terça-feira, 29 de abril de 2014

No Silêncio





No silêncio mais profundo,
Daqueles, no qual se escuta
O toque de um lenço que cai,
É que eu encontro minha paz.

E sempre, e cada vez mais,
Ando aprendendo que a vida
De cada um, é o que pode,
E o que precisa ser.

E o que eu não puder fazer,
Não estando ao meu alcance,
Deixarei sempre à deriva,
À espera do momento
Que arrebate aquele instante...

Sou bem menos que eu pensava,
E acho que menos ainda
Do que dizem que eu sou,
E ainda bem menor
É minha alma perdida
Que caminha sem destino
Nos corredores da vida...

Mas mesmo sendo uma chama
Na qual, com orgulho, alguém pisa,
Minha alma não se apaga:
Sobrevive à queda livre
Da intenção envenenada.








Trecho de "Tudo Vai Bem, Mas me Sinto Mal"




Trecho do livro "Tudo Vai Bem Mas me Sinto Mal, de Lucia Canovi


"De acordo com os gurus da Nova Era, seríamos nós que criaríamos de A a Z nossa própria realidade, controlando o desenvolvimento de nossa existência a um nível n sobrenatural e metafísico. Segundo eles, seríamos nós que, antes de nascer, decidiríamos ter nariz arrebitado ou pés chatos. Escolheríamos desembarcar nesta ou naquela família porque saberíamos que com aqueles determinados pais aprenderíamos a ter compaixão, ou tocar berimbau, ou acertaríamos nosso Karma. A única coisa que nos impediria de saber que absolutamente todas as circunstâncias de nossa vida foram escolhidas por nós, seria o esquecimento. Seríamos não apenas águias que se creem galinhas, mas seres  todo-poderosos usufruindo de uma liberdade ilimitada, cuja chave foi perdida. Em outras palavras, deuses amnésicos sofrendo de complexo de inferioridade. 

Francamente...um deus cuja existência começou como uma gota de esperma, que vai ao banheiro várias vezes ao dia, que precisa de sabonetes de lavanda e desodorantes para não cheirar mal, que fica velho caquético, tem medo de aranhas, de trovão, do fisco ou de outra coisa qualquer, tem que se alimentar sempre e não é nem mesmo capaz de evitar a morte, é mesmo um deus?"





"...Toda a ternura do mundo não passa de um conforto passageiro, uma massagem na perna de pau, já que ela, por si só, não pode operar a sua renovação como pessoa."





"Quando deixamos de nos importar com o que pensam os outros e alcançamos o direito incondicional de viver plenamente, nossa existência fica leve e a atmosfera toda se ilumina."


CASAMUNDO



Hoje acordei pensando no mundo como uma casa onde moram todas as pessoas. Cada qual tem a sua função (ou missão, se assim lhe agradar mais). E nenhuma função é mais ou menos importante que a outra. O importante, é seguir o caminho que se estende diante dos pés, todos os dias. 

Alguns moradores desta imensa casa tem como missão ajudar aos que caem a se reerguerem; é uma missão bonita, mas difícil, e não é para qualquer um. É preciso uma abnegação sem medidas, e um coração que seja aberto e elástico. Muitas vezes, é preciso que aquele que se dedica a outros dedique-se cada vez menos a si mesmo, tornando-se completamente altruísta. Acho que esta é uma das missões mais difíceis que existem.

Outros há que vem a este mundo-casa para governá-lo, administrá-lo,  limpá-lo e criar regras sob as quais os direitos e deveres de todos fiquem mais claros. Pelo que tenho visto, a maioria das pessoas falham nesta missão. Mesmo assim, são muito importantes.

Existem pessoas que vem para guiar espiritualmente aqueles que necessitam de uma direção; há muitos enganadores neste campo, pois a espiritualidade é muito mais do que estabelecer regras para os outros seguirem. Uma pessoa espiritualizada entenderá que cada um está aqui por sua própria razão, e não pregará que a sua missão no mundo é a única que vale a pena, e que quem não fizer o mesmo, estará perdido. A pessoa verdadeiramente espiritualizada não imporá aos outros nenhum cargo que eles não possam levar adiante, e nem criticará aqueles que ela acha não serem tão abnegados quanto ela, pois ela sabe que cada um tem o seu tempo, e que estamos em degraus diferentes no caminho da evolução.

Pois nesse mundo também existem aqueles que vieram com a missão de aprenderem a ser independentes, pensar mais neles mesmos, adquirir autocontrole. Crescer também significa exercitar a capacidade de olhar para si mesmo mais do que se olha para os outros, e todo mundo precisará fazer isso um dia. Porque se temos uma vida a ser vivida, não podemos simplesmente negligenciá-la e dedicá-la inteiramente a resolver problemas alheios, pois isto soa como pretensão e fuga de si mesmo.

Em uma casa, todos são importantes: o construtor, o pedreiro, o engenheiro, o faxineiro, o encanador, o decorador, o cozinheiro. E cada um age melhor dentro do seu campo de trabalho. O engenheiro não pode considerar o encanador como inferior a ele só porque não sabe desenhar e não frequentou uma universidade. O encanador tem uma função importantíssima, que é levar a água – fonte de vida – a todos os cômodos da casa.

