sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Poema Seco









Prefiro molhar-me de lágrimas
A viver uma vida seca,
Onde os sonhos se esfarelam
Sob o toque do martelo.

Prefiro essa rua vazia, essa casa,
Prefiro dormir sobre as pedras
E sonhar com as asas
A vertigem do voo que medra,
E perpetra a queda.

Prefiro guardar as palavras,
Usar as palavras, 
Brincar com as palavras,
Prefiro drenar meu rio de mágoas
E achar, lá no fundo, 
A paz procurada.

Prefiro uma alma lavada,
Prefiro a alegria silenciosa
E domesticada...
Não gosto, não quero jamais
A ostentação patética
Daquilo que não sou...

Meu poema é seco,
Mas sei de onde eu vim,
Escolho aonde vou.

Não Duvides!...





Sou capaz - e tu também
De dar a volta ao mundo
De olhos fechados
Sem sair do lugar.

Posso chorar de rir,
Rir de chorar,
Pegar a estrela
E soprá-la
Para que caia brilho
Sobre a Terra.

Sou capaz,
E não duvides,
De desafiar aquilo
No qual acreditas,
De curar tua alma
Com mordidas,
Apagar teu fogo
Com o isqueiro...

Sei que não soa lisonjeiro,
Mas dou-te nova forma
Com a ponta do dedo,
Abro a ferida,
Toco a ferida,
Curo a ferida,

Ah, vida bandida!...

Sou capaz,
(Mas tu também és)
De ser eterna, e desejar
Possuir o Nada,
E ser tudo, tudo,
Que jamais sonhara!

Eu posso criar
Um novo mistério,
Onde o maior refrigério,
Seja a palavra,
Ah,  e o inferno
Seja a palavra!
Eu posso tudo,
Tu podes tudo,
Podemos nada!

Marés





Centenas de barcos,
Milhares,
Estendem as velas
Ao vento...

Navegam bem juntos,
Destinos? - diversos!...
Pretendem chegar
A tempo.

Às vezes, alguém
Mergulha no mar
Com a cara e a coragem,
Estranha viagem!

Marés são volúveis,
Marés movimentam-se
Assentam-se
Revoltam-se...

O barco sozinho
Se perde no mar,
O barco é levado...

E quem mergulhou
Bem sabe que pode
Morrer afogado...


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Cigarras






Na mata próxima
À minha casa,
Todos os dias, 
À mesma hora,
Cantam as cigarras.

É um coral
De ensurdecer!...
Cantam com força
Como se quisessem
Despejar a vida toda
De uma só vez
Sobre o viver!

Cantam com garra
E com urgência...
Mas pouco a pouco
Vão se calando
E o dia, vai
Escurecendo...

(Dizem que cantam
Até morrer...)


*

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sentir




Deixe
Que a vida te toque,
Te construa,
Destrua,
Reconstrua!

Vai ser bom,
E vai doer,
Fazer rir,
Fazer morrer...

Deixe
Que te chegue
A emoção,
Seja qual for,

Sinta
O toque da vida
De prazer
Ou de dor!

Exponha a pele,
Fale do medo,
Viva o amor,
Desmistifique
A vergonha de sentir!

Deixe
Que a vida te toque,
E sinta
O toque da vida,
Ou serás pedra,
E não flor!

*


VERDADE







A verdade pode ser soprada como uma brisa, ou como um vendaval. Pode ser rio ou tormenta, flor ou espinho, aprendizado ou dor. Tudo depende de como a verdade é proferida, da intenção de quem a diz, da matéria do qual é feito o coração de onde ela brota.

A verdade tem hora certa, e é preciso sensibilidade antes de dizê-la, pois o momento errado transforma a verdade em pura maldade.

Há de ser sincero e cuidadoso em suas intenções aquele que a diz! Pois se não for, ela volta à sua fonte em forma de dor e castigo.

Acima de tudo, antes de se dizer a verdade, é preciso saber se ela é, realmente, a verdade.


Meu Lugar



Meu lugar e sempre
Onde eu esteja inteira,
Pode ser em casa,
Debaixo da tua asa,
Pode ser na beira
Da rua.

Depende
De como a alma sente...

Meu lugar será
Entre o sim e o não,
À beira da certeza,
Ou do meu fogão,
Atrás de uma porta,
De frente para o sol,
Assim,

Depende
Do que vai em mim.

Meu lugar é sempre
Entre a cruz e a espada,
O certo, o errado,
O tudo, o nada,
Passo sempre rente,
Ou quem sabe, ao largo...

