me serviriam.

E ela riu, em gargalhada,
(Parecia tão cansada...):
“Minha filha, não notaste
Que a viagem que fazemos
Por este castelo herdado
Por mim, tão tardiamente,
Não tem volta, é só em frente?
Nada poderás levar,
Consigo, deste castelo...
A não ser aquela música,
A não ser a suavidade
Daquelas camas desfeitas,
E o perfume das flores
Que o seu pai cultivou,
Ou o prazer da viagem
Que na memória, ficou...”

E assim, ela guiou-nos
Para fora do castelo,
E sobre uma ponte, parou
Para olhar o entardecer;
Gritei: “Mãe, vamos voltar,
Ainda há tanto a se ver!
Existe um salão de festas,
E um outro, que é feito
Todo em mármore importado!
Existe um pano bordado
Que esconde tal banquete
Tão bom, e também tão farto,
Que matará para sempre
Toda a fome desse mundo!
Existe um rio bonito,
Azul, e muito profundo,
Onde o vento agita as águas
E é tão bonito de ver,
As sereias cantam lindas
Cantigas de adormecer...”

E minha mãe respondeu:
“Nós passamos por algumas
Destas salas, que tu falas,
Mas teus olhos distraídos
Nem sequer as percebeu...
E aquilo que ficou
Para trás, já feneceu
No mar profundo e salgado
Da tua desilusão.
Não há volta, e as pegadas
Apagaram-se do chão.”
Sobre a ponte, eu contemplei
À direita, e o mar beijava
Uma praia longa e fria,
E os barcos sob a ponte
Abandonados, diziam
Da sua melancolia...
E do lado esquerdo, havia
Uma cidade cercada
Por uma densa floresta
E um céu avermelhado
Por onde o sol deslizava
E devagar, se escondia...

E eu quis fotografar
A beleza que eu via,
Mas minha mãe não deixou,
E disse: “A fotografia
Mais bonita, é a que a alma
Guarda e revela, pois
Ela não desbotará,
E tu não perderás tempo
Tentando reter o tempo
Que jamais há de ficar.”

Chegamos a um deserto,
Onde a minha bisavó
Sentada sobre uma pedra,
Coberta de sal e pó
Olhava o sol que morria.
Tinha as mãos entrelaçadas
Em uma prece infinita,
Tinha os olhos marejados
E cabeça coberta
Por um véu de agonia.

Pensei em falar com ela,
Acenar, anunciando
A ela, a nossa presença.
Mas minha mãe me calou,
Nos contando o que ela via:
E ela disse: “Minha avó
Morreu de melancolia,
Passou a vida pensando
Naquilo que ela não tinha.
Veio a tarde, veio a noite,
E a porta do castelo
Que ela herdara, se fechou,
E assim ela ficou
Sempre tão aborrecida
Sobre aquilo que perdeu,
Que nem sequer se deu conta
Que há muito, já morreu.”

E finalmente, o sol posto
Cedeu lugar às estrelas...
Minha mãe se despediu,
E tão tristes, nós ficamos
Sem saber, se algum dia,
Voltaríamos a vê-la.

Ao fecharmos nossos olhos
Antes do último adeus,
Nós revemos o jardim:
Nossa mãe e nosso pai
Caminhavam por ali
Entre o perfume das flores
Que eles tinham plantado...
Em volta deles, corriam
Uma menininha fada
Um menininho encantado.











 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Sujeiras Pelos Cantos








Às vezes, a casa precisa de uma limpeza mais cuidadosa, daquelas onde é preciso puxar móveis do lugar, retirar tapetes, lavar cortinas e cobertas, jogar água nas cozinhas e banheiros. Se isto não for feito pelo menos duas vezes ao ano, aos poucos as sujeirinhas vão se acumulando, dando um aspecto tristonho à casa. E não há sujeirinha que mereça ser poupada.

Assim está acontecendo no nosso país hoje em dia: uma faxina geral, que eu espero, deixará a nossa casa-pátria renovada. Que não fiquem tapetes nos lugares, e que toda a sujeira debaixo deles seja limpa adequadamente - não importa quem a tenha colocado lá! Que as cortinas sejam abertas para que o sol, a claridade e o ar limpo e fresco possam entrar, acabando com o mofo acumulado, a escuridão e a poeira que deixa as superfícies embaçadas.  Espero que, após toda essa faina, possamos sentir que as coisas estão mais fluidas,  a atmosfera, mais limpa e a casa, mais leve e confortável. 





