terça-feira, 30 de setembro de 2014

INGRATIDÃO







Precisava de um vestido,
Precisava de um ouvido.

Bateu à porta, contrita,
Um fiapinho de vida,
Os olhos postos no chão.

Precisava de um vestido,
Precisava de um ouvido.

Viu a estendida mão,
Pegou-a, sem cerimônias,
Colocou no coração.

Precisava de um vestido,
Precisava de um ouvido.

Deitou a necessidade
Que assolava sua vida,
Derramou sua saudade.

Precisava de um vestido,
Precisava de um ouvido.

Recebeu seu lenitivo,
Encontrou uma saída,
Reviu a felicidade.

Precisava de um vestido,
Precisava de um ouvido.

E depois, virou as costas
Saindo através da porta
Sem nem mesmo olhar para trás.

Precisava de um vestido,
Precisava de um ouvido.

Relegou ao esquecimento
Aquele que lhe salvara,
E não voltou nunca mais...

Precisava de um vestido,
Precisava de um ouvido...



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

VORACIDADE




Almoçando ontem em um excelente restaurante de comida mineira, em Juiz de Fora, eu e meu marido, sentados próximos ao bufê (único lugar vago quando entramos)  observávamos o comportamento de alguns clientes. Era um destes restaurantes tipo “all-you-can-eat”, no qual as pessoas pagam um preço único e servem-se o quanto desejarem. Em uma das mesas, onde estavam sentados um casal e o filho pequeno, a moça foi ao bufê muitas vezes, e a cada vez, voltava para a mesa com pratos cheios – obviamente, eles não devem ter conseguido comer toda aquela comida! Enquanto isso, reparei em um senhor que encheu o prato quatro vezes. Seu estômago volumoso e seu rosto vermelho demonstravam o esforço que seu organismo deveria estar fazendo para digerir toda aquela comida.

Acima dos pratos, na parede do bufê, o anúncio: “Por favor, Evitem desperdício de comida!” Acredito que ninguém o tenha lido. Pensei no quanto os seres humanos são vorazes e egoístas. Da mesma maneira que serviam-se naquele bufê (pegando mais comida do que seriam capazes de comer ou do que seria aconselhável à sua própria saúde), nós, “humanos,” depredamos florestas, secamos rios, eliminamos outras espécies e disputamos vagas em empresas passando por cima de outras pessoas – sabotando-as se preciso. E há os que dizem: “É a lei da sobrevivência!”

Nos queixamos dos políticos que estão lá, eleitos por nós, depredando o povo e os recursos do país, mas quantos faríamos diferente se estivéssemos no lugar deles? Para mim, eles apenas retratam as convicções da maioria das pessoas. A ordem da vida é pegar o máximo que for possível, encher os pratos e as mãos, comer até vomitar; afinal, é preço único, e ninguém quer ser chamado de tolo... a vida deve ser aproveitada “ao máximo.”

Na volta para casa, já anoitecendo, vemos na estrada quilômetros de florestas pegando fogo, e imaginamos quantos animais e quantas plantas estavam sendo destruídos ali; certamente, através das mãos de alguém egoísta que acha bonito ver o mato pegar fogo. Enquanto isso, passamos por uma senhora que lavava a calçada com jatos de mangueira, ignorando as queimadas, a estiagem e a falta d’água.

Chegamos em casa, e ao ligar a TV, vemos um grupo de adolescentes de skate surrando um cão que tentava desesperadamente escapar de dentro da pista escorregadia.

Amanheci pessimista.

Deus errou. Deveria ter descansado bem antes do sétimo dia. Antes de criar a raça humana.


sábado, 27 de setembro de 2014

SOBRE O QUE SOMOS



Ao ler a entrevista do cantor canadense Michael Boublé à revista Speak Up, encontrei uma frase que eu considero muito correta. Ao explicar o porquê de não guardar nenhum dos prêmios, troféus e placas que recebe - nem mesmo o Grammy -  o cantor declarou:

"Se precisarmos ser lembrados de quem somos, podemos simplesmente nos olhar no espelho!"

Assim, Michael Bublé distribui seus prêmios aos seus pais, parentes, amigos e até mesmo lojas que frequenta em Vancouver, sua cidade natal. Fiquei pensando que, apesar de nos sentirmos envaidecidos e agradecidos quando recebemos prêmios pelo nosso trabalho, eles realmente não dizem quase nada sobre o que somos. Nossas profissões são apenas uma parte das nossas vidas. Posso dar aulas e ser chamada de professora, mas uma professora não é o que eu realmente sou. Existe uma essência por trás dos títulos que recebemos e conquistamos ao longo da vida que poucos de nós realmente chega a conhecer ou preocupar-se em conhecer.