Depende
Do tamanho do estrago...

Meu lugar é sempre
Onde quero estar...
Sei lá...
Só não fico onde
Você me puser...
Acredite...

Ou depende
De eu querer ficar.




Fotografar o Vento?...



Uma tarde fresca e agradável. De repente, a brisa suave, que foi crescendo em intensidade e transformando-se em vento. Eu já disse que adoro o vento. Ocorreu-me fotografá-lo, não em sua forma destrutiva, mas na sua forma mais bonita, ou seja, passando pelas flores e folhas. Acima, a foto de uma flor onde uma das pétalas foi levemente dobrada quando o vento passou. Demorei para conseguir!



Nesta outra, as asas da borboletinha que pousou na grama estão desfocadas, pois consegui bater a foto no exato momento em que o vento as balançou.

E foi isso...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Se Você Não Muda...





Se você não muda,
Nada muda,
A paisagem à janela,
O sabor das coisas,
As lutas...

O amanhecer será
Sempre o mesmo abrir de olhos,
E o dia será só
Mero suceder de fatos...

Se você não muda,
Não se transforma,
Não aprende,
A dor passará sempre rente,
E tudo será sempre cinza!

Se você não muda,
A palavra 'rotina'
Será o sinônimo
De 'triste sina,'
Ao invés de conter, em si,
A grande beleza da vida...

Se você não muda,
Tudo será sempre o mesmo,
Suas querelas, seus medos,
Limitações e doenças...

Não há segredo,
É tudo sempre tão simples,
Na vida não há disputas
Se você sabe e entende
Que se você não muda,
Nada muda!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Choveu Muito!






Choveu muito, e por muito tempo
Como se o mundo chorasse todas as suas dores!
Enxurradas caudalosas formaram-se,
E correram como rios pelas calçadas,
Formando poças profundas de água (ou de lágrimas?)

Choveu muito, e tão intensamente,
Que as gotas faziam vibrar as vidraças!
E sobre o telhado, um tamborilar fremente,
Na grama encharcada, um pedaço de ninho...

Choveu muito, choveu a vida inteira,
Choveu bem intensa e pesadamente...
A mim, só restou ficar bem abrigada,
E aguardar que a chuva parasse de chorar, 
Pacientemente...

domingo, 25 de novembro de 2012

Se Você se For...






Se você se for,
Leva o meu abraço,
Meu agradecimento,
Minha lembrança eterna.

Foi bom ter você
Em meu caminho,
Ter trocado experiências,
E ter crescido
Junto contigo.

Se você se for,
A vida por aqui
Terá menos cor,
Adormecerá o sentido...

Mas mesmo assim, entendo
Que um dia, todos vamos,
E nada pode ser feito
Para adiar esta hora!

Nem sei se devo lamentar,
Pois da verdade das coisas
Do que houve, do que há,
Eu nada sei, nada entendo...

Se você se for,
Se for este o seu momento,
Só quero que você saiba
Que foi um prazer conhecê-lo,
Que foi honroso poder
Partilhar alguns momentos.

Se você se for,
Não leve nada daqui,
A não ser o nosso amor,
Esqueça-se da nossa dor,
E vá viver em outros planos,
Pois um dia, todos vamos,
E quem sabe, nos vejamos?...




sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Personagens





Minha mãe contava histórias,
Enquanto eu ia engolindo
Sem perceber, colheradas
De arroz e purê de batatas.

Os meus olhos, fascinados,
Brilhavam a cada menção
De reis e rainhas distantes,
Personagens encantados...

Minha mãe apresentou-me
Muita gente da nobreza,
Príncipes, fadas madrinhas,
Duques, magos e princesas!

Ela um dia deu-me a mão
E guiou-me pelas selvas
Onde moram os sacis
E alados cavalinhos
Alimentam-se de relva...

Minha mãe não  deu-me muito,
Mesmo assim, mostrou-me  o mundo
Onde eu hoje vou morar 
Na dor, em silêncio profundo.

Minha mãe, eu agradeço
Por aquelas colheradas
Que fizeram minha vida
Um pouco mais encantada...

E no último momento
Na derradeira viagem
Vou rever aquelas tardes,
Encontrar os personagens...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Erótico ou Caótico?






