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Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

Passam as Águas

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Sob a ponte passam as águas. Sobre ela, passam as mágoas. Sob e sobre, tudo passa, Passam as águas, passam as mágoas.
Passam as dores e os horrores, Passa o que nunca mais passava. Passam amores e rancores, Passam os barcos e as algas.
Passa o medo de sonhar, E a noite também passa. Passa o medo de acordar, Quando a tristeza  também passa.
Sobre a ponte, sob a ponte, Passam as almas que se foram Na mais longa das viagens; E a saudade, um dia, passa.
Passa o passado em tons  sépia, Busca um futuro que não passa... Segura na mão o presente, Pois que ele também passa.
Sob a ponte, sob os olhos, Sob os dedos, só não passa A essência do que fomos Fica, da vida, a graça.




ASSINATURA

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Tenho, de cada gesto e palavra, A escritura, E dou gargalhadas Daquilo que normalmente constrange.
Diante de tudo, um único rosto: Seja alegria, dor, ironia, desgosto. Estar inteira, e por completo No meu céu ou inferno predileto.
Não , não há qualquer necessidade, De desvelar o que está claro, De encobrir o que é gritante Se até meu ódio é diletante.
Piso com patas de elefante, E espio com olhos de lince Tudo aquilo que me cerca, Tudo aquilo que me atinge.
Fascinam-me deveras Enigmas e esfinges, Olhares de fera Palavras de estilingue.
E sob tudo o que permeio, Do começo ao fim, e no meio, Da lucidez à loucura, Deixo, inconteste, hoje, e sempre, A minha velha assinatura.


Ana Bailune

Eu Sou Uma Linha

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Eu sou uma linha embaralhada em outras, Na página inicial de um site qualquer Onde pululam palavras doces e rôtas.
Uma linha que transpassa muitos corações, Costura, quem sabe, os rasgos nos lábios, E arremata muitas outras linhas soltas.
Eu sou um monte de linha embaralhada, Pedaço de história na beira da estrada, Quem passa, mal vê, mal sabe, mal olha.
Eu sou uma linha, que de remendada, É cheia de nós - e está amarrada Aos passos que passam; agarro-me às solas.
E cada leitura, nem bem me consola, -Olhar distraído, palavra de esmola, Que alguém logo esquece, assim que vai embora.



DIREITOS SOBRE O CORPO

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Eu acredito ser um espírito que, de alguma maneira, está no comando de um corpo – como um motorista está no comando de um carro. Eu não sou meu corpo, mas nós interagimos e precisamos um do outro para que a vida orgânica seja mantida e a vida anímica possa ser expressada neste plano. Não posso provar nada disso em que eu acredito, e até hoje, não encontrei ninguém que pudesse prova-lo para mim, mas é nisto que eu acredito porque é o que faz sentido para mim. Eu acho que quando eu morrer, minha alma vai deixar este corpo e ir para algum outro lugar – conscientemente ou não. E o meu corpo será destruído. Apodrecerá. Ou seja: deixará de ter importância.
Mesmo assim, o que eu faço ao meu corpo enquanto viva neste plano, tem um efeito sobre a minha alma, pois eles estão interligados. Eu posso optar por cobri-lo de tatuagens. Posso castigá-lo com chicotes até sangrar, achando que assim estarei me redimindo de meus pecados. Posso sair por aí e dormir com qualquer pessoa que eu encontrar, le…

TE OLHO

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Te Olho







Te olho, assim, só de soslaio, De um microscópio - vejo o ranço, O triste habitat de um micróbio, Os pelos verdes de um pão mofoso, Vejo uma ameba, a nadar na profusão Nas águas de um mar gelatinoso.
Te olho por curiosidade, (O bizarro sempre me distrai) Como quem vai a um show de horrores, De humor indiferente e jocoso, Num circo decadente , em tarde de domingo, Só para fugir de um dia chuvoso.
Te olho, pois bateste à minha porta, Ornada em paetês, cetins e plumas, Macramés, brilhos, rapapés, Desarrumadamente torta, Na face, um par de olhos mortos E os dedos nodosos, apontando As unhas sujas para o meu rosto.
Te olho, pois és um bom exemplo De tudo o que penso ser medíocre, E tua insignificância me fascina. Não sei se o nosso desafeto É destino, carma, doença ou sina, Mas te vejo como uma latrina Na qual despejo meus dejetos.