E vamos nos adaptando e nos identificamos com o que os outros acham de nós, e cada vez mais, fazendo de tudo para que aquela imagem que tentamos tão arduamente construir permaneça sempre verdadeira aos olhos do próximo. É a criação da nossa máscara, da nossa persona. Com o tempo, a idade e a experiência de vida, vamos aos poucos compreendendo o quanto estas coisas são passageiras e sem importância.

Na minha idade - quase meio século de vida - só desejo uma coisa: ser feliz à minha maneira. Pouco me importa o que esperam de mim. Hoje, só vou aonde sei que sou bem vinda. Só entro onde sou convidada. Já não me importo com muitas das coisas que eu considerava importantes antigamente, e hoje eu vejo o quanto perdi tempo com elas. Aprendi a não dizer "sim" quando quero dizer "não." Aprendi a não dobrar-me àquilo que querem de mim, porque chantagens emocionais já não me comovem. Minha ética e minha maneira de ser são as únicas coisas que me importam. Respeito a quem me respeita. Ignoro a quem me ignora. Convivo com quem me faz bem, com as pessoas com quem eu sinto que não preciso me espremer, me dobrar ou me sangrar para ser como elas querem.

E se elas me esquecem, é um favor que me fazem.



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Amor Verdadeiro



Amor verdadeiro não nasce do que é fácil,
Dos sorrisos de superfície 
E dos falsos abraços.

Talvez seja preciso ter noites em claro,
Porque amor de verdade, é raro,
Não brota assim, de qualquer jeito,
Do chão!

Amor de verdade nasce da dificuldade,
Da adaptação,
Da paciência e até mesmo da saudade,
Quem sabe, da ausência repentina,
Que sempre põe, nos 'is', os pingos certos...

Amor de verdade percorre desertos,
E mata a própria sede com as águas das mágoas,
Quanto faltam outras águas,
Pois não se deixa morrer, assim, à toa,

Amor de verdade é coisa boa
Tirada de tudo o que for ruim,
Para que não venha o fim,
Por causa de qualquer desilusão,
Porque amor de verdade não morre
Sem que antes se tente
A ressuscitação.




JAMAIS SABEREI




Jamais saberei 
Como será a tua face de adulta,
Crescida, orgulhosa e resoluta,
Do reflexo das nuvens nas tuas negras pupilas,
Do sol brilhando sobre a tua figura...

Jamais saberei como será a tua vida,
Ou como será a tua voz,
Ou como seríamos juntas, nós,
Pois há nós demais nesses meus laços,
Travando meus passos,
Matando a amizade
Bem antes do abraço!

Jamais saberei como seria
Sentar-me ao teu lado, numa tarde de verão,
A fim de não fazermos nada,
A não ser contemplar a beleza das folhas,
Jamais saberei da tua alegria
Que guardaria minha casa em noites frias,
Velando meu sono enquanto sonho...

E quando estivermos ambas já bem velhas,
Não terei ao meu lado tua calma companhia,
Não te sentarás comigo ao alpendre,
Enquanto os beija-flores beijam as primeiras estrelas,
Não te verei olhar os pequeninos vaga-lumes,
Estarei bem longe de ti, e tu, de mim,
Da minha vida, bem distante!

E quem sabe, tudo volte a ser como antes,
Assim que eu te levar de volta onde nos conhecemos,
Assim que eu me virar de costas, para sempre,
Fechando para nós, a minha porta!

Te olho agora, e dormes tão tranquila aos meus pés,
E aos pés da minha mesa,
Dormes com a paz e a inocência de que és feita,
A sonhar com manhãs
Que infelizmente, nunca chegarão...

E eu sinto tanto, sinto tanto, tanto, tanto...
Mas é que ainda há dores pelos cantos,
São as escolhas que precisamos fazer,
Para que a vida não volte a morrer...



sábado, 20 de setembro de 2014

SOB O CÉU QUE NOS ENGANA









O azul profundo abriga tempestades,
Abutres voam junto aos colibris,
Cai de repente em jorros, chuva ácida,
E cobre de ferrugem nossas grades.

O céu, de um azul monocromático,
Abriga todos os voos, todas as asas,
Num permitir calado, democrático.