No mundo há vários profissionais diferentes: médicos, dentistas, cabeleireiros, estivadores, professores, arrumadeiras, políticos, escritores e poetas, etc. Todos eles são importantes. Um poeta não é menos importante que um médico que dedica-se a salvar pessoas na África; apenas tem uma missão diferente neste momento, e a está cumprindo. Mas esta missão também é importante, mesmo que tenha mais a ver com ele mesmo do que com o resto do mundo. Há várias paradas no caminho da vida, e todos passamos por todas elas na hora certa. Não é justo forçar ninguém a fazer algo para o qual não se sente pronto ou não tem inclinação, pois sabemos muito pouco a respeito uns dos outros e a respeito da grandeza da vida e das pessoas. Não é certo limitá-las ou diminuir sua função apenas porque elas estão em um ponto diferente da caminhada, em um estágio diferente da evolução do caminho.

Já pensaram se, de repente, o cozinheiro começasse a construir paredes, o pintor começasse a escrever poemas e o escultor, a cuidar dos doentes apenas porque alguém disse que seria melhor assim? O mundo seria um caos ainda maior! E quem sabe, não seja por isso que estejamos sempre nesse impasse, sem saber para onde ir ou o que fazer: porque conhecemos muito pouco o nosso caminho, deixando o tempo todo que outros o determinem para nós?

Que eu siga o meu caminho e me encontre comigo mesma: é isso  que é importante. Porque há vários espelhos nessa Casamundo, e é importante que nos olhemos neles, sem máscaras, e vejamos o nosso próprio rosto, e não o rosto das outras pessoas. E quando chegar o meu momento de cozinhar para todos, compor música ou cuidar dos que sofrem, estarei lá, inteira, seja nesta ou em outras vidas.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

VELUDO










Cresce um musgo verde

Macio e aveludado

Sobre tudo,

Sobre o muro,

Sobre as almas

Entre as palmas

E as palavras.




Suave ao toque,

Nem se percebe que ele é morte.

Mais parece um caminho

Enfeitado

Verdejante de vida.




Mas as borboletas não se enganam,

E flanam

Bem longe dali.




O musgo cresce sobre tudo,

Envolve o mundo,

Cobre de umidade a verdade,

Lastra sobre as bocas

E as cidades.




Disfarça em seu veludo

O absurdo e a falácia

E o quanto pode parecerer linda

A iniquidade!




E o musgo cresce sobre os caules

E os troncos das árvores,

Sufoca e mata

Até que não haja mais folhas e flores,

Até que não haja mais nada.




(Mesmo assim, é verde a paisagem)






domingo, 27 de abril de 2014

Colagem do Dia


Cartas Entre Amigos - Sobre Ganhar e Perder (resenha)





Cartas Entre Amigos -Sobre Ganhar e Perder
Gabriel Chalita & Fábio de Melo
Editora Globo –Ano: 2010 -
225 páginas







Hoje em dia, quase ninguém mais escreve cartas; ficamos presos à rapidez e informalidade dos e-mails, redes sociais e mensagens por telefone. A beleza e a verdade da palavra cuidadosamente escrita (e refletida) parece estar, cada vez mais, perdendo-se. E é neste exato momento que me caiu às mãos o livro Cartas Entre Amigos – Sobre Ganhar e Perder, de Gabriel Chalita e Fábio de Melo. O livro, como deixa claro o título, é o resultado da troca de correspondência entre dois grandes amigos, onde ambos discursam e refletem intensamente sobre o mundo de hoje, as pessoas, os relacionamentos, suas agruras, tristezas e vazios; e no meio de tudo, eles encontram e nos mostram o caminho de sua fé, sem a qual ficaria ainda mais difícil seguir em frente.

O respeito e a reverência que os dois amigos demonstram um pelo outro também é uma grande lição nesses tempos em que relacionamentos ganham contornos cada vez mais superficiais, frágeis e artificiais, e onde a palavra amizade tornou-se um clichê e a barreira entre a amizade e o excesso de intimidade é tão facilmente (co)rompida.

Um livro para ser lido e relido bem devagar. As histórias dos dois amigos entrelaçam-se com as nossas, e nos sentimos, ao mesmo tempo, personagens e autores coadjuvantes nos cenários que eles tão bem descrevem.

Alguns trechos do livro:

Carta de Fábio de Mello:

“Meu amigo, a escolha do filtro é determinante para o que conseguimos como resultado final. A vida é dura em todo canto. É dura em mim, é dura em você, é dura em todos nós. O sofrimento é normativo na condição humana. Há sempre uma dor sendo gestada, sendo sofrida em algum canto deste imenso mundo.”

Carta de Chalita, sobre a amizade:

“Amigos são poetas da alma. São andarilhos duais, alegres e tristes. São malabaristas, e, se necessário, palhaços. Brincam para que o sorriso não se faça de rogado. Testemunham o aconchego de um fim de tarde. Exalam o perfume agradável de uma flor que não se encontra em atacado. Amigos tem o poder da unicidade e não merecem a economia de nossos sentimentos. Se o convite é para o banho de cachoeira, para que perder tempo com a bica rala?

É uma vitória ter amigos. É uma derrota querer que os amigos sejam a projeção de nossas frustrações. O outro não é um pedaço que vai preencher um buraco do manto que me aquece. O outro é um manto inteiro. Mas um outro manto. Diferente do meu, e portanto, necessário.