Há muitos anos, a mulher vem lutando para ter o seu espaço e sair debaixo dos dogmas e convenções onde foi colocada pela igreja, pela sociedade e por ela mesma - já que é ela a principal responsável pela educação das crianças, pois passa mais tempo com elas, e por isso, são as mães que mais contribuem para a formação do caráter de seus filhos. Se existem machistas, não será porque , após o almoço de domingo, as mães dizem às meninas: "Venha ajudar-me na cozinha," e aos meninos: "Vá assistir ao jogo com o papai?"

Bem, de qualquer forma, viver é aprender, e muito caminho já foi percorrido neste processo de libertação da mulher. E eu entendo por libertação, não o feminismo, que é apenas uma masculinização feminina, uma competição onde a mulher entrou para perder, já que ao invés de definir um lugar para si, tenta tomar o lugar dos homens.

Conquistar um lugar ao sol, não significa tomar o lugar de outrem, mas estabelecer fronteiras e pontos de intersecção, onde se possa inter-agir adequadamente, sem subestimações e sem conflitos desnecessários. Hoje, a mulher trabalha, ocupa posições de liderança, diz o que pensa (e deste direito, eu jamais abrirei mão) e não precisa mais temer os homens, nem submeter-se a qualquer tipo de violência 'pelo bem da família.' Acredito que isto foi um grande progresso.

Uma pena que estejamos, aos poucos, retornando ao ponto de partida, através de mulheres-objeto, ou mulheres-bunda, que sentem orgulho em serem chamadas de 'cachorras,' 'periguetes,' 'preparadas,' e outros adjetivos muito mais que pejorativos. E ainda escrevem livros promovendo o sadomasoquismo, ou seja, a total submissão aos caprichos de homens egoístas, cruéis  e pervertidos. E ainda chamam a isto de erotismo... triste mundo em que vivemos!

A banalidade grassa no mundo. De repente, alguma coisa - devido ao capricho com que é tratada pela mídia, pois existe esta facilidade - é tão massivamente divulgada, que torna-se moda. E poucos se preocupam em saber o que aquilo realmente significa... não é um grito de liberdade coletivo, e sim, um grito de independência financeira individual, que favorecerá a apenas uma pessoa.

Existe no mundo de hoje um vazio tão grande, que qualquer um pode tornar-se um guru; basta que, para isto, grite com autoridade e persuasão uma idiotice qualquer, e terá seguidores, defensores, praticantes e divulgadores. Aonde vamos chegar com isto? A total gelificação cerebral! É preciso aprender  a observar, pensar, considerar e concluir, e não apenas seguir a Grande Massa. É preciso que cuidemos das nossas almas com mais carinho e atenção. Não somos bonecas infláveis.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Hoje Não é Segunda feira - ou: 21 de Dezembro Vem Aí!





Bom dia a todos!

A felicidade é uma coisa sempre tão simples... após um feriadão que começou na quinta e terminou ontem, uma certeza nos levanta nesta manhã: hoje não é segunda feira! É quarta! Já estamos no meio da semana, que será curtinha, trazendo logo o nosso tão sonhado sábado.

Mês quase terminando, e lembrando que estamos a exatos trinta dias do final do mundo! 21 de dezembro vem aí. Seria interessante que começássemos uma contagem regressiva, e que tentássemos fazer algumas das coisas que estivemos adiando a vida toda... quem sabe, uma viagem, ou ligar para um velho amigo? Sei lá... todo mundo tem alguma coisa que vem adiando fazer.

E mesmo que o mundo não acabe daqui a um mês, estaremos mais completos se usarmos este prazo para sermos um pouco mais felizes.



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Meu Caso Com o Vento






Tudo começou quando eu nasci. Libra é um signo do ar, e portanto, o vento é meu principal elemento. Minha mãe dizia que eu era uma criança distraída, calma, introspectiva. Passava horas brincando sozinha, criando minhas histórias que mais pareciam-se com as novelas que eu assistia na TV, só que meus personagens eram bonecos de papel que eu mesma desenhava e recortava. 

Às vezes, minha mãe dizia que nem parecia que havia uma criança em casa. Eu também gostava de brincar e interagir com outras crianças, mas o vento sempre me levava de volta à minha escolhida solidão. 

Perto de onde eu morava, a algumas horas de caminhada, fica a represa que abastece quase toda a cidade de Petrópolis. Quando o dia estava quente e bonito, as pessoas iam para lá, a fim de aproveitar os muitos poços e quedas d'água que existiam no local, todos muito limpos naquela época. Hoje, infelizmente, a maioria está cercada por favelas, e poluídos por lixo e dejetos.

