sexta-feira, 29 de novembro de 2013

LAVA




A lava escorria pela encosta da montanha,
Quente, crepitante, de fogo e de lama,
Lânguida descia, queimando no caminho
-Tudo o que tocava: flores, relva, ninhos...

A lava sem perdão buscava redenção,
Nascida do vômito daquela montanha...
Que sem piedade, sem qualquer vergonha,
Eruptava enxofre, lama e peçonha!

Mas a mãe natureza aguardava tranquila
Pois tinha a ciência de quem jamais medra...
Sabia que a lava fogosa nas trilhas
Ao frio da manhã, transformava-se em pedra.

E as flores rebrotavam, a relva crescia,
Voltavam os pássaros, cantos, e ninhos...
A paz renascia, e por sobre a fria pedra
Abriam-se fortes e novos caminhos.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O que Não Tem Preço





Há alguns minutos, eu me enxugava do banho quando a campainha tocou. Acabei de me vestir correndo, e ainda de chinelos de pompom, abri à porta a uma senhora que identificou-se como mãe de meu ex-aluno Augusto, que deixou o curso esta semana porque encontrou um emprego.

Ela me abraçou chorando, entregando-me estas lindas orquídeas da foto e me agradeceu pelo que fiz pelo filho dela. Não acho que eu tenha feito muito, embora eu sempre faça meu trabalho  com  carinho, visando sempre o melhor para meus alunos.  A recompensa que recebi não tem preço. Está em algo além desta linda flor.

Eu é quem agradeço a você, e a todos os meus alunos!


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Algumas Coisas




Algumas coisas nos entram pelos ouvidos,
Fazendo volteios pelos caminhos curvos
Do pensamento.
Os sentidos vão, aos poucos, se criando,
Se mostrando, em gritos sustenidos
Sustentados gritos em elevação.

Outras coisas, nos entram pelos olhos,
Causam-nos escândalo, ferem as pupilas,
Arranham as meninas.
Estas coisas ficam nas retinas,
Impedem o sono nas noites escuras,
Seguram, nas unhas, o amanhecer.

Ah, mas tudo isto faz parte, tudo é viver!
E é melhor senti-las a não ter sentidos,
E a dor sempre virá amarrada ao prazer,
Pois isto é viver, sim, isto é viver!...




segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Felix o que é de Felix






Felix - personagem magistralmente interpretado pelo ator Matheus Solano - tem sido o alvo de muitas análises psicológicas, críticas, simpatias e antipatias. Ninguém negaria sua maldade; mas será que toda  maldade é inata? 

Seu charme é irresistível; sua maldade, quase sempre, explícita. Um personagem que, talvez por ter sido vítima de preconceito durante toda a sua vida, exerce uma tirania preconceituosa contra todos que ele considera estar em posição inferior a dele na escala social.




Uma criança que cresce sem ser aceita pelo pai - a quem passa a vida tentando impressionar, tentando ser amado, valorizando cada olhar e cada migalha de atenção - e que tem o apoio incondicional da mãe em virtualmente qualquer situação, poderá tornar-se um adulto equilibrado? Alguém que teve sua sexualidade reprimida, sendo tratado como um anormal, obrigado a casar-se com uma mulher e ter um filho a fim de salvar as aparências e garantir uma pequena réstia de admiração paterna, poderia ter se tornado alguém amoroso?





As pessoas são diferentes; em muitas situações, vemos rosas crescendo no meio do lamaçal, e espinhos horrorosos nos melhores e mais bem cuidados jardins; mas na situação de Felix, o que eu enxergo é uma criança que cresceu em um jardim de flores falsas e podres. Tudo em sua vida é uma mentira: o casamento dos pais, a origem da irmã, a filiação de seu suposto filho - que mais tarde, ele descobriu ser seu meio-irmão, e seu casamento falso com uma prostituta contratada pelo próprio pai. Todos lindos, bem vestidos e perfumados, mas cheios de podridão e falsidade por dentro. Acho que Felix teve poucas chances de tornar-se alguém melhor. Sua maldade reprimida, quando vinha à tona, era imediatamente sublimada pela mãe, que passava panos quentes sobre tudo o que ele fazia, desde que não fosse ela mesma a atingida.



