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Mostrando postagens de Julho, 2015

ONDE A SAUDADE MORA...

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A saudade Mora nos retratos, Debaixo das camas, Dentro dos armários, No fundo espelhado dos pratos.
Tem pés que pisam duro, Fazendo barulho, A saudade.
Não perdoa a noite, E é quando ela vem Ainda mais forte, Invadindo os sonhos...
E pela madrugada, Antes que alguém dê conta, Desce ruidosamente Se senta na poltrona, Aguarda-nos na sala.



SE EU FOSSE...

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Olhando para trás, Buscando a vida na memória, Vejo os restos que ficaram nos trilhos Depois que o trem passou, E penso:
- Ah, se eu fosse me importar!
Espadas e dentes, Navalhas e pentes, Os caules sem flores, As contas caídas Dos colares arrebentados Da vida!
Só ossos e restos, Que já nem mais cheiram, Que já nem mais falam, Bocas ressequidas, Dedos desmanchados, Peles carcomidas, Almas que voaram, Outras que ficaram E que se perderam Nas tramas furadas Dessa estranha vida...



A Saudade que eu Sentia

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A saudade que eu sentia   Passou,     Como um trem que vai pra longe         Levando dentro dele            A dor que me apertava.
Eu vi você,    À janela desse trem,       E me despedi                   Sem medos ou sustos,                           Sem apegos ou suspiros                                     Da mão que me acenava...




Maçã

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Da carne branca, o sumo doce, No coração, suas sementes Que são cuspidas entre os dentes.
E o futuro cai no chão De forma simples, displicente...



GEENA

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Tudo em vão: O orgulho, a tempestade, O pescoço esticado, A voz de trovão! Depois que a chuva caiu, A terra bebeu as gotas Que sumiram no solo...
A métrica desmedida, A palavra torcida, O asco, a presunção, -Tudo foi em vão!
No colo de Deus Sentar-se-hão todos, Bons e maus poetas, Os ricos, os pobres, Os puros e os pecadores, Os ateus, os ascetas, Os que morrem de rir E os que morrem entre dores.
-Eu morro de rir! Já vi, tantas vezes, a montanha ruir, Já vi rios caudalosos, Ter caladas as suas pororocas Virando lama nas margens Onde dormem os caranguejos! 
Já vi, entre as docas, Cobertos de andrajos, Bebendo da mesma garrafa Os corvos e os espantalhos!
E eu, Morro de rir... E hei de rir de novo, Ao nos reencontrarmos No meio do povo Que habita a Geena, Na mesma cena!



OS BOLOS E OS TOLOS

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Faltam alguns minutos até a próxima aula. Ligo a TV para passar o tempo, e deparo com um reality show sobre aspirantes a chefes de cozinha, onde o desafio do dia é fazer o bolo mais saboroso e apresentável. Os candidatos, que se esforçam ao máximo, são divididos em equipes, mas ao final do programa, tornam-se rivais. Todos estão muito estressados, e apesar de trabalharem juntos, não conseguem esconder seu medo, sua insegurança e seu alto grau de competitividade.
 O tempo é contado. Tempo é moeda forte no programa onde a tarefa é hercúlea, e talvez seja tão curto, apenas para aumentar ainda mais o estresse dos participantes. E de repente, alguém anuncia: "O tempo acabou!" Neste momento, todos tem que parar imediatamente, ou terão pontos descontados na avaliação.
Chega o momento da análise, onde amostras dos bolos são apresentadas para uma equipe de chefs já famosos: a equipe julgadora. Um a um, eles colocam os pedaços na boca, mastigando devagar, e algumas vezes, fazendo car…

MENTIRAS

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Algumas mentiras são tão bem contadas, Tiras amarradas, seladas com sangue... Personalidades tão fortes, tão críveis, Horríveis falácias de hordas distantes...
Criados perfis, tão estabelecidos, Com nomes, famílias, retratos, histórias... A vida de lutas, tristezas ou glórias Tão bem inventadas, que fazem sentido!
E os pobres carentes que bebem palavras Qual fossem licores de sabedoria, Nem notam que o copo destila mentiras, Por trás da voz mansa, a demência que ladra!
E então, de repente, uma morte inventada, Criada na mente, cumprindo um tal pacto... E vê-se a mentira, homenageada, E os pobres crentes, curando o impacto...
Mas eis que a rede é de tramas bem finas, E assim, uma foto aparece na tela... O ex-morto morrido, assim, ressuscita, O riso sardônico, a cara lavada!
O filho mostrado na fotografia Surge de repente num outro contexto: Por entre crianças desaparecidas, Na foto postada, na rede da vida!
E eu penso: - Vergonha! Que vida inventada! Pobre de quem creu, e sentiu, e ch…

DISTRAÍDA

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Eu ando distraída, amiga, Do que me aborrecia, Das cartas amarelecidas, Das telas mal-pintadas, Das letras escorridas...
Eu vou como quem veio, amiga, De uma longa festa, Ainda embriagada, O coração selado, Cansada e sonolenta...
Perdão se eu não te vi, amiga, Eu ando distraída... Carrego meus sapatos, Meus pés pisando nus O chão quadriculado Das minhas avenidas...