Certo dia de domingo, após o almoço, a família toda resolveu dar um passeio por lá. Era inverno, e os poços estavam vazios. Fomos de carro até onde a estrada terminava, e seguimos o resto a pé. Eu, que era uma adolescente tímida, tive uma reação inesperada ao cruzarmos uma colina aberta, onde o vento soprava livremente:

De repente, o zumbido do vento em meus ouvidos fez-me ter a impressão de que estava totalmente sozinha. Eu mal ouvia as vozes das outras pessoas, e num ímpeto de pura liberdade, eu abri os braços e comecei a correr colina abaixo. O vento parecia aprovar a minha loucura, soprando mais forte. Eu parecia vislumbrar faíscas pelo ar, talvez devido à luz do sol que já começava a se por, infiltrando-se por entre os galhos de árvores. Corri até o final da colina, e depois, parei, extasiada, respiração ofegante, sentindo um formigamento pelo corpo todo. Aquilo tudo durou apenas alguns minutos, mas foi como se eu tivesse saído de mim mesma. Foi incrível!

Durante muito tempo, minha mãe comentou o acontecido com outras pessoas, indagando-se "que bicho tinha mordido a Ana naquela colina".
Mas eu sei que foi naquele dia que o Vento e eu nos enamoramos.

Meu Poema






Meu poema me trascende,
E por vezes,
Me surpreende...
Diz o que eu não sabia,
Acordando emoções
No fundo de um eu silente...



Poema bom, é o que vem
Como uma comporta aberta,
E mostra uma alma nua
Inunda outra alma incerta.



A rima vem por acaso...
Pois o poema se escreve
Com tinta de ectoplasma.
E o nascer de um bom poema
Faz sangrar e faz sorrir,
Misturando sentimentos
Profusos, em seu parir.



Nem sempre, será o poema
Bom para quem o lê,
Mas importa que ele seja
A clareza de quem o escreve
Sobre aquilo que nem vê.

Minha Esperança











Minha esperança natimorta
Nasceu por último
E morreu primeiro.

Trancafiei-a numa torre
Bem alta, 
Aonde apenas as águias podem chegar.

Deixarei lá, a minha esperança natimorta,
Em um cantinho esquecido,
atrás da porta...

Quem sabe, um dia,
Minha esperança natimorta
(que já nasceu torta, deformada,
sêca e mal-formada),
Possa acordar?...

IMAGINA!







Imagina!...
Há uma esperança alçando voo,
As estrelas por cima...
Páginas brancas que se cobrem
De poemas que transcendem
A compreensão do poeta
Que os escreve...

Imagina!...
Deixa correr solta e sem destino
A palavra que te nasce
Deste voo, desta cisma...
haja verdade, haja humildade
Para aceitar esses versos
Que nunca foram teus...

Imagina!...
Quem sabe, veio das nuvens,
Ou do coração da vida
A qual tu tanto procuras,
Visando encontrar a paz,
Tentando a felicidade
Da qual nunca te aproximas?...

Imagina!...
Deixa o vento te guiar
E te levar para cima...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Final do Dia






O dia termina. Novamente. As avenidas estão cheias de pessoas e carros. As padarias estão cheias, e as pessoas se juntam nelas para o último cafezinho do dia. Os pais compram o pão. As crianças de uniforme compram os sonhos e pães doces. 

Os ônibus estão cheios, e as lanternas avermelhadas dos carros colorem o crepúsculo. 

Nos bairros, as avós ligam os rádios para ouvir a Ave Maria. Os cães latem nos portões das casas, devido ao movimento de carros e pessoas chegando.Portões se abrem. Pessoas entram. As crianças estão sentadas às mesas das cozinhas e salas de jantar, terminando a lição de casa. As crianças que tem irmãos, brigam. As mães ralham com elas. 

Pelo ar, cheiros de jantares que estão sendo preparados. Fragmentos de conversas. Boas tardes, boas noites. Buzinas amigáveis. Alguém liga a TV. E todos começam a ligaras suas TVs, e as luzes dentro das casas se acendem. Os homens calçam seus chinelos, as mulheres lavam seus cabelos, mandam as crianças tomarem banho, põe as mesas... 

Os casais comentam sobre o dia que terminou. Como foi o trabalho? Conseguiu resolver aquele problema? Lembrou-se de pagar aquela conta? As crianças brigam, e alguém ralha com elas novamente. Quem passa pela rua, vê as casas com suas vidraças iluminadas, gente dentro delas vivendo suas vidas. Cachorrinhos, gatinhos... as cigarras cantam alto na mata. As luzes dos postes já se acenderam. O céu ainda está claro, mas aos poucos, as estrelas começam a se destacar no fundo cada vez mais escuro. Mas ninguém se lembra delas, pois estão dentro das casas, cuidando de suas vidas.