Amizades interesseiras não são amizades. Na solidão das nossas decisões e no vazio de nossas escolhas, vamos percebendo quem é necessário e quem não entendeu o que é amar. Nada de parasitas, nada de sugadores nem de bajuladores hipócritas. Quantos são os que oferecem o perfume da euforia para que o cheiro da falsidade fique imperceptível? Cedo ou tarde se esquecerão de usar o perfume, e o odor natural será sentido.”

Fábio de Melo, sobre seu pai:

Meu amigo, pude viver muitos aprendizados ao lado do meu pai, mas há um fato que se tornou muito marcante para mim. Um aprendizado que aconteceu ao longo da minha vida, fruto de uma atitude que o acompanhou a vida inteira. Ele tinha o hábito de lavar o prato em que comia. (...) Depois de tanto tempo, fico pensando na mística que estava escondida naquele gesto. Lavar os pratos era um jeito que ele tinha de consertar o mundo. Herbert Viana tem um verso muito bonito em “Vamos Viver” que propõe: “Vamos consertar o mundo/Vamos começar lavando os pratos.” Meu pai aceitou a proposta, mesmo sem tê-la ouvido. (...) Talvez quisesse mostrar que, se cada um de seus oito filhos repetisse o gesto, minha mãe poderia descansar mais cedo depois das refeições.”

Chalita, sobre o luto:

(...) O luto necessário fortalece. O choro nos aproxima de quem somos, seres dotados de emoção. As janelas fechadas significam que a casa está sendo arrumada, que a sujeira está sendo limpa e que os enfeites estão encontrando o seu espaço para adornar e dar aconchego. Há o tempo da reforma e o tempo da inauguração. Em tempos de reforma, é melhor não trazer muita gente. A poeira pode dar uma impressão desagradável, as toalhas sobre as poltronas não são tão convidativas. Quando tudo estiver organizado, os convidados serão bem-vindos.”

Fábio de Melo:

“Nosso empenho precisa estar nisso. Fazer caber nas mãos o que queremos da vida.”

“(...)É isso que nos faz reconhecer, com Fernando Pessoa, que nada, absolutamente nada somos:

Não sou nada
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.

(...) Leiam de novo:

Não sou nada.
Nunca serei nada.

E quantas vezes forem necessárias. Leiam Pessoa os críticos de plantão, os fofoqueiros ou futriqueiros, como queiram. Leiam Pessoa os sujos, os que se emporcalham na avidez de emporcalhar os outros. Leiam Pessoa os que maltratam aqueles que servem. (...) Mas o poema continua. Se ficássemos apenas na negativa do que somos e do que seremos, negaríamos a própria razão da existência.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...) Depois de constatar que não somos nem nunca seremos nada, Pessoa nos alívia com a água fresca dos sonhos. Temos em nós todos os sonhos do mundo. E só temos porque primeiro nos esvaziamos. Antes de saber que os sonhos do mundo moram em nós, precisamos concluir que não somos nada.”


sexta-feira, 25 de abril de 2014

CAMINHAR

Imagens: ruas por onde caminho

Bem cedo ainda; a manhã ainda tenta desvencilhar-se dos dedos brancos e macios da neblina. Saio para caminhar pelas ruas silenciosas do meu bairro, as casas ainda fechadas, até chegar à Avenida Barão do Rio Branco - uma belíssima via petropolitana, ornada de árvores centenárias (algumas paineiras, quaresmeiras e ipês ainda coloridos pelo amarelo, roxo e rosa de suas flores), que liga o centro à Itaipava, Correas e outros bairros.

Passam poucos carros neste feriado. Vou caminhando, caminhando, e de repente, sinto que estou mais leve, os passos avançando mais macios, tendo seu impacto devolvido pelas solas dos tênis. Passarinhos e raios de sol brincam entre os galhos das árvores. Alguns madrugadores passam por mim, e trocamos "Bons dias." 

Do outro lado da pista - que é separada da pista onde caminho por um rio - passa um rapaz correndo. Ele não me vê. Está sem camisa, e traz um sorriso leve no rosto. Ao olhar para ele, penso: "Saúde, juventude, alegria!" Percebo que, como eu, ele está totalmente imerso naquela caminhada, naquele momento. Sua pele branca mistura-se aos últimos traços de neblina. Parece etéreo.

Aos poucos, vou deixando este mundo. É engraçado... parece que caminho entre dimensões. Num instante, estou completamente isolada, só, suspensa e inacessível a qualquer coisa desagradável: memórias tristes, maus pensamentos, problemas corriqueiros do dia a dia, cansaço. A caminhada flui como as águas de um rio manso.


No forro dos meus pensamentos, de repente surge-me um antigo mantra, que eu costumava recitar em minha juventude: "Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Hare Rama, Rare Rama, Rama Rama, Hare Hare." E ele começa a elevar-se, dominando a minha mente, enquanto os outros pensamentos vão ficando pequeninos... reparo apenas nas árvores e nas gotas de chuva que ainda estão penduradas nas folhas como pequenos diamantes, e nos raios de sol que quaram a neblina já quase totalmente dissipada pelo frescor da manhã. 

Quando dou por mim, estou no final da Avenida Barão do Rio Branco, e começo a fazer o caminho de volta, desta vez, caminhando mais rápido. Acho que são cerca de dez quilômetros, no total de minha caminhada, ida e volta. Encontro com outras pessoas - alguns vizinhos - que estão começando agora a mesma jornada. Mais "Bons dias" e acenos. Eu adoro isso!

