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Mostrando postagens de Setembro, 2014

INGRATIDÃO

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Precisava de um vestido, Precisava de um ouvido.
Bateu à porta, contrita, Um fiapinho de vida, Os olhos postos no chão.
Precisava de um vestido, Precisava de um ouvido.
Viu a estendida mão, Pegou-a, sem cerimônias, Colocou no coração.
Precisava de um vestido, Precisava de um ouvido.
Deitou a necessidade Que assolava sua vida, Derramou sua saudade.
Precisava de um vestido, Precisava de um ouvido.
Recebeu seu lenitivo, Encontrou uma saída, Reviu a felicidade.
Precisava de um vestido, Precisava de um ouvido.
E depois, virou as costas Saindo através da porta Sem nem mesmo olhar para trás.
Precisava de um vestido, Precisava de um ouvido.
Relegou ao esquecimento Aquele que lhe salvara, E não voltou nunca mais...
Precisava de um vestido, Precisava de um ouvido...


VORACIDADE

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Almoçando ontem em um excelente restaurante de comida mineira, em Juiz de Fora, eu e meu marido, sentados próximos ao bufê (único lugar vago quando entramos)  observávamos o comportamento de alguns clientes. Era um destes restaurantes tipo “all-you-can-eat”, no qual as pessoas pagam um preço único e servem-se o quanto desejarem. Em uma das mesas, onde estavam sentados um casal e o filho pequeno, a moça foi ao bufê muitas vezes, e a cada vez, voltava para a mesa com pratos cheios – obviamente, eles não devem ter conseguido comer toda aquela comida! Enquanto isso, reparei em um senhor que encheu o prato quatro vezes. Seu estômago volumoso e seu rosto vermelho demonstravam o esforço que seu organismo deveria estar fazendo para digerir toda aquela comida.
Acima dos pratos, na parede do bufê, o anúncio: “Por favor, Evitem desperdício de comida!” Acredito que ninguém o tenha lido. Pensei no quanto os seres humanos são vorazes e egoístas. Da mesma maneira que serviam-se naquele bufê (pegand…

SOBRE O QUE SOMOS

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Ao ler a entrevista do cantor canadense Michael Boublé à revista Speak Up, encontrei uma frase que eu considero muito correta. Ao explicar o porquê de não guardar nenhum dos prêmios, troféus e placas que recebe - nem mesmo o Grammy -  o cantor declarou:
"Se precisarmos ser lembrados de quem somos, podemos simplesmente nos olhar no espelho!"
Assim, Michael Bublé distribui seus prêmios aos seus pais, parentes, amigos e até mesmo lojas que frequenta em Vancouver, sua cidade natal. Fiquei pensando que, apesar de nos sentirmos envaidecidos e agradecidos quando recebemos prêmios pelo nosso trabalho, eles realmente não dizem quase nada sobre o que somos. Nossas profissões são apenas uma parte das nossas vidas. Posso dar aulas e ser chamada de professora, mas uma professora não é o que eu realmente sou. Existe uma essência por trás dos títulos que recebemos e conquistamos ao longo da vida que poucos de nós realmente chega a conhecer ou preocupar-se em conhecer.
E vamos nos adaptand…

Amor Verdadeiro

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Amor verdadeiro não nasce do que é fácil, Dos sorrisos de superfície  E dos falsos abraços.
Talvez seja preciso ter noites em claro, Porque amor de verdade, é raro, Não brota assim, de qualquer jeito, Do chão!
Amor de verdade nasce da dificuldade, Da adaptação, Da paciência e até mesmo da saudade, Quem sabe, da ausência repentina, Que sempre põe, nos 'is', os pingos certos...
Amor de verdade percorre desertos, E mata a própria sede com as águas das mágoas, Quanto faltam outras águas, Pois não se deixa morrer, assim, à toa,
Amor de verdade é coisa boa Tirada de tudo o que for ruim, Para que não venha o fim, Por causa de qualquer desilusão, Porque amor de verdade não morre Sem que antes se tente A ressuscitação.