E as pessoas que moram do lado de dentro das vidraças iluminadas, não sabem o quanto são felizes. São tão felizes!... E é uma felicidade de cenas que aconteceram no passado, acontecem hoje e acontecerão no futuro. Uma felicidade tão comum, que como as estrelas no céu, ninguém presta atenção a ela.

Mas um dia, alguém sentirá saudades... um dia, alguém se lembrará daqueles dias simples, por trás das vidraças iluminadas.

Dia de Princesa





Encerrou-se oficialmente hoje, às 14 horas, o Dia de Princesa de minha cadela Latifa de Sá Benjor, que teve início ontem pela manhã (dia anterior ao dia da faxina).

No Dia de Princesa, Latifa tem autorização para circular livremente dentro de casa, dormindo nos tapetes, coçando-se no meu soalho, deitando-se em minha sala de estar e fazendo suas refeições na cozinha. Findo o período que antecede a faxina, a carruagem volta a ser abóbora e ela volta a ser cachorro.

Pobre Latifa...

domingo, 18 de novembro de 2012

COMANDO













Mão no leme,




Cabeça erguida 


Olhos presos 


Ao que vem lá do horizonte... 


Tempestades, ventos, 


calmaria, montes 


de icebergs 


De pontas diminutas 


E corpos imensos... 











É o mar que rema o barco,




É o mar o comandante... 


Jamais a lugar algum 


Se chega depois, ou antes...

Choveu de Madrugada...





Durante a noite, acordei com uma ventania  e o barulho da chuva  sobre o telhado. Gostoso, estar debaixo das cobertas, enquanto chove lá fora! Dá uma sensação de puro aconchego.

Agora de manhã, quando acordei, ainda estava chovendo. Mas agora, parou. Comecei a minha rotina diária, de fazer café e de cuidar de cães e pássaros. Quando fui pendurar as garrafinhas dos beija-flores, de repente, uma forte brisa fresca começou a soprar. Fechei os olhos, e deixei que ela soprasse através de mim. Por um instante, foi como se eu tivesse me tornando transparente.

Abri os olhos, e olhei o céu cinzento e pesado, mas com um ar de mormaço de sol querendo chegar. A chuva presente em todos os lugares: nas poças no quintal, pendurada em gotas nas folhas das árvores e plantas, fazendo brilhar os telhados e folhas. Estávamos precisando muito desta chuva!

Os passarinhos parecem mais tranquilos, pois até que a chuva esteja seca, não haverá mais queimadas, e seus ninhos estarão seguros.

Abençoada chuva!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Perigo!







Existe na vida da gente um momento de grande perigo: e este momento é exatamente aquele em que pensamos ter alcançado a luz.  De repente, achamos alguma doutrina que vai ao encontro de tudo aquilo em que acreditamos, totalmente ou pelo menos, quase totalmente. E nos achamos 'iluminados.' Sabedores da Verdade da Vida. Portadores da luz.

Acho que todo mundo sabe a história de Lúcifer, o anjo mais lindo do céu. Seu nome - Lucem ferre - também significa ,  estrela matutina. Tão lindo, que tornou-se extremamente vaidoso e cheio de si. Tão vaidoso, que pensou ser melhor que o próprio Criador, e revoltou-se contra Ele. Tão lindo, iluminado e vaidoso ele era, que pensou que poderia ser um líder, um guia espiritual.

Foi expulso do paraíso, e hoje, seu nome representa O Mal em si, a queda, o anjo caído. O diabo.

Quem se acha portador da verdade, receptáculo de todas as respostas, está tão cheio de convicções, que nada mais cabe dentro si. Perdeu a humildade, o bom senso, a caridade. Pois até mesmo a caridade que pratica, torna-se um motivo de auto-exaltação, e ele pode até mesmo desprezar os outros que ele pensa não serem 'tão caridosos quanto ele.'

A presunção é o primeiro degrau da escadaria que alguém sobe para cometer o suicídio espiritual. O pretensioso pensa saber de tudo, até mesmo da vida de quem o cerca. Acha que sabe a causa de todos os males, e brada, sem a menor caridade, frases como 'Aqui se faz, aqui se paga," "A cada um conforme suas obras," ou até mesmo, "Teve o que mereceu."  E embora estas frases possam conter alguma verdade, na boca do presunçoso elas tomam a forma da maldade pura. 