Percebi que estou mais leve, tanto física quanto emocionalmente. Fisicamente, deixei para trás nessas caminhadas quase sete quilos em dois meses. Emocionalmente, tive ótimas ideias para preparação de minhas aulas, cuidados com minha casa, reflexões sobre vários assuntos e material para escrever meus textos.

Às vezes, quando tem feirinha, eu paro para comprar legumes e flores. Noutras vezes, passo na padaria ou no mercado para comprar alguma coisa que a casa precisa.

O sol agora está alto. Uma sexta-feira Santa ensolarada. Talvez Ele esteja querendo dizer que já é hora de deixar a tristeza para trás, celebrar mais a vida, esquecer o que foi pesado. Talvez Ele queira, finalmente, descer da cruz na qual o pregaram para dizer que está vivo, e que não há mais motivos para lamentar o que ocorreu há tantos e tantos anos. Mas os homens não esquecem, e não perdoam. 

Quem sabe Judas Iscariotes e Jesus estejam hoje sentados juntos à mesma mesa, tendo longas conversas?


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Rebrota o Gramado...






Após um longo período de seca - durante o qual vi meu gramado mirrar, criando grandes espaços de terra seca entre o verde - chegou a chuva. Confesso que houve momentos durante os quais pensei que ele jamais fosse recuperar-se!

Mas hoje, olho lá para fora e vejo que os pedaços escuros estão quase todos preenchidos, e que os verdes adquiriram um tom mais vivo. Chegou a chuva, rebrotou o meu gramado. Até as roseiras parecem ter adquirido uma nova força!

Estive pensando que nós somos assim também: temos nossos momentos de seca e desânimo, quando tudo na vida parece estagnar-se e, ao olharmos o horizonte, só enxergamos uma nuvem de poeira seca. Toda a esperança e fé na vida se vão, e achamos que nunca mais conseguiremos nos recuperar. Mas todo período de seca é entremeado por períodos de chuva, que trazem de volta a vida e a vontade de viver; basta esperar. Ter paciência.


Rochas e Árvores- A Importância de Viver




Do livro "A Importância de Viver", de Lin Yutang


"Não sei que vamos fazer agora. Estamos construindo casas quadradas, todas em fila, e temos ruas retas e sem árvores. Não há mais ruas tortas, nem casas velhas, nem poços nos jardins, e o raro jardim particular que acaso se vê nas cidades não passa de uma caricatura. Chegamos a separar a natureza de nossas vidas, e vivemos em casas sem telhados, pois o telhado é o que há de mais descuidado num edifício moderno, que é deixado de qualquer modo depois de preenchidos os requisitos utilitários, visto que o empreiteiro da construção já está cansado e com pressa de terminar seu trabalho. O edifício comum parece uma pilha de cubos de madeira construída por um menino displicente ou caprichoso que se cansa do brinquedo antes de havê-lo terminado, e deixa sua pilha sem concluir, sem coroar. O espírito da natureza abandonou o moderno homem civilizado, e parece que procuramos civilizar também as próprias árvores. Se acaso nos lembramos de colocá-las em uma avenida, costumamos numerá-las em série, desinfetá-las, cortá-las e podá-las para que assumam uma forma que os humanos considerem suficientemente bela."

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"Existe, pois o grande problema de recuperar a natureza e trazê-la de novo ao lar. É um problema exasperante. Que pode fazer alguém com o mais artístico dos temperamentos, quando vive em um apartamento , longe da terra? Como vai alguém ter um campo de relva, ou um poço, ou bosquezinho de bambus, mesmo que seja suficientemente rico para alugar um apartamento com terraço? Tudo está mal, absoluta e irrecuperavelmente mal. Que resta admirar, salvo os arranha-céus e fileiras de janelas iluminadas à noite? Ao contemplar estes arranha-céus e essas janelas iluminadas, todos se envaidecem com o poder da civilização humana, e se esquecem que mesquinhas criaturas são os seres humanos. Vejo-me forçado, pois, a abandonar o problema, porque desespero de encontrar-lhe a solução."
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"Quanto ao gosto pelas árvores, mais fácil de compreender é, está visto, universal. As casas sem árvores em redor estão nuas, como homens e mulheres sem roupas. A diferença entre as árvores e as casas está em que as casas são construídas, mas as árvores crescem, e tudo o que cresce é sempre mais belo que o que se constrói."

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"Digo que o espetáculo dos pinheiros é mais significativo artisticamente, porque representa silêncio, majestade e desprendimento da vida, coisas tão semelhantes à maneira de ser do solitário. Esse espetáculo é similar ao das rochas e ao dos velhos passeando à sombra, como seguidamente vemos nas pinturas chinesas. Quando se está debaixo de um pinheiro, tem-se ao olhá-lo a sensação de sua majestade, da sua austera velhice, da sua estranha paz e isolamento. Diz Lao-Tsé: "A natureza não fala." Nem fala o pinheiro. Ali permanece, silencioso e imperturbável; olha-nos da sua altura, pensando que viu crescerem tantas crianças e envelhecerem tantas pessoas. Como um velho sábio, compreende tudo, mas não fala. E nisso está o seu mistério e a sua grandeza."






terça-feira, 22 de abril de 2014

Vinho





Estenda a taça,
Beba do vinho
Bem encorpado
Que a vida serve
Enquanto passa!