Assim, Felix cresceu sem princípios e sem limites.

O pior veio à tona - agora que todos descobriram que ele cometeu o imperdoável, o ato mais abominável, cujos praticantes são execrados até mesmo entre seus iguais criminosos em prisões e reformatórios: um quase infanticídio contra a própria sobrinha - sua mãe vira-lhe as costas. Aquela que era seu único porto seguro, a única pessoa a quem ele realmente amava, e que poderia ter alguma chance de modificar-lhe ao menos um pouquinho o caráter, deixa-o sozinho em um mundo no qual ele não foi preparado para viver. Este abandono, além de irresponsável, não seria também um ato cruel?



Qual será o final de Felix? O que ele fez merece perdão? Acredito que o autor preparou para ele o final que ele merece: alguma coisa bem infeliz, como a prisão, a loucura ou a morte. E embora o Felix-personagem seja punido no final, existem na vida real centenas de milhares de Felix que talvez jamais conheçam o sabor da punição. E eles nem são tão bonitos e charmosos.


Acho que entre todos os crimes que Felix cometeu, o segundo pior deles foi o de ter passado toda a sua vida tentando impressionar alguém que sempre o desprezou. Com certeza, poderia ter sido muito feliz se tivesse virado as costas ao pai, como este fez com ele.



domingo, 24 de novembro de 2013

Para Lembrar de Mim





Se quiseres recordar-me,
Procure um canto vazio,
Escute o silêncio, escute...
Por favor, não diga nada,
Aquiete teu pensamento...
Permaneça sem palavras
E te chegarei no vento.

Um cantinho de jardim
Numa tarde avermelhada,
Capim verdinho brotando
Na beira de alguma estrada,
Barulho de água de rio,
Latido de algum cachorrinho,
Se quiseres recordar-me,
Basta ficares sozinho...

Quem sabe, um céu estrelado,
Ou nos anéis em arco-íris
Que circundam a lua cheia
Em noite quente de seca?...
Talvez, na poça de água
Que reflete as nuvens negras
No cimento da calçada...
Se quiseres recordar-me,
Basta não dizeres nada!

Se quiseres recordar-me
Na essência do que sou,
Leia sempre poesias,
Pois é nelas que eu estou!
E  em contos e histórias,
Crônicas e pensamentos...
Porém,  mais do que nas letras,
Eu estarei no silêncio.








sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Aquilo que Tocas





Pensas, com orgulho, que tu me decifras,
Como se eu fosse a frágil rosa em jardim sórdido,
Que achas - despetalas entre os dedos mórbidos...

Ah, como te enganas com tuas armadilhas,
Eu estou além da trama que dedilhas,
E que esticas sempre, tentando me reter!

Mas se te divertes, assim, eu o permito,
Melhor teu verso torto, que teu agudo grito
Qual o rito de quem nada tem de útil a dizer!

Queres que eu morra, mas Deus é quem decide,
Enquanto isso, eu vivo, e passo, e tu denigres
O que jamais, em vida, hás de compreender...

E aquilo que tu pensas transformar em podre,
E jorra da tua boca, e cai em torpe odre,
No fundo, é intocável, e gargalha de ti...

E é essa a tua raiva; a de não seres, enfim,
Nada que tu possas associar a mim,
Insignificância - és tu, a debater-se...



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A Rosa Amarela - Conto








A ROSA AMARELA



Era uma vez uma rosa amarela. Nada de especial, em ser uma rosa amarela, já que há muitas por aí... e existem vários tons de amarelo: claros, escuros, alaranjados... amarelos como o sol, iluminados, ou amarelos pálidos e sem vida. Mas no fundo, todos os amarelos são amarelos.