QUEM É, E O QUE É UM COXINHA?






Pesquisando um pouco mais sobre este termo tão em voga nos dias de hoje, descobri algumas coisas interessantes. Nas redes sociais, percebi que ser chamado de “coxinha” por alguém não é nenhum elogio. Sem conseguir entender, exatamente, o que significa ser coxinha, achei que uma pesquisa me ajudaria a entender onde eu me encaixo (ou onde me encaixam).

Descobri que ninguém sabe, ao certo, como este termo nasceu, mas alguns desconfiam que foi das pessoas que tomam sol usando bermudas e que por isso  tem as coxas brancas. Mas há quem diga que esta palavra vem de uma gíria antiga, usada para definir um policial. Quanto a mim, costumava usar este termo para definir os rapazes que vão à academia malhar e se esquecem de exercitar também os membros inferiores, que permanecem finos e desproporcionais ao resto do corpo, tornando estes rapazes fisicamente semelhantes às coxinhas de galinha. Mas o que estas definições tem a ver com os “coxinhas” descritos por membros de certo partido político, eu realmente ainda não entendi, já que o termo passou a ser por eles usado a fim de distinguir pessoas extremamente conservadoras.

Durante as minhas pesquisas, descobri outras definições aleatórias para o termo “coxinha”, que passo a listar abaixo:

- O coxinha se veste bem, gosta de andar bem arrumado, bem penteado e limpo. Os homens se preocupam muito com a aparência, assim como as mulheres, que gostam de ter as unhas sempre arrumadas e pintadas, e também gostam de usar maquiagem. Bem, então eu sou uma coxinha. Assim como são coxinhas os políticos pertencentes ao tal partido, pois voam em jatinhos particulares, tem carrões com motorista, vestem-se bem, viajam para o exterior nas férias, usam relógios e jóias caras, dão extremo valor ao dinheiro (tanto que nunca acham que tem o suficiente) e submetem-se a cirurgias plásticas. São bem mais coxinhas do que eu, pensando bem.

-O coxinha é alguém politicamente conservador, ou seja, quem hoje é contra o governo atual, é considerado conservador (mesmo que estejam se manifestando e pedindo mudanças, o que é , no mínimo, contraditório). Neste caso, sou coxinha, embora não seja conservadora.

- Segundo reportagem na Folha de São Paulo, o gerente administrativo Jack Marçal publicou uma foto com pessoas que usavam verde e amarelo em uma passeata na Paulista sob a legenda: “Sou Coxinha, e daí?” Os coxinhas são pessoas que não aceitam mais a roubalheira dos políticos – qualquer político, de qualquer partido – que impera no Brasil. Pertencem à classe média trabalhadora e produtiva, que está cansada de ver seu dinheiro suado sendo usado para sustentar os luxos e desmandos de políticos corruptos, enquanto faltam serviços básicos de qualidade, como saúde e educação. Sendo assim, eu sou coxinha.

-O Dicionário informal (www.dicionarioinformal.com.br) define o coxinha como sendo:
“1. Coxinha
Significado de Coxinha Por assisbr (DF) em 28-06-2014    
Co.xi.nha
adj m+f
1 Propenso ao trabalho e ao estudo.
2 Ativo, laborioso, diligente, dedicado, competente.
subst m+f
1 Aquele que trabalha e que obtém ganhos através de seu esforço.
2 Aquele que dá valor ao mérito.
3 Cidadão brasileiro que não está envolvido em atos de corrupção e que não recebe benefícios do governo de forma ilícita ou sem real necessidade. (negrito meu)
4 Aquele que não se faz de vítima da sociedade.
5 Pessoa que não inveja o que foi obtido através do esforço e do trabalho honesto.”
E exemplifica: “Antônio é considerado um coxinha porque se recusa a usar a cota do governo destinada a negros em concursos públicos, preferindo conquistar sua vaga por seus próprios esforços, mérito e competência.” Mais uma vez, eu sou coxinha.