Da uva, o doce,
Noutras, o amargo...
Ficam no fundo
Da mesma taça.

Algumas gotas
Bem perfumadas,
Sangue travoso,
Manchas de borra...

A vida serve
No mesmo copo
Todos os vinhos
-E esta é a graça!

Bebê-los todos,
Aproveitá-los
Pois são da vida,
Amaros, doces,
E avinagrados...




Água






Água boa, de mina

Limpa, cristalina

Que desce, em sussurros

Por entre as pedras

Lá na mata,

Sobre o limo,

Entre as folhas,

Sob as asas...




Água cheia de vida,

Gotas cheias de luz

Que cintilam ao sol

E refletem o céu,

E se jogam

Por inteiro

Nas cascatas...




Água purificada

Onde moram Ondinas

Sereias e Iaras

E botos rosados

Peixes falantes

De corpo nacarado

Que atraem

E afogam

Meus olhares...




Água, venha pelos canos,

Saia na minha torneira,

Encha copos e cântaros,

E escorra no alpendre

De minha casa,

No telhado

De duas águas...




segunda-feira, 21 de abril de 2014

Para alegrar o Dia








Almoço Experimental




O bacalhau não deixou-me dormir na noite de sábado para domingo. De vez em quando, acordava tendo-o em meus pensamentos, nadando para lá e para cá nas minhas imagens - que à noite, são sempre mais intensas. No dia seguinte, logo de manhãzinha, teria como tarefa preparar uma bacalhoada para a família, que viria almoçar no domingo de páscoa. Nunca havia feito este prato.

Bem, mas tinha a macarronada da Josie - uma de minhas convidadas - que poderia "salvar a pátria" caso algo desse errado. Detalhe: para ela,
aquela macarronada também seria experimental.

Acordei bem cedo na manhã de domingo, e após reunir todos os ingredientes, comecei a preparar a misteriosa bacalhoada; já tinha imprimido várias receitas pela internet, mas acabei optando pela mais tradicional, as camadas de bacalhau, pimentão, azeitona, batata, tomates e bastante azeite. E fiz uma panela imensa de arroz branco. Calculei mal a quantidade, e quando vi, o arroz transbordava panela afora... até parece que não passei quase trinta anos de minha vida preparando almoços e jantares! Mas não estou acostumada a cozinhar para tanta gente.

Bem, lá pelas dez da manhã, ficou tudo pronto, e achei que tinha acordado cedo demais... daí, preparei uma salada para servir de entrada. E por que não, um bolo de carne? Afinal, meu sobrinho não gosta de bacalhau. Mas ainda sobrou muito tempo, e fiz uma salada de frutas para a sobremesa: "Vai que a sobremesa experimental de chocolate de minha irmã não dê certo..." Para arrematar, acabei cozinhando também uma panela de feijão para a complementar o almoço do meu sobrinho (o feijão ficou lá, intocado, pois quem é que come feijão no almoço de páscoa?). 

Resultado: deu tudo certo! O bacalhau ficou muito bom, e todo mundo comeu e repetiu (menos o meu sobrinho, que ficou com o bolo de carne, que todo mundo adorou). O macarrão experimental da Josie também fez o maior sucesso, e a sobremesa de chocolate da minha irmã foi a chave de ouro. Todo mundo comeu de tudo. Uma tarde de orgia gastronômica e pratos que não combinavam entre si, mas que agradavam a todos os gostos. Minha sala de almoço parecia um bufê de restaurante à quilo.

Sobrou o pote inteiro de salada de frutas. Quem come salada de frutas quando se tem sorvete e uma sobremesa cremosa de chocolate? Ai, ai... a salada de frutas vai virar uma vitamina hoje. 

A Josie ainda levou macarrão de volta para casa, e minha irmã Dal, um pote de arroz cheinho. Afinal, aqui em casa só tem duas pessoas, e o que faríamos com aquela comida toda? Mas o que importa, é que todo mundo se divertiu, e a Páscoa foi muito boa. Agora, é caminhar e fechar a boca para não recuperar os quilos que arduamente perdi...




sábado, 19 de abril de 2014

Feliz Páscoa





Sempre gostei mais da Páscoa do que do Natal, embora também goste muito do segundo. Mas a Páscoa parece-me uma data mais reflexiva, e também, um pouco menos comercial. A morte, a ressurreição... o erguer-se da escuridão e ascender em direção à luz. Acho o simbolismo muito bonito.

A Páscoa também me traz lindas lembranças da infância, e creio que o mesmo se dê com a maioria das pessoas. Espero que nesta Páscoa todos possamos filtrar apenas o que for bom para dentro de nossas casas. Que fiquem as lembranças alegres de quem se foi, e que a presença de quem está à nossa mesa seja desfrutada plenamente.

A todos da blogesfera, meus mais sinceros votos de uma Feliz Páscoa, inesquecível e muito farta e reflexiva.


sexta-feira, 18 de abril de 2014

De Manhã





Acordar, tomar banho e aprontar-me para receber meus primeiros alunos. Antes, há pequenos rituais: chegar até a varanda do segundo andar e olhar o tempo, nem que seja por um ou dois minutos. Há um pássaro que sempre pousa no galho mais alto, na pontinha de um pinheiro. A neblina ainda se desfaz no cume das montanhas, chova ou faça sol. Digo uma pequena prece de agradecimento e peço proteção para começar o dia. Penso nos meus mortos e nos meus vivos. Quero que o dia que começa seja melhor do que o anterior, para mim e para eles.