JAMAIS SABEREI

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Jamais saberei  Como será a tua face de adulta, Crescida, orgulhosa e resoluta, Do reflexo das nuvens nas tuas negras pupilas, Do sol brilhando sobre a tua figura...
Jamais saberei como será a tua vida, Ou como será a tua voz, Ou como seríamos juntas, nós, Pois há nós demais nesses meus laços, Travando meus passos, Matando a amizade Bem antes do abraço!
Jamais saberei como seria Sentar-me ao teu lado, numa tarde de verão, A fim de não fazermos nada, A não ser contemplar a beleza das folhas, Jamais saberei da tua alegria Que guardaria minha casa em noites frias, Velando meu sono enquanto sonho...
E quando estivermos ambas já bem velhas, Não terei ao meu lado tua calma companhia, Não te sentarás comigo ao alpendre, Enquanto os beija-flores beijam as primeiras estrelas, Não te verei olhar os pequeninos vaga-lumes, Estarei bem longe de ti, e tu, de mim, Da minha vida, bem distante!
E quem sabe, tudo volte a ser como antes, Assim que eu te levar de volta onde nos conhecemos, Assim que eu …

SOB O CÉU QUE NOS ENGANA

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O azul profundo abriga tempestades, Abutres voam junto aos colibris, Cai de repente em jorros, chuva ácida, E cobre de ferrugem nossas grades.
O céu, de um azul monocromático, Abriga todos os voos, todas as asas, Num permitir calado, democrático.
E se não fosse assim, como seria? Condena-se o contraste dos contrários, Separa-se a tristeza da alegria?...




TELHADOS

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A chuva cai, cedo ou tarde, Sobre todos os telhados, Lavando as telhas E enchendo as calhas Que escorrem suas lágrimas...
E isto é sempre certo: Ela cai, sempre, Sobre todos os telhados, Sobre cada um deles, Sem poupar nenhum...
-E isto, é fado.




O HOMEM DOS IPÊS AMARELOS

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Era uma vez Um homem que transcenderia o tempo, Que caminhava pelas alamedas das palavras Entre ventos e pensamentos. Contemplava a vida, Fazendo a diferença Em almas estranhas ou queridas.
Um homem de fé, Que perdeu a fé Nos templos, entre os homens, E redescobriu-a entre as crianças, E nas flores do ipê.
Era uma vez um homem Sem meias palavras, Sem meias verdades, Sem metades, Um homem inteiro, Que veio ao mundo para encantar.
Tinha uma mensagem (Eu a escutei): "Amem os ipês amarelos!" E eu amei. "É preciso ter cuidado Com o pássaro pousado no dedo, Pois ele um dia, voa..." E eu ouvi, E ele voou...

Singela homenagem a Rubem Alves pela passagem de seu aniversário 15/09




A Fé

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...E  foi no templo vazio que ela descobriu:

-A fé era a luz Que entrava pelos vitrais Filtrada pelas cores, E não a escuridão do templo.
-A fé era o silêncio que calava Nas entrelinhas das perguntas que nunca foram respondidas, Era o que caminhava muito além das coisas aparentes, Além da própria vida.
-A fé era o que jazia após o Amém, Aonde nunca ninguém ia, Lugar no qual, após a correnteza das palavras, Ninguém pensava...
-A fé era a flor que brotava Do vaso raso e côncavo do coração Quando a dor apunhalava.
-A fé era amar sem saber-se amada, Acreditar no que ninguém mais acreditava, Era um olhar para trás e aguardar Antes de voltar a caminhar, Toda vez que uma outra porta se fechava.



HAIKAIS

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Céu encoberto Glacé cinza de nuvens Caindo em gotas.


As andorinhas Desgovernado voo Chuva chegando.


Na correnteza Resvalam pouco a pouco Minhas tristezas.


Surge arco-íris Partindo a vida em cores No pó das gotas.