Ele acha que todos são cegos - ou seja, todos que não pensam como ele, todos que discordam de suas ideias e dogmas.

Fico aqui, na minha sombrinha, de onde posso vislumbrar, de vez em quando, um pouquinho de luz. Porque até mesmo a luz, quando é demais, causa a cegueira, não apenas naqueles que a cercam, mas principalmente em seu portador.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Espelho do Céu







O ESPELHO DO CÉU



...E o céu tornou-se verde
Pelo musgo do passado,
E mergulharam os anjos
No lago, em busca das nuvens...

E o teu rosto refletia-se
No espelho daquelas águas,
Eu pensei que tu voltavas,
Eu pensei que tu voltavas...

E o lago todo enrugou-se
Com uma pedra atirada
Sobre a sua superfície...
O teu rosto ficou triste...

E os anjos, assustados
Voltaram lá para o céu,
E o teu rosto foi com eles,
Restou-me o amor afogado.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Missão








Percebi
Que o caminho
Por onde eu me pensava
Perdida
Era a estrada
A mim preparada
Pela vida.

Percebi
Que a resposta
Que eu tanto queria,
Era outra pergunta
Descansando
Dentro de outra,
E mais outra,
E que todas, juntas,
Apontavam a resposta
Que eu não via.

Percebi
Que a verdade
E a mentira
Eram apenas
Uma questão
De geografia,
E a mentira era só
O que eu, cega,
Escolhia.

Percebi
Que havia
Outras trilhas
Ao final das chegadas,
E que chegar
Afinal, não era nada...

Pois descobri
Que aquilo que eu buscara
Na ânsia de cada dia
A vida toda,
Na verdade, me seguia...


Brisas e Plumas









Asas de ouro
Pesadas
Não alçam voo...
Levam penas,
Duras penas...

O vento só aceita
Penas e plumas
Rarefeitas,
Que a brisa, em sopro,
Alça às alturas.





segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Tudo Cala!...



Tudo cala,
E fica bem mudo:
A saudade maior,
O amor deixado,
O amor roubado,
A solidão,
A chuva no telhado,
O medo do escuro,
O muro
A separação,
O coração quebrado,

Tudo cala,
E fica calado,
O emprego perdido,
A injúria,
O desejo forte
Não realizado,
O sonho abortado,
A dor de uma perda,
O tapa na cara,

Tudo cala,
A dor do abandono,
O sol escaldante
Que seca as colheitas,
As desfeitas,
O ser desprezado,
O chute na alma,
A doença sem cura,
A usura,

Tudo cala,
E fica bem quieto,
Até mesmo a morte
Diante da sorte
Daquele que chora
Por saber-se
Condenado,
Sem sol no horizonte,
Ou água na fonte,
Uma dor sem nome...

Tudo cala,
E fica calado
Diante da dor
 De quem sente  fome!

*

A fome do corpo é maior que a fome da alma. É uma dor sem consolo, e quando sem esperanças, é ainda mais terrível, pois quem morre, vê-se morrer por algo tão básico, comum, tão cliché... um prato de comida, apenas um prato de comida.

domingo, 11 de novembro de 2012

Conclusão





Talvez um dia
Concluas
Que aquelas luas
Que vias
Andando à toa, nas ruas,
Eram só uma.

Tua vista
Dividida, distorcida,
Partia a lua,
Partia a vida,
Partias,
Ausências doídas...

Talvez um dia
Me olhes
E vejas
Que afinal, sou bem menos
Pesada, em tua peleja,
Bem mais amável
Do que desejas...

Talvez um dia, o monstro
Que tu criaste,
Te olhe , enfim,
E as pupilas
Sejam bem claras,
Não ferinas...

Talvez um dia, tu cheires
A flor temida
Da vida
E descubras
Que o perfume
Era doce
O tempo todo,
Embora os pés
Pisem o lodo.

Talvez um dia 
Percebas
Que afinal, sou apenas
Uma alma
Como tantas
Que guarda em si a criança
Adormecida
Com a qual lutas.

Talvez um dia concluas
(Quando eu não mais estiver)
Que eu era doce,
Que me amavas,
Talvez tu sintas
A minha falta
No do coração
Que hoje te falta.


*
 

A Minha Vida

Parada na esquina De pé,  Mas cansada, A bolsa jogada nos ombros Pronta para a viagem Há tempos planejada. And...