VIAGEM

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As mesmas canções Distorcidas, A raiva da vida Manchando a paisagem...
As gotas vulcânicas, Quentes, Negras, Pegajosas, Gotas rixosas De lavas, que escorrem Na terra fendida.
Passou-se uma vida, E as mesmas paisagens, As velhas escaras, As mesmas viagens, Caminhos marcados, No chão arranhados, Pelas mesmas garras.




CÉU NOTURNO

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Aquela foi a maior estrela Que já vi da minha janela! Parecia uma joia branca caída dos vestidos De um deus distraído.
E ela se arrastava De leve, pelo céu Buscando aquela saia Que a abandonara...
-Achou-a, finalmente, Nos véus da madrugada?



Voltando Para Casa

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No céu, roxos e dourados Mesclados entre os azuis, Explosão de avermelhados... Os gritos das maritacas, Bem-te-vis e sabiás Voltando para casa.
Nas ruas, faróis de carros Iluminam o crepúsculo, A confusão das calçadas As padarias lotadas, As crianças e os adultos Voltando para casa.
Cachorrinhos nos portões, Pelas vidraças, as luzes, Os jantares e os banhos, Pés descalços nos tapetes, O final de uma jornada...
Quem dera que seja assim A morte, ao menos, espero Que seja como essa hora Tão confusa e tão bonita: Hora de voltar para casa.






TEARS

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TEARS
I've finally found out that most of the tears I cried Were not mine. They dropped from other eyes, so clear, salty and bright -but they were not mine. Yet I have on my face all the tracks They've left behind.



Dedicated to the best English teacher of all times - Chris Dupont
tradução:
Finalmente eu descobri Que a maior parte das lágrimas que chorei Não eram minhas. Elas caíram de outros olhos, Tão claras, salgadas e brilhantes, -Mas elas não eram minhas. Mesmo assim, tenho em meu rosto Todas as marcas Que elas deixaram.


(Des)considerações

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Todos os dias, ao ligar o rádio, a TV ou o computador, eu fico sabendo de alguma coisa que me choca ou me desgosta, deixando um sabor amargo na minha boca. Atos de desprezo e desconsideração pelo outro, humilhações, casos de bullying e de falta de respeito, preconceito, mentiras, ódio.
As pessoas parecem ter perdido o bom senso completamente. O velho ódio entre classes renasce, e dois times de pessoas são estabelecidos: ricos X pobres. Quem se considera do time dos pobres, enxerga aqueles que ele acha serem ‘ricos’ como sendo seus opressores, dando-lhes adjetivos que variam entre ‘burgueses nojentos’ e ‘coxinhas.’  Enquanto isso, o que se coloca do lado dos ‘ricos’, vê os pobres como malandros, vagabundos e aculturados.
Ao mesmo tempo, vejo que o ódio racial – que muitos acreditavam estar praticamente abolido neste país – ressurge de repente das formas mais vis. A mais recente vítima foi a apresentadora do Jornal Nacional, Maju Guerra. Lamento profundamente que este texto e todos os …

HAIKAI

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Um passarinho Do galho olha pro mundo Chorando por Deus.






JULHO

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Metade do ano já se foi; Com ele, o entulho Que estava guardado No canto do armário... -Bem-vindo, Julho!



FOI O SOL

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Entrou pelas minhas gretas, Acendeu as labaredas Do pensamento. -Ascendeu-me.
Iluminou as gavetas, Matando as traças, Fez brilhar minhas vidraças.
Foi o sol, E quando ele se pôs, Prometeu voltar -Mas não disse quando.





Não é Poesia...

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Não - isto não é poesia. Não sei o que é; nasceu de mim Junto com o dia, Mas não é poesia.
Às vezes me chega, Sufoca a voz, Impede o caminho, Turva a visão...
Deita as garras  Em meu coração Até que eu a ouça, Até que eu responda, E faça de mim Um canal Para que ela chegue, Me torne uma mãe Para que ela nasça...
Mas não importa o que eu diga, Ou o que eu faça, Não é poesia.
Chega de noite, Assombra meu sono, Bordando as palavras Nos meus lençóis... Às vezes, Ata-me em seus nós, E quase me mata Com suas mandingas...
Mas seja o que for, Ou o que eu diga, Se visto ou não visto Os seus trajes de mendiga, Não é poesia, É uma outra coisa...
(Depois de usar-me, Ela limpa a boca Com as costas da mão...)



A INOCÊNCIA É UM BÔNUS

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A Inocência não vê cores Com a qual pintam-lhe as feições, Ela não tem nãos ou senões,  A tudo abraça, a tudo acolhe.

A inocência guarda um molhe De chaves, só para abrir portas, Não vê o riso torto e os dentes Que almejam o doce de sua aorta.

A inocência é um bônus, Não sente o bafo da ambição, Ou o fedor do preconceito Que tenta achincalhar seu tônus.

Ah, eu perdi minha inocência Há um tempo longo e impreciso... Ainda resta-me  a decência De escolher o chão que eu piso.