Mas voltemos à nossa rosa amarela: ela tinha sido plantada por um habilidoso jardineiro em um lindo jardim, onde havia várias outras espécies de rosas e de flores. Cada uma mais linda que a outra, em cores e perfumes tão variados, que ficaria muito difícil elaborar uma lista. Cada espécie ficava em um canteiro diferente, e os canteiros eram muitos, muitos... havia canteiros de margaridas brancas, monsenhores brancos e monsenhores amarelos, papoulas vermelhas, roxas e amrelas, lírios brancos e lírios amarelos, agapantos roxos, miosótis azuis, violetas lilases e violetas cor de rosa, enfim, cada flor com suas iguais. Mas a nossa rosa amarela – a especial, que dá título a esta história – tinha sido plantada pelo jardineiro bem no meio de um canteiro de rosas vermelhas. E eram lindas rosas vermelhas! Suas pétalas pareciam aveludadas.



A rosa amarela, que havia sido plantada mais tarde, nunca tinha se dado conta de que era diferente, e viveu feliz até que seus botões começaram a abrir-se. Imediatamente, as rosas vermelhas passaram a evitá-la; não viam que elas mesmas também tinham lindos botões vermelhos que se abriam ao mesmo sol e ao mesmo vento. Achavam que a rosa amarela era diferente, atrevida (como ousava espalhar sua luz amarela em um jardim onde só havia vermelho?), e assim, as rosas vermelhas passaram a comentar que a rosa amarela era muito esquisita, orgulhosa e estranha.



A rosa amarela bem que percebia que havia alguma coisa errada, pois quando ela florescia, as outras rosas não vinham correndo para dizer o quanto seus botões eram bonitos, como elas faziam entre elas. Mas quando as rosas vermelhas floresciam, a amarela estava sempre lá, dando uma força, elogiando a beleza e o perfume das rosas, e desejando que cada vez mais rosas vermelhas se abrissem. 



Mas quando a rosa amarela preparava um novo botão, imediatamente as vermelhas começavam a dizer o quanto ele parecia pequeno e pálido, ou que havia alguma coisa errada com o perfume. Isto, quando elas sequer diziam alguma coisa. 



Mas um dia, a rosa amarela sentiu vontade de abrir um botão bem bonito, grande, de cores e perfume bem fortes. Quem sabe, assim agradasse as rosas vermelhas? E ela passou bastante tempo tentando fazer exatamente aquilo: agradar as rosas vermelhas. Mas não obteve sucesso: era sempre censurada e deixada de lado pelas suas irmãs rosas. Por mais que fizesse, estava sempre errada, e era sempre inadequada.



Certo dia, a rosa amarela decidiu que ia tentar ser vermelha. Queria ser igual às outras, pois desejava ser aceita no grupo. Começou a observar os outros canteiros, e percebeu que as papoulas vermelhas recebiam um adubo diferente. Quem sabe, se ela se alimentasse dele, não ficasse vermelha também? Assim pensando, esticou suas raízes aos poucos (embora o esforço fosse dolorido e incômodo, pois não era natural) e conseguiu que uma das extremidades alcançasse o canteiro de papoulas vermelhas. Com o tempo, ela percebeu que seus novos botões iam ganhando um novo colorido, que primeiramente, apresentou-se em ranhuras vermelhas entre o amarelo de suas pétalas, e depois, as ranhuras foram ficando cada vez mais espessas até cobrirem seus botões de um vermelho doentio.



Vendo seu esforço para agradá-las, as rosas vermelhas tornaram-se mais condescendentes (mas no fundo, sabiam que a rosa amarela era uma rosa amarela, e não a aceitavam de verdade). E a rosa amarela passou a dar flores vermelhas, mesmo sentindo muita dor, apenas para agradar às outras. E sangue escorria de suas pétalas a cada novo botão. Seu caule, antes uma haste firme e reta que crescia em direção ao sol, envergou-se para o lado do canteiro de papoulas, tornando-se retorcido. Assim, ela diminuiu de tamanho, o que deixou as rosas vermelhas ainda mais satisfeitas.



Um dia, o jardineiro ia passando, quando a rosa amarela o abordou, dizendo:



-Você cometeu um erro! Me fez nascer amarela no meio de um canteiro de rosas vermelhas que jamais me aceitaram como sou! Veja só, olhe para mim! Tenho me sacrificado durante anos tentando ser vermelha como elas, e acabei ficando atrofiada. 