 Depois, desço para preparar o café da manhã, brincar com minha cadelinha, abrir as janelas e portas... às vezes, um incenso. Às vezes, escrevo.

Às sete ou oito horas da manhã,  toca a campainha: meu primeiro aluno. Gosto de trabalhar em casa. 

Quando eles vão embora, faço uma caminhada de uma hora, quando não está chovendo. Após o almoço, a tarde voa... cuido de algumas tarefas caseiras. Escrevo e leio. Preparo as aulas do comecinho da noite, que terminam às oito ou nove horas. Quando sai o último aluno, eu e meu marido vamos caminhar com nossa cadela. Depois, jantar, assistir um pouco de TV e descansar para o dia seguinte.

Eu gosto da minha rotina. Meu dia passa rápido, a semana corre... acho que as pequenas tarefas do dia dão-nos dimensão e perspectiva. Executá-las ajuda-me a estar ciente do meu lugar neste mundo. É um lugar pequeno, mas me cabe inteira.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

A Sagração da Vida






Trechos de Hahavira Vardhamana, o Jina -  Ser Iluminado (século VI a.C)


A Sagração da Vida



És aquele que pretendes matar,
És aquele que pretendes tornar submisso.

A origem da violência está na falta de vigilância e no apego aos objetos dos sentidos.

A vida humana é muito difícil de se obter. Mas como uma folha seca, vive pouco tempo. Assim é a vida do homem.

Primeiro o conhecimento, depois a compaixão. Que pode fazer uma pessoa ignorante, que não distingue o bem do mal?

Deve-se andar atentamente, parar atentamente e dormir atentamente, comendo atentamente, falando atentamente e, dessa forma, não se deixar afetar por atos nocivos.

Um homem pode conquistar milhares de valentes inimigos, mas sua vitória será mais grandiosa se conquistar seu próprio eu.

Tornar-se digno de si mesmo: eis uma boa meta para qualquer homem.


Pérolas e Pedras




Das pérolas, faço um colar,
E das pedras, um caminho.
Jogo o que sobra no ar
Aos porcos e aos passarinhos.

E é com a mesma alegria
E com o mesmo prazer,
Pois a voz da poesia
É de quem a escolher.



terça-feira, 15 de abril de 2014

Um Texto de Marla de Queiroz, publicado em Mundo de Frida





Sobre a Perversidade


O perigo da perversidade é que ela é muito sutil. Um ser perverso jamais te atacará diretamente. Ele vai saborear cada silêncio calculado para despertar sua agonia. Ele vai tentar tolher seus lugares íntimos até que não reste qualquer espaço para manobras. Ele vai te seduzir da maneira mais irresistível e depois te tratar com um descaso inexplicável, como se algo de errado tivesse acontecido, mas sem te dar quaisquer indícios do que possa ter acontecido. Ele será carismático com os outros, prestativo, mas demonstrará impaciência em responder à sua mais simples pergunta. Ele vai oscilar entre o tesão e a indiferença. Você se sentirá desejada quando o sufoco tiver tomado toda a sua alma e, totalmente desamparada quando o desejo demonstrado parecer esvaído nos primeiros suspiros da manhã. E o dia seguinte se tornará um longo e agonizante ano. Ele parecerá espirituoso, depois irônico, mas estará sendo absurdamente crítico e sarcástico. E te deixará tão confusa que você, por momentos, não saberá identificar a crueldade que há neste tipo de comportamento. Os perversos são viciados em jogos de poder e controle. Não sabem o porquê. Simplesmente precisam tentar te destituir da sua autoconfiança e autoestima até que você se torne refém, dependente, à beira do desespero.
É muito difícil identificar um ser perverso e, depois se livrar dele. Ele te tratará com uma bipolaridade emocional absoluta. E quando tudo parecer perdido, quando você tiver decidido de maneira explícita sua escolha por um afastamento ou desligamento da relação, ele te rondará da maneira mais amorosa possível tentando te convencer que a falta de sintonia anterior era um problema seu.
O perigo da perversidade é porque ela é muito sutil. E o único antídoto para se curar de uma relação doentia como esta é reunir toda a coragem que você jamais imaginou ter e partir com toda a convicção de que você não precisa continuar neste campo minado. Você pode escolher um lugar de paz. Você pode não ser presa de um predador voraz. Você não precisa se vestir de sangue para alimentar estes vampiros.
Esteja atenta. O perverso sempre parecerá um ser inofensivo e carismático. Com os outros. Apenas com os outros. E isto te deixará com uma imensa vontade de conquistar aquilo que ele fará questão de demonstrar que não está disponível para você. 
Só para os outros.

(Marla de Queiroz)

Gentilmente cedido pelo blog






segunda-feira, 14 de abril de 2014

Coisas Um Tanto Estranhas que me Acontecem



Fatos reais; tive a ideia de escrever sobre essas coisas após um post no blog da amiga Ivone- Levitar em Brancas Nuvens- , que li há alguns dias.