E se não fosse assim, como seria?
Condena-se o contraste dos contrários,
Separa-se a tristeza da alegria?...





quinta-feira, 18 de setembro de 2014

TELHADOS




A chuva cai, cedo ou tarde,
Sobre todos os telhados,
Lavando as telhas
E enchendo as calhas
Que escorrem suas lágrimas...

E isto é sempre certo:
Ela cai, sempre,
Sobre todos os telhados,
Sobre cada um deles,
Sem poupar nenhum...

-E isto, é fado.





terça-feira, 16 de setembro de 2014

O HOMEM DOS IPÊS AMARELOS

Ipê que fica no jardim de um prédio, em frente à Praça da Liberdade, Petrópolis



Era uma vez
Um homem que transcenderia o tempo,
Que caminhava pelas alamedas das palavras
Entre ventos e pensamentos.
Contemplava a vida,
Fazendo a diferença
Em almas estranhas ou queridas.

Um homem de fé,
Que perdeu a fé
Nos templos, entre os homens,
E redescobriu-a entre as crianças,
E nas flores do ipê.

Era uma vez um homem
Sem meias palavras,
Sem meias verdades,
Sem metades,
Um homem inteiro,
Que veio ao mundo para encantar.

Tinha uma mensagem
(Eu a escutei):
"Amem os ipês amarelos!"
E eu amei.
"É preciso ter cuidado
Com o pássaro pousado no dedo,
Pois ele um dia, voa..."
E eu ouvi,
E ele voou...


Singela homenagem a Rubem Alves pela passagem de seu aniversário 15/09





segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A Fé









...E  foi no templo vazio
que ela descobriu:


-A fé era a luz
Que entrava pelos vitrais
Filtrada pelas cores,
E não a escuridão do templo.

-A fé era o silêncio que calava
Nas entrelinhas das perguntas que nunca foram respondidas,
Era o que caminhava muito além das coisas aparentes,
Além da própria vida.

-A fé era o que jazia após o Amém,
Aonde nunca ninguém ia,
Lugar no qual, após a correnteza das palavras,
Ninguém pensava...

-A fé era a flor que brotava
Do vaso raso e côncavo do coração
Quando a dor apunhalava.

-A fé era amar sem saber-se amada,
Acreditar no que ninguém mais acreditava,
Era um olhar para trás e aguardar
Antes de voltar a caminhar,
Toda vez que uma outra porta se fechava.




quinta-feira, 11 de setembro de 2014

HAIKAIS






Céu encoberto
Glacé cinza de nuvens
Caindo em gotas.



As andorinhas
Desgovernado voo
Chuva chegando.



Na correnteza
Resvalam pouco a pouco
Minhas tristezas.



Surge arco-íris
Partindo a vida em cores
No pó das gotas.





quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Passagem




Ironia...

Nós olhamos para a vida
Que passa diante dos olhos,
Colorida fantasia,
Mas não a vemos passar...

Apuramos os ouvidos
Destilamos os sentidos
Tentando enxergar o mar,
Mas não prevemos as ondas...

E enfileiramos os dias
Como fazemos com as contas
De um infinito colar,

Sem saber que ele arrebenta,
Sem saber que ele naufraga
Quando menos se esperar...




Imagem: Ana Bailune, editada pelo Google

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Terra Prometida

Terra Prometida


Eu te prometo um pedaço de terra
Para chamares de teu,
Tomado à força bruta de uma guerra.

Eu te prometo a paz hipócrita que esperas
Exposta nas raízes sangrentas
Das arrancadas oliveiras.






Eu te prometo a terra derradeira,
Esta, na qual descansarás,
E que pesará, a cada dia do futuro,
Sobre os ombros das tuas crianças.

Eu te prometo a mais justa das vinganças,
Aquela, que não tem tréguas,
E não descansa nem nos dias santos,
Nos quais balbucias graças
E quebrantos.

Eu te prometo uma justiça mais que justa,
Que crescerá bem forte, a cada dia,
No pus que brota de cada pústula
Libada pelas lagrimas inimigas,
Justiça adubada pelos dejetos das injúrias.

E os teus filhos hão de correr por estes campos nus de vida,
Repletos de ossos e ruínas,
Os olivais da Palestina,
Onde nada há de crescer,
A não ser...