O jardineiro ficou triste, e respondeu:



-Minha filha, plantei-a no meio do canteiro de rosas vermelhas porque eu queria que você se sentisse especial; ao mesmo tempo, eu quis dar a elas um presente. Quis colocar entre elas uma rosa diferente, através da qual elas pudessem aprender coisas novas, e ensinar a você o que elas mesmas já tinham aprendido. Mas vejo que elas não souberam desfrutar da sorte de possuírem uma flor diferente crescendo entre elas, e não ficaram agradecidas. E também percebo que você não é feliz, tentando ser o que não é... elas nada aprenderam, e nem você.



-Tudo o que eu queria, é ter nascido rosa vermelha, para ser igual às outras e sentir-me aceita por elas!



-Bem, agora é tarde para isso... mas veja, minha flor: você teve uma oportunidade única, de tornar-se uma rosa especial entre elas!



-E elas me odeiam por isso! Me desprezam, e não me incluem em suas atividades. Nem mesmo depois que consegui tornar-me vermelha.



O jardineiro deu um profundo suspiro, e olhou o jardim de rosas. Pensou no quanto as rosas vermelhas tinham sido cegas, egoístas e injustas com a rosa amarela. Sentiu que elas, na verdade, eram rosas preconceituosas e cheias de inveja e ressentimentos. Não sabiam desfrutar uma beleza diferente delas mesmas, e nada tinham aprendido ou ensinado através daquela convivência. A rosa amarela, por sua vez, envergonhara-se de sua beleza diferente e especial, e ao invés de crescer em sua plenitude, aceitando a si mesma e valorizando as próprias qualidades, tornara-se retorcida e pequena tentando ser o que não era apenas para agradar as outras rosas. Sendo assim, o jardineiro tomou uma decisão:



-Querida rosa amarela, vejo que vocês ainda não estão prontas para florescer com plenitude nos jardins do céu. Mas seu tempo nesta terra ainda não terminou, e assim, resta-lhe uma alternativa: posso transplantá-la para um novo canteiro.



-Seria bom... 



-Mas todos os outros canteiros estão completos, e então, você teria que aceitar a solidão. Você viverá em um canteiro onde será a única rosa, sozinha para o resto de sua vida. O que você prefere: continuar vivendo neste canteiro, tentando ser rosa vermelha ou aceitando ser rosa amarela, mas na companhia das outras rosas que nunca aprenderam a amá-la e aceitá-la, ou ser replantada em um novo canteiro solitário?



A rosa pensou, e pensou... olhou para suas companheiras, que continuavam a ignorá-la. Ponderou bastante antes de tomar uma decisão: não conseguiria mais tentar ser como não era, pois a dor de tal esforço já a estava sufocando. Se voltasse a crescer e retomasse sua cor, ali onde estava, as outras rosas passariam a novamente perturbá-la e recriminá-la como antes. Muito triste, ela precisou comunicar ao jardineiro a decisão mais difícil de sua vida: ser transplantada para o jardim solitário. 



Quando o grande dia chegou, as rosas vermelhas acharam estranho aquele movimento todo, de pás, carrinhos com adubo e transplantes, e mais uma vez, reclamaram da decisão tomada pela rosa amarela, que passou a ser o assunto de todas as conversas; elas diziam o quanto ela era mal-agradecida e orgulhosa, e que ela se achava melhor que as vermelhas, e que elas estiveram sempre certas: a rosa amarela era mesmo estranha, orgulhosa e anormal, pois preferia a solidão a conviver com rosas tão maravilhosas quanto elas. 



A rosa amarela ouvia tudo aquilo, e entristecia... Do seu jardim solitário, ela observava as atividades das rosas vermelhas – que faziam questão de serem bem ruidosas em suas risadas, a fim de que a rosa amarela as ouvisse e se sentisse triste e humilhada. Mas aos poucos, as rosas vermelhas percebiam que o espaço antes ocupado pela rosa amarela deixava um feio buraco escuro bem no meio do canteiro. E nada jamais cresceria ali, pois era o espaço que deveria estar sendo ocupado pela rosa amarela. Mesmo assim, elas fingiam nada perceber.