Exemplos de pessoas consideradas coxinhas hoje em dia: o casal Angélica e Luciano Huck; o apresentador do programa 50 por 1, Álvaro Garnero; Marcelo Thas, Beto Richa, Miriam Leitão, Roberto Justos e a maioria dos atores e atrizes de novelas.


Mas certamente, aqueles que usam o termo “coxinha” pejorativamente, acham que não se encaixam nele. Para estas pessoas, “coxinha” é, simplesmente, qualquer um que seja contra o seu partido político. Quem é a favor, será considerado politicamente engajado, inteligente e preocupado com as causas sociais – mesmo que se encaixe em todas as definições acima. Fico pensando se estas pessoas se olham no espelho antes de sair de casa; se tomam banho, espalham um creminho pelo corpo, usam um batonzinho para dar cor, ou um perfume importado; penso se elas sentam-se às suas mesas e tomam um café da manhã que consiste de pão, leite, café, queijo e geleia; depois, entram em seus carros, ligam o ar condicionado e vão para o trabalho a fim de defender um salário. Fico me perguntando: será que elas vão ao cinema, ao teatro e ao museu? Viajam nas férias, tomam aviões, frequentam barzinhos? Será que gostam de comprar uma roupinha nova de vez em quando, ou de ir á academia? Bem, se gostarem de ir à academia, espero que se lembrem de malhar também os membros inferiores. 



quarta-feira, 23 de março de 2016

Requiem IV









Um poema da autora portuguesa Joma Sipe


Entre sombras...
unindo a voz da corrente do rio em ais supremos,
ondas quebradas em cada gesto de um remo,
se veem montanhas inertes e Deus se faz só Um.
Se abrem as portas de cetim e a noite vem desfolhando o céu em pequenas amostras de almas silenciosas e impenetráveis.





The Mad Raven



Under the Mad Hatter's hat
There used to be a mad raven
Cawing secrets in his ears.

The funny thing I know, was that
Over the mad raven's head
A mad God was shedding tears.

But this, no one could ever hear.






segunda-feira, 21 de março de 2016

PAZ DAS ÁRVORES





Em Verde e Amarelo







Pintaram as caras,
As máscaras,
As escaras.
Palavras de ordem,
Os passos passando
Nas calçadas.

Não sabem se o sim é sim,
Se o não é não,
Ou talvez...
As fotos postadas,
Camisas suadas,
Crianças, cachorros,
E esperanças
Levadas às ruas.

Na cena, o sonho,
Desejo expresssado
De uma expressiva mudança
Que começa 
Sempre no outro,
Nunca em si ...





segunda-feira, 14 de março de 2016

DEBOCHE







Eu hoje me enfeito das flores
Que os outros jogam fora,
Construo buquês anêmicos
Com suas polêmicas
E com elas, 
Decoro a minha casa.

-Não levo a vida a sério!
Faço pouco de tudo aquilo
A que chamam de mistério,
Ergo o queixo com desdém
Enquanto o povo se debate
Entre os debates.

Eu hoje me divirto
Com o que mais irrita,
E fabrico meu açúcar
Do que lhes sobra de cica.




Casas que Viraram Lama








Um minuto de silêncio às casas que viraram lama. 

Desceram pelas ribanceiras, levando pessoas, sonhos e planos, e deixando pesadelos e saudades.

A chuva, tão tranquila e tão bonita quando estamos em segurança, é o som da ameaça para quem mora nestas casas no alto das colinas. 

Que um dia as montanhas só tenham árvores e plantas, e sejam refúgio dos passarinhos e animais silvestres, e não última solução para os homens que não tem onde morar e constroém lá as suas casas por falta de opção. 

Que um dia sonho deixe de ser sinônimo de utopia, pois todo mundo tem como maior sonho, uma casa segura para viver e estar protegido, uma casa de onde se ouça a chuva, e ao invés de sair correndo em desespero, se possa fechar os olhos e dormir em paz, curtindo o tamborilar das gotas no telhado.





RIVOTHRILL






One drop,
Two drops,
Three drops...

And sadness becomes something else!

One tablet,
Two tablets,
Three tablets...

And terror becomes just a thrill!