A árvore que produz o fruto amargo
E venenoso,
De norte a sul
Ao sol insosso,
Abençoada pelo Deus que te auxilia,
Ao qual adoras,
O Belzebu.




quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um Pingo de Vida





Nada como um animalzinho de estimação para trazer a vida de volta a uma casa por onde passaram muitas tristezas. Parece que dentro destas criaturinhas existe algo mágico, capaz de encantar e suavizar a existência. A gente é capaz de ficar horas brincando, rindo, correndo pelo jardim, tirando fotografias... só mesmo quem tem animais - e gosta deles - entende o que eu estou tentando dizer.

Nunca pensei que um dia fosse ver meu marido - uma pessoa que geralmente é calado pela manhã, e que gosta de acordar mais tarde - dando gargalhadas numa manhã chuvosa de terça-feira. Cada momento é uma bênção perto do Mootley, assim como era quando meus outros cães viviam conosco. Parece que a vida fica realmente mais leve...

Mas como as crianças, os animais de estimação novinhos aprontam! É só nos distrairmos e de repente eles fazem das suas! O Mootley, por exemplo, está aprendendo a usar o jornal e o gramado. Parecia estar fazendo grandes progressos.  Nos últimos dois dias, pensei até que este problema não mais existia... até que, hoje de manhã, deparei com um daqueles, de 'dois andares', no tapete da sala... enquanto eu limpava tudo, ele me olhava de longe, a cabeça sobre as patas dianteiras esticadas, talvez se perguntando por que eu estava destruindo a sua obra prima!

Deixo sempre as portas da casa abertas para que ele possa entrar e sair quando quiser, o que facilita para que ele aprenda a fazer as suas necessidades no gramado. Há poucos minutos, após passar algumas horas distraída escrevendo em meu blog, chego na sala de estar e... sobre o sofá (amarelo-claro) uma profusão de "presentes" e "brinquedos": pedaços de galhos e cascas de árvore, pedrinhas, tufos de grama com terra e tudo, bichinhos de borracha... e até uma pena de passarinho que ele deve ter encontrado no jardim.

Limpo toda a bagunça, enquanto dou-lhes umas broncas. Mas ele sabe que eu não estou zangada, porque de repente, sai correndo feito um maluco, entra por uma porta e sai por outra, corre jardim acima e jardim abaixo e pousa arfando no meu tapete, feliz da vida. Percebo que há algo em sua boca, e ao abri-la, encontro um biscoitinho de cachorro que eu dei para ele hoje de manhã... onde será que ele o guardou esse tempo todo?

À noite, ele sempre pega um de seus brinquedinhos favoritos - geralmente, um caranguejo laranja com perninhas feitas de corda - e, levando-o na boca, pede-nos que o coloquemos na cama (sim, decidimos que o Mootley dorme na cama conosco).É muito engraçado vê-lo com aquela cara de sono carregando o brinquedo, vindo nos pedir colo.

Se você estiver triste, arranje um cachorro. Ele poderá não resolver os seus problemas, mas o ajudará a manter-se de bom humor - o que, nas horas difíceis, já é um grande passo.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Outono

outono.gif


...E quando as folhas caem,
Secas, quase em pó, 
É dos meus galhos que elas caem, 
E é no meu chão que elas pousam.

Do pó no qual se transformam,
Surge um adubo
Forte,
Que transcende a morte,
A seiva das raízes!

E quando eu fecho os olhos, assim,
Não o faço por ti, mas por mim,
Para que eu tenha tempo
De renascer em brotos,
Ver rebrotar os meus cotocos,
Enfim.



ORVALHO




Enquanto as gotas formavam-se, anônimas,
Sobre as pétalas abertas da manhã,
As abelhas colhiam o orvalho
Sem saber do veneno
Que levavam às suas colméias. 

As abelhas zuniam,
Pousavam, inocentes,
Levando nas patas
A matéria para o mel mais amargo,
Matando a alma do bardo,
Produzindo amargo fel.

Mas quando a luz da manhã
Refletiu a cor verdadeira
Do veneno que brilhava
Por dentro das gotas translúcidas,

Retiraram-se as abelhas,
Recolheram-se às colméias,
Deitaram às favas suas favas,
Lavaram bem as suas patas
Nas águas claras do rio...





Infelizmente, na vida real, não é assim que acontece; as abelhas estão desaparecendo a cada dia, mergulhadas nas gotas orvalhadas de agrotóxicos usados nas plantações. Uma perspectiva terrível, pois elas são responsáveis pela polinização de muitas espécies de plantas, e necessárias à produção agrícola.






É QUE ÀS VEZES, O ADEUS PESA...

Não, não pude olhar para trás,  Atravessar aquela rua, Ir ao pé da tua janela E me despedir. Não, eu  não pude hes...