Enquanto isso, a rosa amarela, aos poucos, passou a contentar-se em viver só; logo, seu caule tornou-se novamente ereto, forte e alto, e suas flores, amarelas como o sol. Sozinha no meio de um canteiro, ela passou a ser mais feliz, pois podia, finalmente, ser o que havia nascido para ser: uma rosa amarela.





O jardineiro a tudo observava, e lamentava profundamente, pois nada daquilo tinha feito parte dos seus planos. Mesmo assim, compreendia a decisão da rosa amarela. E já preparava, para o futuro, um novo jardim onde todas as rosas voltariam a viver juntas novamente; quem sabe, numa outra vida, elas pudessem evoluir?



Paraíso





O que é um paraíso
Sempiterno,
Quando os anjos perdem as asas
E queimam juntos
Nas brasas do inferno?

De que me valem
Esta paisagem, 
Esta miragem,
Se me faltam as nuvens,
Se me falta a aragem?

Amanheço tarde,
Tarde demais,
Na hora exata
Em que tudo escurece...




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

HOUVE UM DIA




Houve um dia
Em que nossos olhares se cruzavam
Com inocência e alegria.
Estar presente era vital,
Essencial
E não estar, inconcebível...

Houve um tempo
Em que não existiam
Essa distância,
Essa falta de esperança,
Essa impaciência
Nada santa...

Hoje, esse riso sofrível,
Esse olhar atravessado,
Essa boca sussurrante
A gritar
Que nada, jamais, 
Será como antes,

Pois quando o brilho é ofuscado,
Morre tudo aquilo
Que tinha valor
E que deveria ter sido guardado!

Morrem os dias, as manhãs,
Morrem o respeito, as lembranças, 
Quebram-se as alianças,
E tudo é recoberto
(Sem o menor apelo)
Por uma densa camada intransponível
De puro gelo,
Para o qual não há verão...

E nem veremos mais a mesma velha união,
Desde que a distância se criou
(Ou foi criada?)
Causando uma bifurcação na estrada
Que leva a caminhos divergentes,
Cada vez mais distantes...

E a cada dia,
Estamos mais descontentes,
Somos menos gente,
Mas mantemos o sorriso e a indiferença,
Para que o outro não perceba
Que no fundo, nós ligamos.

-Afinal,
É preciso ser forte,
Ser frio, ser indiferente,
Até que mais alguém morra,
Pois só mesmo a morte
Para nos lembrar de tudo
Que realmente é importante...




sábado, 16 de novembro de 2013

As Melhores Fotos que Jamais Tirei





Há uma casinha de madeira pendurada em minha varanda, e todo ano um casal de cambaxirras vem fazer seu ninho ali. Após algumas reformas, colocam seus ovinhos e dias depois ouço o chilrear baixinho dos filhotes. Os dois pais revezam-se o dia todo trazendo comida. Decidi que desta vez eu fotografaria o evento, já que não é possível fotografar os filhotes - os pais construíram uma barreira de galhos na entrada redonda da casinha. Sempre vou deixando para depois, ou então estou ocupada demais para ficar de plantão diante da casinha... Mas naquele dia, decido que este ano terei a tão planejada foto: Pego a câmera e fico parada ali perto durante algumas horas, até que finalmente a mamãe surge na portinhola da casinha, vinda de algum lugar do jardim, segurando uma pequena minhoca no bico. Prendo a respiração, e bato a fotografia, tentando controlar minha ansiedade, no momento exato em que ela pousa na entrada, posicionando-se para alimentar os filhotes. 

Mas a  bateria da câmera acabou, e agora, só no ano que vem, pois no dia seguinte, os pássaros-pais e seus bebês já crescidos foram embora...

Ontem; na estrada, vindo de Juiz de Fora para Petrópolis. Uma nuvem escura e bem redonda, esfiapada nas beiradinhas,  no meio de uma mancha azul de céu. Por trás, o sol, emitindo em volta da nuvem raios que parecem profetizar algum acontecimento bíblico. O tipo da foto que, se a gente não conseguir bater em alguns segundos, não conseguirá mais... e é claro, não consigo, pois estamos na autoestrada e não é possível parar ali. 