That's Rivothrill!






sábado, 12 de março de 2016

Mundo Sem magia







Matamos toda a magia
Que ainda havia no mundo!
Cortamos as asas das fadas,
Banimos todos os anjos,
Enterramos gnomos e faunos...
Já não nos resta mais nada!

A meia-noite é calada,
Não existem mais portais,
Não há mais círculos mágicos
Que possam nos proteger.

O azul aveludado
Do coração das florestas,
Antes, tão misterioso,
Não conta com vagalumes
Ou mágicas criaturas.

As crianças riem das lendas
Que nossos avós nos contavam,
Não há monstros nos armários
Ou fantasmas sob as tendas,
Ninguém mais as observa
Na escuridão do quarto.

Das copas das velhas árvores,
Só as corujas nos olham,
Não há mais céu nem inferno,
Não há demônios a temer
Ou santos que nos atendam.

As princesas não mais beijam
As faces feias dos sapos,
Preferem os príncipes prontos,
Bem vestidos e engomados,
Belos e desencantados.

Não há mistérios no ar,
Os corações são tão rasos!
E a magia do viver
Transformou-se em mero acaso.






quinta-feira, 10 de março de 2016

GAIVOTAS








Ugo Miller


Nasceu em Petrópolis e pertenceu a Academia Brasileira de Poesia, com sede em Petrópolis. 



Gaivotas estonteadas
Voam por entre poeiras
Prateadas da lua
Que vem caindo devagar
Sobre a superfície ondulada do mar
Num zigue-zague de reflexo e luz.

Não é preciso mais nada.
Descomprometida a alma,
Mente vazia,
Sem pensar, nem sentir
Na só contemplação
Que se eleva o espírito,

Assim, nesse leve existir.




quarta-feira, 9 de março de 2016

BONECA




imagem encontrada no Google


Boneca com a qual alguém brincou,
E tantos disputaram,
Já foi esquecida na calçada,
Já ficou na chuva, 
Já passou a noite no frio, lá fora,
Queimou as mãos em outras luvas...

Boneca pequena, que todos amavam,
E todos queriam, e que protegiam,
Cresceu, e aos poucos, perdeu seu reinado
Deixada em um canto,
Perdeu cada encanto,
Tornou-se sucata!

Boneca tão triste, tão abandonada,
Cresceu tão sozinha, tão pobre, tão órfã,
Dos pais que viviam, do amor que morria,
Dos sonhos partidos, jogados na estrada!

Boneca, eu espero que estejas guardada
No alto do armário, Com vista pra casa
Que hás de habitar - e serás amada!

Tua dor, resgatada, teus olhos fechados
Tua alma encantada, Teu rosto molhado
Secando na brisa que vai te salvar,
-Boneca cansada de tanto esperar!



Passos de Março










O chão suntuoso
Reflete os passos macios
De março.
Chuva no telhado,
Gotas brancas e pesadas,
"São as águas de março..."

Vem uma saudade,
Uma branca vontade
De alçar voos, tocar os pássaros!
Os olhos cansados
Derramados sobre as ramagens
Molhadas de brilhos...

As gotas caem nos trilhos,
Perdem-se entre os espaços,
Molham destinos,
Marcam as rodas dos trens
Que passam como raios
E nos levam adiante, até maio.

E a chuva insistente
Parece que não vai ter fim.
Pobre de mim,
A gola ainda presa em fevereiro,
Sonhando setembros
Entre lívidos raios!






terça-feira, 8 de março de 2016

Nasci Mulher... e Daí? (HUMOR)







Texto escrito pensando em uma pergunta que o Recantista Sam Moreno me fez por e-mail, após eu responder a um e-mail seu me homenageando pelo Dia da Mulher



Em um 29 de setembro qualquer, há mais de cinquenta anos, eu nasci pelas mãos da parteira Dona Maria Carioca e dei meu primeiro grito neste mundo.  Minha mãe sofreu as dores do meu parto em casa, assim como ela já tinha sofrido antes as dores dos partos dos meus quatro irmãos mais velhos - um menino e três meninas. Foi assim que minha vida por aqui começou. Nasci mulher.

Desde cedo, me ensinaram que eu era menina; cresci e aprendi a gostar de brincar de boneca e de casinha. Na escola, minha mãe me aconselhava a brincar com outras meninas e a ficar bem longe dos meninos, e conforme eu crescia, mais ela enfatizava a importância deste gesto, pois meninos só queriam saber "daquilo."