Quem nunca viveu alguma coisa inexplicável, algo que todos consideram fantástico ou sobrenatural? A maioria das pessoas já passou por coisas assim, mas prefere calar, pois teme a incompreensão e o escárnio dos descrentes. Por este motivo, estes pequenos milagres cotidianos acabam ficando perdidos na estrada da nossa história, desvalorizados, morrendo de sede no meio da pista... e quando não sabemos valorizá-los ou escutá-los, eles vão se tornando cada vez mais raros, até desaparecerem por completo; é como alguém que bate insistentemente à uma porta, mas como ninguém vem abrir, acaba desistindo e indo embora.

Minha vida, assim como a vida de muita gente, está salpicada por estes fatos considerados 'sobrenaturais' - mas que eu considero apenas percepções normais que todo mundo tem, mas alguns não dão atenção ou importância.

Lembro-me de quando meu pai faleceu, quando eu tinha 22 anos; meses antes, eu tivera um sonho com um homem acompanhado de um menino que vinha à minha casa; ele me dizia que em breve, eu perderia alguém da família. Depois que meu pai morreu, quando eu sonhava com ele, aparecia-me sempre acompanhado por este homem ou pelo menino - ou ambos. Em um dos sonhos, vi meu pai subindo os degraus da casa, cansado (ele sofria do coração, e antes de morrer, precisava parar várias vezes para descansar quando subia escadas). Perguntei-lhe o que estava fazendo ali, e ele me respondeu que estava visitando; perguntei-lhe: "Mas se você está morto, como pode estar cansado?" O homem que o acompanhava respondeu minha pergunta: "Ele não está mais nesta vida, mas continua sendo a mesma pessoa, com as mesmas manias que sempre teve."

Meu avô também sempre me aparecia em sonhos acompanhado de um menino. Certa noite, sonhei que batiam à porta da sala, e era ele. Eu estava um pouco assustada, pois abrir a porta ao avô morto há anos não é um fato corriqueiro. Mas ele chegou como sempre fazia; sentou-se à mesa da cozinha, e eu, criança de novo, sentei-me ao colo dele. Ele me perguntou se estava tudo bem e se precisávamos de alguma coisa. Respondi:"Está tudo bem. A única coisa que precisamos, é do inventário da casa pronto. Já faz dez anos que começamos." Ele ficou pensativo, e decretou que cuidaria daquilo. Uma semana depois - após dez anos tentando finalizar o inventário - o advogado chamou minha mãe ao seu escritório, e pedindo mil desculpas pela demora, entregou a ela o inventário pronto. Coincidência?...

A morte de minha mãe também foi cheia de eventos e sonhos que a precederam, como já narrei aqui neste blog. E o pior ano de minha vida deu-se após  um sonho com um eclipse solar, onde eu abria o portão da casa a um misterioso estranho, que no sonho pensei tratar-se de algum aluno do qual não me lembrava bem - um rapaz alto e negro - e imediatamente, o dia escurecia. Eu perguntei a ele se era um eclipse, e ele respondeu: "Não; é o fim do mundo." Os eventos que se seguiram foram terríveis, e duraram um bom tempo.

Por incrível que pareça, às vezes aparece um besouro grande, de antenas longas e enormes, que emite um chiado horrível. Ele tem asas listradas, e gosta de serrar com o ferrão galhos finos de árvores. Tenho pavor deste bicho, pois quando ele aparece, sempre morre alguém.

A maioria das coisas estranhas que me vem, vem através de sonhos. Mas às vezes, também há alguns pressentimentos, que se confirmam ou não. Às vezes eu digo coisas para as pessoas que eu não sei de onde eu tiro; elas simplesmente vem à minha cabeça. Imediatamente após dizê-las, eu me arrependo. Acho que é muita irresponsabilidade afirmar coisas assim sobre as pessoas! Mas ao mesmo tempo, eu sinto que se eu digo, é porque elas precisam saber. Certa vez, disse a uma amiga,  que acabara de perder o emprego que ela seria readmitida; eu não queria falar aquilo, mas 'saiu...' ela me olhou de um jeito estranho, dizendo que era impossível, pois já tinha assinado a demissão. Logo no dia seguinte à noite, ela disse que a diretoria chamou-a e deu-lhe o emprego de volta.

Às vezes, quando converso com uma pessoa pela primeira vez, sinto uma atração ou repulsa imediatas. Não é sempre, mas quando acontece e eu ignoro, algo importante (muito bom ou muito ruim) acaba acontecendo entre aquela pessoa e eu, dependendo se o sentimento é de antipatia ou simpatia. O problema, é que eu nem sempre levo meus instintos em consideração...

 Dois anos antes de ficar sabendo da doença de meu sobrinho Ricardo - um câncer que o levou em um ano - chegou-me um aluno, também chamado Ricardo, que sofria de um tumor cerebral inoperável. Era sempre emocionante estar perto dele. Certa vez, após uma chuva, olhamos para a vidraça da janela e havia dezenas de pirilampos pousados nela. Interrompemos a aula, e fomos olhar para eles mais de perto. Eles piscavam suas luzes verdes... foi um momento mágico...