Na mesma estrada, ontem, um antigo Chevette amarelo bem na frente do nosso carro. De repente, ele chega a um trecho da estrada onde o asfalto, novinho em folha, está totalmente negro, as faixas amarelo-forte recém pintadas bem no meio. À direita, duas placas amarelas, no mesmo tom da faixa e do carro, e à esquerda, uma outra. O céu muito azul e uma montanha em vários tons de verde serviriam de fundo. Estamos logo antes de uma curva. Mas simplesmente fiquei com preguiça de abrir a bolsa e pegar o tablet.

Imagens maravilhosas. Todas elas.




quinta-feira, 14 de novembro de 2013

RETRATO





És tão eloquente nesta imagem,
Agora, que mais nada dizes...
Escuto apenas o que quero,
É sempre o mesmo, o teu sorriso...

O teu olhar, sempre gentil,
Me olha agora o tempo todo,
E seu eu quiser privacidade,
Jogo meu véu sobre o teu rosto.

Ah, e as lembranças que ficaram
São as mais belas e queridas...
Canonizei-te em minha mente,
És o retrato mais perfeito...

Descansa em paz em minha estante,
Solta o fantasma pela casa...
Estás agora mais presente
Do que em vida, jamais foste!






quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Não Sonhar





Já não tenho mais sonhos.
Basta-me a paisagem à janela,
Bastam-me os sinos de vento,
As cores e sons do momento.

Nada mais quero alcançar,
A não ser esse olhar
Que hoje eu tenho sobre as coisas,
O caminhar pelos caminhos que eu abri,
E ver florir aquilo que plantei.

Já não tenho mais sonhos,
Não anseio mais nada,
Tenho as palmas das mãos voltadas para o céu,
Recolho o vento, os raios de sol,
A chuva, as folhas que caem,
E nada mais arde
Nesse meu existir real!

Descansei as ambições,
Coloquei-as para dormir seu sonho eterno,
Eterno...
Entrei, voluntariamente,
Nesse inverno entre verões...

Há memórias o bastante
Que me sustentem pela vida,
Há presentes espalhados no meu espaço,
Que me satisfazem,
Que me aprazem,
Suficientes para o resto
De minha viagem...

Já não tenho mais sonhos,
E mesmo os pesadelos que me afligem
Somem, de manhã,
Na mesma fuligem da qual nasceram!

Ah, é tão bom estar assim,
Tão perto e tão longe de mim,
Sem sonhos, sem ambições,
Sem desejos de vencer, de chegar, de ser, de ver, 
De ir ou de voltar!
Sem nada mais querer provar a ninguém,
Apenas contemplar,
Apenas contemplar!


SUMIDA




Eu sei que eu ando sumida,
Quase uma nuvem de brisa,
Quase um sussurro, um leve gesto
De água escorrida...

Eu sei que meus olhos se perdem
Agora, nas flores da vida...
Os jardins por onde ando
São os de leves margaridas,
Rosas cálidas, sofridas,
Brancas acácias, cheias de vida...

-Me vês? Eu sou a que passa
De leve, em teus pensamentos...
Meus passos não fazem ruídos,
Meus véus eriçam tua pele,
Mas sempre de leve,
Sempre de leve...

Eu sei que eu ando sumida,
(Perdida, ou quem sabe, encantada?...)
Nas sutilezas da vida
Na voz da passarinhada...
Meu cheiro se encontra no mato,
Respire bem fundo - eu te digo,
E encontrarás meu abrigo,

Pois sei que eu ando sumida,
Mas estou sempre contigo!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

TV e Bons Exemplos





Hoje em dia, muito se fala sobre a má qualidade das novelas, reality shows e programas exibidos nos canais de TV. Em algumas casas, assistir TV é proibido, e os pais acham que assim estão protegendo seus filhos. Acontece que, na realidade, aquilo que eles são proibidos de assistir pela TV, eles assistem através de seus iPhones, computadores e tablets, e se eles não os tem, assistirão através dos aparelhos de seus colegas de escola. Com certeza, aquilo sobre o que a criança está curiosa e que os pais se recusam a responder e esclarecê-las, elas aprenderão através de amigos ou de outra forma, nem sempre adequada ou correta.