Passagem

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Ironia...
Nós olhamos para a vida Que passa diante dos olhos, Colorida fantasia, Mas não a vemos passar...
Apuramos os ouvidos Destilamos os sentidos Tentando enxergar o mar, Mas não prevemos as ondas...
E enfileiramos os dias Como fazemos com as contas De um infinito colar,
Sem saber que ele arrebenta, Sem saber que ele naufraga Quando menos se esperar...



Imagem: Ana Bailune, editada pelo Google

Terra Prometida

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Terra Prometida

Eu te prometo um pedaço de terra Para chamares de teu, Tomado à força bruta de uma guerra.
Eu te prometo a paz hipócrita que esperas Exposta nas raízes sangrentas Das arrancadas oliveiras.





Eu te prometo a terra derradeira, Esta, na qual descansarás, E que pesará, a cada dia do futuro, Sobre os ombros das tuas crianças.
Eu te prometo a mais justa das vinganças, Aquela, que não tem tréguas, E não descansa nem nos dias santos, Nos quais balbucias graças E quebrantos.
Eu te prometo uma justiça mais que justa, Que crescerá bem forte, a cada dia, No pus que brota de cada pústula Libada pelas lagrimas inimigas, Justiça adubada pelos dejetos das injúrias.
E os teus filhos hão de correr por estes campos nus de vida, Repletos de ossos e ruínas, Os olivais da Palestina, Onde nada há de crescer, A não ser...
A árvore que produz o fruto amargo E venenoso, De norte a sul Ao sol insosso, Abençoada pelo Deus que te auxilia, Ao qual adoras, O Belzebu.



Um Pingo de Vida

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Nada como um animalzinho de estimação para trazer a vida de volta a uma casa por onde passaram muitas tristezas. Parece que dentro destas criaturinhas existe algo mágico, capaz de encantar e suavizar a existência. A gente é capaz de ficar horas brincando, rindo, correndo pelo jardim, tirando fotografias... só mesmo quem tem animais - e gosta deles - entende o que eu estou tentando dizer.
Nunca pensei que um dia fosse ver meu marido - uma pessoa que geralmente é calado pela manhã, e que gosta de acordar mais tarde - dando gargalhadas numa manhã chuvosa de terça-feira. Cada momento é uma bênção perto do Mootley, assim como era quando meus outros cães viviam conosco. Parece que a vida fica realmente mais leve...
Mas como as crianças, os animais de estimação novinhos aprontam! É só nos distrairmos e de repente eles fazem das suas! O Mootley, por exemplo, está aprendendo a usar o jornal e o gramado. Parecia estar fazendo grandes progressos.  Nos últimos dois dias, pensei até que este prob…

Outono

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...E quando as folhas caem, Secas, quase em pó,  É dos meus galhos que elas caem,  E é no meu chão que elas pousam.
Do pó no qual se transformam, Surge um adubo Forte, Que transcende a morte, A seiva das raízes!
E quando eu fecho os olhos, assim, Não o faço por ti, mas por mim, Para que eu tenha tempo De renascer em brotos, Ver rebrotar os meus cotocos, Enfim.


ORVALHO

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Enquanto as gotas formavam-se, anônimas, Sobre as pétalas abertas da manhã, As abelhas colhiam o orvalho Sem saber do veneno Que levavam às suas colméias. 
As abelhas zuniam, Pousavam, inocentes, Levando nas patas A matéria para o mel mais amargo, Matando a alma do bardo, Produzindo amargo fel.
Mas quando a luz da manhã Refletiu a cor verdadeira Do veneno que brilhava Por dentro das gotas translúcidas,
Retiraram-se as abelhas, Recolheram-se às colméias, Deitaram às favas suas favas, Lavaram bem as suas patas Nas águas claras do rio...




Infelizmente, na vida real, não é assim que acontece; as abelhas estão desaparecendo a cada dia, mergulhadas nas gotas orvalhadas de agrotóxicos usados nas plantações. Uma perspectiva terrível, pois elas são responsáveis pela polinização de muitas espécies de plantas, e necessárias à produção agrícola.