Mas logo aprendi a definir minhas próprias preferências, e meu maior amigo durante a sexta e a sétima séries do primeiro grau foi um menino, e ele nunca quis saber "daquilo" comigo. Mais tarde, também fiz amizade com dois outros meninos - gays - e descobri que os homens, não importa qual a sua inclinação sexual, são bem mais simples, sinceros e acessíveis do que as mulheres. Não perdem tempo com fofoquinhas, disputas para saber quem tem a melhor roupa, ou o melhor cabelo, ou as botas mais caras. Se encontram no campo de futebol e passam horas divertidas juntos, brincando e rindo (se desentendendo muitas vezes, mas após a partida, as rixas acabam), ficam elameados sem reclamar por causa das roupas, e no vestiário, não discutem qual barriga estava mais flácida, quem tinha mais celulites, estava mais gordo ou tinha mais rugas. 

Anos depois, quando os homens se encontram nos caminhos da vida (posso observar isto porque é assim que acontece com meu marido e seus amigos de escola ou vizinhos), ficam horas conversando, lembrando os bons e velhos tempos, sem olhares oblíquos para o que o outro está vestindo. Parece que se viram pela última vez ainda ontem, e despedem-se com um abraço de urso e muitos tapinhas nas costas, após trocarem telefones.

Já quando duas mulheres se reencontram após muitos anos, o seguinte pode acontecer: elas medem uma à outra de cima em baixo, dão um sorriso forçado, beijinhos nas bochechas e passam a falar sobre onde estão morando, o que estão fazendo, tentando descobrir qual delas tem a vida melhor e é mais feliz. Isto, quando elas se cumprimentam! E depois, quando chegam em casa, comentam sobre o quanto a outra envelheceu / engordou / se deu mal na vida / casou com o homem errado / divorciou-se primeiro, ou  todas as alternativas anteriores (e mais algumas). 

Assim, agradeço profundamente por terem  lembrado de mim, ou pelo menos, lembrado de que eu sou uma mulher, e me enviado mensagens pelo Dia da Mulher. Obrigada! Mas é que eu não vejo nada de especial em ser uma mulher! As mulheres sofrem as dores do parto, precisam se depilar e fazer as unhas, tingir os cabelos quando eles começam a ficar brancos precocemente, manter a forma física durante a maior parte da vida (até que envelhecem e deixam a peteca e a barriga cairem), preocupam-se em se manterem bonitas, jovens e cheirosas sempre, além de serem as principais responsáveis pela educação dos filhos e a manutenção da casa. 

Gente... com toda sinceridade: qual a vantagem disso?!

.
.
.



A propósito:

Eu respondi ao Sam Moreno que, se tivesse nascido homem , eu seria gay. Porque, sendo mulher, eu conheço as mulheres, e não gostaria nada de relacionar-me intimamente ou romanticamente com uma. Ele riu. Mas eu falei sério.





segunda-feira, 7 de março de 2016

The Touch








All of the people
Who had ever touched her life,
Committed either of the two 
Unforgivable crimes:
Either they sinned for actions
Or for omission.

But when she died,
Everyone had a constrained pain
Deep inside
Which they obliviously denied








RESSUREIÇÃO








Quisera poder salvar os deuses da minha infância,
Que hoje descansam
De olhos fechados,
Semblantes cobertos de bruma,
As mãos entrelaçadas sobre o peito.


Quisera poder ouvir novamente seus sorrisos,
Abrir os olhos na escuridão
E saber que eles estão lá,
Velando por mim.

Mas depois que a inocência morre,
Nada mais nos socorre.

Quisera poder escutar suas vozes miúdas
 Em meus ouvidos
Fazendo-me crer que tudo vai ficar bem,
Não importa o que aconteça,
E que após a escuridão,
A manhã mais clara estará a minha espera...

Mas aprendi a ver além das paisagens e olhares.

Quisera poder novamente encontrá-los nos vitrais coloridos
Das igrejas e catedrais, 
No silêncio quente da chama de uma vela,
Passeando entre as palavras das preces sussurradas.