"Não me peça que eu lhe façaUma canção como se deveCorreta, branca, suaveMuito limpa, muito leveSons, palavras, são navalhasE eu não posso cantar co…

ESPAÇO

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Abrir os braços ao vento, Tentar reter o espaço Entre as fibras dos cabelos...
A pausa ficou no meio Da viagem, do abraço, Da tessitura dos medos.
E tudo era tão imenso, Os voos, o azul profundo Misturados no horizonte!
Muitas águas, muitas fontes, Mas a porção permitida Nas mãos em concha, contida.


Poema inspirado na figura abaixo - imagem retirada do Google





OS SERES DE LUZ

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Há muito tempo escutei falar dos seres de luz pela primeira vez. Eram pessoas místicas, aparentemente divididos entre este mundo e o outro, engajados nos movimentos da Nova Era e servindo de canalizadores para mensageiros espirituais que aconselhavam e iluminavam o mundo e suas trevas. Eram inofensivos. Reuniam-se em grupos e dançavam aos seus deuses e deusas, mantendo no rosto o ar piedoso e compreensivo de quem vive a dizer, “Eu sei de coisas que você não sabe,” e está disposto a esclarecer e elevar os demais.
Aos poucos, os seres de luz foram passando por algumas transformações, e seus dons espirituais cheios de bondade e abnegação passaram a fundar seitas que sequestravam e escravizavam adolescentes. Todo mundo já ouviu histórias sobre suicídio coletivo, casos de estupro e outros absurdos que aconteciam nestas comunidades. Devido a tais fatos, os seres de luz perderam força em meados dos anos 80. 
Até o advento da internet, que os trouxe de volta, espalhados em blogs e sites, pre…

AMARGA

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Era a cena de um filme na TV – A Praia do Futuro, com o nosso Wagner Moura. Na cena em questão, um rapaz bem jovem – que no filme interpreta o irmão mais novo do personagem de Wagner Moura – pega uma motocicleta sem autorização do proprietário e sai pelas ruas da Alemanha. Vai parar em uma boate, onde , na cena seguinte, ele está dançando com uma estranha a quem ele beija na boca, enquanto bebe e fuma (e o local sugere o consumo de outras coisitas mais...). A cena me deixou triste, com um sentimento de vazio. Comentei: “Que coisa vazia!”

Pensei nas centenas de pessoas que se “divertem” daquela forma hoje em dia: dançando, em transe, ao som de música extremamente alta e repetitiva, as batidas compassadas funcionando como as batidas de um martelo sobre uma bigorna, os organismos regados a energéticos com bebidas alcoólicas e drogas. A música é o que menos importa. Ninguém está ali para ouvir música, mas para exorcizar seus demônios (ou para invocá-los). Impossível conversar e conhecer …

B B B

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Muitos criticam não apenas o Big Brother Brasil e a TV Globo, mas também a todos que assistem o programa ou à emissora. Hoje em dia, assistir ao BBB é sinônimo de burrice – ainda assim, é incrível que os críticos mais ferrenhos saibam de tudo o que acontece no programa, inclusive os nomes dos participantes.
Acredito que todo ano, durante três meses, as orelhas de Pedro Bial fiquem vermelhas e ardidas, devido ao grande número de críticas e ofensas que ele recebe. Mas só se estabelece quem tem competência para lidar com esse tipo de coisa, e eu não tenho dúvida alguma quanto à competência e a inteligência deste renomado jornalista e apresentador.
Eu não tenho o menor problema em dizer que assisto ao BBB, e declaro que não me tornei ignorante ou inteligente por causa disso. Também não me envergonho, pois o que eu assisto ou deixo de assistir na TV, ou o que eu faço em minhas horas vagas só diz respeito a mim.
Acredito que um simples programa de TV, cujo formato é interessante, mas preci…

DIMENSÃO

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E de repente, Senti-me pequena, Mais curta que a palavra E menor que a pena.
As margens caíram sobre mim Ao tentar salvar-me, As terras dissolveram-se sob meus dedos, -Viraram arames farpados Todos os meus enredos!
Senti-me pequena, E me afogava, enquanto olhava Passando no céu, As nuvens de açucena...