Portanto, proibir e esconder não é a solução. 

Acredito que a solução seja educar; ao assistir uma novela, por exemplo, dizer à criança: "Você vê a atitude daquele personagem? Você acha que ele está agindo certo?" E explicar que certas atitudes são erradas, pois magoam pessoas ou levam a outras consequências desastrosas. Até mesmo os atos imorais podem servir para construir um bom caráter, desde que haja orientação adequada. Quando os pais escondem dos filhos as coisas ruins da vida, estão simplesmente deixando de explicar aquilo que eles mais precisam entender e combater.

Acredito que simplesmente proibir vídeo games e brinquedos que mostram ou induzem comportamentos violentos também não é o suficiente; é preciso ensinar o motivo pelo qual um comportamento abusivo e violento é reprovável. 

A internet pode ser uma ferramenta de aprendizado e interação saudáveis, desde que as atividades da criança sejam monitoradas, e que ela aprenda a identificar aproximações mal-intencionadas; crianças não são estúpidas, e aprendem rápido! Mas muitas vezes, os pais não querem explicar-lhes o que é um pedófilo, como eles agem, e o porquê de não se fornecer a estranhos dados pessoais como endereços, telefones ou fotografias de família.

Chegamos a um ponto onde é impossível retroceder; aquilo que foi criado não poderá ser destruído. A tecnologia existe, os meios de comunicação existem, as novelas não mudarão seu conteúdo para histórias inocentes onde a maioria dos personagens são bonzinhos e os vilões, sempre punidos. Temos que viver dentro deste contexto, quer gostemos, quer não. Não há como conservar a inocência de uma criança durante muito tempo, e eu acho que tentar fazer isto pode ser mais perigoso ainda!

Mas quem é o responsável por incutir bons valores nas crianças? Certamente, não é a TV, nem a Internet! São os pais, a família! Reclamar do mau conteúdo das novelas de TV, dos vídeo games e da internet, é passar a responsabilidade adiante; são os pais que devem educar seus filhos, mostrando-lhes a diferença entre o certo e o errado, preparando-os para viver da melhor forma possível dentro do mundo atual.





sábado, 9 de novembro de 2013

Abstração





Nunca fez muito sentido
Essa palavra seca
Pendurada em meus ouvidos...
Meio-dita, mal-dita, não dita,
Mas intencionada!

Não quero, de ti,
Mais nada;
Finjamos, então,
Que jamais pretendeste
Dizer o que não disseste,

E que eu
Jamais escutei
Aquilo que insinuaste.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Ainda Procuro...





Ainda procuro por aquela paz quase budista, impossível de ser alterada ou contaminada, não importa o que aconteça; quando penso tê-la alcançado, os acontecimentos vem para provar-me que ainda não...
Procuro por aquela paz que tem raízes profundas dentro de mim mesma, aquela, que se mantém sempre brilhando através de qualquer escuridão que tentem nos impor, e que nos dá uma força e sabedoria tão grandes, que nada do que aconteça do lado de fora possa fazer diferença.





Ainda procuro por aquela paz ricamente construida, aos poucos, e para sempre; será que um dia a encontrarei? Será possível que, apesar de tantas nuvens negras que o vento sopra, serei capaz de um dia ter a certeza dessa paz?




Procuro por aquela paz que falam os livros, as orações, os scraps de Facebook, as religiões. Aquela, que nada altera, nada muda, nada fere. Se ela existir de verdade, um dia chegarei até ela. Porque eu não vou desistir de procurar.

Seguirei em frente, tentando enxergar dentro de mim mesma aonde ela se encontra, e como fazer para apertar o botão de 'liga' e mantê-lo funcionando.



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Crônica de Uma Manhã Chuvosa





Acordo, e após tomar meu banho, chego até a varanda para olhar a chuva. Ela sempre me hipnotiza quando preciso. Olho as casas e suas janelas fechadas. Olho as árvores e os gramados encharcados. A paisagem é linda e desolada. A chuva cai no mesmo ritmo constante, sem pretensões de aumentá-lo ou diminuí-lo. Parece que choverá o resto da vida.