Quisera que houvesse um caminho,
Um jeito de ressuscitar meus deuses moribundos
Que tem fé em mim, e que me esperam.






domingo, 6 de março de 2016

PRÊMIO DARDOS







Fui presenteada com esse selinho "Prêmio Dardos" e sinto-me muito agradecida. Quem me indicou foi Maria Luiza, do blog Casa da Alquimia. O link: http://marialuizasaes.blogspot.com/

Desculpe, Maria Luiza, por estar usando aqui a sua ilustração!

O Prêmio Dardos é um selo virtual criado no ano de 2008 pelo escritor Alberto Zambade do blog Leyendas de “El Pequeño Dardo” El sentido de las Palabras.

Ele selecionou e indicou o selo a quinze blogs que ele considerou merecedores do prêmio, os quais também indicaram outros quinze e assim sucessivamente. 

Este prêmio é concedido a blogueiros para reconhecer "o esforço, criatividade e dedicação 
para manter um blog" e "valores pessoais, culturais, éticos e literários". 
Este prêmio também é conhecido 
como Best Blog Darts Thinkin.





Regras do Prêmio Dardos:
- Indicar blogs que preencham os requisitos acima para receber o prêmio; 
- Exibir a imagem do selo; 
- Mencionar o blog de que recebeu a indicação e colocar o link dele; (vou burlar esta regrinha... quem desejar conhecê-los, basta pesquisar no Google os títulos dos blogs. Indico todos eles, são blogs excelentes!)
- Avisar aos blogs escolhidos. 

Blogs escolhidos por mim, já recebedores do prêmio Dardos e que devem indicar outros blogs:

1- Luiz Alberto Machado - Tataritaritatá
2- Vera Lúcia - Recanto do Sol
3- Bandys - Esconderijo da Bandys.
4- Mario Feijó - Permita-se
5- Cláudio Poeta - Vida Alta
6- Carlos Costa - Jornalismo Carlos Costa
7- Carlos A. Lopes - Gândavos
8- Ricardo Rohen - UFOS Online
9- Toninho - Mineirinho
10- Felisberto Júnior - Be Happy
11- Adilson Shiva - Rimas Truncadas
12-Chica - Coisinhas da Chica, Céus e Palavras, Fuxicando com a Chica, e tantos outros.
13-Rangel Alves da Costa - Ser Tão / Sertão
14- Paulo Bratz - Enfim, é o que Tem Pra Hoje
15- Ivone - Levitar em Brancas Nuvens

Os escolhidos, desejando participar, devem também indicar quinze blogs para receber o prêmio. Podem copiar o selo e colar no blog se desejarem.






quinta-feira, 3 de março de 2016

Absinto







Te deram uma estrela ao nascer,
E era absinto... 
Teus olhos infantis e inocentes,
Sonhavam com o amor simplificado,
Mas que mostrou-se inconsistente.

Numa tarde fria, entre lágrimas,
Tu me disseste: “Eu só queria ser feliz!”
Mas eu não pude dar-te alegria,
Não, não era eu tua fada madrinha!

As flores coloridas e formosas
Com as quais enfeitaram teus caminhos,
Eram todas elas, venenosas
E cheias de espinhos!

A felicidade que tanto desejavas,
Veio em curtos lampejos,
Fracos relâmpagos, entre raios e trovoadas,
E noites negras de puro medo!

E foram noites longas e arrastadas,
Sem sinais de qualquer amanhecer.
Os deuses para os quais rezavas
Eram todos obscenos, e não te salvaram.

-Será possível que alguém já nasça
Com esse signo, esse cálice de dor
Derramado na alma, destinada
A só penar, a só sofrer?

Finalmente, o teu amanhecer,
O ato final dessa peça sem ensaio,
A chuva benfazeja, após o raio;
Sobre tua vida, o selo da sorte,

Parece-me que o anjo cujas asas tocaste
E cujos olhos jamais viste
(Mas que também eram tristes)
Estendeu-te a mão, e te sorriu.

A tua estrela, o absinto,
Há de brilhar, e transformar-se em outra coisa,
Em giz de luz, para que escrevas em tua lousa
Entre flores e perfumes de jasmim,
A tua última palavra – aliviada: “FIM.”



Para Rosane





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