 Nós conversávamos muito sobre viver e morrer. Já no finalzinho, pouco antes de ele parar de vir às aulas, telefonou-me dizendo que tinha se casado e estava muito feliz. Uma semana depois, ele morreu. Eu ficava pensando: "Por que comigo? O que fez com que este rapaz procurasse logo a mim para ser sua professora? O que faz um paciente terminal desejar aprender inglês?" Durante sua missa de sétimo dia, a mãe dele me disse que eu tinha sido muito importante para ele, e que nossas conversas ajudaram-no muito. Anos depois, durante a doença do meu sobrinho, lembrei-me daquele outro Ricardo, e achei que tudo tinha sido uma preparação...

Às vezes eu fico sentada lá fora no jardim, pensando em todas essas coisas. Nessas horas, acredito que há mesmo um motivo para tudo o que acontece, uma sequência de eventos, e que nada ou muito pouco em nossas vidas é aleatório. Mas a rotina me leva de volta à roda viva dos eventos planejados, onde não há ligações cármicas ou momentos mágicos e inexplicáveis; a vida "real", onde cada um precisa trabalhar para sobreviver e agarrar-se a qualquer coisa que pareça mais sólida. Daí, acho que passou.

Até que acontece de novo.


CHOCOLATE






Só a pronúncia, o som da palavra “chocolate” faz a minha boca encher-se d’água. Acho que o chocolate foi algo que Deus inventou para que a vida tivesse mais sentido, mesmo nas horas ruins – aquelas, em que nos sentamos em frente à TV com uma caixa de bombons, querendo que o mundo acabe em... chocolate!
Segundo a Wikipedia, os mais antigos vestígios da plantação de cacau (planta que dá origem ao chocolate como o conhecemos) datam de 1100 a 1400 Antes de Cristo, em Honduras. Há também vestígios encontrados em uma peça de cerâmica Maia que mostra que o chocolate era utilizado como bebida no ano 400 Depois de Cristo. Os espanhóis descobriram sua utilização em 1585, após conquistarem (e dizimarem) o Império Asteca. 

No século XVII, além de ser consumido como bebida, ele passou a ser também consumido como doce... que ideia maravilhosa! Os portugueses trouxeram-no para o Brasil.  Ainda bem! 

Na Páscoa, o chocolate tornou-se uma tradição, embora alguns achem que o ato de presentear crianças e adultos com chocolates nesta época seja apenas um evento comercial e sem sentido. Antigamente, na Idade Média, povos pagãos Europeus presenteavam uns aos outros com ovos de galinha pintados com sumos coloridos por ervas. Era uma homenagem à festa da Primavera, um ritual de fertilidade. Mais tarde, este hábito foi incorporado pelos nobres, que passaram a presentear uns aos outros na Páscoa com ovos de ouro cravejados de pedras preciosas. 
O primeiro povo a fabricar ovos de chocolate foram os franceses. Isto ocorreu apenas duzentos anos após a conquista dos Astecas pelos espanhóis.

O chocolate, quando consumido em doses moderadas, é muito benéfico à saúde, pois contém vitaminas do complexo B, manganês, potássio e magnésio. Os médicos indicam que o melhor chocolate é o amargo, ou meio-amargo, que contém 70 a 80 por cento de cacau. Bem, eu particularmente prefiro o chocolate ao leite.
Dizem até que o chocolate pode ajudar a combater o câncer de intestino, devido às suas propriedades antioxidantes. Ele pode melhorar o fluxo arterial e prevenir problemas de coração. Hoje em dia, o chocolate é usado até mesmo na estética! Há máscaras de chocolate para o rosto e escovas de chocolate para os cabelos. 
Mas para mim, o que mais importa é o prazer que eu sinto ao comer uma barra de chocolate ou bombom... ah, aquele pedacinho de perdição despertando o olfato, derretendo no céu da boca e Espalhando-se pela língua, tingindo os dentes de marrom e escorregando devagar pela garganta!... Seja comercial ou não, não consigo dispensar chocolates na Páscoa.

Certa vez conheci alguém que não gostava de chocolate. Dizia que jamais o comia, pois não gostava do sabor. Esta pessoa também não gostava de animais ou de música. Conclusão: não era muito normal...

Lembro-me de uma professora de Educação Artística que tive aos onze anos; certa vez, pediu-nos que levássemos para a sala de aula uma barra de chocolate para que pudéssemos fazer uma experiência gustativa; ela afirmou que, após aquela experiência, alguns de nós talvez deixássemos de gostar de chocolate. Ela mandou-nos colocar na boca, sem mastigar, um pequeno pedaço de chocolate, e de olhos fechados, seguíamos sua instrução de levar o pedacinho a diversos cantos da língua, sentindo o sabor. Ficamos assim durante alguns minutos. Se eu passei a gostar menos de chocolate depois daquilo? Pelo contrário; passei a gostar ainda mais, assim como a maioria de meus colegas.

Algumas de minhas melhores memórias de infância estão associadas ao chocolate: acordar na manhã de Páscoa com os gritos de minha mãe: “Ana, corre, vem ver o coelhinho!” É claro que eu sempre acordava e pulava da cama quando ele já tinha ido embora; mas no ninho, confeccionado em uma caixa de sapatos e enfeitado com papel de seda colorido e flores de quaresmeira, havia sempre um ovo de chocolate e bombons. Doces memórias!

Minha mãe nunca soube explicar-nos como o coelho conseguia por ovos – ainda mais de chocolate. Mas isto faz parte da magia.



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Inspirada por um comentário de paulo Bratz a um de meus posts, que fala sobre um aparelho de som que comprei na Black Friday,...