Olho para a casa do vizinho e vejo a imensa piscina azul clara levemente agitada pelas gotas de chuva; identifico uma pequena mancha escura próxima a uma das margens; aperto os olhos para ver melhor: é um rato que está se afogando! As batidas do meu coração aumentam de repente, e enquanto vejo o pobre animalzinho agitar as patinhas tentando chegar à margem, já tão próxima. Às vezes, ele para, tentando ganhar forças. A quanto tempo estará assim, perdido no meio dessa mortal imensidão azul, lutando para salvar-se? Provavelmente, a madrugada inteira!

Olho para ele, e lamento profundamente não poder fazer nada que o resgate; se eu chamasse alguém, às cinco e quarenta da manhã, a fim de socorrer um rato que se afogava na piscina, com certeza eu seria xingada, e o rato, esmagado à golpes de vassoura. Sinto a solidão e o medo que devem fazer parte daquela pequena vida em seus últimos momentos; ele não consegue sair, e de repente, deixa de mover-se. Choro por ele. Infelizmente, algumas vidas são consideradas repugnantes, desnecessárias, inferiores. Que diferença fará para o mundo a morte daquele ratinho? Quem se entristecerá pela morte dele? Elevo meu pensamento, para além daquele corpinho que agora boia inerte no canto da piscina, e deixo-lhe apenas uma breve prece, pois quem sabe, ele tem uma alma...

E se ele tiver, talvez seja esta a melhor ação que já fiz na minha vida inteira: orar por um pobre rato morto.



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

CEPA





Nunca mais eu hei de expor
À cepa, as pontas dos dedos...
Usa-las-hei para a escolha,
Para  as cordas de minhas harpas,
Para escrever meus poemas,
Para apontar as estrelas.

Pintarei meu céu de azul
Com os tons que eu escolher,
Cruzarei as minhas mãos
No silêncio da oração,
Amassarei o meu pão,
E acenarei um adeus
A tudo o que me faz mal.

Para isto servem as mãos.


Imprecisão





Eu miro um horizonte enfermo
Lá, onde jaz o meu desterro
Ermo retrato do porvir.

Ir ou ficar: é só o tempo
Que escreve as linhas desse intento
Céu ou inferno: mesmo caminho?

E a nossa dor de sermos sós
Põe-se ao nascer de um novo sol...
-Mesmo horizonte, o que a acolhe.

Nesse saber que a vida tolhe
Não há retornos no final
Somente as cores do arrebol.



terça-feira, 5 de novembro de 2013

GOTAS DE CHUVA NO VIDRO





Olhos presos à janela
Mas sem enxergar a paisagem
Diante dos olhos dela.

Pinga uma gota no vidro,
E outra, e outra e mais outra...
O tamborilar a desperta
E os olhos chovem com elas...

Gotas de chuva no vidro
De uma vida já distante,
Nada será como antes,
Nada será como antes...

O vento assovia segredos
A ela, ininteligíveis...
Mas fica no peito o sentido
Daquilo que nunca foi dito...

E as gotas de chuva no vidro
Trazem risadas de um tempo
Que Não voltará a ser, 
Não voltará a ser,

Pois o tempo, quando acaba,
Não deixa nada, a não ser
A voz do vento que sopra
E gotas de chuva a chover...

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ECOS



Não estarei aqui
Para escutar o eco - se houver - 
Das minhas palavras,
Mesmo assim, hei de dizê-las.



O eco não raciocina,
Repete, apenas, o que ouviu do vento
Quando há uma voz viva
Que lhe jogue a palavra.






Algumas palavras enterradas
Voltam da Terra dos Mortos
Psicografadas
Pelas almas dos que ainda vivem.

Outras, por mais que gritadas,
Jamais deixam o nível das sepulturas
Onde foram enterradas,
Pois o eco detesta palavras rasas.




Nos jogos de palavras,
Não há perdedores
Mas também não há vencedores,
Pois os ouvidos que ouvem
E as bocas que repetem
Serão todos preenchidos
Pela mesma terra
(talvez haja algum eco).



A Minha Vida

Parada na esquina De pé,  Mas cansada, A bolsa jogada nos ombros Pronta para a viagem Há tempos planejada. And...